Amarração para o amor

Cansada de um povo bisbilhoteiro e mesquinho, um conjunto massificado de pessoas que a oprimiam e empurravam-na em direção ao abismo da vida pacata de acordo com os preceitos morais do rebanho, resolveu, por bem, romper com a tradição social que reserva à mulher recém solteira a pudicícia e o confessionário. Em sua presença, as amigas desejavam a renovação e superação do trauma amoroso, mas pelas costas repreendiam as fagulhas de liberdade que rompiam sob a aura casta. Sendo que, pelas costas, o que ela queria mesmo era ser devorada, dominada, agarrada de ladinho, de quatro, de olhos vendados. Evita decidiu emputerar-se,

(nota do autor: atentar ao acasalamento do substantivo puta com o verbo empoderar)

fornecer a torto e a direito o seu sagrado maná feminino e sorver de todo o fluído que lhe fosse oferecido consentidamente. Evita agora era quem chorava por eles e elas, os grandes arcabouços do recalque.

Anos de relacionamento morno lhe renderam uns quilogramas a mais, é bem verdade. A dieta daquela mulher continua pobre em nutrientes e rica em açúcares, é bem verdade também. Mas a alma corrompida só pensava em sentar e levantar repetidamente e, empirismo seja prova, o impacto orgástico de suas carnes volumosas sobre a pelve alheia era muito maior na abundância do que na escassez. Em português claro, os homens adoravam sua gostosura. Seios não lhe faltavam e se tornaram mais uma arma no sufocamento erótico. Usando do Tinder e abusando de homens ela passou a colecionar abatimentos. Escrevia em um caderno o nome, o tipo físico, se a tinha feito gozar e o tempo que levou para ele atingir o orgasmo. Finalizava a ficha com uma nota de 0 a 10. Os marmanjos, assustados com a temperatura que apresentavam todos os lábios daquela mulher, perdiam a dianteira da ação. Estavam acostumados a dominar, a ditar posições e, logo após atingirem o clímax, a irem embora com alguma desculpa vulgar. Só que a heroína devassa trancava a porta de casa, a porta do quarto e só permitia que fossem embora após ela se sentir devidamente satisfeita. Uma? Duas? Três? A jovem literalmente rodava uma roleta cuja numeração, ora vejam só a audácia, partia do dois e passava do 30. Só com o número definido é que o escravo vislumbrava a alforria por entre as portas do palácio luxurioso. Há uma lenda urbana sobre um mancebo que se atirou da janela ao visualizar o número 22 ser preenchido pela bolinha do jogo. Evita agia, selvagem, não só por tesão mas por vingança. Ela queria de volta os anos que desperdiçara e – por que não? – os ânus também. Ao descobrir que o prazer do homem aumenta ao se massagear o orifício mais ao sul, passou a praticar o fio-terra em todos, sem sequer permitir permissão. Bastava que anunciassem que gozariam e lá ia seu dedo intrrépido a perturbar o sossego. Ganhou alguns gritos desesperados de protesto mas, os tetos espelhados não mentem, ganhou um séquito fiel de fãs. Evita se tornara uma bruxa do hedonismo. Assim, tal como uma droga comum, o sexo começou a pedir por mais, por muitos, por diferentes estímulos.

Rogou à sua amiga que a incluísse em um ménage à trois, mas lhe foi negado o pedido. Havia se transformado de gatinha em onça em curto espaço de tempo e isso causava receio nas outras mulheres. Tinham medo não só que lhes roubassem o marido como a elas próprias. Onde ela encontraria a robustez fálica que causaria calma e tranquilidade para parar com a libertinagem, ainda que apenas por um período breve? Um novo match no Tinder, cuja descrição era ousada, e o nome bizarro fez com que ela salivasse: “Monge Shibari. Faço amarração para o amor, BDSM”. Na galeria de fotos havia apenas uma de costas e traje branco de linho, com um chapéu escuro na cabeça. Tudo nele era estiloso, a foto, o texto, o chapéu de gângster. O gajo poderia ser casado, ou estar de saída do tal mundo ecumênico ou, ainda, só gostar mesmo do clima de mistério. Ou monastério, afinal o cara era um monge! Evita não era flor que se cheirasse e partiu para o ataque na batalha dos corpos, apimentada pela possibilidade de perverter um autêntico homem eclesiástico. No fundo, no fundo, ela queria amor. Mas na superfície, na flor d’água, ela desejava a mais pura putaria. Confessou à sua melhor amiga que, muito embora a vontade fosse de trepar como um suíno, seus olhos enchiam de lágrimas ao imaginar o (re)descobrimento da paixão nas mãos de um homem do caminho justo. E assim marcaram encontro, na casa dele. Ela levou um vinho branco e o homem já havia preparado um balde situado entre os dois sofás com bastante gelo dentro. O clima era calmo, um tipo de música tibetana tocava no ambiente que cheirava a incenso nepalês. No canto da sala e pelas paredes havia plantas. Pequenas árvores que cabiam sob o teto de um apartamento de piso de tacos e algumas flores davam ao espaço a sensação de tranquilidade. De tudo o que poderia acontecer ali, Evita tinha a certeza de que algo fora do comum não era de se cogitar. Serviram-se da bebida ainda na atmosfera encabulada das primeiras trocas de olhares. O gelo ainda não havia sido quebrado e ela deu o primeiro passo em direção ao diálogo com aquele homem bonito que não parava de sorrir:

– Muito agradável a sua casa, combina com seu estilo meio largado, meio pacífico.

