Polegadas

Maria foi uma boa esposa durante uma das quatro estações do ano. Casou-se com Alfredo apesar do nome em desuso. Ela imaginava como foi a adolescência de um garoto chamado Alfredo e ele elucubrava como teria sido a infância dela sem pai. Cada um nos seus pensamentos particulares, porque eram ofensivos demais para servir à mesa. Maria não andava bem e esquecia a tampa do vaso levantada. Maria dormia com a boca aberta e roncava, mas Alfredo achava aquilo fofo. Fofo, mas insuportável, por isso ele a cutucava com o cotovelo. Casaram-se no outono, quando as folhas caíam. O caminho era poético, na antessala do renascer florido. No inverno, Maria não aguentava. Suspeitava do marido e roía as unhas que já eram curtas. Feria as cutículas e então tomava vinho. Alfredo a encontrava bêbada, desacordada, reclamando do vizinho. Ela sequer conhecia o vizinho. Moravam distante da família e não havia corrida para colo nenhum que resolvesse. Eram os dois, um para o outro, não importa o que acontecesse. Alfredo a amava e o amor é aquilo que o aquecedor faz nas noites mais frias, mesmo que o motor, toda a engenhoca que faz a coisa ficar quente, permaneça no lado de fora da casa sob um rigoroso frio. Maria era doce, uma menina, tinha os pezinhos tortos e os dedos compridos. Nasceu para ser menino, mas Deus quis diferente. Ainda bem, porque Maria era linda com cabelos que pareciam fios de linho. Alfredo se sentia completo, mesmo com as neuroses de Maria. Neuroses são essenciais ao negócio humano, dizem os psicanalistas. Opiniões, como cachos de banana, crescendo a torto e a direito como se o mundo fosse adubado por inteiro. Maria passou a suspeitar que Alfredo estava tendo um caso com alguém do escritório. Ele era funcionário público, batedor de carimbo, um daqueles de futuro, mas com todo o tédio do mundo. Saía cedo e levava a comidinha que seu amor preparava, mas então, com o diabo a lhe sussurrar diabruras, Maria parou. Simplesmente parou e escolheu a TV. O marido notou e reclamou, mas Maria alegou tontura. Disse que o alho queimava as mãos, que não suportava mais o cheiro de fritura. Alfredo, resignado, saía de mãos vazias. Trabalhava feito um condenado para que o dinheiro rendesse uma casa própria. Maria assistia ao televisor com a mente suspensa. A televisão não exige pré-requisitos, não exige sequer inteligência, a televisão só necessita ser ligada e Maria sabia bem apertar o botão vermelho. Maria poderia trabalhar em uma usina nuclear para deflagrar o alarme de desastre. Oh, Maria. Em uma manhã, ela acordou e se sentou em frente ao aparelho. Desligado, era como um negro espelho. Assistia a uma programação idiota, típica de geração vazia. Assustou-se com o estampido de uma música trágica que comunicava o impossível. “Interrompemos a programação para um anúncio especial” disse o âncora. “Devido a forte nevasca, os bombeiros têm dificuldade em acessar o prédio central da administração pública onde um incêndio sem precedentes derrete as colunas seculares”. O mundo de Maria naufragava, mas havia um âncora. Ela levantou e, nervosa, só pensava em fogo, no Alfredo, nos cigarros que ela tanto gostava. Maria subiu as escadas e bateu na porta do quarto onde o marido dormia. Ele caíra doente e dormia em um quarto separado para poupar a esposa da tosse renitente. Bateu com o polegar, como se surrasse um pandeiro. Maria não batia bem. Não houve resposta. Desceu as escadas e grudou no telefone. Ligava insistentemente para o escritório onde o marido trabalhava. Ninguém atendia, deviam estar todos mortos com a fumaça, ou pior, queimados. Maria enfiava os dedos nos cabelos e não sabia o que fazer. Conferiu a garagem e se espantou, pois o carro dele continuava lá. Tornou a subir as escadas, a bater com o polegar direito na porta branca e a chamar por Alfredo, Alfredo. Oh, a constatação! Se Alfredo não estava ali nem no serviço, só poderia estar com a amante. Nem a

neve poderia esfriar sua espinha mais que aquele pensamento. Maria entreteve a ideia e não viu saída. Fugiu de casa, usando o carro do marido. Maria aprendera a dirigir recentemente, mas a ira a guiava. Foi a um bar e pediu bebida. Serviram. Bufava e tremia. Não demorou até que um sujeito se aproximasse e procurasse ouvi-la. Existem mais homens bondosos, nessas horas, do que há certezas nesta vida. Maria vomitava o carrossel de mágoas e o cara, com a cabeça, assentia. Maria não parava, falava mais do que devia. Aos poucos, mesmo o sujeito da malícia, o garçom e os outros homens que ali bebiam se afastaram. Mas era um bar velho, sujo, daqueles que têm buracos na parede. E em um desses buracos tinha quem a ouvia. Uma barata e um rato, imóveis como se paralisados pela estricnina. Maria notou e não se intimidou, discursou para a baixa prole dos seus desejos de patifaria. Bebeu e praguejou e se levantou bastante zonza. Ninguém ajudou, eles queriam que ela se fosse. Maria entrou no carro e deu a partida, mas não conseguia ver. Havia neve sobre o pára-brisa e ela então ativou o limpador. Aguardou que a brancura se dissipasse e julgou, a inocente, que via plenamente com capacidade de uma águia careca. O carro patinou no gelo liso mas Maria, embriagada, julgou que tudo ocorria bem, da mesma forma que saiu de casa. O automóvel replicava as pernas da esposa desastrada. Na casa, enquanto isso, Alfredo destrancou a porta e pisou na sala. Não havia barulho, não havia nada. Apenas a TV ligada e um noticiário mudo. Ele mirou o quintal branco e a beleza da invernada. Torceu para ver uma raposa, um veado, um feixe de Sol naquela manhã castigada. Fez café e deu falta de Maria, mas pensou que a amada estivesse no quarto lendo ou coisa que o valha. Alfredo, segurando uma caneca azul, sentou-se no sofá e aumentou o volume do televisor que mostrava imagens de um fogo imenso, mas que não conseguia distinguir onde se passava. Foi interrompido por um anúncio urgente dentro da programação urgente que retratava uma outra emergência. “Interrompemos a programação especial para outro anúncio especial”. Alfredo recostou-se para acompanhar. “Uma caminhonete, placa RDC-8240, chocou-se contra o prédio em chamas da administração pública. Os bombeiros informam que não há sobreviventes, embora não tenham certeza de quantas pessoas estavam no automóvel”. O prédio era onde ele trabalhava. A placa era a do carro dele. Aflito, Alfredo levantou-se num salto e derramou café quente. Ele pensava sobre aquilo e não sabia o que fazer. Ele queria saber se alguém estava no carro com Maria. Alfredo estremeceu. Polegadas de neve impediam a saída e ele arrefeceu. Aquele era um sábado, ele não entendia como o incêndio começou, por que tudo acabou em fogo e por que ela o trairia.

