Um conto de Boston – parte 2

Parece que há grande prazer no jogo das migalhas jogadas ao léu. Passou-se uma semana, a sexta-feira chegou, e havia mais um papel dobrado sobre o banco que dá para os trilhos da estação ferroviária norte de Boston. O local era o mesmo, a minha surpresa foi a mesma. Outro recibo semanal, um resumo da jornada de um alguém que eu sequer sei se me observa à distância. Não posso manter para mim estas palavras que seguem. Se guardasse ou jogasse fora, daria no mesmo, mataria a história por omissão. Algo me sussurra a necessidade de compartilhar a voz alheia. O antes despretensioso papel dobrado agora tinha apresentação:

“A quem interessar possa…

Começo me redimindo da deselegância. Garanto que não derrubarei comida nenhuma sobre esta folha. Quando era mais novo, meu irmão me ensinou um truque para conferir mais idade a uma carta. Você derrama chá mate sobre a página e depois queima levemente as bordas a fim de conferir um aspecto ancestral ao papel. O chá dá um tom amarelado de coisa antiga. Meu pai é já um senhor de idade, mas não é pela cor que entrega a idade. É antigo, mas não é amarelo, é branquinho. Não cora as bochechas nem quando mente ou quando fala umas sem-vergonhices. Senhor do bem, velhinho dos bons. Se tem um fato que me dá uma ardente alegria, esse é o do meu genitor não se conformar com a minha escrita. Onde ele procura romance e rimas fesceninas tem encontrado relatos crus do dia-a-dia. Daí ele me presenteou antes de ontem. Disse que o tripé por onde se equilibra o meu pensamento é formado por mordacidade, ironia e cinismo! Pater Deo, meu pai que é deus!

Faz um frio danado hoje. Semana passada o termômetro marcava -1,1°C, hoje está em -4,4°C. Será que dá sorte esses números repetidos? Sorte para o cara que vende luvas na entrada da estação, sem sombra de dúvida. Eu contei para o terapeuta que tinha ganhado tais elogios do meu pai e ele provocou se ironia e cinismo não eram a mesma coisa. Respondi verbalmente que não, balançando a cabeça de cima a baixo demonstrando “sim”. Cinismo é a doutrina filosófica grega que estabelece as vantagens de uma vida simples e natural, cujos valores principais eram buscados no desapego às normas sociais, bens e riquezas, sendo efetivada através do autocontrole. Cínico, portanto, é quem demonstra desprezo pelas normas sociais ou pela moral estabelecida; atrevimento, descaramento, despudor.

Reparei há pouco que duas verdades hão de se perpetuar ad eternum: o açúcar é uma coisa que deixa o café muito amargo quando nele não é posto e que a situação no Brasil é grave, mas não é séria.

