Asas, grappa e neurônios fumegantes

Todos os dias, entre sete e oito horas da manhã, uma abelha adentra a cozinha da minha casa. Já a vi durante toda a semana em seu vôo silencioso e rudimentar. O trajeto é sem saliências, de fora para dentro, direto à fonte. A pequena pousa na torneira da pia e bebe água. Longos goles, parece que está de ressaca. Talvez esteja, afinal, não existem flores que fermentam e produzem um néctar inebriante aos animais? Vai saber.

De tanto trombarmos, hoje dei bom dia.

Graças ao esforço individual de carregar as águas que a comunidade precisa para manter o funcionamento saudável, a colméia prospera. Dada a bravura em socializar a minha torneira, inspirei-me em tocar música para a Matilde. Ah, sim, quase me esqueço de mencionar que também a batizei. Do alemão maht, que significa “força”, e hild que quer dizer “batalha”, um nome como “guerreira forte” vem bem a calhar. Lecuona Cuban Boys, o grupo a romper o plácido silêncio e prestar as boas vindas à ilustre visitante, executando seu Mambo de Jaruco com alegria. Pisei para trás com um pé, depois o outro, balançando os ombros, passos agora para cá e para lá, sempre iniciados com o pé esquerdo e para o lado esquerdo. Ora, convenhamos, a música é cubana e a minha água foi tornada pública, eu queria me manter coerente e não atrair mau agouro. Vai saber.

Primeiro o fascínio, depois a vontade de agradar.

Procurei o saco de açúcar para preparar, com água, uma mistura docinha que a fizesse ficar. Típico pensamento de um completo pamonha. Abelha não é beija-flor e restaurante que serve farofa não tem ventilador, já dizia o sr. Domingos. Percebi a tamanha sandice e desisti da pamonhice. Imagine só se a abelhinha pudesse falar e se desse a, em tom jocoso e impiedoso, comparar as propriedades organolépticas do açúcar frente ao mel viscoso que escorre de seus favos. “Você sabia que, de moeda de troca a agente viciante da indústria moderna, o açúcar dominou o mundo e não exclusivamente de uma maneira virtuosa, meu senhor?”. Simulei a situação e, dada a vergonha telepática, pedi desculpas em voz alta.  Antevi o sermão ilustrado por uma entonação indignada. Vai saber.

Matilde partiu e eu me sentei. Que onda, voar para beber água!

Completamente destoante da parábola, abri meu cantil e tomei um saboroso gole de grappa. Há poucas coisas que uma boa grappa não cura. Tuberculose, por exemplo. Antigamente, ia-se para as montanhas a fim de respirar ar puro. Ali o sujeito ficava até que melhorasse, ou não. Hoje, há antibióticos. Mas grappa não serve, uma pena. Para devaneios da alma e elucubrações desvairadas, aí sim, a aguardente feita a partir do bagaço da uva é um santo remédio, não por abrandar os pulsos lancinantes que tomam a mente de assalto, mas por incendiá-los. O pensamento, quando atiçado por fome técnica e respeitosa aos padrões normativos de tudo o que e é cativo e cheio de pesadume, é de um tédio embaraçosamente constrangedor ao passo que, por outro lado, quando inflamado por poesia e contemplação vertiginosa do abismo, produz conteúdo que tão somente outro espírito livre pode, ao ler, reconhecê-lo. Logo, eu, poeta que me pretendo, prefiro grappa a Azitromicina. Vai saber.

Gotas de álcool no sangue, aroma de gengibre frito no ar. Eis a fórmula do livre pensar.

Da manhã apiária para o meio dia foi um pulo. O almoço borbulha e eu me alimento, por ora, de um grande ressentimento junto a Deus. Ainda que eu possa, com muita vontade, argumentar sobre como o Todo-Poderoso é mesquinho em não conceder asas aos seres humanos, não é a incapacidade de voar o que causa a insatisfação. Agora, verdade seja dita, poderíamos negociar uma habilidade qualquer por longas asas cobertas por penas. Talvez os polegares opositores, ou então um terço da habilidade sapiens. Vai saber.

