Lá vem

Cerveja atrás de cerveja
Garrafas que empilho não se movem sozinhas
Bebo porque é líquido e trago porque não sei quem vem
Sou das tardezinhas e dos lamentos
Da simpatia com quem se apresenta
Dos versos cada vez mais soltos
Porque no céu o que há é mato
E os coelhos estão todos aqui a fornicar
Eu vos digo que querer o desejado
É desejar o querer
E os quereres estão obsoletos
Porque se assim não fosse Araçatuba seria a nova Paris
E as guerras seriam coisa pra depois
Só que isso diz quem é bebum, niilista ou depravado
E eu sou logo os três
E mordo e assopro e cuspo
E se deixarem eu assovio
Pra dizer que três é demais
Dois é veneno
E um
Só um
Um só
Um filho da puta é o que basta pra coisa desandar.

Óleo de peroba

arte da Melodie Perrault

Havia um garçom, nem alto nem baixo, nem magro nem gordo, nem careca totalmente, nem branco nem negro, com a barba por fazer e, acima de tudo, aquele garçom vestia um terno que não era feito para ele. Aquele cara representava a mediocridade. Veja bem, não há julgamento moral no que eu conto, a intenção é dizer que ele não era 8 nem 80. Aliás, havia outros garçons ali. Um era muito magro e já passava dos 50 anos de idade, e cada bandeja com taças e garrafas parecia pesar uma tonelada em seus braços magricelas. Apesar do semblante exausto e da compleição franzina, aquele senhor sorria efusivamente mesmo quando se protegendo dos convidados que se movimentavam de costas a levar perigo às bebidas que ele carregava na mão esquerda.

– OPA! – dizia, a cada minuto, ao se esquivar.

Uma garçonete, a única mulher a exercer a função, chamava a atenção por quatro razões. Era incrivelmente linda, mas linda mesmo, linda a ponto de alguns bêbados em fim de festa se ajoelharem e pedirem a sua mão em matrimônio. Usava batom vermelho e o formato de seus lábios era espetacular, entretanto, não sorria nem por ordens dos superiores. Sobre os olhos castanhos, havia uma monocelha grossa e intocada que mesmo que eu não queira criticar, era o toque de imperfeição naquela escultura. E o quarto detalhe, usava um avental tão amassado que parecia ter sido mastigado pela vaca de estimação da família, a Gertrudes, que vivia na fazenda. Os outros homens que vestiam camisa branca e gravata preta eram garçons comuns, sem nada de muito interessante. De tão ordinários, confundia-se com facilidade alguns convidados da festa e vice-versa. Gente na qual falta tanto sal como açúcar, gente que a gente não sabe se come ou faz fotossíntese.

As famílias exultavam. Dia de festa é dia em que ninguém discorda de ninguém. Ri-se, joga-se a cabeça para trás e então se emenda um gole generoso de champagne. Nada de ânimos exaltados. A mãe da noiva tinha o cabelo impecável, o pai do noivo gargalhava e irradiava aos convivas a sua própria luz, tão incandescente que punha os demais em brasa. E lá vinha o garçom magricela, que com o passar da noite já sustentava a bandeja com as duas mão e pedia, com delicadeza, para que os convidados retirassem autonomamente as bebidas desejadas. A cada copo que ia, ele sorria com timidez pela graça alcançada de carregar menos peso.

A festa acontecia na casa da família da noiva e os cachorros estavam presos. Nem latir eles não latiam. Finos, elegantes, dignos do sobrenome e tradição. Cães que engoliram uma pessoa uma vez, mas sem fazer barulho. A tal pessoa tentou roubar a casa mas o que ela conseguiu foi a atenção dos dois rottweilers. Coitado, nem boletim de ocorrência foi registrado. O caseiro entendeu que algo tinha acontecido alguns dias depois quando percebeu um punhado de terra anormal no jardim. A dupla enterrou os ossos como bons cãozinhos que eram. Os nomes? Ha, segura essa. Um era Vito e o outro Corleone. Segura essa!

A família do noivo era gigante, quatro irmãos e três irmãs, um sobrinho e uma sobrinha, pai, mãe e madrasta. Boadrasta, como quereria o próprio noivo e ninguém discorda. Foram de ônibus, metade de gente e metade cachaça. Festa é festa. E lá vinha o garçom meio-a-meio, com seu jeito que não dava para distinguir se estava contente ou conformado. Mantinha um semblante sério até ser elogiado, quando então abria um sorriso capaz de fazer sorrir até a Monalisa. Uma chuva leve caía como benção aos pombinhos. Sinal de bom agouro para o enlace, motivo de nervosismo para a mãe da noiva que havia planejado a cerimônia no jardim. A grama encharcada já não permitia a presença de ninguém sem botas de solado alto. Adivinhe? Não havia uma única alma de botina naquela festa, nem o padre. Para o padre, apenas a batina.