Spray, Sparta, Spyro Gyro

De dentro da cozinha vinha o grito:

⁃ MERDA!

Seguia-se um tapa na bancada. Isso significava que mais um pedido tinha saído errado. O cozinheiro ia à loucura. Tudo tem limite, ou deveria.

Ouvi um cara dizer que era iraniano, simpático às tampas. Cheguei mais perto, falei:

⁃ حال شما چطور است؟

Ele não entendeu. Fui mais perto da sua orelha e repeti:

⁃ حال شما چطور است؟

Ele estalou os olhos. Estendeu o braço e apertamos as mãos.

⁃ Você falou Farsi perfeitamente, sem sotaque. Como sabe a minha língua?

⁃ Ah, cara, eu já fui um negociador de tâmaras por aquelas bandas.

Entusiasmado, passou seu telefone e disse que em duas semanas estaria em Teerã e queria que eu me hospedasse na casa de sua família. Em duas semanas eu completo 35 voltas em torno do sol. A data tão temida. Eu poderia ter explicado que aprendi três frases em Farsi com aquele simpático grupo de iranianos que buscou um avião na TAM em São Carlos, no longínquo ano de 2007. Acontece que eu sempre quis negociar tâmaras. Sucesso garantido.

Duas mesas para a direita e uma moça parecia deslocada. Quando tomei conhecimento da sua história, senti uma pontada no baixo ventre. Exatamente um ano atrás, seu marido a aguardava na sala de estar para que fossem às ruas para uma noite de lazer. Enquanto esperava, decidiu limpar sua arma. Por acidente, ela disparou e ele se foi. Exatos 365 dias atrás. Eles iriam para o mesmo bar. Isso não é triste, meu chapa, é entristecedor. E há grande diferença entre as coisas. É necessário dominar a língua para traduzir a melancolia.

Procurei meu celular e enviei algumas mensagens de amor aos entes queridos. A gente nunca sabe.

Na América o verão é desejado, mas se mantém desdenhoso. Ele sempre passa. Por isso há tanta vida nas calçadas, nos pátios, nos parques. As pessoas aproveitam porque sabem que acaba. O oposto do que costumam fazer nos relacionamentos. Pensam que é para sempre. E já dizia a Cássia Eller…

Carrego uma lista de expressões para brindar em diferentes línguas.

Nazdrave, em búlgaro. Nazdarovia, em russo. Parecido, mas não vá cometer e lambança de dizer que é tudo igual. Ofensa na hora de encher a cara pode resultar em um dente quebrado. Ou abandono. Zivelji em croata. Aí você deve estar se perguntando porque tantas expressões vindas do leste europeu. Deixa isso pra lá, come on!

Bebendo rum puro com a Larissa na Tailândia em uma sarjeta de Bangkok, fomos abordados por duas garotas.

⁃ Oh, vocês bebem muito!

⁃ Err, obrigado?

⁃ Não estamos acostumadas a ver uma garota beber assim com tanta liberdade. Temos até uma expressão para isso. Lumyong, significa moça bonita que bebe whisky.

Hoje é sábado, amanhã é domingo, nada como o dia para passar. Saravá, Vinicius. Como não sou uma árvore e não crio raizes – só razões – posso sempre me levantar e caminhar. E mudar, de cor, de opinião, de amigos e de motivos. Cobra que não muda de pele morre.

Zodículo

Saí de casa em direção à esquina. Nada de mais nem de menos, eu só queria ventilar ar puro para dentro dos pulmões. As más influências, a vizinha do primeiro andar e seus glúteos estonteantes, o barulho de furadeira do cara do segundo andar, o estado pandêmico, o cinzeiro de papel cheio de bitucas de cigarro e cinzas que se levantam com a brisa que entra pela janela da sala, a falta de álcool na geladeira, o excesso de álcool no sangue, o grito do sujeito que vende legumes na rua, as dores no corpo em virtude da ressaca impiedosa, os meus tênis com a sola furada, tudo aquilo me conduzia à estafa mental. Foda-se – pensei -, caminhar não pode piorar as coisas. Saí descalço, queria literalmente manter os pés no chão.

A massa operária mantinha as engrenagens nos trilhos e eu era apenas um homem branco comum, insatisfeito dentro da minha própria bolha reluzente com problemas de um universo privilegiado.

Meus olhos sofriam com a luz do Sol e alcei os óculos escuros. Lentes negras e máscara formam o disfarce perfeito neste início de século. São tempos de uma doença global que assusta não pela sua letalidade, mas pelos métodos de enfrentamento que desencadeou ao redor da Terra. Ao redor, ora ora, que ironia. Para ser inclusivo, incluindo estritamente os muito burros, hei de dizer que o termo correto é ao longo da Terra, pois há aqueles que acreditam ela ser plana. Tão rasa quanto suas reentrâncias encefálicas. Caminhei por um quarteirão e avistei a velha em seu lugar, como na canção. Geralmente sentada, permanece durante parte da manhã observando a rua. E ela começa cedo. Dia desses, eu saí de casa às quatro e meia e lá estava ela. Mas hoje, para a minha alegria, descobri que a velha ainda tem as pernas em operacionalidade.

