Crônica irreversível do dia em que pedi a mão dela em casamento

A minha cabeça se afastava da conversa e eu mantinha os olhos fixos nela, nos movimentos rítmicos dos lábios que se afastavam em sons agudos e se atraíam para emitir os graves. Gesticulava, socava a língua entre os dentes para produzir os sons de “th” como deve ser. A língua inglesa, tão objetiva. Seus pés se encontravam aos meus, sob a mesa. Meu raciocínio se embaralhava e eu percebia um lapso de vinte segundos da narrativa que voava da boca dela. As palavras trotavam como uma égua puro sangue e as frases terminavam com a gargalhada de tom feminino. As chamas lhe pareciam incendiar as ideias e, ao contrário do que preconizam as leis físicas, corriam corpo abaixo tomando o colo branco e incendiando o ventre liso até aterrar em seus delicados e pequeninos dedos espremidos em um sapato de salto. Eu me sentia aterrorizado por um constante dejavu, antecedendo coisas cujas consequências eu já poderia imaginar. Um filme cujo roteiro é escrito por mim, dirigido por minha pessoa e protagonizado pelo meu eu lírico, eis a vida.

As luzes da casa tremeram e à distância rugiu o trovão. Corremos para o chuveiro. No cubículo úmido por vapores valsamos sem música e evitamos o sabão que poderia limpar-nos a indecência que brotava dos poros. Imundos de tudo o que é pecaminoso aos olhos do mundo, deixamos que escorresse as lascívias justificadas. Pela janela os olhos avistavam galhos rompidos que despencavam das alturas. O vento sacudia as folhas verdejantes como assim o fazíamos com nossas ancas. As luzes tornaram a piscar, mas o aquecimento é movido a gás, e nosso gás parecia infinito. Os sopros intensificados passaram a arremessar tudo pelos ares. Algo grande se pronunciava na natureza enquanto eu ouvia uma orquestra de câmara a excitar-me.

Os ouvidos. Os olvidos. Lembro-me de muito pouco do antes de ontem. Sei que existe uma mulher à minha frente e outra dentro de mim. Fêmeas que se cheiram. Às vezes não se bicam. Eu vou ao quintal e grito por ela. Uma chuva fina cai e tropeça em mim. A minha dama vem porque eu gritei por ela e também bati à janela. Eu digo que há algo de errado com o chão. Ela pergunta o que é. Eu digo que é o meu joelho. Como assim? Eu me ajoelho, devoto, saco do bolso a pequena caixa da esperança. Pergunto o que preciso saber. Ela diz sim. Mãos à boca e corpo curvado. Levanto e a beijo. Vamos para um restaurante. Peço drinks e ela pede que eu fale. Tudo tão rápido como nossa fábula de paixão e necessidade. O copo dela contém sal de lava negra vulcânica. No meu, aperitivo. Rimos e percebemos que os coquetéis não conseguem se manter bons até o fim, assim como a maioria dos casamentos. O desafio é arredondar núpcias e batidinhas que conservem o frescor antes de se tornarem aguadas.

Outro bar, agora com o triplo de pessoas do local anterior. Chamam-me pelo nome e notam a aliança no dedo dela. As luzes e as bênçãos e as energias derramam-se por ela. Pedimos as gotas mágicas. TCHAC TCHAC! A bartender agita as coqueteleiras com o vigor do Atlântico Norte. TCHAC TCHAC! Há cachaça no dela, há rabo de galo no meu. TCHAC TCHAC! Que os céus sejam moderados com os rabos de saia, porque eu só quero os de galo, os de galo! TCHAC TCHAC! Violentos agitos dos tubos prateados com gelo e álcool e especiarias. TCHAC TCHAC! Ela esparrama a bebida da minha noiva em uma taça circular com a borda cravejada por açúcar. No meu copo há uma bola de gelo do tamanho das de sinuca. Brindamos em nome de nós, cegos. Estamos apaixonados e não podemos ver nada como é. Há um creme brulée e agora os beijos estão ainda mais doces. Seria um desperdício não petiscar tanto quanto o apetite pede. Arriscamos viver em cativeiro um dia, alguém consegue se lembrar?

