Bula

Ao homem nascente, em meu nome, que lhe seja recomendado

Antes de tudo que a vida trama
Mas que não há o certo, tampouco o errado.

A família, a tenha por princípio
e a escola para o aprendizado
porém aos amores cuidado, são um perigo!
Haverá quem o ame por seus adjetivos
e quem o faça somente pelos seus predicados.
Que valorize, em tempo, os dias santos entre os de trabalho pois graças a igreja gozará
o seu descanso sempre aos feriados.
Mas se lhe falte a família
ou a escola não o deixe encantado
e se as mulheres não o quiserem por marido
ou para Deus você não reserve o sábado
não esqueça do começo
pois tentarão provar o contrário
e será sua meta ante o destino
provar que não reina a escuridão, tampouco tudo é claro.

Haverá só você, no fim de tudo

tão tranqüilo, mas desesperado.

Convicto que viveu certo, na dúvida se fez errado.

Spray, Sparta, Spyro Gyro

De dentro da cozinha vinha o grito:

⁃ MERDA!

Seguia-se um tapa na bancada. Isso significava que mais um pedido tinha saído errado. O cozinheiro ia à loucura. Tudo tem limite, ou deveria.

Ouvi um cara dizer que era iraniano, simpático às tampas. Cheguei mais perto, falei:

⁃ حال شما چطور است؟

Ele não entendeu. Fui mais perto da sua orelha e repeti:

⁃ حال شما چطور است؟

Ele estalou os olhos. Estendeu o braço e apertamos as mãos.

⁃ Você falou Farsi perfeitamente, sem sotaque. Como sabe a minha língua?

⁃ Ah, cara, eu já fui um negociador de tâmaras por aquelas bandas.

Entusiasmado, passou seu telefone e disse que em duas semanas estaria em Teerã e queria que eu me hospedasse na casa de sua família. Em duas semanas eu completo 35 voltas em torno do sol. A data tão temida. Eu poderia ter explicado que aprendi três frases em Farsi com aquele simpático grupo de iranianos que buscou um avião na TAM em São Carlos, no longínquo ano de 2007. Acontece que eu sempre quis negociar tâmaras. Sucesso garantido.

Duas mesas para a direita e uma moça parecia deslocada. Quando tomei conhecimento da sua história, senti uma pontada no baixo ventre. Exatamente um ano atrás, seu marido a aguardava na sala de estar para que fossem às ruas para uma noite de lazer. Enquanto esperava, decidiu limpar sua arma. Por acidente, ela disparou e ele se foi. Exatos 365 dias atrás. Eles iriam para o mesmo bar. Isso não é triste, meu chapa, é entristecedor. E há grande diferença entre as coisas. É necessário dominar a língua para traduzir a melancolia.

Procurei meu celular e enviei algumas mensagens de amor aos entes queridos. A gente nunca sabe.

Na América o verão é desejado, mas se mantém desdenhoso. Ele sempre passa. Por isso há tanta vida nas calçadas, nos pátios, nos parques. As pessoas aproveitam porque sabem que acaba. O oposto do que costumam fazer nos relacionamentos. Pensam que é para sempre. E já dizia a Cássia Eller…

Carrego uma lista de expressões para brindar em diferentes línguas.

Nazdrave, em búlgaro. Nazdarovia, em russo. Parecido, mas não vá cometer e lambança de dizer que é tudo igual. Ofensa na hora de encher a cara pode resultar em um dente quebrado. Ou abandono. Zivelji em croata. Aí você deve estar se perguntando porque tantas expressões vindas do leste europeu. Deixa isso pra lá, come on!

Bebendo rum puro com a Larissa na Tailândia em uma sarjeta de Bangkok, fomos abordados por duas garotas.

⁃ Oh, vocês bebem muito!

⁃ Err, obrigado?

⁃ Não estamos acostumadas a ver uma garota beber assim com tanta liberdade. Temos até uma expressão para isso. Lumyong, significa moça bonita que bebe whisky.

Hoje é sábado, amanhã é domingo, nada como o dia para passar. Saravá, Vinicius. Como não sou uma árvore e não crio raizes – só razões – posso sempre me levantar e caminhar. E mudar, de cor, de opinião, de amigos e de motivos. Cobra que não muda de pele morre.