Dentre tantos convivas, havia uma dupla que dividia a atenção entre duas, e apenas duas, coisas naquela noite. Ela, a sobrinha da noiva, catorze anos de pernas finas e longas, pele da cor do puro vime, cabelos negros e longos como os de Potira. Fisicamente, sua principal característica era a boca larga, de lábios finos. Era como se, estranhamente, sua boca tivesse atingido a maturidade antes do corpo. Ao bocejar, poderia engolir um pássaro por descuido. Um pássaro no ninho. Um pássaro no ninho com 5 ovinhos pré eclosão. Tô falando, era uma boca e tanto. E, como não poderia deixar de ser, aquela beleza juvenil atraiu os olhares sonhadores do sétimo irmão do noivo, então com 16 anos de uma perturbadora puberdade. Ele era boa gente, estava vestido com terno e gravata azul marinho de fino trato. Cabelos desengonçados e encaracolados para combinar com o jeitão destrambelhado de um adolescente. O acúmulo de hormônios havia transformado sua cara em um campo de guerra. Ninguém o achava interessante na escola. Mas a garota da bocarra gostava dele. E ele gostava muito dela. Além do casamento em si, os dois prestavam atenção reciprocamente. Sentaram-se em mesas separadas porque os pais dela sabiam que ela era levada. À distância, faziam mímicas e convites um ao outro através da leitura labial. Ela piscava com o olho direito que era aquele que só ele conseguia enxergar. Ele mandava beijinhos quando o garçom medíocre bloqueava a visão dos pais dela. Apesar de apenas 16 anos de idade, ele bebia moderadamente o espumante que se servia na festa. Bom, aquele era o casamento do seu irmão, naquela festa ele era padrinho do noivo e, acima de tudo, aquele país era o Brasil. Ninguém dá a mínima se você é maior de idade ou não.

Ela, a garota de pernas leves, sinalizou que ele a seguisse. Que os céus me punam se for mentira, mas a pequena ninfeta vestia um vestido vermelho. O rapazola aguardou por dois minutos e então se levantou, encostou a cadeira na mesa, pediu licença e adentrou o longo corredor central da propriedade. Deu no quarto do fundo, onde todos os jovens das famílias reuniam-se em volta da cama a jogar cartas. A conversa era barulhenta e ninguém se importava com o que os dois tramavam. Ela continuava a comunicação labial não sonora, com a performance nítida de sua boca continental.

– Espera aqui – disse ela sem emitir nenhum ruído.

Ele balançou a cabeça obedientemente. E, como em um passe de mágica, a garotada toda se levantou e voltou para a festa. O que era aquilo? Poderia ela controlar os elementos? O que mais um garoto desejaria além de um romance aventureiro? Uma garrafa de vidro com coca-cola, talvez. Ela o beijou levemente, apenas com o breve contato dos lábios, e disse:

– Vem comigo.

Desta vez, ela emitiu som. E o som tinha forma. Fluía da garganta, deslizava pela língua e se esquivava dos dentes antes de saltar pelo ar com perfume de rosas e eucalipto. Ah, o convite para o inferno vem fantasiado em veludo. Mal sabia ele. Ela à frente, ele logo atrás conduzido pela mão esquerda tal qual o vermelho cru comunista da garota que já entendia o beijo como uma propriedade pública. Eram jovens que curtiam a jovialidade, bestamente inconsequentes. Escolheram o banheiro para trocar uns amassos. Beijavam com sofreguidão e nada mais. As mãos não eram bobas, só os dois que eram. Trinta e cinco segundos de pegação foram interrompidos com violentos trovões do armagedon. A porta do banheiro agora tinha voz e essa voz, esganiçada e raivosa, invadia o ambiente refletindo nos azulejos azuis que recobriam as paredes.

– QUEM ESTÁ AÍ?? – ela berrava.

A porta tremia com as pancadas e as mãos do garoto acompanhavam o ritmo em desespero.

– QUEM ESTÁ AÍ??

Dos gritos, ele só entendia uma coisa e essa coisa ecoava nos ouvidos: Taís, Taís, Taís.

– Sou eu tia, não estou me sentindo bem. Deixe-me sozinha – ela disse.

– Menina, eu sei que você não está sozinha, abra essa porta agora!

– Tia, eu estou sozinha, pelo amor de deus, estou passando mal.

Com os cotovelos sobre a tampa do assento sanitário, ajoelhado na toalha de piso, ele rezava para um deus misericordioso que os poupasse do vexame. A garota falava com a porta, virava, puxava os cabelos do rapaz e o beijava. Aquela situação era como estar dançando com dor de barriga e sentir vontade de soltar uns gases. Você sabe que pode ajudar, mas vai acabar dando merda. Ela não estava nem aí. Beijava e falava com a tia, falava com a tia e beijava outra vez.

– Você tem que ser como eu, cara de pau. Passe óleo de peroba nessa cara! – ela disse sussurrando ao pé do ouvido.

– QUEM ESTÁ AÍ COM VOCÊ?? – a tia solteirona, a mais velha das tias, voltava a gritar no vão da porta.

– Tia, eu já falei. Ninguém está aqui comigo, só Deus! – disse e lascou outro beijo.

Não sei se era o mesmo deus com o qual ele se comunicava, mas caso fosse, que ele perdoasse aquela blasfêmia toda. Santa paciência. A tia era chata, solteirona, de meia idade mas, veja só a ironia, era conhecida justamente porque tinha aprontado livremente na mocidade. E agora cobrava a moral e bons costumes. Como a vida é uma caixinha de surpresas, não é mesmo?

– SE VOCÊ NÃO ABRIR, VOU CONTAR TUDO PARA O SEU PAI!

– Tia, eu tô piorando, por favor me deixe quieta aqui.

E tome beijo. E tome lição de moral em forma de sussurro.

– Tá vendo como eu sou cara de pau? Óleo de peroba nessa cara, você tem que fazer como eu faço – disse ela com aquela boca quilométrica.

O rapaz já estava perdido dentro de si. Sucessivamente, olhava para a janela do banheiro calculando se conseguiria fugir por ali. Acontece que era uma casa antiga, com paredes muito altas e o vitrô era fino, impossível de ser penetrado. A única maneira de sair seria pela porta, estivesse quem estivesse do lado de fora. De repente, a perturbação parou. Silêncio e paz. Os saltos da tia foram ouvidos sumindo pelo corredor. Era o momento certo para sair e o rapaz buscou a maçaneta da porta.