Agora há uma mesa entre nós e o garçom tem cabelos longos e loiros, cacheados e serpenteantes. Ele faz gracinhas que nos deixa à vontade. Sinto vontade de ficar de cuecas e abraçar a ele e ao chef, que manda pernas de rã fritas e ostras frescas no gelo. Bebo uma dose de não sei o quê. Serviram algo de envolvente, acho que foi camaradagem. Há brilho nos olhos dela, há um espelho d’água nos olhos meus. Acho que ela fez o impossível, não, não acho não.

Tudo continua como o planejado, eu sei. A história é minha, eu regulei a luz, ajustei o foco, gritei ação. Nada é encenado no palco da gente. Vou ao banheiro ansioso por voltar à mesa, onde em mim ela me tem. Na minha ausência, o garçom diz que ela é uma mulher de sorte. O dono do estabelecimento tem cabelos brancos e bigode branco. As curvas de seu bigode lhe conferem um título automático de lorde. Ele acena com a cabeça, elegante.

Eu retorno e a tomo pela mão. Voltamos para casa e a eletricidade continua ausente. As janelas agora estão abertas. Estendo o meu coração em uma delas, para quem quiser ver. Sou homem feito da carne humana, vim do pó e hei de voltar, amo porque a mim compete, do espírito me saltam verdades.

Há a escuridão e nossos troncos. Enterramo-nos. Um órgão que pulsa e um órgão que emite notas. No breu uma luz repentina. No céu, no peito, cá dentro. Adormeci nas costas dela e acordei nos céus suspenso.

Choo Choo

O corpo oscilava. Quando o metrô parava, ela inclinava à direita e tirava um pezinho do chão para se equilibrar. As portas se abriam, uns tantos entravam e outros saíam na promiscuidade dos viajantes urbanos que cavalgam trilhos e mantêm o silêncio. Vagões cheios que se esvaziam e vagões vazios que dão medo. Na fricção das ferrovias emulam o clímax ao chegar lá, ou aqui, sempre em um constante diverso de onde embarcaram. Empresários, iniciantes, putas, mendigos, donas de casa e analistas de sistema. Telefones com dados e a sorte esquecida no travesseiro. Quando dormem, os cidadãos deixam de fazer e são feitos. São um, são dois, são cem. O submundo da cidade grande, o literal universo que existe sob o asfalto, é um terreno democrático porque custa três e uns trocados ou coisa que o valha. E há quem não pode pagar, mas mesmo assim está lá porque pular a catraca é um ato revolucionário. Santas panturrilhas.

O pescoço da garota, duro como os julgos morais que martelavam o pensamento inquieto de uma mente proletária, resistia aos sacolejos. Ela precisava de massagem na carne, mas tudo o que andava conseguindo era no ego. Ao partir, o trem a fazia tombar para a esquerda porque o progresso e o progressismo têm dessas coisas, um desarranjo aqui, um rompimento com o status quo ali, uma quebra da inércia que é mais fácil de sentir que de explicar, imagina de fazer. Sexo, casamento, tempo de vôo entre Nova Iorque e Los Angeles, salário mínimo, por que diabos o Wagner Moura aceitou fazer o tributo ao Legião Urbana? A moça alimentava pensamentos com uma tal liberdade que só a privacidade garante. Viu então uma outra mulher – ou homem, não estava claro e ninguém se importa – que tinha cabelos tão longos que alcançavam as costas do joelho. Quão difícil deve ser para que aquela pessoa use a privada? – pensou. Uma cabecinha paradisíaca como uma ilha, se pequena em diâmetro, larga em maravilhas. Em suas narinas entravam todos os cheiros do mundo, das fragrâncias de bergamota ao chorume das ratazanas da rede de esgoto. A garota batucava com os dedos contra o assento laranja e respirava fundo. Um dia aquilo tudo seria memória, lição de vida, ou quem sabe um arrependimento. Quantos casamentos ela já havia recusado, quantos rapazolas de cabelos longos haviam prometido os confortos de salas de estar bem decoradas? Não era daquelas que aceitam as submissões exigidas para o cargo, ainda que existam inúmeras plantas para decorar os apartamentos à beira-mar. Não era uma dama decorativa. Falo de uma mulher em plena posse de suas errâncias e independências, ao ponto da recusa aos tribunais e confiança nos amanhãs. Vai para a cama só ou acompanhada, nunca insegura.