Desobediência servil

Tem coisas que não se conta para ninguém, mas se descreve em detalhes.

O ambiente de trabalho e suas paredes de confinamento silencioso, as correntes da escravidão financeira, as alterações hormonais que se dão espontaneamente, a confissão anônima da proletária que digladia com as horas esparsas por um salário apequenado. 

Era uma outra tarde inexpressiva, sob a luz artificial do shopping center que recebia as madames de sempre e os príncipes de nunca. O ar condicionado a resfriar-lhe a cútis e o tédio a afugentar a esperança. Rompiam quatorze horas do dia e a hora de saída, da almejada troca de turno, parecia uma famigerada utopia. Passavam as mães de mãos dadas com os filhos e homens desatentos a tropeçar enquanto usavam seus smartphones.

No balcão dela ninguém se debruçava e o telefone sobre ele havia tocado, a última vez, lá pelas 10 da manhã.

Era um retumbante abismo de desinteresse. O colosso do enfado ocupacional.

A atendente, além do trabalho de meio período, ainda ajudava nas tarefas domésticas. O que mais ela poderia fazer? O que mais ela poderia querer? Pais conservadores, resignados na palavra do santíssimo. Às vezes, ela suspeitava que seu pai escapava da estrada do matrimônio. E era uma derrapada de ré. Do que mais ela poderia duvidar? Com o tique-taque insistente, ela planejava o que seria da noite. Seria sopa outra vez? Após a refeição, lavava os pratos e saía para andar com o cachorro, esse era o truque para se encontrar com aquele sujeito estranho que veio de algum lugar que não se recorda mais. A amnésia repentina é uma grande aliada para uma vida feliz. Ela não dava grande importância, afinal, ele não a tratava como deveria. O rapaz tinha a mão pesada para aplicar tapas na sua bunda, mas uma língua débil que não lhe garantia prazer. Voltava com as nádegas vermelhas quase a sangrar e com um vazio no peito do clímax não alcançado. Não era amor, tampouco paixão. Ela tão somente satisfazia a carne com um homem postiço que, por ora (e como é de praxe no universo masculino), não lhe negava fogo.

O último encontro havia sido decepcionante e só de lembrar já lhe ocorria uma sensação angustiante de dúvida: será que seria assim de novo? Será que continuaria a ver navios enquanto o seu permaneceria encalhado? 

Acontece que os homens, a maioria, tendem a, quando já acostumados ao terreno, minimizar suas potências no campo de batalha.

Antes, o repertório completo era:

O sujeito a fazia gozar. Gozava depois. Tinha repeteco. Ficavam abraçados e de chamego.

Mas, com o passar do tempo, o macho começa a se acomodar. Preguiça ou falta de vontade? Enquanto isso, afundam-se as mulheres na areia movediça do desamparo.

E ela era uma mulher comum. Todas são. Os homens todos são comuns também. Ninguém é especial e nem um pouco não-especial. As pessoas são um grande conjunto de organismos iguais que necessitam de ar para respirar e comida para gerar energia e água para equilibrar e orgasmos para viver. Somos idênticos no pressuposto do êxtase fundamental, acontece que alguns passam por doutrinação negacionista e daí…

Franzina, a donzela de pernas finas entrega a devassidão nos trejeitos safados que se camuflam em brincadeiras. Está sempre a provocar com sutileza, está sempre a um passo de se embebedar nos pecados. Seus braços finos foram um dia comparados, por ela mesma, com um membro viril e duro.

Será que o seu é da mesma grossura que o meu?

Embriagada ela se veste da sua melhor versão. O corpo todo reluz em tom acetinado, meio caminho entre o branco das nuvens e o bege do trigo virgem. Fosse uma bebida, seria a cerveja Weiss, refrescante e com sabor de cravo, envolvente, com uma cor amarela intensa e nada translúcida, é claro. O corpo da bebida esconde seus mistérios. A mais pura idealização da castidade, essa mulher esconde um imenso apetite sexual que a persegue durante o horário de serviço. Basta vestir o uniforme, observar os visitantes do centro comercial e pronto. Sua mente viaja sem amarras, visita os campos proibidos que ela tanto sonha em conhecer e as coisas das quais fora privada durante toda uma vida. Quer se lambuzar, algum dia, se assim o destino lhe permitir. É aquele tipo de par perfeito que obriga o colchão a ser virado após horas sobre ele, a fim de que seque o suor da selvageria.