– Aonde você pensa que vai? Vem cá!

A garota pensava muito diferente do marmanjo. Ao invés de aproveitar o momento para a fuga, ela aproveitou para afundar os lábios nos dele, que não resistiu. Surge uma nova voz na porta marrom:

– Vamos, garota, abra a porta agora que eu protejo vocês dois.

Agora era a tia gente boa, da qual todos gostavam.

– Tia, eu tô sozinha aqui e tô passando mal – insistiu a jovem teimosa.

– Tá certo, e o estado é laico. Só eu posso ajudar vocês dois. Abra logo essa porta.

Abriu. E os dois saíram. A garota passou pela tia sem dizer uma palavra e em questão de segundos já estava no ambiente da festa novamente. O rapaz, branco feito um fantasma, parou e começou a se explicar para a tal da tia legal. Ela não quis saber e disse que ele voltasse normalmente ao salão. Ao chegar ali, ele examinou o local e viu a sua paixão sentada à mesa, no mesmo assento de antes. Um piano de Thelonious Monk tocava ao fundo. Ela piscou para ele. O garoto percebeu que o pai dela não estava inteirado dos fatos. Respirou aliviado, afinal uma surra ele não levaria. O moço então sentiu a mão do garçom medíocre em seu ombro.

– Precisa de uma bebida, rapaz?

– Preciso sim.

– É claro que precisa. Eu, no seu lugar, tomaria algo para relaxar – disse o garçom com um sorriso amistoso.

– Oh, é mesmo?

– Vamos, cara, peça qualquer coisa.

– Óleo de peroba, será que você tem óleo de peroba pra me arrumar?

Um conto de Boston – parte 10

A última carta deixada pelo digníssimo foi desconcertante. Português rebuscado, texto sem direção e prosopopéias mirabolantes. Cogumelos mágicos ou o mais puro retrato de uma mente maníaca? José Armando Passos, eu quero falar com você. Fazer perguntas e duvidar sutilmente das suas respostas. Quero azedar suas verdades. Mas, como? Se tudo o que faço é observar à segurança do anonimato, como interagir com você para além da passividade? Zé, Zé, Zé. Que mato. Estou cheio. Aquele texto de amor tresloucado por uma Carlota Joaquina passou dos limites. O que você me deixou hoje foi estarrecedor. O que leva um homem a dizer tanto sem revelar nada? Por que o texto é mais fácil que a conversa face a face? O que é que compõe a tal coisa essencial de nós mesmos, aquilo que nos define em identidade? Nestas cartas que recebo vejo um tanto de ti, um tanto de mim, outro tanto de nós.

João, meu João dos Prazeres. Eu nasci dentro disso. Sou a própria matéria deste mundo selvagem no qual a regra dominante é a de que nada supera o lucro. Johnny, eu tô falando de capitalismo. Dinheiro, horas de trabalho, recibo do aluguel, café para nos tornar mais produtivos. A engrenagem do planeta Terra está apoiada no sistema financeiro. Arquimedes, nos dias de hoje, pediria uma alavanca, um ponto de apoio e uns trocados para executar o serviço de mover o mundo. Nada mais justo, mas eu faria de graça. Só pela onda de ver o globo sacudido e uma baita quantidade de peso morto sair voando pelos céus afora. Já imaginou como nos faz bem essas catástrofes que se passam de quando em quando? Sei não, mas parece que o controle populacional não é algo assim tão maligno. Pode me julgar.

Okay, ultimamente soo muito amargo, né? A saliva anda vermelha, dá pra fazer um negroni com o que escorre da minha boca. Eu casei, lembra? O casamento é um barato. O silêncio custa caro. A rotina de trabalho tem sido tão apertada que não me lembro de acontecimentos recentes dignos de serem compartilhados. Você sabe, o homem ocupado é pago e promovido. Sou um deles, bastante ocupado.

Queria saber tocar um instrumento que fosse. Gaita, por exemplo, parece fácil e talvez até seja. Nunca tentei. Fuófuófuó  fi fi fififi por aí, sentado em uma pedra mirando o horizonte. Romântico ou triste, depende de quem vê. Já faz alguns meses que não uso nada para, digamos, potencializar a minha mente. Nenhuma droga. Parece moleza? Bem, depende das circunstâncias. Porque se uma pessoa corta as substâncias e, ao mesmo tempo, goza de tempo livre o suficiente para ficar em casa assistindo a TV e se masturbando, ele não sente a pancada da abstinência. O cérebro humano – pera aí – o cérebro do humano acostumado ao modelo de vida social contemporânea, é altamente dependente dos estímulos que lhe causam sensação de bem-estar. Por isso, cortar a brisa da fumaça mas continuar a compensar a química do sangue com outras fontes de dependência dá no mesmo. Comigo não foi assim. Eu saí da realidade paz e amor para a do turno de trabalho, sono, trabalho, sono e, em alguns dias da semana, dois turnos nas mesmas 24h. Money talks, man.