Um cara em pé lia um livro qualquer na tela do celular e um senhor idoso, corcunda, pedia contribuições voluntárias para que ele não morresse de fome. Na sociedade dos excluídos, na linha temporal dos que sobrevivem ao preço das suas horas, tudo tem preço mas nada tem sentido. Os momentos contam como séculos.

A garota tinha olheiras como todos têm, mas ela não as escondia. Seu único rabo preso era o de cavalo. Na grande maçã todos dormem pouco e cospem muito. Cigarros, tragos, fluidos pegajosos. Os prazeres da vida parecem se resumir em coisas que não são permanentes. Ela pensava em quando começar a ter coragem. Aquele livro, o diário, a luta de espadas contra o dragão invisível da letargia. Uma sirene sempre soa ao fundo quando ela caminha pelas ruas cinzas da metrópole dos tumultos controlados. Há tanto barulho em sua mente que os trens e seus gritos de metal já não conseguem atrapalhar os processos internos. Falta uma buzina dentro de sua cabeça, um alarme, um som de alerta que a obrigue ao susto. Viver não com receio, mas em alerta de prontidão, sentinela para a ação voluntária. Há momentos em que ela se vê amarrada, imóvel, vendo a locomotiva se aproximar sobre si mesma. A garota então pisca e chacoalha a cabeça e volta a si. Não há muito espaço para divagações quando falta sete estações até o seu destino. Ela ainda não ama o que lhe acontece porque ninguém a ensinou a tanto. Reclama em breves arroubos de insatisfação, como foi acostumada. Não por menor paixão pelo otimismo, mas por hábito de despertar compaixão alheia ela lamenta à espera de esmolas afetivas. Nas megalópoles dos deuses financeiros ninguém se importa com nada além dos dígitos antes da vírgula.