Bom dia – eu disse. Tão imóvel quanto as grades do portão que a protege, a velha é quase invisível. Somente olhos demasiado humanos podem vê-la. Bom dia – ela respondeu naquela madrugada que precipitava as cores da alvorada.

Sem que a mosca lhe fizesse mal, a velha estava na calçada um pouco distante de sua casa. Estava de pé, com a sua máscara sobre o queixo e a boca ruminando algo que lhe escorria pelo canto da boca. Contraí as cordas vocais para direcionar as únicas palavras que nos cabem, aquelas de cumprimento cordial, mas ela se antecipou:

– Quer caju? – disse, empunhando uma porção de frescos cajus amarelos e vermelhos que carregava na mão esquerda.

– Muito obrigado, que a senhora tenha um bom dia – retruquei, bondoso, com um sorriso.

Ela não podia ver os meus dentes exibidos, porque a máscara sanitária os escondia. A feição carinhosa só não morreu nesta era porque, ao sorrir, contraímos inúmeros músculos da face e isso se pode perceber especialmente no canto dos olhos, ali onde se identificam os pés-de-galinha. Durante a pandemia, sorrimos com os olhos. Quando bebo e escrevo me sinto um gênio, mas não necessariamente quando bebo ou quando escrevo. Fiquei com dor na consciência por não ter aceito ao menos uma das frutas, mas fazer o quê, já não havia muitas coisas que a arcada dentária da velha suportava mastigar. Os cajus lhe fariam grande justiça nutricional. Ela os sugava e cuspia as fibras no chão.

Uma esquina a mais na minha caminhada plano-terrena e lá estavam os três amigos, mais D’Artagnan. Trata-se de três moradores de rua que, ocasionalmente, têm um convidado a mais a acompanhá-los. Grande prazer o deles, esse de ter o mundo como lar. Nós, civilizados e obedientes ao deus Capital, temos de adquirir propriedade privada para que possamos denominá-la casa. Eles não, toda calçada é sala de estar e todo o mar é banheira. Los tres amigos são idosos, bem que se diga. Nunca lhes dei bom dia, como faço com a velha. Acho que, no fundo, é inveja da minha parte. Quando vou trabalhar, pela manhã, encontro suas carcaças estiradas em posição fetal, mão sob a cabeça, sorrindo em um sono profundo. Sonham com algo que a realidade não pode cumprir, dormem profundamente em um coma induzido pelo álcool etílico, descansam enquanto os outros só fazem atingir a fadiga. Quando volto para casa ao meio-dia, eles estão de pé, dançando sem música e almoçando a cachaça pura. Dividem um carrinho de compras onde guardam seus valiosos pertences. Poderia dizer que ali está tudo o que têm, mas em verdade reflito que eles têm muito mais do que percebem. D’Artagnan eu chamo o quarto amigo que se junta a eles, um cara especial. O digníssimo hoje se superou. De alguma forma conseguiu uma caixa de som e, para a alegria de todos, o instrumento faz os homens cantarem e dançarem freneticamente. Estão todos acordados mais cedo do que o costume, talvez pelo êxtase da música. É uma festa open bar e não há seguranças para barrar a entrada de ninguém.

Não usam a máscara de proteção como todo o resto dos habitantes da terra brasilis. Não temem a morte, temem a falta da pinga. Eu os entendo, empatia que chama. Resolvi parar por um tempo para observá-los. Nomeei cada um, para o meu bel-prazer, segundo o instinto mordaz da filosofia. São, então, Platão e Sócrates e Diógenes e D’Artagnan, claro. Três mosqueteiros junto ao agregado.

Diógenes fica o tempo todo com a mão no saco, acariciando. Não o saco onde carrega as latinhas de alumínio que lhe rendem alguns trocados, mas o saco que acolhe as suas bolas. Ao se aproximar uma dama ele passa a se movimentar, as duas mãos ao vento, como em uma dança espiritual. Rodopia e sorri, absolutamente naufragado na bebida.

– Você quer dançar comigo? Procuro e não encontro alguém para dançar! – assim diz o galanteador, segurando uma dose de cachaça em uma mão e a bolsa escrotal na outra.

As mulheres desviam de Diógenes e seu perfume acre resultado da sereno ácido que o banha diariamente. Ele não desiste, parece um enorme predador, faminto por um tipo de carne que, sabe-se lá, já faz tempo que não degusta.

– Olá, que lindo dia, não? – Diógenes repete ao saltar em frente às mulheres que caminham por ali, agora com uma mão na barriga e outra no ar, ensaiando uma valsa.

Uma infância de negligência, pais que o trouxeram ao mundo e depois o abandonaram. Falta de um lar e de cuidados fizeram com que ele fosse morar nas ruas. Viveu entre sacos de lixo rasgados e cães imundos, acostumou-se a respirar fuligem e a comer migalhas. Apanhou sem motivo e sentiu as contrações da puberdade o empurrarem para o beco sem saída do desejo impossível de se consumar. Acordou de pau duro tantas vezes e nunca pôde usufruir daquela potência natural que Deus havia concedido, tão democraticamente, a todos os homens sobre a Terra, ricos ou pobres. Amargou talvez alguns abusos físicos por morar sobre os paralelepípedos. A confusão na fala sugere que também surfou sobre os paralelepípedos de crack. O dia e a noite nunca fizeram sentido, não havia um lençol para cobri-lo nem lábios para embalar o sono. O resultado é mais um miserável sem teto, produto do sistema atravessado que dá de ombros para os menos favorecidos. Essa teoria seria, geralmente, apresentada por um genérico analista social. Eu discordo.