O que vivi até aqui? Ah, meu amigo, eu vou contar com um orgulho desmedido:

Até aqui vivi na flauta, ainda que não faça ideia de como tocá-la. Viajei muito, por lugares físicos e instantes de pensamento. Morei em diversas localidades, convivi com culturas, dialetos, cores, gêneros e orientações distintas. Nunca me faltou boa comida e uma cama confortável. Aspirei ao cume dos esportes e o alcancei sendo atleta amador universitário com muitas medalhas de ouro. De igual modo, quis escrever e, ainda que não me considere maduro, obtive meus méritos. Desejei as moças desde sempre e o único empecilho foi a adolescência e a minha cara feia. Finda a feiúra, deslanchei. Não houve amor profundo que não tenha conquistado ou corpo raso onde não tenha me encostado. Bons salários, boas companhias, lazeres voluptuosos. Confesso que só passei a me vestir bem depois que um amigo gay me deu uns toques sobre estilo, isso já bem grandinho. Antes eu era um meninão vestido como meninão. O passado nos condena em certos aspectos. Descobri que havia em mim uma grande propensão em coexistir com o perigo. Quanto maior a ameaça, melhor eu me sentia. Notei, de início, que meus animais favoritos eram a cobra, o tubarão e o leão. Uma parte da minha infância foi no cerrado e lá trombei com cobras aos montes. É uma sensação extrema, você querer ver de perto, mas morre de medo de levar uma mordida. A bicha lá, toda encolhida pronta para dar o bote, com sua língua bifurcada a ler o ambiente em lambidas no ar. Mais velho, tive a oportunidade de nadar com tubarões. O ápice da excitação, porque diferente da serpente, o tubarão vem até você e investiga, chega perto, se bobear tenta uma mordida. Quanto maior o perigo, maior a noção da vida, soa até clichê, mas é verdade. Já pulei de paraquedas, inclusive. Sabia que não senti medo? Esse nosso cérebro é um trem mesmo. Em um parque de diversões, a cada elevação do barco viking você se borra de medo, sente aquele frio na barriga e o gelo se alonga por todos os nervos do corpo. Agora, a quilômetros distante do chão, em plena queda livre, a sensação é absolutamente outra. Você sequer sente que está descendo. O limite, a terra firme, está tão longe que não assusta. O medo vem da visualização do fim. Em pleno voo essa noção é zero. Bem que o doutor me perguntou um dia ‘em vista do abismo, você tem medo ou vontade de se jogar?’ e a resposta estava na ponta da língua ‘vontade de me jogar, caramba!!’. Loucura, não? A terapeuta agora diria ‘nós não usamos essa palavra aqui, sr. José’.

Tantas aventuras haveriam de culminar com a ousadia suprema. Dei por gostar do envolvimento com mulheres casadas. Oh, cara, isso já faz tempo. Eu era solteiro e começou por um acaso. Coisa fina. Daí a coisa embolou. O bolo virou rolo. Vixe, só não acabou em tragédia porque o cara é a frouxidão em pessoa. Um amigo meu cravou o termo: Prego é o que ele é, com P maiúsculo. Coitado, nunca tive a menor intenção de fazer troça do cara. Nem pra senhora sua esposa eu fazia qualquer tipo de brincadeira com o nome dele. Daí, vou negar? Viciei. Outra e outra e outra. Casadas, com o mesmo perfil familiar, porém uma absolutamente distinta da outra. Iguais em desgraça. E eu, quando comecei a sofrer por elas, descobri que o desgraçado era eu. Quantas noites, quantos porres, quantos quase. Vivo por uma sequência feliz de acasos.

Serviu de lição? Lamento dizer que não. Meu instinto selvagem desejava mais perigo. E aí entrei pro crime. É, cara, isso mesmo que você está lendo, crime organizado. Drogas, armas, mortes e o escambau. O lobo em pele de cordeiro. Eu transitava invisível entre aqueles que perseguiam um certo alguém. Mal sabiam, eu na verdade era ninguém.

Cansei de tudo, cansei de todos. Mesmo em face do maior dos riscos, a invencibilidade traz monotonia. E aí, o que fiz? Resolvi ser um bundão.

José Armando Passos, 35, garçom e pizzaiolo, homem de família, monogâmico, reza antes da refeição e bebe apenas aos domingos. Trabalha 7 dias na semana em prol da casa própria. Não possui carro e depende de caronas, no momento. É amado e envia dinheiro à família. Resignado pai de maus frutos, esperançoso conquistador da redenção.

Vista Cansada – continuação

(…)

O parque tem uma vista, em particular, que deslumbra. Em frente ao banco de areia onde as crianças brincam fica um pequeno elevado de terra. Um monte que se destaca sobre a planície da área verde. Há um único banco de madeira com três apoios de braço, um em cada extremidade e outro bem no meio. Há incautos que imaginam o apoio do meio um artifício de conforto. Poucos percebem que se trata de uma ferramenta da arquitetura hostil urbana. Com aquele descanso de braços, nenhum indivíduo pode deitar e fazer daquele punhado de madeira seu leito.

Passados trinta minutos entre o fato ocorrido e o presente atual, a ficha caiu. A adrenalina deu uma diminuída, o peso do ar me deu conta de que eu seria encontrado pela polícia, mais cedo ou mais tarde. Ted também não estava bem. Dormia em meu colo, despertava, vigiava o horizonte e voltava a dormir. Talvez o sabor do sangue humano o tenha traumatizado. Como em toda grande cidade, eu ouvia sirenes berrando tresloucadas de quando em quando. Imaginava quando seria a minha hora de ser o motivo daquele barulho. Hannah, o que será que foi dela depois que eu saí? Será que ela conseguiu se levantar e deixar o local em segurança? Como terá sido a sua descrição sobre mim quando perguntada pelos guardas? “Alto, cabelos castanhos, elegante, bem educado, um verdadeiro herói”. Isso sim teria valido a pena. Só que eu me pego pensando no fato de que, se eu matei uma pessoa, aquilo não faz de mim também um criminoso? Será que Hannah comentou com o oficial da lei que eu era chato pra caralho? Quanto mais a adrenalina diminui, mais a ansiedade aumenta. Um par de policiais começou a caminhar em minha direção e eu me aprumei. Havia chegado a minha hora de responder por meus atos. Beijei Ted, certo de que me separariam do fiel amigo. Surpreso ao perceber que passaram por mim sem sequer me direcionar um olhar, não tão surpreso ao ouvir sobre o que conversavam. Rosquinhas. Que dia primoroso. Discutiam se as melhores rosquinhas eram do Creme Crocante ou da famosa Rosquinhas Afogadas. Aquilo me aliviou um tanto. Sorri para o Ted, aquele inseto em forma de cão, sempre com uma ponta da língua para fora da boca minúscula.

