Lá vem

Cerveja atrás de cerveja
Garrafas que empilho não se movem sozinhas
Bebo porque é líquido e trago porque não sei quem vem
Sou das tardezinhas e dos lamentos
Da simpatia com quem se apresenta
Dos versos cada vez mais soltos
Porque no céu o que há é mato
E os coelhos estão todos aqui a fornicar
Eu vos digo que querer o desejado
É desejar o querer
E os quereres estão obsoletos
Porque se assim não fosse Araçatuba seria a nova Paris
E as guerras seriam coisa pra depois
Só que isso diz quem é bebum, niilista ou depravado
E eu sou logo os três
E mordo e assopro e cuspo
E se deixarem eu assovio
Pra dizer que três é demais
Dois é veneno
E um
Só um
Um só
Um filho da puta é o que basta pra coisa desandar.

Polegadas

Maria foi uma boa esposa durante uma das quatro estações do ano. Casou-se com Alfredo apesar do nome em desuso. Ela imaginava como foi a adolescência de um garoto chamado Alfredo e ele elucubrava como teria sido a infância dela sem pai. Cada um nos seus pensamentos particulares, porque eram ofensivos demais para servir à mesa. Maria não andava bem e esquecia a tampa do vaso levantada. Maria dormia com a boca aberta e roncava, mas Alfredo achava aquilo fofo. Fofo, mas insuportável, por isso ele a cutucava com o cotovelo. Casaram-se no outono, quando as folhas caíam. O caminho era poético, na antessala do renascer florido. No inverno, Maria não aguentava. Suspeitava do marido e roía as unhas que já eram curtas. Feria as cutículas e então tomava vinho. Alfredo a encontrava bêbada, desacordada, reclamando do vizinho. Ela sequer conhecia o vizinho. Moravam distante da família e não havia corrida para colo nenhum que resolvesse. Eram os dois, um para o outro, não importa o que acontecesse. Alfredo a amava e o amor é aquilo que o aquecedor faz nas noites mais frias, mesmo que o motor, toda a engenhoca que faz a coisa ficar quente, permaneça no lado de fora da casa sob um rigoroso frio. Maria era doce, uma menina, tinha os pezinhos tortos e os dedos compridos. Nasceu para ser menino, mas Deus quis diferente. Ainda bem, porque Maria era linda com cabelos que pareciam fios de linho. Alfredo se sentia completo, mesmo com as neuroses de Maria. Neuroses são essenciais ao negócio humano, dizem os psicanalistas. Opiniões, como cachos de banana, crescendo a torto e a direito como se o mundo fosse adubado por inteiro. Maria passou a suspeitar que Alfredo estava tendo um caso com alguém do escritório. Ele era funcionário público, batedor de carimbo, um daqueles de futuro, mas com todo o tédio do mundo. Saía cedo e levava a comidinha que seu amor preparava, mas então, com o diabo a lhe sussurrar diabruras, Maria parou. Simplesmente parou e escolheu a TV. O marido notou e reclamou, mas Maria alegou tontura. Disse que o alho queimava as mãos, que não suportava mais o cheiro de fritura. Alfredo, resignado, saía de mãos vazias. Trabalhava feito um condenado para que o dinheiro rendesse uma casa própria. Maria assistia ao televisor com a mente suspensa. A televisão não exige pré-requisitos, não exige sequer inteligência, a televisão só necessita ser ligada e Maria sabia bem apertar o botão vermelho. Maria poderia trabalhar em uma usina nuclear para deflagrar o alarme de desastre. Oh, Maria. Em uma manhã, ela acordou e se sentou em frente ao aparelho. Desligado, era como um negro espelho. Assistia a uma programação idiota, típica de geração vazia. Assustou-se com o estampido de uma música trágica que comunicava o impossível. “Interrompemos a programação para um anúncio especial” disse o âncora. “Devido a forte nevasca, os bombeiros têm dificuldade em acessar o prédio central da administração pública onde um incêndio sem precedentes derrete as colunas seculares”. O mundo de Maria naufragava, mas havia um âncora. Ela levantou e, nervosa, só pensava em fogo, no Alfredo, nos cigarros que ela tanto gostava. Maria subiu as escadas e bateu na porta do quarto onde o marido dormia. Ele caíra doente e dormia em um quarto separado para poupar a esposa da tosse renitente. Bateu com o polegar, como se surrasse um pandeiro. Maria não batia bem. Não houve resposta. Desceu as escadas e grudou no telefone. Ligava insistentemente para o escritório onde o marido trabalhava. Ninguém atendia, deviam estar todos mortos com a fumaça, ou pior, queimados. Maria enfiava os dedos nos cabelos e não sabia o que fazer. Conferiu a garagem e se espantou, pois o carro dele continuava lá. Tornou a subir as escadas, a bater com o polegar direito na porta branca e a chamar por Alfredo, Alfredo. Oh, a constatação! Se Alfredo não estava ali nem no serviço, só poderia estar com a amante. Nem a