Diógenes só pode ser de gêmeos. Porra, mas é claro. Os geminianos sofrem da tal síndrome do donjuanismo, uma necessidade compulsiva de seduzir o tempo todo. Amam o envolvimento sexual, mas dificilmente as emoções caminham junto com o sexo. Preferível é aquela sedução difícil, que envolve pessoas inacessíveis, comprometidas, casadas. Por um instante chego a imaginar que eu sou de gêmeos também. Não sou. Mas que caralho? O Diógenes contemporâneo vive na rua, não tem vergonha dos instintos selvagens que lhe batem à porta e vive buscando uma mulher honesta, esse crápula. Fosse ele de sagitário, aposto que não estaria em situação tão lamentável. Tarado, sem escrúpulos. De repente, sai de cena e se cobre com papelão em um canto. Eu sei o que ele está fazendo, todo mundo sabe o que ele está fazendo. O papel marrom sobe e desce constantemente. Como poderia seu apelido não ser Diógenes, o cínico? Como geminiano, ele teria grande futuro na cafetinagem.

Platão continua sentado na sarjeta, uma mão no queixo e a outra na cintura. Balança a cabeça, fala com o vento. Acaricia a barba e a brisa bagunça os cabelos encaracolados. Parece inconformado, sua testa franzida revela o desmantelo que se expande no coração. Ora se levanta, ora senta com as mão esticadas para trás. O sapato esquerdo não é do seu tamanho, os dedos ficam para fora por um furo na dianteira. Gesticula com um poste de luz, parecendo dar uma lição aos espíritos que deve enxergar. Tudo o que sai de sua boca é em volume baixo, inaudível para mim que estou à distância. Então, subitamente, ele exclama em alto e bom som:

– OUÇAM! EU TRAGO A VERDADE E COM ELA PODEMOS ALCANÇAR A LIBERDADE!

Deve tragar outra coisa, o safado – pensei. Parece ter fugido de um hospital psiquiátrico, em plena madrugada pulando o muro. Não lhe interessa os carros que raspam o asfalto, não lhe interessa os pássaros sobre os fios de alta tensão, não lhe interessa o vírus tampouco suas variantes, não lhe interessa se há abrigo contra a chuva, não lhe interessa o preço da cesta básica. A ele interessa a salvação. Platão murmura e eu me achego. Estou curioso sobre as filosofias que o homem de feição ancestral tem a compartilhar.

– Ei, chegado, isso tudo aqui, a existência terrena como conhecemos, é passageira. Semeamos aqui, podemos até acabar colhendo uma ilusão ou outra, mas importante é a safra no outro plano. Bendito o mundo da paz e bonança que nos espera, os homens conscientes. Alguém realmente se importa com essa vida mundana? Ai de mim se não alimentar a boa fé. Devemos nos apegar a tudo o que ainda está por vir. Ei, chegado, sirva mais um pouco de bebida para mim? – assim filosofou o moralista.

Platão repetia à torto e à direito o que bem entendia e se dirigia ao tal “chegado” e pedia mais álcool. Fazia tudo isso olhando para o lado oposto de onde eu estava, ou seja, havia mais alguma alma por ali, uma alma hipotética para mim, mas romântica para o idealista. 

– Justiça, oh Senhor! – elevou as mãos aos céus, uma delas segurando o copo meio vazio, em clamor comovente – Não sou digno de ti!

Peça de museu aquele tipo. Se eu fosse ao manicômio municipal haveria de encontrar seu nome na lista de desertores. Ser maluco é uma vocação, alguns a alimentam com drogas ilícitas ou não, outros com a neurose abundante que parece permear insistentemente a sanidade. Será ele um desiludido que sofreu um mal súbito e disse adeus ao bom senso? Alguém o abandonou no altar? Alguém o chifrou? Sofreria ele de problemas de ereção? Qual é o grande porquê por trás daqueles fios de cabelo faciais? Um típico libriano, eis o quê. Ares de inocência ladeiam aquela cabeça confusa, eu sei. Equilibrado e idealista e justo, inverossímil. Romântico, dá a entender que seus ideais são os de que todos deveriam viver na rua e não o contrário. Está a um passo de se tornar pastor, porque em línguas ele já fala. Eu não sei se ele é de libra mesmo ou se é só teimoso. Desaguou na embriaguez da vida. Lógico, deram a opção dele ou estudar ou beber. Ficou em dúvida (coisa de libriano) e o trem passou. Restou os litrões. Refleti que os signos, essa beirada do senso comum, podem ser úteis para explicar a vida dos fracassados. É muito conveniente explicar o sucesso de um CEO porque ele é de áries. Quer poder, impõe autoridade e etc. Ousado é analisar, sob a ótica do zodíaco, o grande sofrimento do mundo. Danem-se os bem sucedidos, o que fascina é a tragédia!

Vejam Sócrates, por exemplo. O rosto inchado, vermelho, coalhado na manguaça. Dos olhos correm lágrimas e do canto da boca a baba escorrega solta.

– Ela me deixou, mas eu só tinha amor por ela! Todos me abandonaram! Minha família não me quis mais! – soluçava e repetia esse mantra abraçado a uma garrafa de aguardente 51. – Eu tinha um filho, dois filhos!

– O que houve, camarada? Morreram? – não me aguentei e dirigi a pergunta ao grande lamentador.

– Não materialmente. Afastaram os dois de mim, acusaram-me de corrompê-los. De corrompê-los! Logo eu, um pai amoroso que só queria lhes ensinar o valor do que é belo. Queria que conhecessem a si mesmos, queria que acreditassem.

– No quê, homem? – interessei-me pelo discurso.

– Nas virtudes! Na prática – ic! – das virtudes. Ações e não palavras. Agir! Porra, eu os levei para a zona… queria que experimentassem algumas coisinhas…

Que figura! Estava quase acreditando que deveria ser canonizado quando, entre um soluço e outro, ele soltou aquela pérola. O tom de sua voz era tão triste que comovia. Qual seria a grande virtude? Deve ter frequentado a escola, ter sido o primeiro da classe. Acho que acabou na rua por desgosto. Sabe usar as palavras, mas não duvidem: a verdade é uma só. Ai de confundirem-no com os sofistas, aqueles crápulas prolixos.