Bebi água com toda a sede que o infortúnio havia me trazido. Ted também tinha sede e sorveu seus goles diretamente da minha mão em concha. Depois, dormiu. Acordou quando uma moça sentou no outro extremo do banco. Sorriu e abriu um livro. Na capa estava escrito “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota” de um autor qualquer que eu não podia distinguir dada a distância e as letras pequenas. Antes de iniciar a leitura, abanou o rosto com a obra.

– Calor, não? – eu disse.

– Sim, está um calor de matar – ela disse.

– Ha! Acertou em cheio!

Ela me olhou confusa.

– E aí, já está fazendo efeito? – eu disse.

– Desculpe, o que disse?

– Se o livro já está fazendo o efeito desejado.

– Como assim? – ela disse.

Visivelmente, ela tinha sérias limitações cognitivas em uma primeira impressão.

– Você é uma idiota ou não?

– Como disse, seu desaforado?

– Ué, é ao que a obra se propõe. Eu quero saber se a leitura tem garantido que você já saiba o mínimo para não ser como tal.

– Ah, bem, sim, sim. Ainda estou quase na metade.

Quase na metade é uma frase que indica grande esforço para não parecer medíocre.

– Parece um tanto audacioso o autor deste livro – eu disse.

– Sim, trata-se de um filósofo que hoje é o conselheiro intelectual de alguns líderes políticos.

– Oh, que admirável.

– Quer dar uma olhada? – disse ela ao oferecer o livro para que eu corresse a vista.

Ted, que tudo observava com tranquilidade, de imediato se colocou a rosnar. A moça recuou o braço.

– Brava ela, hein!?

Peguei Ted com minhas mãos e lhe mostrei as bolas e o pinto pendurado.

– Ele.

– Oh, desculpe-me. Posso empurrar o livro aqui por trás do banco.

Ted voltou a rosnar e agora a tremer. Coisa especial é esse negócio de chihuahua tremer quando tem raiva. Triplica a experiência. Já imaginou se fôssemos assim também?

– Não, obrigado, acho que prefiro continuar assim sem o mínimo. Você faça bom proveito.

– Eu insisto…

– Moça, se você continuar a insistir vai acabar sendo mordida. O sexto sentido do Ted é uma joia. Se ele não quer, sinal de que tem coisa aí. Aproxime-se por sua própria conta e risco.

O dia ia indo e nada de me encontrarem. Será que Hannah teria dado uma descrição estapafúrdia para que a polícia nunca me encontrasse? Que garota de ouro.

– Tudo bem, você vai ficar sem saber o mínimo para não ser um idiota hahaha – ela disse.

– Não me parece sinal de elevada inteligência depender de um livro que promete lhe livrar da estupidez, moça.

– Ora, o senhor se acha muito esperto, não é mesmo? Com o que trabalha?

– Você não acreditaria…

– Vamos, diga, senhor sabichão.

– Trabalho com bosta.

– Ora, todo mundo tem problemas profissionais – ela disse.

– Não, não. Eu trabalho literalmente com cocô. Sistema de Abastecimento e Purificação de Água do município.

– Oh, desculpe.

– Pelo o que? É um trabalho digno. Sabe, eu chego todos os dias e me deparo com aquele merdalhal da cidade inteira. A massa fétida marrom esverdeada que nada mais é que o espelho da sociedade. É inspirador.

– Você está falando sério?

– Ô! Sabe qual é a grande diferença entre as merdas do dia-a-dia e as minhas?

– Não faço idéia – ela disse.

– As minhas merdinhas não falam. Elas fedem, elas enojam, elas provocam com sua atitude incômoda de serem o indesejado em síntese. Mas, por deus, elas não dão um pio! Não comentam, não conferem opiniões não solicitadas, não falam demais nem de menos. Elas simplesmente não falam. Adiciono uns peróxidos, hidróxidos, ácidos e depois de um tempo tudo volta a ser água potável. É ou não é incrível?

– O senhor parece um tanto inconformado com a sociedade. O senhor tem a cara de quem viu um fantasma.

Olhei-a. Ela era como de outra época. As curvas e proeminências do rosto, a maquiagem e as cores que estampavam suas roupas lhe atribuíam ares de outra década. E ela achava que eu havia me encontrado com uma alma penada. Que coisa.

– É, por que você acha isso? – perguntei.

– O senhor está na mesma posição há tanto tempo, sem tirar o casaco mesmo com esse sol impiedoso a nos fritar. Parece que algo de preocupante o assombra. Acho que são seus olhos. Sabe, os olhos nunca mentem…

– QUE TÊM MEUS OLHOS? – disse de uma forma esbaforida.

– Calma, meu amigo. Apenas quis dizer que eles não parecem tão vistosos. Talvez o senhor tenha que descansar e isso seja tudo.

– Quer dizer que tenho cara de fastio?

– Cara não, só os olhos. Vejo dois olhos meio-mortos.

– A senhorita não deveria distribuir ideias que não foram pedidas.

– É para o seu próprio bem.

– Eu deveria lhe mandar à merda, mas…

– … mas aí eu iria de encontro direto ao senhor!