Eis que uma outra mulher adentra a lata metroviária e se senta à frente da garota exausta. Era jovem como ela, usava uma blusa que cobria apenas o tronco e exibia seus braços embranquecidos. Tinha traços de ascendência nativa, talvez indígena ou cabocla ou o que fosse, mas a candura de sua pele denunciava uma vida em clausura de um escritório qualquer, acarpetado e frio onde telefones tocam e galões d’água borbulham. Cabelos cacheados e um semblante confuso, Mona Lisa que combinaria com um acordeon e danças circulares. Tinha os tênis desamarrados, ela queria tropeçar, talvez cair de boca. Elas se reparam muito além do que olhos viciados estão habituados a enxergar. Onde há cores elas compreendem dores e onde há oleosidade elas sabem que há verdade. As fêmeas de uma grande tribo urbana que não sabe uivar mas sabe ir à caça. Encaram-se com curiosidade de eras e ímpeto de poucos. Mulheres, milhares delas que nasceram, reproduziram-se e morreram. Cuidadoras, provedoras, resilientes lagartas que se tornam borboletas apesar dos pesares. Estavam reencontradas, após desconhecidos paradeiros temporais. Quiçá foram contemporâneas em um Egito Antigo ou operárias de alguma revolução industrial. A garota cansada ainda batucava com os dedos enquanto a mulher de braços de fora sacou um bloco de notas e passou a esboçar linhas sobre a sua semelhante. Um lápis amarelo e curto corria a folha também amarela que ela apoiava sobre a coxa esquerda. Um instante anêmico e trivial. Faltava maconha, faltava uma sala com tapetes para que elas pudessem deitar e divagar. Um pandeiro preguiçoso, chá de hortelã, arte sem preocupação. Não havia sorriso aparente, mas havia uma empatia radical. A garota cansada mexeu no próprio cabelo com a mão direita e o gesto despertou algum apetite na outra mulher. Lábios que mordiam, sugestões telepáticas, frestas úmidas que jamais seriam visitadas. Não era possível distinguir se a mulher escrevia ou desenhava, mas era certo que a descrevia em traços toscos. A ponta de carbono a desejava com a mesma velocidade que o trem desenvolvia pelos corredores escuros do labirinto subterrâneo da capital. Cada risco soava mais alto que o último e os bicos dos seios da garota cansada se enrijeciam como o lápis que sentia o suor dos dedos da mulher ousada. Contemplavam a arte alheia, estética ou literária ou plástica ou descabida. Habitam um universo fantasioso onde se ouve o xilofone e onde os rios têm a cor laranja e a chuva é espumante. Mimosas, moçoilas, Marias, maravilhosas, melódicas, meladas e milenares.

Ela poderia ser minha, ela poderia ser do meu amigo, ela poderia estar junto comigo e com o meu amigo. Nós poderíamos ser centenas em um espaço só – assim se justificava a simulação impetuosa da garota. Registraram fotografias uma da outra, na memória do celular também. Tudo o que havia de cretino no mundo as rodeava. Os sujeitos fugazes com roupas de marca cara, as donzelas desatentas que espetam o próximo com suas unhas quilométricas. O trem parou e alguns saltaram e elas ficaram sozinhas. A garota cansada sentiu que era hora e sorriu. A mulher então guardou seu bloco de notas, levantou-se e também partiu. Sozinha, a garota finalmente pôde aceitar o cansaço e a solidão e os minutos que restavam até a sua estação. Recostou a cabeça na janela, colocou os fones de ouvido e fechou os olhos. Tocava Lisa Stanfield – All around the world.

Lá vem

Cerveja atrás de cerveja
Garrafas que empilho não se movem sozinhas
Bebo porque é líquido e trago porque não sei quem vem
Sou das tardezinhas e dos lamentos
Da simpatia com quem se apresenta
Dos versos cada vez mais soltos
Porque no céu o que há é mato
E os coelhos estão todos aqui a fornicar
Eu vos digo que querer o desejado
É desejar o querer
E os quereres estão obsoletos
Porque se assim não fosse Araçatuba seria a nova Paris
E as guerras seriam coisa pra depois
Só que isso diz quem é bebum, niilista ou depravado
E eu sou logo os três
E mordo e assopro e cuspo
E se deixarem eu assovio
Pra dizer que três é demais
Dois é veneno
E um
Só um
Um só
Um filho da puta é o que basta pra coisa desandar.

Amanda e um copo d’água

Não posso esconder tosse ou amor
Que me desatina
Quero
Como querem os mais sábios
Sem posse

É tarde quando a encontro
Mas non troppo
Pois crianças não dormem
Emprestam o nome à noite
E meneiam à exaustão

Entre vapores e goles
Fricções e barulhos
Incontidos
Ela me engole
E eu lhe mastigo

Vantagens íntimas
Hesitações
Somos bichos da revolução
Injuriados, subversivos
Do pecado bons amigos

No prestígio há comédia
Uma antologia divina
Na carne fecunda
Na dama que dá sede
Na virtude que abunda

Amante de um momento breve
Nostalgia de um leve instante
Desejo com esmero
Desmaio
Ante a distância que é obstante

Sei mais do que vejo
E peço mais do que posso
Me encanta por ser livre
A dourada amante do ócio

Na cama digo que é dia
No poema juro que é chuva
Falo, lhe encaixo, repito
Por escrito confessa quem ama.