neve poderia esfriar sua espinha mais que aquele pensamento. Maria entreteve a ideia e não viu saída. Fugiu de casa, usando o carro do marido. Maria aprendera a dirigir recentemente, mas a ira a guiava. Foi a um bar e pediu bebida. Serviram. Bufava e tremia. Não demorou até que um sujeito se aproximasse e procurasse ouvi-la. Existem mais homens bondosos, nessas horas, do que há certezas nesta vida. Maria vomitava o carrossel de mágoas e o cara, com a cabeça, assentia. Maria não parava, falava mais do que devia. Aos poucos, mesmo o sujeito da malícia, o garçom e os outros homens que ali bebiam se afastaram. Mas era um bar velho, sujo, daqueles que têm buracos na parede. E em um desses buracos tinha quem a ouvia. Uma barata e um rato, imóveis como se paralisados pela estricnina. Maria notou e não se intimidou, discursou para a baixa prole dos seus desejos de patifaria. Bebeu e praguejou e se levantou bastante zonza. Ninguém ajudou, eles queriam que ela se fosse. Maria entrou no carro e deu a partida, mas não conseguia ver. Havia neve sobre o pára-brisa e ela então ativou o limpador. Aguardou que a brancura se dissipasse e julgou, a inocente, que via plenamente com capacidade de uma águia careca. O carro patinou no gelo liso mas Maria, embriagada, julgou que tudo ocorria bem, da mesma forma que saiu de casa. O automóvel replicava as pernas da esposa desastrada. Na casa, enquanto isso, Alfredo destrancou a porta e pisou na sala. Não havia barulho, não havia nada. Apenas a TV ligada e um noticiário mudo. Ele mirou o quintal branco e a beleza da invernada. Torceu para ver uma raposa, um veado, um feixe de Sol naquela manhã castigada. Fez café e deu falta de Maria, mas pensou que a amada estivesse no quarto lendo ou coisa que o valha. Alfredo, segurando uma caneca azul, sentou-se no sofá e aumentou o volume do televisor que mostrava imagens de um fogo imenso, mas que não conseguia distinguir onde se passava. Foi interrompido por um anúncio urgente dentro da programação urgente que retratava uma outra emergência. “Interrompemos a programação especial para outro anúncio especial”. Alfredo recostou-se para acompanhar. “Uma caminhonete, placa RDC-8240, chocou-se contra o prédio em chamas da administração pública. Os bombeiros informam que não há sobreviventes, embora não tenham certeza de quantas pessoas estavam no automóvel”. O prédio era onde ele trabalhava. A placa era a do carro dele. Aflito, Alfredo levantou-se num salto e derramou café quente. Ele pensava sobre aquilo e não sabia o que fazer. Ele queria saber se alguém estava no carro com Maria. Alfredo estremeceu. Polegadas de neve impediam a saída e ele arrefeceu. Aquele era um sábado, ele não entendia como o incêndio começou, por que tudo acabou em fogo e por que ela o trairia.

Bula

Ao homem nascente, em meu nome, que lhe seja recomendado

Antes de tudo que a vida trama
Mas que não há o certo, tampouco o errado.

A família, a tenha por princípio
e a escola para o aprendizado
porém aos amores cuidado, são um perigo!
Haverá quem o ame por seus adjetivos
e quem o faça somente pelos seus predicados.
Que valorize, em tempo, os dias santos entre os de trabalho pois graças a igreja gozará
o seu descanso sempre aos feriados.
Mas se lhe falte a família
ou a escola não o deixe encantado
e se as mulheres não o quiserem por marido
ou para Deus você não reserve o sábado
não esqueça do começo
pois tentarão provar o contrário
e será sua meta ante o destino
provar que não reina a escuridão, tampouco tudo é claro.

Haverá só você, no fim de tudo

tão tranqüilo, mas desesperado.

Convicto que viveu certo, na dúvida se fez errado.

A paz, o pacto, o ato ineficaz

Não fui o primeiro a ousar o acordo e o mundo
Esse mundo doente do homem que mente
Ainda há de gerar muito tormento
Para que outro iníquo assobie o trítono
E da matéria incendiada a fumaça dê a forma
O cheiro e a desesperança
Da estrela príncipe da manhã.

Poder, êxito e dominância
Oh, serpente, eu invoco a tua presença
De valores invertidos
E virtudes controversas
Com a voz da minha ganância.