Deus pede aos seus seguidores que façam mais do que apenas seguir. Devem pregar, devem semear, devem agir com a prudência e pautados pela providência, a divina, é claro. Ecce exiit qui seminat, seminare, diz Cristo, que “saiu o pregador evangélico a semear”. Muito bem, assim seja feita Sua vontade. Acontece que, quando sai, sai mesmo. Sai e deixa o lugar vazio. Acorda, levanta e se vai de casa a semear deixando todos com saudade. O mérito da questão não é o religioso, uma vez que, por certo, sua casa já há de estar muito bem semeada e estabelecida sobre os alicerces firmes do Redentor. O xis da questão é o sair e não mais estar lá. Não sei vou ou se fico, não sei se fico ou se vou. Se vou eu sei que não fico, se fico sei que não vou, e lá vamos nós, cultura popular adentro. Ainda criança fui confrontado com a necessidade de escolha: “você quer morar com seu pai ou com sua mãe?”. Eu queria morar com os dois e, é bom que se diga, morar sozinho também! Mas não, o mundo tem que ser binário na sua materialidade física e eu, condenado a esta carne, a aceitar tal patranha de ter sido feito à imagem e semelhança Dele mas, sabe-se lá por qual motivo, não gozar de alguns benefícios. Vai saber.

Onipresença, por mil demônios! Vivi demais, visitei lugares e reconheci amigos em demasiado para aceitar que só me compete uma experiência singular de existência. Nem membros alados, nem cognição crítico-reflexiva, o que queria era ser múltiplo. Continuar a estar e a não me despedir. Não verter mais lágrimas de saudade. Mas Ele, na sua arte, preferiu que não. Vai saber.Tudo bem, eu aceito as coisas como são, no fim das contas. Saímos todos a semear, cada um com seu cada qual, a depositar suas pequenas contribuições pelo globo. A Matilde com toda aquela galhardia de produzir o alimento que abunda na terra prometida, eu com a minha letra rebelde e os pregadores com a mensagem do Criador. Acostumemo-nos com essa onda incessante de adeuses ou, por outro lado, finquemos os pés aqui de uma vez por todas. Uma coisa é certa: Nec revertebantur, cum ambularent: “Uma vez que iam, não tornavam”. – pois não eram mais os mesmos.

3 comentários em “Asas, grappa e neurônios fumegantes

  1. Delícia de leitura! Eu viajo inteiramente nos seus textos, crio cenários, sensações e sons!!! Instigam minha imaginação e prendem verdadeiramente minha atenção! Não sei de um que até então não tenha sido assim! Obrigada, meu bem! Sou sua admiradora e assídua leitora! =)

  2. Estou em dúvida se meu comentário foi enviado… vou reenviá-lo por aqui:

    Delícia de leitura! Eu viajo inteiramente nos seus textos, crio cenários, sensações e sons!!! Instigam minha imaginação e prendem verdadeiramente minha atenção! Não sei de um que até então não tenha sido assim! Obrigada, meu bem! Sou sua admiradora e assídua leitora! =)

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    ________________________________
    De: Ordenha Cósmica
    Enviado: Saturday, January 23, 2021 1:52:23 PM
    Para: patriciaa_albuquerque@hotmail.com
    Assunto: [New post] Asas, grappa e neurônios fumegantes

    Aquiles Rapassi posted: ” Todos os dias, entre sete e oito horas da manhã, uma abelha adentra a cozinha da minha casa. Já a vi durante toda a semana em seu vôo silencioso e rudimentar. O trajeto é sem saliências, de fora para dentro, direto à fonte. A pequena pousa na torneir”

  3. “Será este um escritor de muita ou pouca fé?” – perguntei-me no fluir da leitura. Seria alguém que sabe de todas respostas, ou alguém que tem todas as perguntas a fazer? Seria ele alguém que atravessou gerações e vidas, acumulando vontades e ânsia de viver, ou será que o tal desejo pela multiplicidade, pela potência cresceram nele rápido demais ainda nesta mesma vida. Talvez os seus anseios sejam nascidos das circunstâncias encadeadas em uma sequência orquestrada no seu próprio crescer. Vai saber…

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