Zodículo

Saí de casa em direção à esquina. Nada de mais nem de menos, eu só queria ventilar ar puro para dentro dos pulmões. As más influências, a vizinha do primeiro andar e seus glúteos estonteantes, o barulho de furadeira do cara do segundo andar, o estado pandêmico, o cinzeiro de papel cheio de bitucas de cigarro e cinzas que se levantam com a brisa que entra pela janela da sala, a falta de álcool na geladeira, o excesso de álcool no sangue, o grito do sujeito que vende legumes na rua, as dores no corpo em virtude da ressaca impiedosa, os meus tênis com a sola furada, tudo aquilo me conduzia à estafa mental. Foda-se – pensei -, caminhar não pode piorar as coisas. Saí descalço, queria literalmente manter os pés no chão.

A massa operária mantinha as engrenagens nos trilhos e eu era apenas um homem branco comum, insatisfeito dentro da minha própria bolha reluzente com problemas de um universo privilegiado.

Meus olhos sofriam com a luz do Sol e alcei os óculos escuros. Lentes negras e máscara formam o disfarce perfeito neste início de século. São tempos de uma doença global que assusta não pela sua letalidade, mas pelos métodos de enfrentamento que desencadeou ao redor da Terra. Ao redor, ora ora, que ironia. Para ser inclusivo, incluindo estritamente os muito burros, hei de dizer que o termo correto é ao longo da Terra, pois há aqueles que acreditam ela ser plana. Tão rasa quanto suas reentrâncias encefálicas. Caminhei por um quarteirão e avistei a velha em seu lugar, como na canção. Geralmente sentada, permanece durante parte da manhã observando a rua. E ela começa cedo. Dia desses, eu saí de casa às quatro e meia e lá estava ela. Mas hoje, para a minha alegria, descobri que a velha ainda tem as pernas em operacionalidade.

Bom dia – eu disse. Tão imóvel quanto as grades do portão que a protege, a velha é quase invisível. Somente olhos demasiado humanos podem vê-la. Bom dia – ela respondeu naquela madrugada que precipitava as cores da alvorada.

Sem que a mosca lhe fizesse mal, a velha estava na calçada um pouco distante de sua casa. Estava de pé, com a sua máscara sobre o queixo e a boca ruminando algo que lhe escorria pelo canto da boca. Contraí as cordas vocais para direcionar as únicas palavras que nos cabem, aquelas de cumprimento cordial, mas ela se antecipou:

– Quer caju? – disse, empunhando uma porção de frescos cajus amarelos e vermelhos que carregava na mão esquerda.

– Muito obrigado, que a senhora tenha um bom dia – retruquei, bondoso, com um sorriso.

Ela não podia ver os meus dentes exibidos, porque a máscara sanitária os escondia. A feição carinhosa só não morreu nesta era porque, ao sorrir, contraímos inúmeros músculos da face e isso se pode perceber especialmente no canto dos olhos, ali onde se identificam os pés-de-galinha. Durante a pandemia, sorrimos com os olhos. Quando bebo e escrevo me sinto um gênio, mas não necessariamente quando bebo ou quando escrevo. Fiquei com dor na consciência por não ter aceito ao menos uma das frutas, mas fazer o quê, já não havia muitas coisas que a arcada dentária da velha suportava mastigar. Os cajus lhe fariam grande justiça nutricional. Ela os sugava e cuspia as fibras no chão.