Polegadas

Maria foi uma boa esposa durante uma das quatro estações do ano. Casou-se com Alfredo apesar do nome em desuso. Ela imaginava como foi a adolescência de um garoto chamado Alfredo e ele elucubrava como teria sido a infância dela sem pai. Cada um nos seus pensamentos particulares, porque eram ofensivos demais para servir à mesa. Maria não andava bem e esquecia a tampa do vaso levantada. Maria dormia com a boca aberta e roncava, mas Alfredo achava aquilo fofo. Fofo, mas insuportável, por isso ele a cutucava com o cotovelo. Casaram-se no outono, quando as folhas caíam. O caminho era poético, na antessala do renascer florido. No inverno, Maria não aguentava. Suspeitava do marido e roía as unhas que já eram curtas. Feria as cutículas e então tomava vinho. Alfredo a encontrava bêbada, desacordada, reclamando do vizinho. Ela sequer conhecia o vizinho. Moravam distante da família e não havia corrida para colo nenhum que resolvesse. Eram os dois, um para o outro, não importa o que acontecesse. Alfredo a amava e o amor é aquilo que o aquecedor faz nas noites mais frias, mesmo que o motor, toda a engenhoca que faz a coisa ficar quente, permaneça no lado de fora da casa sob um rigoroso frio. Maria era doce, uma menina, tinha os pezinhos tortos e os dedos compridos. Nasceu para ser menino, mas Deus quis diferente. Ainda bem, porque Maria era linda com cabelos que pareciam fios de linho. Alfredo se sentia completo, mesmo com as neuroses de Maria. Neuroses são essenciais ao negócio humano, dizem os psicanalistas. Opiniões, como cachos de banana, crescendo a torto e a direito como se o mundo fosse adubado por inteiro. Maria passou a suspeitar que Alfredo estava tendo um caso com alguém do escritório. Ele era funcionário público, batedor de carimbo, um daqueles de futuro, mas com todo o tédio do mundo. Saía cedo e levava a comidinha que seu amor preparava, mas então, com o diabo a lhe sussurrar diabruras, Maria parou. Simplesmente parou e escolheu a TV. O marido notou e reclamou, mas Maria alegou tontura. Disse que o alho queimava as mãos, que não suportava mais o cheiro de fritura. Alfredo, resignado, saía de mãos vazias. Trabalhava feito um condenado para que o dinheiro rendesse uma casa própria. Maria assistia ao televisor com a mente suspensa. A televisão não exige pré-requisitos, não exige sequer inteligência, a televisão só necessita ser ligada e Maria sabia bem apertar o botão vermelho. Maria poderia trabalhar em uma usina nuclear para deflagrar o alarme de desastre. Oh, Maria. Em uma manhã, ela acordou e se sentou em frente ao aparelho. Desligado, era como um negro espelho. Assistia a uma programação idiota, típica de geração vazia. Assustou-se com o estampido de uma música trágica que comunicava o impossível. “Interrompemos a programação para um anúncio especial” disse o âncora. “Devido a forte nevasca, os bombeiros têm dificuldade em acessar o prédio central da administração pública onde um incêndio sem precedentes derrete as colunas seculares”. O mundo de Maria naufragava, mas havia um âncora. Ela levantou e, nervosa, só pensava em fogo, no Alfredo, nos cigarros que ela tanto gostava. Maria subiu as escadas e bateu na porta do quarto onde o marido dormia. Ele caíra doente e dormia em um quarto separado para poupar a esposa da tosse renitente. Bateu com o polegar, como se surrasse um pandeiro. Maria não batia bem. Não houve resposta. Desceu as escadas e grudou no telefone. Ligava insistentemente para o escritório onde o marido trabalhava. Ninguém atendia, deviam estar todos mortos com a fumaça, ou pior, queimados. Maria enfiava os dedos nos cabelos e não sabia o que fazer. Conferiu a garagem e se espantou, pois o carro dele continuava lá. Tornou a subir as escadas, a bater com o polegar direito na porta branca e a chamar por Alfredo, Alfredo. Oh, a constatação! Se Alfredo não estava ali nem no serviço, só poderia estar com a amante. Nem a