– Muito obrigado, a calmaria tanto antecede como sucede a tempestade. – disse o tal monge que agora sorria de uma forma diferente, antes puramente simpática e agora um tanto maliciosa ao arquear uma das sobrancelhas.

– Leva tempo que você se dedicou ao caminho da prática?

– Já tem alguns meses, a disciplina da repetição proporciona a destreza na execução.

– Admiro essa firmeza de caráter, espero aprender mais com você.

– Fiquei curioso com a sua vontade escancarada de se entregar aos meus domínios. Você já experimentou alguma vez?

– Nunca, sempre quis meditar mas nunca tive paciência o suficiente. Essas coisas de budismo, eu acho, acontecem melhor quando instruídas por alguém assim de mãos fortes… – decretou e, ao perceber as recepções sorridentes às suas insinuações, jogou-se sobre o corpo do Shibari.

Beijaram com sofreguidão e Evita deu vazão aos seus princípios primitivos de fêmea alfa que consome o alimento no mesmo lugar do abate. Imobilizou o rapaz com os joelhos sobre os braços que corriam na lateral do corpo. Sentada sobre ele, afogou-o em seu colo farto enquanto usava as próprias mãos para desabotoar o sutiã. Saltou sobre o sofá em um movimento felino, virou as costas para o indefeso monge e o presenteou com a visão íntima de suas nádegas enquanto se contorcia a fim de despir a última peça de roupa. Ainda vestindo os saltos altos que colocara intencionalmente para exercer o papel de predadora, livrou-se da calcinha enquanto a polpa de seus glúteos roçava levemente a ponta do nariz do homem. Mal sabia ela que aquele strip-tease era o último ato voluntário que executaria. Uma vez nua em completo, sentiu os braços fortes do monge a lhe prender pelo tronco a ponto de quase não respirar.

– Você consente que eu a inicie no meu mundo?

– Ahhh… sim, sim, sim!

O monge usou a mão esquerda para puxar uma fita vermelha do sofá e, com ela amarrada sem piedade, calou a boca da mulher. Ela já não podia fazer nada além de emitir seus gemidos. Levou-a para o chão da sala, sobre o tapete. Com a agilidade e simetria de um verdadeiro mestre passou a puxar metros e mais metros de corda de vime de dentro de um cesto rústico. Ao balé de laços e puxões, a mobilidade dos membros de Evita foi desaparecendo aos poucos. Seus olhos pareciam muito assustados e algumas lágrimas escapavam. Da boca nenhum pedido de socorro ou misericórdia saltava. Eram apenas gemidos e grunhidos de prazer. Após finalizar o trabalho exaustivo e meticuloso de deixar a moça feito uma boneca empalhada para seu usufruto, o monge buscou um espelho para que ela pudesse ver do que se tratava a sua arte. Ela, estupefata, só fazia arfar em fôlegos incandescentes. Ele, então, a vendou. Sem que nada pudesse ver e de jeito nenhum pudesse se mexer, ela sentiu a invasão morna e gentil das carnes nas carnes. O monge sussurrou em seu ouvido:

– Água. Se você balbuciar o elemento água eu paro imediatamente. É a sua palavra de segurança.

E continuou. Por horas ele a consumiu como se o corpo não carregasse alma. Dada a tensão das cordas e o misticismo daquele ato, ela atingiu o clímax inúmeras vezes e nunca pediu água. Quando despertou, estava livre das amarras e sozinha. O monge havia saído e deixado um bilhete ao lado de um jarro d’água, pedindo que se hidratasse antes de partir. Evita se sentou meio zonza na cama, tomou a água e, ao se pôr em pé, sentiu a frouxidão das articulações por ter ficado tanto tempo imobilizada e caiu como uma árvore arrastando tudo ao seu redor. Havia uma luminária em forma de globo terrestre e, em cima, o tal chapéu da foto. Ela viu o mundo, mas não viu o chapéu. Foi embora atordoada e, talvez, finalmente com o fogo controlado. Descobriu nos dias seguintes que BDSM não correspondia à Budismo, como havia pensado, e sim a Bondage e Sado Masoquismo, uma prática sexual que envolve dominação e submissão. Ainda, ouviu rios de risadas das amigas ao tomar conhecimento de que Shibari é o nome da técnica oriental para o uso de cordas como meio de comunicação, imobilização e até terapêutico.

Ela havia caído no conto do monge, que de monge não tinha nada como tampouco seu nome era Shibari. Acontece que Evita enlouqueceu e pediu mais. Afortunadamente, ganhou a concessão de explorar as lascívias daquela perversão toda semana, sempre às quintas-feiras. Descobriu, com sucesso, que haviam gourmetizado a amarração para o amor.

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