Tenho que admitir que foi perspicaz. Ted acompanhava tudo como em uma partida de tênis, variando o olhar de acordo com o interlocutor. Mirava à direita e via a moça e mirava à esquerda e via a mim.

– Não vejo com bons olhos essa nossa conversa, por isso vou me retirar. Vamos, Ted!

– Hahaha, essa foi perfeita!

– Como disse?

– O senhor não vê com bons olhos. Verdade suprema. Descanse, meu amigo.

– Ora, quanta presunção.

Caminhei morro abaixo com meu cãozinho no colo. Sua língua sobrava e o sol que se punha no firmamento transformava a paisagem em dourado vivo. O dia todo havia corrido sem nenhum incidente e isso me inculcou. Entrei no carro, dei a partida e comecei o trajeto de volta. Em frente ao posto de gasolina onde fica a loja de conveniência havia aquelas fitas amarelas de isolamento. Alguns policiais protegiam a cena do crime. Estacionei.

– Olá, oficial, o que houve?

– Assalto à mão armada, luta, legítima defesa.

– Puxa vida. Parece um cenário e tanto. Quem foram os envolvidos?

– O cara era um tal de Jack O’Riley. Ex-presidiário, reincidente e um problema ambulante. Gostava de beber e vivia insultando os outros com um sarcasmo incontrolável. Já era um velho conhecido de outros policiais. Chegou a hora dele.

– Oh. E quem foi que o matou?

– Uma garota que trabalha na caixa registradora. Tomou a arma em um lapso e descarregou o tambor no desgraçado. Ela é menor de idade e agora vai passar por apoio psicológico e toda a assistência devida.

– Sério? – eu disse em total descrédito.

– Sim, cara, a garota tem sangue frio – ele disse.

– Oh, puxa. Ela deve estar traumatizada com a cena.

– Aí é que você se engana. Veja como são as coisas. Ao surrupiar o revólver, fechou os olhos e apertou o gatilho seguidas vezes até que o gatilho não fizesse mais barulho. Manteve as pálpebras coladas e correu para fora e chamou a polícia. Ela não viu nada do horror, cara.

– Inacreditável. A menina, hein?

– Sim, ela garantiu que agiu por instinto e que seria a vida dela ou a dele.

– Ela reportou algum sentimento com isso tudo?

– Indiferença. Disse que remédio pra bandido é chumbo. Uma garota da pesada, cara.

– Bom, nesse caso, é como dizem: o que os olhos não veem…

Vista cansada

– 13 dólares e 85 centavos.

– Também um maço de Camel azul, por favor – eu disse.

– 19,05 o total.

Entreguei uma nota de 20.

– Fique com o troco e tenha um bom dia – disse ao sorrir, levantar a aba do meu chapéu e pegar a sacola com um burrito de carne, água com vitaminas e, é claro, o maço de cigarros.

Ela sorriu e olhou para baixo. Ela gosta de mim, só que ela tem 16 anos. Míseros dezesseis. Eu perguntei, seu nome é Hannah inclusive. Só uso o chapéu para ir à loja de conveniência e criar a imagem do cowboy fodão, coisa que eu não sou. Nem quero conquistar a Hannah, afinal ela é menor de idade e esse tipo de transgressão é nojenta. Mas, por que não deixar ela toda feliz por atender um destemido domador de cavalos? Coisa que eu não sou, mas ela pode imaginar à vontade. Camisa xadrez, botas, óculos escuros, jeans apertados e o bendito maço de cigarro sob a sombra de um chapéu de respeito. Cara, ela deve falar de mim para as amigas e imaginar que eu sou proprietário de terras e muito gado. Ela deve achar que eu fumo admirando as pradarias povoadas por equinos galopantes. Bem o cara do Marlboro.

Nem fumar eu fumo. Já são 12 maços acomodados no porta-luvas do carro desde que eu a conheci. E eu estaciono na parte de trás da loja. Se ela vir meu carro de duas portas ela desaba. Melhor manter a lenda viva.

Sou um cara normal. E, dada a normalidade, o barato é inventar meu mundo mágico sem fazer mal nenhum a ninguém.

Fui almoçar e pedi a carne do hambúrguer bem passada. Ela veio exatamente como pedi. Alface, tomate, cebola, picles, queijo cheddar. Uma crosta negra na superfície da proteína. Que coisa linda. Nada a acrescentar, não saiu nada errado. Eu às vezes queria ter o que contar como o meu irmão tem, uma linha do tempo fantástica onde tudo dá errado, daí volta a dar certo, aí então algo inesperado acontece mas ele maneja, o céu desaba em trovoadas, ele constrói uma canoa com uma lata de lixo enferrujada e põe o mundo todo em segurança. Nananina, comigo é tudo na manteiga. O café da manhã nunca sai do controle. Mamão, ovos, abacate e leite. Religiosamente. Outro dia fui visitar um amigo em um estado distante. Cheguei em cima da hora no aeroporto. O avião estava lá e a atendente foi graciosa. Embarquei. Minha bagagem nunca foi extraviada. Chega a incomodar.

Tá aí, sou um frustrado de frustração.

Sábado de manhã é dia de caminhar no parque com meu cachorro. Preparei a sacola para recolher suas necessidades, a garrafa d’água e a coleira. Ele saltou sobre o banco do passageiro e partimos. Parei para comprar chicletes com a Hannah. Ted, o cão, entrou comigo. Ela sorriu com um sorriso nervoso. Até que enfim algo saía do normal. Uma gota de suor escorria pelo flanco esquerdo do seu rosto pueril. O ar condicionado da loja era inacreditável de frio. O que fazia ela estar assim? Não fazia a menor ideia e ela não deu a mínima para o Ted. Estranho. Paguei e me virei. Virei de novo e voltei ao caixa. Foi quando vi o cano da arma. Por debaixo da máquina registradora alguém mantinha a pobre garota refém. Oh, cara, sejamos francos. Ovos, waffles, sol e borboletas são coisas que você espera de um sábado de manhã. Armas e crime não.