neve poderia esfriar sua espinha mais que aquele pensamento. Maria entreteve a ideia e não viu saída. Fugiu de casa, usando o carro do marido. Maria aprendera a dirigir recentemente, mas a ira a guiava. Foi a um bar e pediu bebida. Serviram. Bufava e tremia. Não demorou até que um sujeito se aproximasse e procurasse ouvi-la. Existem mais homens bondosos, nessas horas, do que há certezas nesta vida. Maria vomitava o carrossel de mágoas e o cara, com a cabeça, assentia. Maria não parava, falava mais do que devia. Aos poucos, mesmo o sujeito da malícia, o garçom e os outros homens que ali bebiam se afastaram. Mas era um bar velho, sujo, daqueles que têm buracos na parede. E em um desses buracos tinha quem a ouvia. Uma barata e um rato, imóveis como se paralisados pela estricnina. Maria notou e não se intimidou, discursou para a baixa prole dos seus desejos de patifaria. Bebeu e praguejou e se levantou bastante zonza. Ninguém ajudou, eles queriam que ela se fosse. Maria entrou no carro e deu a partida, mas não conseguia ver. Havia neve sobre o pára-brisa e ela então ativou o limpador. Aguardou que a brancura se dissipasse e julgou, a inocente, que via plenamente com capacidade de uma águia careca. O carro patinou no gelo liso mas Maria, embriagada, julgou que tudo ocorria bem, da mesma forma que saiu de casa. O automóvel replicava as pernas da esposa desastrada. Na casa, enquanto isso, Alfredo destrancou a porta e pisou na sala. Não havia barulho, não havia nada. Apenas a TV ligada e um noticiário mudo. Ele mirou o quintal branco e a beleza da invernada. Torceu para ver uma raposa, um veado, um feixe de Sol naquela manhã castigada. Fez café e deu falta de Maria, mas pensou que a amada estivesse no quarto lendo ou coisa que o valha. Alfredo, segurando uma caneca azul, sentou-se no sofá e aumentou o volume do televisor que mostrava imagens de um fogo imenso, mas que não conseguia distinguir onde se passava. Foi interrompido por um anúncio urgente dentro da programação urgente que retratava uma outra emergência. “Interrompemos a programação especial para outro anúncio especial”. Alfredo recostou-se para acompanhar. “Uma caminhonete, placa RDC-8240, chocou-se contra o prédio em chamas da administração pública. Os bombeiros informam que não há sobreviventes, embora não tenham certeza de quantas pessoas estavam no automóvel”. O prédio era onde ele trabalhava. A placa era a do carro dele. Aflito, Alfredo levantou-se num salto e derramou café quente. Ele pensava sobre aquilo e não sabia o que fazer. Ele queria saber se alguém estava no carro com Maria. Alfredo estremeceu. Polegadas de neve impediam a saída e ele arrefeceu. Aquele era um sábado, ele não entendia como o incêndio começou, por que tudo acabou em fogo e por que ela o trairia.