O diabo apareceu
Porque o diabo é diferente do irmão
Que tudo ouve e nada diz.
Não é vermelho e dos olhos não salta facho
Não veste capa nem coisa alguma
Caminha de couro despido
E não nos dá as costas.
Anhanguera oferta ouro mas também esconde o rabo.
Satanás é exibido e entre as pernas mostra o sexo
Posto que sem nexo e muito rígido
Aponta para baixo.
Não exala enxofre como se quis
E embora nu, o cão veste sapatos
Pois tem pés imaculados.

Mamãe me disse que quando em face de um dilema
Eu me furtasse a frieza e fosse só humano
Demasiado humano.
Que não me ardesse em indiferença.
Ora, essa é a fantasia do tinhoso, que sejamos mais crus e
Que andemos, como ele, todos nus!

Em troca de favores ofereci a alma
Mas esqueci de maldita saliência que define o coisa ruim
            Não se atém à boa vontade
            E ama o enfado das escrituras
            Que condena homens em verdade
            Às clausuras eternas
            De temas do pecado.

No semblante daquele bicho um prazer desgraçado emanava dissabores
Tão claros como discretos e simples e complexos sobre o rosto enrugado.
Sorri e fica sério
Diz que sim mas não convence
Faz mistério. Faz assim.
É a sombra do adultério.
É o vício que sempre vence e a inconsequência que o antecede.
É o querer e o desamor e a delinquência e a harmonia.
É a nota aguda.
É sob as roupas o calor.
É a fantasia. É a recusa de ajuda.
É a autofagia.
É ele, somos nós, quem sois vós?
Antropofagia! Ator do ato trágico. Da carne à carne
Um mágico! Um profeta! Um renegado!

Diferente dEle, o mofento é sarcasmo e ironia. Afina o bigode e aperta o laço.
Cruza as pernas e aumenta a aposta.
Mais sem ter menos, o tal venha a nós mas sem o vosso reino.

Pé de cabra, sete peles, teu número é engraçado!

Vi arcos se contorcerem e a luz se alterar e a terra chacoalhar
E das ventas saltar vapor
Quando acusei no maledetto a própria semelhança
Das mudanças de humor.

O vidro polido se rompeu
E percebi em pedro-botelho
O mais assustador e incensurável.
A lembrança de tudo o que aprendi, de tudo o que se leu.
No espelho reconheci o fardo incomensurável
De que aquele sujeito era eu.

Flagelo

É por não poderes que me queres?
Menina, toma fiel pela mão
A indecência que te fere
Com um pobre amor temporão.
 
E quando envelheceres então
Navega imprevisível ao vento
Que te guia com paixão
Ao meu couro sedento
 
E nesta busca incrível
Para que sejas minha
Para que seja teu
 
Estaremos juntos, para nunca mais
Atrelados a um derradeiro cais
 
Em epígrafe:
Um homem, uma mulher – aqui jaz.

Asas, grappa e neurônios fumegantes

Todos os dias, entre sete e oito horas da manhã, uma abelha adentra a cozinha da minha casa. Já a vi durante toda a semana em seu vôo silencioso e rudimentar. O trajeto é sem saliências, de fora para dentro, direto à fonte. A pequena pousa na torneira da pia e bebe água. Longos goles, parece que está de ressaca. Talvez esteja, afinal, não existem flores que fermentam e produzem um néctar inebriante aos animais? Vai saber.

De tanto trombarmos, hoje dei bom dia.

Graças ao esforço individual de carregar as águas que a comunidade precisa para manter o funcionamento saudável, a colméia prospera. Dada a bravura em socializar a minha torneira, inspirei-me em tocar música para a Matilde. Ah, sim, quase me esqueço de mencionar que também a batizei. Do alemão maht, que significa “força”, e hild que quer dizer “batalha”, um nome como “guerreira forte” vem bem a calhar. Lecuona Cuban Boys, o grupo a romper o plácido silêncio e prestar as boas vindas à ilustre visitante, executando seu Mambo de Jaruco com alegria. Pisei para trás com um pé, depois o outro, balançando os ombros, passos agora para cá e para lá, sempre iniciados com o pé esquerdo e para o lado esquerdo. Ora, convenhamos, a música é cubana e a minha água foi tornada pública, eu queria me manter coerente e não atrair mau agouro. Vai saber.

Primeiro o fascínio, depois a vontade de agradar.