A frustração da última noite medíocre lhe causava um quê de má vontade em relação a encontrá-lo novamente. Suspirava em desmantelo. Era melhor não pensar muito nisso, tinha eventuais clientes a atender e não queria ser obrigada a disfarçar um sorriso amarelo.

A garota tem os dentes da frente separados e, segundo uma ancestral filosofia, é esse o indicativo da mais avassaladora tormenta sexual em uma mulher.

Ela, tomada pelo calor de um gozo represado e ansiosa por entreter-se, conformou o cotovelo sobre o balcão e os quadris no desconforto de um banco alto. Segurava o queixo com a mão direita.

O tempo indelével trouxe uma jovem mulher, loira e de coxas firmes, quadris estreitos e bunda empinada, a desfilar em sua frente. A beldade estava acompanhada.

A solitária vendedora, de pronto se acendeu em rebolados. Pôs-se a cobiçar o dorso de dois corpos que se colocavam entre uma dada vitrine e ela que, por sua vez, continuava encarcerada no quiosque de vendas. Aquela ilha onde habitava uma náufraga da luxúria.

O casal não sabia, mas conseguira fazer sua mente desocupada começar a trabalhar. Um milagre. Se faltavam consumidores, por outro lado uma chama a consumia pelo estômago e fazia a virilha esquentar e o vão entre-coxas umedecer.

Seus pensamentos foram rapidamente multiplicando:

Como será que eles transam? O que será que ele faz nela? Ela tem cara de quem goza regularmente. Será que eles realizam fantasias? Será que eu devo realizar as minhas enquanto há tempo? Será que eu quero ser um casal ou ficar solteira?

Inundada pelo furor de um sentimento despudorado, a vontade lhe perturbou o juízo. Pôs-se a imaginar a carne rude daquele homem a penetrar o talho rosado da sua mulher. Involuntariamente, todo o caminhar era fascinante. O balanço dos glúteos alheios sequestrava o que havia de restante autocontrole na heroína trabalhadora.

Passeavam com seus músculos apertados contra o tecido da roupa chamativa. As silhuetas revelavam a proeminência dos seios, o volume do caralho. Contornos iluminados que serviam de inspiração para uma comum atendente. Não se conteve. A operária dera vazão à sua libido, desabotoara a calça jeans e deslizara alguns dedos dentro da calcinha. Tocava-se e introduzia o dedo médio para averiguar o seu estado corrente. Escondia-se sem preocupação, ninguém poderia imaginar aquilo. Às suas costas a escada rolante continuava a rolar, cheia de homens gordos com sorvete na mão e os olhares fixos nos espelhos do teto. A distração do mundo ignorava os instintos da voyeur exibicionista.

Sua mente figurava o tamanho do membro dele, o estilo de depilação dela. Como será que eles ficavam quando nus? Vermelhos, pálidos?

Pensou em pedir aos dois que concedessem a dádiva de assistir a uma foda bem dada. Ali, na sua frente, ao vivo, enquanto se masturbaria em honra aos gritos terceirizados.

– Oi, posso ver vocês transarem?

A cabeça lhe permitia ousar e em seu sonho desperto ela, inclusive, se colocou entre eles, revezando entre ser lambida, ser penetrada, usar a boca entre sexos.

Entorpecida pelo tesão, continuou a girar os dedos contra o clitóris inchado. Sua calcinha não pôde segurar o néctar e nas coxas já podia sentir o escorrer do maná. Os dentes rangiam e os lábios tremiam. Queria gritar, mas se segurava em sussurros fugidios. Os olhos perdiam o rumo e, descontrolados, viraram ao cerrar das pálpebras. A outra mão, sobre o balcão, contraía a tal ponto que rachou o lápis que se prendia entre os dedos. As penas dobraram com força e pressionaram as hastes da cadeira. Os lábios poderiam sangrar com os dentes que se lhes cravaram.