– E aí baby, como vai seu dia? – perguntei

– Ahn, normal eu acho…

– Seus olhos e seus olhares… você está com conjuntivite?

– Como assim? – ela se espantou.

Caceta. Foi o que me veio à cabeça. Eu sei lá por quê. Só queria manter a presença e salvar a minha amiga.

– Parecem meio avermelhados, você está doente? Sabe, não deve trabalhar nessas circunstâncias pois pode contaminar outras pessoas.

– Não, não, meus olhos estão perfeitos. Não se preocupe, obrigada.

– Você tem certeza? Parece meio cansada, com olheiras.

– É que a vida de uma adolescente que estuda e trabalha não é das mais fáceis. A escola dá um milhão de trabalhos para fazermos e sempre me falta tempo.

Debrucei-me sobre o balcão com os cotovelos. Agora era questão de honra salvar aquela pobre alma. Ted não deu um pio. Claro, ele não era um galo e sim um cachorro. Ted não latiu nem manifestou perceber que havia um ladrão por ali. Ted é um chihuahua, não vá se enganando que eu tenho um pitbull marrom de pelo lustroso e músculos avantajados. Um pequeno cãozinho que ganhei da tia Arminda, doce e frágil sim, mas uma besta apocalíptica quando se enfeza. Acontece que Ted não é um cão de guarda, não dá para colocar todo esse fardo nas costas dele. Até porque, coitado, com essas costinhas minúsculas…

– Você deveria tirar uma folga, baby. Será que essa virose que tem pegado todo mundo não te pegou também?

– Não, vai por mim, está tudo bem. Estou saudável.

– É que essas olheiras…

– Escuta, você já falou três vezes das minhas olheiras. Eu durmo tarde e acordo cedo e não tenho tempo para maquiagem, okay? Só porque eu sou mulher não sou obrigada a estar sempre linda não, meu caro – militou.

– Perdoe a minha indiscrição. Só quero ajudar. Deixe-me ver sua temperatura.

Estiquei o braço balcão adentro rumo à testa pacífica da refém. Não havia nenhuma dobra nem sinal de que aquela testa pudesse, mesmo em face do maior desencanto, franzir. Um anjo sob as garras de um bandido. Ela recuou.

– Não quero sua ajuda. Não tenho febre – ela disse com desprezo.

– Vamos lá, deixe eu tomar sua temperatura, menina!

– Não sou uma menina. Já sou mulher!

– Seus olhos indicam alguma convalescença, calma.

– Outra vez meus olhos? Jesus, que obsessão! E não me mande ter calma.

Escutei então uma risada incontida e vi o cano da arma balançar. O safado estava se divertindo com minhas tentativas idiotas.

– Olha, Hannah, há esse vírus pelo ar, você vive em ambiente fechado, eu TENHO que tomar a sua temperatura. Por bem ou por mal.

– Se você tocar em mim eu grito. Chamo a polícia. Faço um escarcéu!

– Não é possível, venha cá – disse e a segurei pelo braço direito. Ela me mordeu.

– Aaaaaah! Caramba, ingrata!

– Eu avisei.

O filho da puta agora riu sem pudores. Levantou gargalhando e com o cano apontando para baixo. 

– Cara, como você é chato hahaha – disse ele.

Acertei-o com minha direita bem no queixo. Foi ao chão. Hannah gritou e se refugiou no canto da parede. A arma reluzia com sua superfície prateada. Tinha alguma ferrugem, mas era de verdade. O indivíduo estava atordoado porque foi à nocaute, mas ainda assim balbuciou um insulto:

– Chato pra caralho hahaha.

Dei a volta no balcão e alcancei o revólver. Segurei-o enquanto via a garotinha aterrorizada se contorcendo em vista do cenário da desgraça patética que se desenhava ante aos olhos.

– Sabe, docinho, agora quero que feche esses olhinhos cansados. Vamos, feche os olhos, baby.

Ela cerrou as pálpebras com tanta força que se formaram dobras volumosas na pele que cobria os globos oculares verdes como a grama do parque. Em pé, com o assaltante grogue aos meus pés e Hannah sob minha vista, descarreguei sete tiros fatais na carcaça moribunda. Hannah emudeceu mas não abriu os olhinhos. Soltei a arma sobre o corpo. Agora a cena era só uma desgraça, mas não era mais patética.

– Baby, mantenha os olhos fechados. Você sabe quem eu sou? Sabe quem somos?

– Não, não sei, só sei que…que…que você falou de novo dos meus…dos meus olhos cansados – disse a pobrezinha aos soluços.

– Sou, assim como você e como esse mal acabado sujeito, o meu próprio demônio. Este mundo é o nosso inferno. Agora vou ao parque.

– Posso abrir os olhos?

– Depende. Além de cansados, você os quer aterrorizados? Há vísceras e pedaços de cérebro por todo o lugar.

– MEUS OLHOS NÃO ESTÃO CANSADOS, PORRA!

Ted lambia o sangue que escorria do defunto. Tomei-o no colo e parti. Nunca mais soube dela.

Um conto de Boston – parte 8

Embasbacado, topei com o texto a seguir. Nada de introdução ou saudações e alegorias que o meu alter ego costuma aplicar na abertura de sua redação. Talvez eu já não seja mais seu interlocutor, talvez ele tenha se cansado de mim, ou da falta de mim. Dado o pragmatismo, danço a dança. Reproduzo-o, este manifesto de um homem atormentado e sem audiência, com muita alegria. Afinal, não parece ser por monotonia que um dia nos afastemos.