A vida aqui nos Estados Unidos é tranquila com pitadas de alerta, mas os perigos são outros. Na terra do tio Sam há os assassinos em série, uma gente que sofre de patologias da psique e que põe em prática atos violentos contra outros humanos ou animais. Mês passado executaram um tal de Ted Bundy, o cara era um facínora. Fritaram o cara na cadeira elétrica. No Brasil a gente não sofre desses medos, mas, por outro lado, parece que às vezes somos comandados por psicopatas referendados pelo próprio povo. É cada uma. A vida não é de brincadeira, embora possa ser muito divertida. O que confunde é que costumamos levar farra a sério e o que é importante na piada. No último sábado, resolvi mimetizar os grandes escritores da sarjeta e tomei um porre com requintes de romance. Bebi todo vinho que comprei, três litros, e fumei dois maços de cigarro na companhia de duas atraentes damas. Uma delas era loira e de baixa estatura, a outra de longos cabelos negros e quase da minha altura. Eu tenho um metro e noventa centímetros, ela 1,85. A baixinha era um pedaço de mau caminho, a outra era o caminho inteiro. Encontrei-as na mesa ao lado e levantei a minha taça em um brinde simpático. Sentamos juntos e não nos apresentamos. Tombo as palavras sobre este papel sem poder dar-lhes nome ainda que as tenha carregado em lembranças vívidas sobre o tecido vermelho que me recobre os lábios. Ao me dirigir à mesa vizinha, afastei a terceira e vazia cadeira e estendi minha mão dizendo boa noite. Sem que se levantassem, cada uma me puxou e me beijou na boca. Fiquei entusiasmado. Elas tinham um sotaque diferente, mas a embriaguez compromete a lembrança da nacionalidade. Devem ser russas, eles beijam na boca por lá ao se cumprimentarem, eu acho. Não faço ideia, tampouco importa, não tenho planos de visitar o leste europeu tão cedo. Uma pena. Conheci uma russa uma vez, eu amava conversar com ela. Ouvia, ouvia e ouvia. Ávida por beber do meu conhecimento, modéstia à parte, que nutro com longos goles nas fontes imortais dos gregos aos contemporâneos. Até que um dia lhe perguntei sobre um assunto tal: “o que você acha disso?” Ela respondeu “até que enfim você quer saber a minha opinião sobre algo”. Aquilo foi um banho de sabedoria, não a opinião em questão sobre um determinado assunto, mas a lição de que eu a deveria ouvir também. Desci do meu degrau de orador intocável e aprendi mais com ela, que tinha extenso tesouro intelectual guardado dentro da mente. Já no sábado, bêbados e tresloucados, a conversa foi outra. Em dado momento, uma delas passou a querer divagar sobre assuntos que ela não conhecia, mas eu sim. Calei. Era um suplício e eu estava fumando cigarros. Eu não fumo cigarros. Quis impressionar. Já se foram seis dias desde aquele encontro e eu continuo a tossir feito cachorro. Será que os cães satirizam uns aos outros dizendo que estão com tosse de humano? A necessidade de expressão da moça era tanto que não aguentei, remanejei o tema. Ela insistia. Recusei a réplica, ela se ofendeu. Bebi o último trago, saudei as donzelas e parti. Contei para o terapeuta e ele fez o que faz de melhor, desnudar as minhas inconsistências prático-teóricas. Que grande filho da puta. Eu ou ele? Os dois. Fiquei vulnerável, logo eu. Todo tolo gosta de ouvir que é importante. Eu prefiro os insultos, são mais palpáveis.

Será que alguém encontrou a carta que deixei aqui, neste mesmo banco, há sete dias? Será que foi parar no lixo? Observo os transeuntes e eles parecem muito distantes. Não como os meus parentes que estão separados por milhares de quilômetros geográficos, mas afastados em presença. Alguns parentes são ótimos justamente à distância, mas um fracasso na convivência próxima. Os usuários do trem olham com estranheza o chumaço de papel e a garrafa de café que levo a tiracolo. Desde que li um tal filósofo indagar “devo tomar café ou me matar?”, agarrei-me ao filtrado. Talvez soe inocente, mas é científico: há de se estar vivo para beber café. Puta sacada. Ainda assim, escrevo a eles, com eles, por eles. Quiçá sou lido, com certeza preterido. Bukowski tem me matado, por fora. Por dentro, enche de ganas para registrar acontecimentos. Externamente, faz com que eu sinta glamour no álcool e no cigarro. Preciso de um xarope – ah! Que saudade da água de coco do Brasil! O café acabou e o nariz começou a escorrer. Finalizo com efusivas saudações ao primeiro que percorrer estas linhas, mesmo que sejam os micróbios que habitam os latões de despejo reciclável. Escrevo para todos e para ninguém.”

Asas, grappa e neurônios fumegantes

Todos os dias, entre sete e oito horas da manhã, uma abelha adentra a cozinha da minha casa. Já a vi durante toda a semana em seu vôo silencioso e rudimentar. O trajeto é sem saliências, de fora para dentro, direto à fonte. A pequena pousa na torneira da pia e bebe água. Longos goles, parece que está de ressaca. Talvez esteja, afinal, não existem flores que fermentam e produzem um néctar inebriante aos animais? Vai saber.

De tanto trombarmos, hoje dei bom dia.