Sócrates, meu amigo, por que será que todos o deixaram? Terá sido a bebida o grande problema? Os maus hábitos de um adicto ou a flagrante falta de limites em ser um chorão desgraçado? Puteiro e canja de galinha, com parcimônia, nunca fez mal a ninguém. Acabei de inventar isso, mas quem se importa? Ninguém te aguenta, canceriano de uma figa! Reclamar é a sua segunda profissão, a primeira é galgar o grande trono de rei do drama. Acho que é por isso que o dono da venda dá garrafas de graça para ele, para simplesmente evitar o chororô. Enquanto conversávamos, o sr. Jair veio e entregou uma garrafa novinha em folha de conhaque de alcatrão.

– Esse daí tem história, viu? Parece que ele já esteve até na faculdade – disse o botequeiro.

Faculdade da vida, meu caro. Fácil de entrar e difícil de sair.

D’Artagnan não deve viver em tempo integral na rua. Está um pouco mais bem vestido que os demais e tem a barba feita. Serve uma dose de cachaça junto aos amigos em seu copo descartável e a bebe olhando para um pequeno espelho afixado na traseira do carrinho de compras que transporta os bens pessoais da trupe. Vaidoso, megalomaníaco com sua caixa de som colorida. Ele se acha o máximo, um líder natural. Os outros o acham um perfeito idiota. Leonino, é óbvio! Fala pouco, mas fica sorrindo. Sente que faz parte da bagunça só durante a farra, nunca se mantém sob o luar como os demais. Seu lugar é algum cômodo protegido dos temores trevosos das esquinas mal frequentadas. A prepotência é tão grande que se pode cogitar, sem medo de errar, que ele precisará de dois caixões quando morrer. Um para ele, outro para o ego. Seria um bom ditador, capaz de dar ordens as quais, claramente, não tem competência nenhuma para executar por si só. Pensando nisso lembrei: qual será o signo do presidente da república?

Platão, Sócrates, Diógenes e D’Artagnan, quatro exemplares da justiça astrológica. Sofrem com a impiedosa dança dos astros. Pergunto aos céus: esses filósofos do asfalto assumiram em algum momento as consequências dos caminhos escolhidos ou se vitimizaram e apontaram diferentes culpados? Ignoraram a revisão e reflexão que era necessária. Entraram em rota de colisão com Saturno retrógrado e são a prova cabal de como os astros não destilam misericórdia. Devem continuar a catar latinhas, os três ou quatro, enquanto não analisarem seus quadrantes astrais. Horóscopo até que faz sentido agora. Pensei na velha e cheguei a conclusão de que ela deve ter feito seu mapa astral em algum momento da vida. Por isso tem casa, uma cadeira e cajus.

Asas, grappa e neurônios fumegantes

Todos os dias, entre sete e oito horas da manhã, uma abelha adentra a cozinha da minha casa. Já a vi durante toda a semana em seu vôo silencioso e rudimentar. O trajeto é sem saliências, de fora para dentro, direto à fonte. A pequena pousa na torneira da pia e bebe água. Longos goles, parece que está de ressaca. Talvez esteja, afinal, não existem flores que fermentam e produzem um néctar inebriante aos animais? Vai saber.

De tanto trombarmos, hoje dei bom dia.

Graças ao esforço individual de carregar as águas que a comunidade precisa para manter o funcionamento saudável, a colméia prospera. Dada a bravura em socializar a minha torneira, inspirei-me em tocar música para a Matilde. Ah, sim, quase me esqueço de mencionar que também a batizei. Do alemão maht, que significa “força”, e hild que quer dizer “batalha”, um nome como “guerreira forte” vem bem a calhar. Lecuona Cuban Boys, o grupo a romper o plácido silêncio e prestar as boas vindas à ilustre visitante, executando seu Mambo de Jaruco com alegria. Pisei para trás com um pé, depois o outro, balançando os ombros, passos agora para cá e para lá, sempre iniciados com o pé esquerdo e para o lado esquerdo. Ora, convenhamos, a música é cubana e a minha água foi tornada pública, eu queria me manter coerente e não atrair mau agouro. Vai saber.

Primeiro o fascínio, depois a vontade de agradar.

Procurei o saco de açúcar para preparar, com água, uma mistura docinha que a fizesse ficar. Típico pensamento de um completo pamonha. Abelha não é beija-flor e restaurante que serve farofa não tem ventilador, já dizia o sr. Domingos. Percebi a tamanha sandice e desisti da pamonhice. Imagine só se a abelhinha pudesse falar e se desse a, em tom jocoso e impiedoso, comparar as propriedades organolépticas do açúcar frente ao mel viscoso que escorre de seus favos. “Você sabia que, de moeda de troca a agente viciante da indústria moderna, o açúcar dominou o mundo e não exclusivamente de uma maneira virtuosa, meu senhor?”. Simulei a situação e, dada a vergonha telepática, pedi desculpas em voz alta.  Antevi o sermão ilustrado por uma entonação indignada. Vai saber.

Matilde partiu e eu me sentei. Que onda, voar para beber água!

Completamente destoante da parábola, abri meu cantil e tomei um saboroso gole de grappa. Há poucas coisas que uma boa grappa não cura. Tuberculose, por exemplo. Antigamente, ia-se para as montanhas a fim de respirar ar puro. Ali o sujeito ficava até que melhorasse, ou não. Hoje, há antibióticos. Mas grappa não serve, uma pena. Para devaneios da alma e elucubrações desvairadas, aí sim, a aguardente feita a partir do bagaço da uva é um santo remédio, não por abrandar os pulsos lancinantes que tomam a mente de assalto, mas por incendiá-los. O pensamento, quando atiçado por fome técnica e respeitosa aos padrões normativos de tudo o que e é cativo e cheio de pesadume, é de um tédio embaraçosamente constrangedor ao passo que, por outro lado, quando inflamado por poesia e contemplação vertiginosa do abismo, produz conteúdo que tão somente outro espírito livre pode, ao ler, reconhecê-lo. Logo, eu, poeta que me pretendo, prefiro grappa a Azitromicina. Vai saber.