Com seguidas contrações abdominais, veio um furioso orgasmo.

Sacudindo a cadeira, de dentro do seu cubículo profissional ela entregou ao universo uma cachoeira de júbilo sensual.

Ousada. Absoluta. Quase desacordada, deitou a testa sobre o escuro mogno do balcão, afastando o teclado do computador.

Recuperou o fôlego, fechou o zíper, arrumou os cabelos para trás e levantou a cabeça.

Olhou firme ao horizonte e sorriu. Sorriu como nunca antes.

Ela já não era mais a mesma.

Sobre ver estrelas

Galileu em sua alcova
com a Lua em pleno arcano
ao deleite de uma dama
incendiou-se feito o Astro


Profano, mas virginal
deu de ombros para o cosmos
entorpecido em certo grau
que lhe governavam as vontades
de uma cabeça inconsequente
de Príapo a semelhança
fálica e sensual


Apaixonado pela cona
debruçou-se sobre a fenda


Com efeito, toda sua
oh nascedoira do orvalho
veluda, embora nua
muda em forma pura
com lábios que a protegem
por um talho separados


Se de frente irriga a vida
de soslaio a sacia
em lampejos do furo livre
desta carne libertina
tão onírica
qual riquíssima
que lhe abunda a poesia


Devassidão celestina, ópio nefelibata!


O acrobata se eleva quão faminto a devora
avante se esmera e a fundo nela ancora
o membro que pulsa rijo na gruta por onde chora


‘Onde?’ – invoca o bode
Ela sussurra – ‘em mim!’
sobre a cama em deleite na pele hirsuta, constelado
o sátiro, comovido, derrama o leite
em um útero anavalhado


Asceta? Amava a vulva de si acima
que o fazia ver estrelas ou arder feito cometa
qual modo iluminado
que inventou a tal luneta

Asas, grappa e neurônios fumegantes

Todos os dias, entre sete e oito horas da manhã, uma abelha adentra a cozinha da minha casa. Já a vi durante toda a semana em seu vôo silencioso e rudimentar. O trajeto é sem saliências, de fora para dentro, direto à fonte. A pequena pousa na torneira da pia e bebe água. Longos goles, parece que está de ressaca. Talvez esteja, afinal, não existem flores que fermentam e produzem um néctar inebriante aos animais? Vai saber.

De tanto trombarmos, hoje dei bom dia.

Graças ao esforço individual de carregar as águas que a comunidade precisa para manter o funcionamento saudável, a colméia prospera. Dada a bravura em socializar a minha torneira, inspirei-me em tocar música para a Matilde. Ah, sim, quase me esqueço de mencionar que também a batizei. Do alemão maht, que significa “força”, e hild que quer dizer “batalha”, um nome como “guerreira forte” vem bem a calhar. Lecuona Cuban Boys, o grupo a romper o plácido silêncio e prestar as boas vindas à ilustre visitante, executando seu Mambo de Jaruco com alegria. Pisei para trás com um pé, depois o outro, balançando os ombros, passos agora para cá e para lá, sempre iniciados com o pé esquerdo e para o lado esquerdo. Ora, convenhamos, a música é cubana e a minha água foi tornada pública, eu queria me manter coerente e não atrair mau agouro. Vai saber.

Primeiro o fascínio, depois a vontade de agradar.

Procurei o saco de açúcar para preparar, com água, uma mistura docinha que a fizesse ficar. Típico pensamento de um completo pamonha. Abelha não é beija-flor e restaurante que serve farofa não tem ventilador, já dizia o sr. Domingos. Percebi a tamanha sandice e desisti da pamonhice. Imagine só se a abelhinha pudesse falar e se desse a, em tom jocoso e impiedoso, comparar as propriedades organolépticas do açúcar frente ao mel viscoso que escorre de seus favos. “Você sabia que, de moeda de troca a agente viciante da indústria moderna, o açúcar dominou o mundo e não exclusivamente de uma maneira virtuosa, meu senhor?”. Simulei a situação e, dada a vergonha telepática, pedi desculpas em voz alta.  Antevi o sermão ilustrado por uma entonação indignada. Vai saber.