Graças ao esforço individual de carregar as águas que a comunidade precisa para manter o funcionamento saudável, a colméia prospera. Dada a bravura em socializar a minha torneira, inspirei-me em tocar música para a Matilde. Ah, sim, quase me esqueço de mencionar que também a batizei. Do alemão maht, que significa “força”, e hild que quer dizer “batalha”, um nome como “guerreira forte” vem bem a calhar. Lecuona Cuban Boys, o grupo a romper o plácido silêncio e prestar as boas vindas à ilustre visitante, executando seu Mambo de Jaruco com alegria. Pisei para trás com um pé, depois o outro, balançando os ombros, passos agora para cá e para lá, sempre iniciados com o pé esquerdo e para o lado esquerdo. Ora, convenhamos, a música é cubana e a minha água foi tornada pública, eu queria me manter coerente e não atrair mau agouro. Vai saber.

Primeiro o fascínio, depois a vontade de agradar.

Procurei o saco de açúcar para preparar, com água, uma mistura docinha que a fizesse ficar. Típico pensamento de um completo pamonha. Abelha não é beija-flor e restaurante que serve farofa não tem ventilador, já dizia o sr. Domingos. Percebi a tamanha sandice e desisti da pamonhice. Imagine só se a abelhinha pudesse falar e se desse a, em tom jocoso e impiedoso, comparar as propriedades organolépticas do açúcar frente ao mel viscoso que escorre de seus favos. “Você sabia que, de moeda de troca a agente viciante da indústria moderna, o açúcar dominou o mundo e não exclusivamente de uma maneira virtuosa, meu senhor?”. Simulei a situação e, dada a vergonha telepática, pedi desculpas em voz alta.  Antevi o sermão ilustrado por uma entonação indignada. Vai saber.

Matilde partiu e eu me sentei. Que onda, voar para beber água!

Completamente destoante da parábola, abri meu cantil e tomei um saboroso gole de grappa. Há poucas coisas que uma boa grappa não cura. Tuberculose, por exemplo. Antigamente, ia-se para as montanhas a fim de respirar ar puro. Ali o sujeito ficava até que melhorasse, ou não. Hoje, há antibióticos. Mas grappa não serve, uma pena. Para devaneios da alma e elucubrações desvairadas, aí sim, a aguardente feita a partir do bagaço da uva é um santo remédio, não por abrandar os pulsos lancinantes que tomam a mente de assalto, mas por incendiá-los. O pensamento, quando atiçado por fome técnica e respeitosa aos padrões normativos de tudo o que e é cativo e cheio de pesadume, é de um tédio embaraçosamente constrangedor ao passo que, por outro lado, quando inflamado por poesia e contemplação vertiginosa do abismo, produz conteúdo que tão somente outro espírito livre pode, ao ler, reconhecê-lo. Logo, eu, poeta que me pretendo, prefiro grappa a Azitromicina. Vai saber.

Gotas de álcool no sangue, aroma de gengibre frito no ar. Eis a fórmula do livre pensar.

Da manhã apiária para o meio dia foi um pulo. O almoço borbulha e eu me alimento, por ora, de um grande ressentimento junto a Deus. Ainda que eu possa, com muita vontade, argumentar sobre como o Todo-Poderoso é mesquinho em não conceder asas aos seres humanos, não é a incapacidade de voar o que causa a insatisfação. Agora, verdade seja dita, poderíamos negociar uma habilidade qualquer por longas asas cobertas por penas. Talvez os polegares opositores, ou então um terço da habilidade sapiens. Vai saber.

Deus pede aos seus seguidores que façam mais do que apenas seguir. Devem pregar, devem semear, devem agir com a prudência e pautados pela providência, a divina, é claro. Ecce exiit qui seminat, seminare, diz Cristo, que “saiu o pregador evangélico a semear”. Muito bem, assim seja feita Sua vontade. Acontece que, quando sai, sai mesmo. Sai e deixa o lugar vazio. Acorda, levanta e se vai de casa a semear deixando todos com saudade. O mérito da questão não é o religioso, uma vez que, por certo, sua casa já há de estar muito bem semeada e estabelecida sobre os alicerces firmes do Redentor. O xis da questão é o sair e não mais estar lá. Não sei vou ou se fico, não sei se fico ou se vou. Se vou eu sei que não fico, se fico sei que não vou, e lá vamos nós, cultura popular adentro. Ainda criança fui confrontado com a necessidade de escolha: “você quer morar com seu pai ou com sua mãe?”. Eu queria morar com os dois e, é bom que se diga, morar sozinho também! Mas não, o mundo tem que ser binário na sua materialidade física e eu, condenado a esta carne, a aceitar tal patranha de ter sido feito à imagem e semelhança Dele mas, sabe-se lá por qual motivo, não gozar de alguns benefícios. Vai saber.