Gotas de álcool no sangue, aroma de gengibre frito no ar. Eis a fórmula do livre pensar.

Da manhã apiária para o meio dia foi um pulo. O almoço borbulha e eu me alimento, por ora, de um grande ressentimento junto a Deus. Ainda que eu possa, com muita vontade, argumentar sobre como o Todo-Poderoso é mesquinho em não conceder asas aos seres humanos, não é a incapacidade de voar o que causa a insatisfação. Agora, verdade seja dita, poderíamos negociar uma habilidade qualquer por longas asas cobertas por penas. Talvez os polegares opositores, ou então um terço da habilidade sapiens. Vai saber.

Deus pede aos seus seguidores que façam mais do que apenas seguir. Devem pregar, devem semear, devem agir com a prudência e pautados pela providência, a divina, é claro. Ecce exiit qui seminat, seminare, diz Cristo, que “saiu o pregador evangélico a semear”. Muito bem, assim seja feita Sua vontade. Acontece que, quando sai, sai mesmo. Sai e deixa o lugar vazio. Acorda, levanta e se vai de casa a semear deixando todos com saudade. O mérito da questão não é o religioso, uma vez que, por certo, sua casa já há de estar muito bem semeada e estabelecida sobre os alicerces firmes do Redentor. O xis da questão é o sair e não mais estar lá. Não sei vou ou se fico, não sei se fico ou se vou. Se vou eu sei que não fico, se fico sei que não vou, e lá vamos nós, cultura popular adentro. Ainda criança fui confrontado com a necessidade de escolha: “você quer morar com seu pai ou com sua mãe?”. Eu queria morar com os dois e, é bom que se diga, morar sozinho também! Mas não, o mundo tem que ser binário na sua materialidade física e eu, condenado a esta carne, a aceitar tal patranha de ter sido feito à imagem e semelhança Dele mas, sabe-se lá por qual motivo, não gozar de alguns benefícios. Vai saber.

Onipresença, por mil demônios! Vivi demais, visitei lugares e reconheci amigos em demasiado para aceitar que só me compete uma experiência singular de existência. Nem membros alados, nem cognição crítico-reflexiva, o que queria era ser múltiplo. Continuar a estar e a não me despedir. Não verter mais lágrimas de saudade. Mas Ele, na sua arte, preferiu que não. Vai saber.Tudo bem, eu aceito as coisas como são, no fim das contas. Saímos todos a semear, cada um com seu cada qual, a depositar suas pequenas contribuições pelo globo. A Matilde com toda aquela galhardia de produzir o alimento que abunda na terra prometida, eu com a minha letra rebelde e os pregadores com a mensagem do Criador. Acostumemo-nos com essa onda incessante de adeuses ou, por outro lado, finquemos os pés aqui de uma vez por todas. Uma coisa é certa: Nec revertebantur, cum ambularent: “Uma vez que iam, não tornavam”. – pois não eram mais os mesmos.

Liberose

Honrai o sono e respeitai-o! É isso o principal. Fugi de todos os que dormem mal e que permanecem acordados à noite.

Não é pouco saber dormir; para isso é necessário preparar-se durante o dia.

Dez vezes ao dia você deve saber vencer-se a si mesmo; isto origina uma fadiga considerável, e esta é a dormideira da alma.

Dez vezes deve reconciliar-se consigo mesmo, porque é difícil vencermo-nos, e o que não estiver reconciliado dorme mal.

Dez verdades há de encontrar durante o dia; se assim não suceder, ainda procurará verdades durante a noite e a sua alma estará faminta.

Dez vezes ao dia precisa rir e estar alegre, se não incomodar-se-á de noite o estômago, esse pai da aflição.

E se tivessem as virtudes, seria necessário saber fazer uma coisa: adormecer ao mesmo tempo todas as virtudes.

  • Das cátedras da virtude (NIETZSCHE, F.)

O sono lhe faltava e à medida que as noites iam encurtando aumentavam os devaneios durante o dia. Sua mente se movera de um estado racional temperado com pitadas de fantasia para um vasto império de confabulações delimitado por pontuais intervenções terrenas dado os compromissos do escritório, agora, móvel. Tarcísio era um homem de negócios, muitos negócios, uns negócios, mas também nada daqueles negócios, se bem que tem uns negocinhos que ele não conhecia e, ao provar, se sentiu um tanto coisado. Negócio de louco? Negócio da China! Nada poderia prender mais a sua atenção do que as próprias simulações hipotéticas e maravilhosas que surgiam em sua cabeça, pensava um incauto qualquer ao selar promissora amizade com o jovem rapaz de camisas engomadas e sapato docksider. Que homem incrível, inteligente, bem educado e progressista. Dizem até que é o maior feminista vivo, seja lá o que uma definição como aquela pode significar para uma… mulher!

Tarcísio sofreu abusos na infância e resolveu que o negacionismo era o melhor dos antídotos da sofrência. Só que, medicado pela ciência do “muda de assunto que aqui não se fala disso” ele foi, aos poucos, sendo afetado pelos efeitos colaterais da despreocupação acentuada e da irrelevância aguda a tudo o que considera ser mais fácil deixar para os outros. Mudando a direção dos olhos conseguiu se esquivar das agulhas do passado e, positivamente mirando os altos cumes, construiu um império. Casa grande sem senzala, despensa cheia, adega farta, esposa retocada e filho obediente, tudo sob as próprias rédeas do controle patriarcal. Tarcísio é um homem de valores.

Os amigos estão sempre à volta; da mesa, do fogão, da piscina. Não existe silêncio onde ele está presente, pois silêncio impele a mente ao raciocínio recordativo, à reflexão dialética e estas coisas são como lavar louça para o mancebo. Tarcísio não lava louças. Na dúvida, na ausência de palavras ou idéias exalta a maior das suas características ao exclamar:

– Bora beber?