Matilde partiu e eu me sentei. Que onda, voar para beber água!

Completamente destoante da parábola, abri meu cantil e tomei um saboroso gole de grappa. Há poucas coisas que uma boa grappa não cura. Tuberculose, por exemplo. Antigamente, ia-se para as montanhas a fim de respirar ar puro. Ali o sujeito ficava até que melhorasse, ou não. Hoje, há antibióticos. Mas grappa não serve, uma pena. Para devaneios da alma e elucubrações desvairadas, aí sim, a aguardente feita a partir do bagaço da uva é um santo remédio, não por abrandar os pulsos lancinantes que tomam a mente de assalto, mas por incendiá-los. O pensamento, quando atiçado por fome técnica e respeitosa aos padrões normativos de tudo o que e é cativo e cheio de pesadume, é de um tédio embaraçosamente constrangedor ao passo que, por outro lado, quando inflamado por poesia e contemplação vertiginosa do abismo, produz conteúdo que tão somente outro espírito livre pode, ao ler, reconhecê-lo. Logo, eu, poeta que me pretendo, prefiro grappa a Azitromicina. Vai saber.

Gotas de álcool no sangue, aroma de gengibre frito no ar. Eis a fórmula do livre pensar.

Da manhã apiária para o meio dia foi um pulo. O almoço borbulha e eu me alimento, por ora, de um grande ressentimento junto a Deus. Ainda que eu possa, com muita vontade, argumentar sobre como o Todo-Poderoso é mesquinho em não conceder asas aos seres humanos, não é a incapacidade de voar o que causa a insatisfação. Agora, verdade seja dita, poderíamos negociar uma habilidade qualquer por longas asas cobertas por penas. Talvez os polegares opositores, ou então um terço da habilidade sapiens. Vai saber.

Deus pede aos seus seguidores que façam mais do que apenas seguir. Devem pregar, devem semear, devem agir com a prudência e pautados pela providência, a divina, é claro. Ecce exiit qui seminat, seminare, diz Cristo, que “saiu o pregador evangélico a semear”. Muito bem, assim seja feita Sua vontade. Acontece que, quando sai, sai mesmo. Sai e deixa o lugar vazio. Acorda, levanta e se vai de casa a semear deixando todos com saudade. O mérito da questão não é o religioso, uma vez que, por certo, sua casa já há de estar muito bem semeada e estabelecida sobre os alicerces firmes do Redentor. O xis da questão é o sair e não mais estar lá. Não sei vou ou se fico, não sei se fico ou se vou. Se vou eu sei que não fico, se fico sei que não vou, e lá vamos nós, cultura popular adentro. Ainda criança fui confrontado com a necessidade de escolha: “você quer morar com seu pai ou com sua mãe?”. Eu queria morar com os dois e, é bom que se diga, morar sozinho também! Mas não, o mundo tem que ser binário na sua materialidade física e eu, condenado a esta carne, a aceitar tal patranha de ter sido feito à imagem e semelhança Dele mas, sabe-se lá por qual motivo, não gozar de alguns benefícios. Vai saber.

Onipresença, por mil demônios! Vivi demais, visitei lugares e reconheci amigos em demasiado para aceitar que só me compete uma experiência singular de existência. Nem membros alados, nem cognição crítico-reflexiva, o que queria era ser múltiplo. Continuar a estar e a não me despedir. Não verter mais lágrimas de saudade. Mas Ele, na sua arte, preferiu que não. Vai saber.Tudo bem, eu aceito as coisas como são, no fim das contas. Saímos todos a semear, cada um com seu cada qual, a depositar suas pequenas contribuições pelo globo. A Matilde com toda aquela galhardia de produzir o alimento que abunda na terra prometida, eu com a minha letra rebelde e os pregadores com a mensagem do Criador. Acostumemo-nos com essa onda incessante de adeuses ou, por outro lado, finquemos os pés aqui de uma vez por todas. Uma coisa é certa: Nec revertebantur, cum ambularent: “Uma vez que iam, não tornavam”. – pois não eram mais os mesmos.