Onipresença, por mil demônios! Vivi demais, visitei lugares e reconheci amigos em demasiado para aceitar que só me compete uma experiência singular de existência. Nem membros alados, nem cognição crítico-reflexiva, o que queria era ser múltiplo. Continuar a estar e a não me despedir. Não verter mais lágrimas de saudade. Mas Ele, na sua arte, preferiu que não. Vai saber.Tudo bem, eu aceito as coisas como são, no fim das contas. Saímos todos a semear, cada um com seu cada qual, a depositar suas pequenas contribuições pelo globo. A Matilde com toda aquela galhardia de produzir o alimento que abunda na terra prometida, eu com a minha letra rebelde e os pregadores com a mensagem do Criador. Acostumemo-nos com essa onda incessante de adeuses ou, por outro lado, finquemos os pés aqui de uma vez por todas. Uma coisa é certa: Nec revertebantur, cum ambularent: “Uma vez que iam, não tornavam”. – pois não eram mais os mesmos.

Lá menor

– Vou tocar algo que dominei recentemente a execução, quero que escute.

– Um clássico?

– Sim, de Tárrega. Acredito que já o conheça.

– O compositor?

– Os dois. Autor e canção.

– Ora, pois vá em frente. – disse e ergui o copo de cachaça em direção à boca do violão.

Meu amigo gostava muito da aguardente feita de cana de açúcar, embora mantivesse, por ideologia sine qua non da sua existência, um viés político ao consumi-la. Haveria de ser pinga barata, daquelas que os mendigos bebiam.

– É uma peça lenta de música, traz uma sensação triste, obscura…- disse ao iniciar os acordes.

O fantástico dos sentidos sensoriais é a memória mais intrínseca a eles ligada. O senhor Maggio era um velho italiano cheio de classe, vivia com um lenço amarrado em volta do pescoço e tinha os seus óculos escuros sempre sobre os olhos, com hastes marrons e lentes aviadoras no melhor estilo velha guarda. Dominava o violão com astúcia e era pouco chegado aos papos mais sentimentais sobre a psique humana. Mas, como eu dizia, os estímulos sensoriais, nas pessoas dotadas de lirismo inato, causam um alçar de lembranças. Minha irmã se lembrava do meu pai ao sentir o cheiro de hortelã e ela também costumava dizer que aroma de café torrado é o sentimento de meio dia e, por isso, de fome. Vai entender, já quereria Shakespeare que há mais coisas entre o céu e a terra…; as cordas prosseguiram o exalar de tons.

– Repare como a seção seguinte já pula dos efeitos melancólicos para os ornamentos que florescem em beleza. – sr. Maggio descrevia sua filha recém nascida sem interromper o carinho que dedilhava com maestria. A cachaça, retirada fria do balde de gelo, suava pelas paredes sextavadas do seu copo americano. Causava-lhe grande prazer aquilo que fosse o mais barato, a marca da bebida, por exemplo, era Caranguejo. Ardia levemente na garganta ainda que fosse adoçada, tinha seus 40% de álcool e levava o consumidor brevemente ao caminho ébrio dos delírios.

Tudo o que se percebe com clareza parece ficar ainda mais claro quando sob efeito – inicial – das substâncias entorpecentes. A transição da sobriedade para a embriaguez, logo na sua fronteira limítrofe, é um dos momentos mais felizes, misericordiosos, generosos, fiéis e esperançosos que a alma humana conhece. É quando o indivíduo vai ao toalete e se pega a encarar o espelho, sorriso aberto, pálpebras a meio-mastro e boca a pronunciar “você é foda”. Não há um noveau bourré que possa inspirar outra coisa senão otimismo.