Uma esquina a mais na minha caminhada plano-terrena e lá estavam os três amigos, mais D’Artagnan. Trata-se de três moradores de rua que, ocasionalmente, têm um convidado a mais a acompanhá-los. Grande prazer o deles, esse de ter o mundo como lar. Nós, civilizados e obedientes ao deus Capital, temos de adquirir propriedade privada para que possamos denominá-la casa. Eles não, toda calçada é sala de estar e todo o mar é banheira. Los tres amigos são idosos, bem que se diga. Nunca lhes dei bom dia, como faço com a velha. Acho que, no fundo, é inveja da minha parte. Quando vou trabalhar, pela manhã, encontro suas carcaças estiradas em posição fetal, mão sob a cabeça, sorrindo em um sono profundo. Sonham com algo que a realidade não pode cumprir, dormem profundamente em um coma induzido pelo álcool etílico, descansam enquanto os outros só fazem atingir a fadiga. Quando volto para casa ao meio-dia, eles estão de pé, dançando sem música e almoçando a cachaça pura. Dividem um carrinho de compras onde guardam seus valiosos pertences. Poderia dizer que ali está tudo o que têm, mas em verdade reflito que eles têm muito mais do que percebem. D’Artagnan eu chamo o quarto amigo que se junta a eles, um cara especial. O digníssimo hoje se superou. De alguma forma conseguiu uma caixa de som e, para a alegria de todos, o instrumento faz os homens cantarem e dançarem freneticamente. Estão todos acordados mais cedo do que o costume, talvez pelo êxtase da música. É uma festa open bar e não há seguranças para barrar a entrada de ninguém.

Não usam a máscara de proteção como todo o resto dos habitantes da terra brasilis. Não temem a morte, temem a falta da pinga. Eu os entendo, empatia que chama. Resolvi parar por um tempo para observá-los. Nomeei cada um, para o meu bel-prazer, segundo o instinto mordaz da filosofia. São, então, Platão e Sócrates e Diógenes e D’Artagnan, claro. Três mosqueteiros junto ao agregado.

Diógenes fica o tempo todo com a mão no saco, acariciando. Não o saco onde carrega as latinhas de alumínio que lhe rendem alguns trocados, mas o saco que acolhe as suas bolas. Ao se aproximar uma dama ele passa a se movimentar, as duas mãos ao vento, como em uma dança espiritual. Rodopia e sorri, absolutamente naufragado na bebida.

– Você quer dançar comigo? Procuro e não encontro alguém para dançar! – assim diz o galanteador, segurando uma dose de cachaça em uma mão e a bolsa escrotal na outra.

As mulheres desviam de Diógenes e seu perfume acre resultado da sereno ácido que o banha diariamente. Ele não desiste, parece um enorme predador, faminto por um tipo de carne que, sabe-se lá, já faz tempo que não degusta.

– Olá, que lindo dia, não? – Diógenes repete ao saltar em frente às mulheres que caminham por ali, agora com uma mão na barriga e outra no ar, ensaiando uma valsa.

Uma infância de negligência, pais que o trouxeram ao mundo e depois o abandonaram. Falta de um lar e de cuidados fizeram com que ele fosse morar nas ruas. Viveu entre sacos de lixo rasgados e cães imundos, acostumou-se a respirar fuligem e a comer migalhas. Apanhou sem motivo e sentiu as contrações da puberdade o empurrarem para o beco sem saída do desejo impossível de se consumar. Acordou de pau duro tantas vezes e nunca pôde usufruir daquela potência natural que Deus havia concedido, tão democraticamente, a todos os homens sobre a Terra, ricos ou pobres. Amargou talvez alguns abusos físicos por morar sobre os paralelepípedos. A confusão na fala sugere que também surfou sobre os paralelepípedos de crack. O dia e a noite nunca fizeram sentido, não havia um lençol para cobri-lo nem lábios para embalar o sono. O resultado é mais um miserável sem teto, produto do sistema atravessado que dá de ombros para os menos favorecidos. Essa teoria seria, geralmente, apresentada por um genérico analista social. Eu discordo.

Diógenes só pode ser de gêmeos. Porra, mas é claro. Os geminianos sofrem da tal síndrome do donjuanismo, uma necessidade compulsiva de seduzir o tempo todo. Amam o envolvimento sexual, mas dificilmente as emoções caminham junto com o sexo. Preferível é aquela sedução difícil, que envolve pessoas inacessíveis, comprometidas, casadas. Por um instante chego a imaginar que eu sou de gêmeos também. Não sou. Mas que caralho? O Diógenes contemporâneo vive na rua, não tem vergonha dos instintos selvagens que lhe batem à porta e vive buscando uma mulher honesta, esse crápula. Fosse ele de sagitário, aposto que não estaria em situação tão lamentável. Tarado, sem escrúpulos. De repente, sai de cena e se cobre com papelão em um canto. Eu sei o que ele está fazendo, todo mundo sabe o que ele está fazendo. O papel marrom sobe e desce constantemente. Como poderia seu apelido não ser Diógenes, o cínico? Como geminiano, ele teria grande futuro na cafetinagem.