Atenção aos modos. Todas as frases dirigidas aos superiores hierárquicos, dentro ou fora do ambiente de trabalho, devem terminar com o devido pronome de tratamento. Senhor, senhora, madame. Dá para arriscar um “doutor” sem medo de consequências. Adiciona uns tantos pontos no relacionamento com a chefia mesmo que o sotaque entregue um mero “dotô”. Agora, cuidado. O filho do patrão não deve ser chamado de “dotôzinho”. “Ah, mas você sabe se ele tem doutorado?” Meu amigo, ele tem a sua carta de demissão pré assinada. Melhor não brincar com coisa séria. Aos inferiores hierárquicos cabe o nome ou sobrenome ou apelido. Bom dia, Farias! Como vai você, Tonho? Simone, dá aquela geral na minha mesa por favor? Ordem, mas com cordialidade. Sem conceder muita confiança, porque a cadeia de compartilhamento do medo é fundamental na estrutura das relações laborais. Temente a Deus e ao Bóris do RH, amém.

Empregado que se preza chega 10 minutos antes e sai meia hora depois. Qualquer menção à hora extra vai soar como arrogância. Esquece, cara. Sim, senhor. Antes do trabalho em si há o pré-trabalho, que prepara o trabalho a ser trabalhado. Dá um trabalhão, então meio que faz sentido, por óbvio, chegar mais cedo. Já encaminha aquilo que você mesmo terá que desdobrar daqui a pouco. É um favor que se faz a si mesmo, por isso a empresa não precisa pagar por aqueles minutos. E de lambuja vem o fato de que durante a hora extra o telefone não toca. O profissional esperto é aquele que entende que hora extra é paz. Se todos percebessem isso, dobrariam a jornada. Perspicácia, perspicácia.

“Trabalhadores do mundo, uni-vos”, disse Karl. Tá, e agora? Sindicato, Tribunal Regional do Trabalho, happy hour, amigo secreto. Unidos parece que já estamos, unidos pra cacete até. Lurdinha e o chefe que o digam. E daí? No Brasil, pelo menos, união demais acaba em samba. Se bobear, o segredo é unir menos. “Se a classe operária tudo produz, tudo a ela pertence”, disse também o barbudo do Marx. Bom, aí o caldo engrossa. Já vou facilitar a vida do Pereira do Financeiro e deixar aqui a bomba: a classe operária produz muita confusão. Por isso, a burguesia fica com essa indisposição com os subalternos. Compreensível, né? Se criassem só o produto e não dessem vida aos excessos da reflexão coletiva tudo ia na manteiga. Só que não, os bonitos ainda têm que bater de frente com quem manda. A cultura pop produz conteúdo que faz o cidadão querer se levantar em rebelião. Veja lá, querer não implica em ação. Um bom filme empolga, dá uma chacoalhada na cabeça mas acaba em conformismo. Santo conformismo! Não fosse ele, a gente estaria em constante revolução. Não haveria paz. A gente precisa descansar, de vez em quando. Não é fácil ser patrão num mundo assim.

Trabalhadores do mundo, cooperem! Tirem mais uma soneca!

Eu não deveria saber de nada disso. Tem muita argumentação neste texto, vão acabar me chamando de comunista. A terapeuta garantiu que eu não sou borderline. Impressionante, não é mesmo? A terapeuta. A. Muito trabalho e nenhuma diversão tornam Jack um cara chato. Acho que toda essa dialética aqui serve apenas para provar que não estou convencido de mim mesmo. Um abraço.

Seu Merda

Em honorável memória de Seu Merda, aquele que veio ao mundo em um distante outubro de 1998.

Seu Merda nasceu do conflito, é claro. A cada resposta concedida de forma contrária àquilo que a pergunta desejava obter, seu nome era invocado. “Então você não vai, Seu Merda?” Era melhor mesmo que não fosse, afinal, era um merdinha. O grande inquisidor das perguntas que concebiam a existência conceitual do monte de fezes era ninguém menos que ele, o ideal grego. Astuto e mordaz, o douto do sangue etílico. Existem tantas formas de se experimentar a tristeza na passagem terrena mas, talvez, a mais sádica delas seja a não propriamente declarada. Há algo formado por maior melancolia do que as palavras ácidas daquele que ataca a quem um dia já quis tão bem?

O ser humano tende a manter em mais alta estima aqueles que pensam igual a ele. Daí criam-se as bolhas, polarizam-se os microcosmos e, em consequência, dá-se à luz tantos bostas.

Seu Bosta e Seu Merda são gente como a gente, mas não são a mesma pessoa. Enquanto Seu Merda resgata notas de desprezo com retrogosto de vilania, Seu Bosta remete a desdém encorpado.

O tempo passa e os besouros continuam a rolar as suas.

É fazendo merda que se aduba o mundo, dizem. Por que o cocô de alguns animais servem como fertilizante mas o de outros não? Porque as fezes humanas são algo tão absolutamente asqueroso? Two girls, one cup – trauma profundo e eterno.

Seu Merda continua por aí, a preencher os cantos escuros da escatologia vital. Alguém disse que o vinho pode ser tinto, mas o cu tem que ser rosé. O fato é que, bronzeado ou branco de candura, sempre vai dar merda.

E por falar nele, ontem mais uma vez foi invocado. Cinco da manhã, um estacionamento público e o zunido renitente que perturba o ouvido interno dos embriagados.

– Seu Merda, Seu Merda, Seu Merda…