– Sr. Maggio, qual o nome da música? A reconheço pela melodia mas não faço ideia do título.

– Esta é Marieta, camarada.

Camarada, detalhe sutil de uma personalidade ímpar. Existem os que usam o substantivo por costume, como os cariocas, e aqueles que o fazem por questões ideológicas. O sr. Maggio era comunista. Enquanto tocava, sua boca ficava aberta e eu tinha medo que uma mosca entrasse ou uma gota de saliva escorresse. Seria embaraçoso. Executava a peça artística e seus olhos não se moviam, vitrificados em um ponto qualquer do horizonte para baixo, fato que eu podia constatar pois seus óculos escorregavam, insistentemente, à metade do nariz.

– Perceba agora como a música evolui para um trecho nitidamente feliz, eufórico como que por anunciar a chegada de um rei.

– Um rei… o que o senhor acha dos monarcas?

– Uns filhos da puta, eles são. Cagam sobre nossas cabeças em tronos de ouro e ainda pagamos pelo papel com o que limpam as suas bundas reais.

Já percebia que ele terminava a partitura e a iniciava novamente, em um repetir eterno daquela obra tão macia aos canais auditivos. Quanto mais ele tocava, mais o corpo desejava dançar. Suas mãos ágeis subiam e desciam pelo braço do violão e os dedos encenavam um balé. Plié, tendu, jeté, rond de jambe, um espetáculo sobre os fios de nylon. Sim, os de nylon causam sensações como lambidas no tímpano e quanto a isso não há dúvidas, enquanto os de aço parecem ser mais frios e impessoais, como de menos gentileza ou ao menos simpatia. Seus pés batiam de encontro ao solo a ditar o ritmo, minha cabeça balançava de um lado ao outro como se jogada pelo balanço do mar e os meus joelhos pareciam querer desenhar algo entre as pernas. Talvez seja só eu, divagando ainda sobre a etílica corda bamba estendida sobre o abismo existencial.

– Diga-me, meu jovem, seria esta melodia algo afinado para o momento da cópula?

– Decerto que não, sr. Maggio. A composição carece de maior intensidade para que se pudesse recomendar ao cenário de quando se põe nu frente a uma dama. Por outro lado, fantasio com imensa nostalgia um jantar romântico embalado por tal sublime recital. Haveria de incendiar ambos os corpos e prepará-los para o que se seguiria em labaredas.

O velho sossegou o toque e alcançou sua bebida. Deu um trago e soltou um som de satisfação do fundo da garganta. Desamarrou o lenço que trazia no pescoço, enxugou a testa, retirou as lentes e as desembaçou. Antes de voltar a cobrir as pupilas ainda drenou o suor que se acumulava na região ocular. Suava feito tampa de panela, como se dizia na boca pequena. Empunhou sua ferramenta e me olhou em longa pausa contemplativa. Aguardei pacientemente o instante do artista, que então retomou a música enquanto dizia:

– “O violão, em sua simplicidade, mesmo quando o pinho tosco se cobre de vernizes e arabescos em madrepérola e pedrarias, parece ter sido criado para a linguagem sonora e sincera dos simples; dos que sofrem e se queixam, dos que acreditam na poesia das frases musicais; dos que estão sós e precisam falar consigo mesmo sem parecer que estão loucos; dos que não sabem declarar o seu amor como os demais; dos que precisam fugir a realidade, seca por demais para ser aceita sem um pouco de harmonia…”

Não esperava aquela surpresa em forma de curto discurso.

– Este é um trecho da contracapa do disco “Abismo de rosas”, de Dilermando Reis, escrito por Nazareno de Brito, que em poucas palavras, tenta descrever o que o violão representa para nós. – disse o velho ao oferecer um brinde com sua cachaça barata e democrática.

Assim, uma vez mais e com muita habilidade, o sr. Maggio me felicitou com sua amizade e alcance intelectual. A vida, é necessário que se diga, necessita de uma musa, de bons livros, de um trago e de um amigo. E para exaltar toda criação, o canto de um violão.