O álcool e Tarcísio, Tarcísio e o álcool. Uma história de amor, de reciprocidade, de carinho e acalanto. Não há nada mais gostoso que se embriagar a ponto de… se desculpar por “possíveis” erros do passado. Possíveis, pois difícil é para Tarcísio assumir culpa quando sóbrio e, caso seja confrontado com a admissão da mesma quando em avançada situação de ebriedade, há de negar com um sutil convite evasivo de…

– Bora beber?

Os negócios de Tarcísio vão muito bem, obrigado! Sua fala pode transparecer uma gagueira besta, insistente, mas não passa da trepidação que tanto volume intelectual causa ao se precipitar sobre a língua. Livros? Ler, para Tarcísio, é essencial como praticar 30 minutos de exercício meditativo pelas manhãs. Ele não pratica. Surfando nas ondas de uma juventude alongada e de uma maturidade ainda distante, seu físico resiste incólume às agressões gratuitas de privação de sono e nutrientes. Talvez um dos mais graves sintomas da terceirização de responsabilidades tenha sido quando Tarcísio chegou à excepcional conclusão de que todos os alimentos, hoje, são processados. Se, por bem de uma verdade acolhedora, é definido como processado tudo aquilo que passa pelas mãos do homem e sua cadeia produtiva até chegar às mãos do consumidor, então… só fogem do rótulo as frutas que colhemos direto do pé. Aliás, frutas são para Tarcísio o que a igreja no domingo de manhã é para ele e sua família. Eles não a frequentam.

O sono começa tarde, acaba cedo e não é calibrado durante o dia para o nosso herói. Dizem que é durante o sono que o corpo humano secreta a maior dose de hormônio do crescimento. Tarcísio parou nos 1,67m. É mister risada para um bom sono? Olha que ele ri fartamente, o dia todo, todos os dias. De si mesmo, quando conta histórias que, não raro, sempre o colocam como uma espécie de azarão que tem tudo para dar errado, só que…

“- E lá estava eu, na frente daquele monte de gente no balcão do bar. Um bando de negão e o idiota aqui com a certeza que ia apanhar, né?”

Mas, as histórias sempre acabam incrivelmente bem. E ele ainda ri – e muito – dos outros. Motivo? Basta alguma confidência sobre algo que desagrade ou seja sensível para uma pessoa em questão. Aí é um desbunde, um bullying sem fim. Foi na performance das suas gracinhas graciosas com mulheres que Tarcísio se viu empossado como o grão mestre do… feminismo! Deus escreve por linhas tortas, há de se convir.

Tarcísio cometeu o maior dos absurdos recentemente quando, ao trocar ideias superficiais com uma nova amiga que é psicóloga, confidenciou que delegou aos seus funcionários a feitura das próprias tapiocas do café da manhã. Ao comentar sobre ter um desejo de se importar cada vez menos com as coisas, afinal, nas palavras dele, o mundo precisa de liberdade, sentenciou:

– Sabe, Bibi, tudo é passageiro. Eu não desejo controlar nada, quero que tudo seja livre. Mesmo as tapiocas, as super cápsula-blindas. Eu quero menos coisa sob meu controle, embora não possa abrir mão de controlar bens essenciais como a minha mulher. Sabe como é, sou um liberal…

– Não, meu amigo, você sofre de liberose ácida!

E foram transar.

Apanágio do homem

Um estrondo de proporções dantescas anunciou, ao mais puro estilo trágico, a interrupção do fornecimento de energia para a vizinhança. Primeiro, uma grande luminosidade clareou o céu anegrado e então se pôde ouvir, em decibéis guturais, a reação impiedosa da corrente elétrica que atingira um indefeso poste de eletricidade. Em seguida, faíscas saltitantes criaram a chuva incandescente que fluiu do gerador carbonizado. Bela, porém arriscada, a cena era magnética aos olhos de todos os que se encontravam na varanda do casarão encartalhado. A luz abundante, nas controvérsias da natureza, criara a escuridão.

O breu incutido de modo espontâneo costuma confirmar a previsibilidade humana: apagam-se as luzes e o que se ouve e sente são gritos de exclamação, uivos histéricos e mãos que tateiam os seres mais próximos, como náufragos que tentam alcançar destroços que lhes garantam a sensação de segurança na procela. Ali estavam Gerônimo, proprietário da residência, Amarilda a esposa e co-proprietária, Carlos Honesto, o filho daquele casal, e João e Maria, amigos que formavam a mais insossa união matrimonial, a começar pelos nomes de fábula e os trajes que cobriam-lhe as carnes; João vestia bermuda cáqui, camisa pólo verde abotoada até o pescoço e sandálias de couro, enquanto Maria os pés calçava com modestas sapatilhas vermelhas ornadas com laço branco, vestido palha com uma faixa em volta da cintura e cabelos alisados penteados para o lado. Ambos já tinham fios grisalhos surgindo entre os demais, coisa que não os incomodava, afinal, não se tratavam de gente vaidosa. Tão logo as lâmpadas se apagaram e os estertores gerais agonizaram as trevas, a dupla de convidados atentou os presentes para a exuberância de um céu estrelado que agora se exibia em seu esplendor sem a interferência da luminosidade poluente das aglomerações urbanas. Silenciaram, todos, por alguns segundos. No céu, em tremenda coincidência, uma estrela cadente rasgou a imensidão. Os que pouco observam o firmamento tendem a crer que aquele fenômeno é raro quando, em verdade, rara é a quietude do contemplar. Espantaram-se e, em uníssono, sugeriram todos o depósito auspicioso de um desejo nos confins da mente. Levantaram-se os personagens do conto dos Grimm e anunciaram a partida:

— Queridos, o apagar das luzes recomenda o momento de recolhimento. Avançada hora nos lembra que temos de dar comida aos gatos.