Eu estou absolutamente fora de mim

A fome me fez sair da cama. Minha barriga dói, faz oito anos que eu não como nada. Há farelos em um saco de chips sobre a mesa. Aquela embalagem está ali há 20 meses. Os farelos me dão vida, o sal é meu amigo. A cabeça gira, é difícil me manter em pé. Nas duas últimas noites eu ouvi vozes, dormi pouco, sonhei acordado e tive pesadelos dormindo. As músicas da trilha sonora deste dia são as piores possíveis, meus olhos estão embaralhados e eu não posso escutar com exatidão. O nariz corre. Vejo fotos e elas estão todas distorcidas. Há movimento em tudo o que eu vejo, menos em mim. De olhos fechados eu vejo um filme em cores que insiste em me trazer cenas difíceis de distinguir entre a fantasia e a realidade. Abro os olhos e gargalho. Risadas de um louco ecoam pelos corredores vazios, pelos quartos abarrotados com materiais de construção. Cada minuto corresponde a memórias de 13 anos. Estou esmagado com tanta informação. Sinto meu eu pedir arrego. Tarde demais, eu estou cozido pela ação nervosa de ácidos alucinógenos. Minha mente escorre pelo carpete e eu busco um garfo para recolhê-la. Minhas mãos suam, da minha boca uma grossa gota de saliva pende até o chão. Eu posso me ver no espelho e tenho 83 anos agora. Velho, careca, com as costelas à mostra. Seguro uma bolsa de soro. As minhas mãos não tem nada, eu estou bem apesar das distorções. Daí cometo o erro de olhar outra vez no espelho. É aterrorizante. A minha versão mais dolorosa. Abandonado, em uma casa abandonada. O que foram os meus anos de juventude? Onde estão os meus amores, aquelas que extraíram meus caldos sinceros de paixão? Há um grilo pela casa fazendo cri cri cri. A neve toda está roxa agora, como os meus lábios. Há três dias não ligo o aquecedor me tremo de frio. Posso comer azulejos. Se as drogas causam esses efeitos, desejo registrar meu depoimento. Elas funcionam muito bem e agora eu sou Madame Tussaud. No meu museu eu sou a própria cera e me derramo sobre tudo. Coloquei água para esquentar e não usei, como meus pulmões. Eu não respiro há duas semanas. Estou poupando o fôlego. Meu ombro dói como sempre. Há cacos de mim no lixo, devo ter me deixado cair ontem e alguém recolheu com a pá. Somos tantos em nós. Há sempre a chance do nó em volta do pescoço. Que coisa horrível. Um urso entrou no quarto agora e me cheirou enquanto eu balbuciava as palavras leite quente. Na janela há três corujas e, juntas, elas têm 67 olhos. Eu queria ser um olho, o direito. Ver com ressalvas. Faço gargarejo com neve e suco de fruta uva. Agora é a lombar que me causa dor, devem ser os rins. Ainda bem que já tirei o apêndice. Nesse fim de mundo, eu teria que fazer a cirurgia em mim mesmo, ouvindo Djavan. Abusei da dose, as paredes falam comigo sobre os sinos do castelo. Blem blem BLUM! Cozinhei, fiz picadinho de nós dois. Ficou uma bosta. Ontem passei um dia de cão, latindo e trepando com a perna da cadeira. Será que tomo mais opióides? Chacoalho esse chão ou não? Quem foi que miou agora? Alguém toca trompete no porão, a melodia é daquelas que iludem. Trompetista da casa do caralho. Eu queria ser um xilofone para fazer den don din. E a Marisa chata aos Monte dim dim dom. Que saudade do meu Pernambuco, onde eu estive 9 vezes e olhe lá. Eu queria agora era um beijo de um camelo, babado, nojento, um beijo que me passasse sífilis animal. Apago e me arrependo. Não sei o meu nome e foi exatamente isso o que Timmy me perguntou há 12 minutos atrás. Não sei quem ele era também, mas ele levou um mandolim. Espero que ele toque com a alma e enfie o instrumento no… Jazz, jazz executado por mongóis. Com muita cor e refrigerantes. Eu só quero beber água a partir de hoje. Mas, tudo é água! Quem me dera agora eu fosse um sapo. Talvez tivesse menos nojo por mim. A página acaba e não findam os raios alucinados de realidade perturbadora que agora me incendeiam.