Procurei o saco de açúcar para preparar, com água, uma mistura docinha que a fizesse ficar. Típico pensamento de um completo pamonha. Abelha não é beija-flor e restaurante que serve farofa não tem ventilador, já dizia o sr. Domingos. Percebi a tamanha sandice e desisti da pamonhice. Imagine só se a abelhinha pudesse falar e se desse a, em tom jocoso e impiedoso, comparar as propriedades organolépticas do açúcar frente ao mel viscoso que escorre de seus favos. “Você sabia que, de moeda de troca a agente viciante da indústria moderna, o açúcar dominou o mundo e não exclusivamente de uma maneira virtuosa, meu senhor?”. Simulei a situação e, dada a vergonha telepática, pedi desculpas em voz alta.  Antevi o sermão ilustrado por uma entonação indignada. Vai saber.

Matilde partiu e eu me sentei. Que onda, voar para beber água!

Completamente destoante da parábola, abri meu cantil e tomei um saboroso gole de grappa. Há poucas coisas que uma boa grappa não cura. Tuberculose, por exemplo. Antigamente, ia-se para as montanhas a fim de respirar ar puro. Ali o sujeito ficava até que melhorasse, ou não. Hoje, há antibióticos. Mas grappa não serve, uma pena. Para devaneios da alma e elucubrações desvairadas, aí sim, a aguardente feita a partir do bagaço da uva é um santo remédio, não por abrandar os pulsos lancinantes que tomam a mente de assalto, mas por incendiá-los. O pensamento, quando atiçado por fome técnica e respeitosa aos padrões normativos de tudo o que e é cativo e cheio de pesadume, é de um tédio embaraçosamente constrangedor ao passo que, por outro lado, quando inflamado por poesia e contemplação vertiginosa do abismo, produz conteúdo que tão somente outro espírito livre pode, ao ler, reconhecê-lo. Logo, eu, poeta que me pretendo, prefiro grappa a Azitromicina. Vai saber.

Gotas de álcool no sangue, aroma de gengibre frito no ar. Eis a fórmula do livre pensar.

Da manhã apiária para o meio dia foi um pulo. O almoço borbulha e eu me alimento, por ora, de um grande ressentimento junto a Deus. Ainda que eu possa, com muita vontade, argumentar sobre como o Todo-Poderoso é mesquinho em não conceder asas aos seres humanos, não é a incapacidade de voar o que causa a insatisfação. Agora, verdade seja dita, poderíamos negociar uma habilidade qualquer por longas asas cobertas por penas. Talvez os polegares opositores, ou então um terço da habilidade sapiens. Vai saber.

Deus pede aos seus seguidores que façam mais do que apenas seguir. Devem pregar, devem semear, devem agir com a prudência e pautados pela providência, a divina, é claro. Ecce exiit qui seminat, seminare, diz Cristo, que “saiu o pregador evangélico a semear”. Muito bem, assim seja feita Sua vontade. Acontece que, quando sai, sai mesmo. Sai e deixa o lugar vazio. Acorda, levanta e se vai de casa a semear deixando todos com saudade. O mérito da questão não é o religioso, uma vez que, por certo, sua casa já há de estar muito bem semeada e estabelecida sobre os alicerces firmes do Redentor. O xis da questão é o sair e não mais estar lá. Não sei vou ou se fico, não sei se fico ou se vou. Se vou eu sei que não fico, se fico sei que não vou, e lá vamos nós, cultura popular adentro. Ainda criança fui confrontado com a necessidade de escolha: “você quer morar com seu pai ou com sua mãe?”. Eu queria morar com os dois e, é bom que se diga, morar sozinho também! Mas não, o mundo tem que ser binário na sua materialidade física e eu, condenado a esta carne, a aceitar tal patranha de ter sido feito à imagem e semelhança Dele mas, sabe-se lá por qual motivo, não gozar de alguns benefícios. Vai saber.

Onipresença, por mil demônios! Vivi demais, visitei lugares e reconheci amigos em demasiado para aceitar que só me compete uma experiência singular de existência. Nem membros alados, nem cognição crítico-reflexiva, o que queria era ser múltiplo. Continuar a estar e a não me despedir. Não verter mais lágrimas de saudade. Mas Ele, na sua arte, preferiu que não. Vai saber.Tudo bem, eu aceito as coisas como são, no fim das contas. Saímos todos a semear, cada um com seu cada qual, a depositar suas pequenas contribuições pelo globo. A Matilde com toda aquela galhardia de produzir o alimento que abunda na terra prometida, eu com a minha letra rebelde e os pregadores com a mensagem do Criador. Acostumemo-nos com essa onda incessante de adeuses ou, por outro lado, finquemos os pés aqui de uma vez por todas. Uma coisa é certa: Nec revertebantur, cum ambularent: “Uma vez que iam, não tornavam”. – pois não eram mais os mesmos.