Despediram-se e foram embora. O relógio cuco, independente à alimentação elétrica, marcava onze horas e onze minutos e o tique-taque dos ponteiros inclinava os presentes à reflexão. Fazia muito (senão nunca) a família não se reunia em silêncio, sem distrações modernas. Carlos Honesto já bocejava. O rapaz carregava como nome um adjetivo, o que lhe rendeu irreparável dever no desenrolar da vida. Afeito ao seu destino pronominal, deu-se de tal modo ao estilo parrésico de se expressar que foi por um punhado de vezes mal interpretado, como se se tratassem seus comentários de reles petulância. Gerônimo o indagou se gostaria de acompanhá-lo em uma taça de aguardente de cana envelhecida e enriquecida em barris de carvalho. “Por mim, tanto faz”, arguiu o jovem em tom lacônico. O semblante do filho único raramente se alterava de uma conformidade frustrada, dando a impressão de que algum tipo de percepção precoce sobre as limitações do seu arbítrio era irremediavelmente intransponível, tornando o exercício da vida um lamentável empurrar de rocha montanha acima, porém, sem a felicidade necessária que se deveria atribuir a tal absurdo. Brindaram, junto à senhora Amarilda, e sorveram dos cálices seguidas rodadas até que a garrafa secou. À penumbra que lhe dividia a face ao meio e deixava a boca semi visível, o unigênito comunicou a ida ao berço recomendando que os pais não se descuidassem, pois a friagem poderia lhes render uma dor de garganta. Beijou as bochechas dos genitores e recebeu a benção da mãe. Ofereceu-se a buscar um cachecol ou blusa de gola alta para os dois ao repetir que “álcool e sereno acabam por fazer dano às amígdalas’’, mas lhe foi garantido que não se preocupasse e dormisse bem.

Amarilda não desgrudava da companhia do esposo, por quem alimentava receosa admiração como o faz um soldado pelo valente general. Com as pernas cruzadas e uma manta de tricô a cobri-las, aguardou os passos lentos e cambaleantes dele irem ao encontro de mais uma garrafa. Gerônimo sacou a rolha de cortiça, serviu pequena dose nas duas taças de cristal de Blumenau e os dois as ergueram à altura dos olhos.

— Ao santo! – dedicou ele ao derramarem, os dois, o líquido perfumado no canteiro de flores que se situava às costas.

Os dois eram bastante supersticiosos e aquela oferta cumpria as boas práticas de convivência com as coisas que não podem a nossa vã filosofia explicar. Encheram novamente os recipientes e entornaram o néctar como de costume, matando a sede que os consumia desde os minutos iniciais daquela noite de convidados. João e Maria não bebiam e, castos como transpareciam, o ato de consumir derivados do álcool causava constrangimento na presença deles. Acontece que Maria, em um passado intocável, passara por problemas relacionados ao abuso da substância e, por tal motivo, a diplomacia recomendava abstinência quando em sua companhia. Por este motivo, o da compaixão ao sofrimento alheio, os anfitriões condescendiam ao jejum etílico apesar de que, ansiosos, torciam para a brevidade da permanência dos visitantes a fim de que pudessem se agarrar aos galhos daquela árvore da salvação inebriante. Bêbada, Amarilda comentou como os dois eram feito o sutiã, “oferecendo grande suporte e toleráveis por um tempo, mas delirante em prazer ao se livrar deles”. Riram à beça com a comparação esdrúxula aprendendo, assim, a amar seus inimigos. Na mulher existia uma certa vontade mórbida por conversa, entretanto o assunto que lhe palpitava o coração era o próprio marido e suas improbidades, o que, por submissa justaposição matrimonial e financeira, a impedia de avançar no uso da palavra. Amarilda tomava o fôlego, interrompia a respiração e cerrava os lábios quando, na sinapse de advertência, percebia a impossibilidade da opinião quase comunicada. Seguidas vezes, entre um trago e outro, abortou a fala. Era uma mulher de muitos conceitos, especialmente em relação ao seu companheiro, coisa que muito compartilhava com quem naquela casa não morasse.

As luzes se acenderam por dez segundos e voltaram a apagar, fruto da reparação que se desenrolava pelos técnicos da companhia estatal. Nesse lapso de claridade, Gerônimo percebeu a figura de seu cachorro a observá-lo, por detrás da grade que o enclausurava, sentado pacientemente a zelar pela silhueta do ser humano que, por tradição milenar, deveria dar alimento, abrigo e carinho ao fiel companheiro. Já rompia, ao calar da noite mais escura, as três horas da madrugada e, no afã de instintos confusos, o homem decidiu por libertar o cão.

Levantou-se e recostou a garrafa e taça ao lado da cadeira. Caminhou até o quintal assobiando uma canção de Ennio Morricone, a Infância e Idade Adulta. Ao se ver livre do cercadinho solitário, o bicho era pura alegria, perceptível no fôlego acelerado e nos saltos incontidos que dava no ar. O êxtase supremo do caninus fidelis, a farmácia afetiva da alma, aquela cena se assemelhava ao explodir de fogos de artifício na celebração pagã de um dia qualquer, o grito último do júbilo latido. Ao saltar para cima de seu dono, o cão levou uma joelhada desencorajadora. Arqueou as patas e preparou novo salto que foi reprimido, com traumática violência, por um chute de bico no peito do pobre galgo.

— Não! – pôde-se ouvir o grito de Carlos Honesto, que a tudo assistia da janela do seu quarto.

O canino, ao segundo ato agressor, rosnou e foi, pela mão forte e repetidora, agarrado pela coleira e reconduzido à sua cela emitindo grunhidos agonizantes. A grama, as plantas, as árvores eram testemunhas de que naquele momento fora libertada outra fera, a besta normalizadora. Em processos angustiantes, ela estava aprendendo não só a amar seus inimigos como, também, a odiar seus amigos.

Ao amanhecer, o Sol aqueceu a relva e levantou a neblina que dormiu no orvalho. Tanto Amarilda como Gerônimo sofriam com uma descomunal dor de garganta.