Platão continua sentado na sarjeta, uma mão no queixo e a outra na cintura. Balança a cabeça, fala com o vento. Acaricia a barba e a brisa bagunça os cabelos encaracolados. Parece inconformado, sua testa franzida revela o desmantelo que se expande no coração. Ora se levanta, ora senta com as mão esticadas para trás. O sapato esquerdo não é do seu tamanho, os dedos ficam para fora por um furo na dianteira. Gesticula com um poste de luz, parecendo dar uma lição aos espíritos que deve enxergar. Tudo o que sai de sua boca é em volume baixo, inaudível para mim que estou à distância. Então, subitamente, ele exclama em alto e bom som:

– OUÇAM! EU TRAGO A VERDADE E COM ELA PODEMOS ALCANÇAR A LIBERDADE!

Deve tragar outra coisa, o safado – pensei. Parece ter fugido de um hospital psiquiátrico, em plena madrugada pulando o muro. Não lhe interessa os carros que raspam o asfalto, não lhe interessa os pássaros sobre os fios de alta tensão, não lhe interessa o vírus tampouco suas variantes, não lhe interessa se há abrigo contra a chuva, não lhe interessa o preço da cesta básica. A ele interessa a salvação. Platão murmura e eu me achego. Estou curioso sobre as filosofias que o homem de feição ancestral tem a compartilhar.

– Ei, chegado, isso tudo aqui, a existência terrena como conhecemos, é passageira. Semeamos aqui, podemos até acabar colhendo uma ilusão ou outra, mas importante é a safra no outro plano. Bendito o mundo da paz e bonança que nos espera, os homens conscientes. Alguém realmente se importa com essa vida mundana? Ai de mim se não alimentar a boa fé. Devemos nos apegar a tudo o que ainda está por vir. Ei, chegado, sirva mais um pouco de bebida para mim? – assim filosofou o moralista.

Platão repetia à torto e à direito o que bem entendia e se dirigia ao tal “chegado” e pedia mais álcool. Fazia tudo isso olhando para o lado oposto de onde eu estava, ou seja, havia mais alguma alma por ali, uma alma hipotética para mim, mas romântica para o idealista. 

– Justiça, oh Senhor! – elevou as mãos aos céus, uma delas segurando o copo meio vazio, em clamor comovente – Não sou digno de ti!

Peça de museu aquele tipo. Se eu fosse ao manicômio municipal haveria de encontrar seu nome na lista de desertores. Ser maluco é uma vocação, alguns a alimentam com drogas ilícitas ou não, outros com a neurose abundante que parece permear insistentemente a sanidade. Será ele um desiludido que sofreu um mal súbito e disse adeus ao bom senso? Alguém o abandonou no altar? Alguém o chifrou? Sofreria ele de problemas de ereção? Qual é o grande porquê por trás daqueles fios de cabelo faciais? Um típico libriano, eis o quê. Ares de inocência ladeiam aquela cabeça confusa, eu sei. Equilibrado e idealista e justo, inverossímil. Romântico, dá a entender que seus ideais são os de que todos deveriam viver na rua e não o contrário. Está a um passo de se tornar pastor, porque em línguas ele já fala. Eu não sei se ele é de libra mesmo ou se é só teimoso. Desaguou na embriaguez da vida. Lógico, deram a opção dele ou estudar ou beber. Ficou em dúvida (coisa de libriano) e o trem passou. Restou os litrões. Refleti que os signos, essa beirada do senso comum, podem ser úteis para explicar a vida dos fracassados. É muito conveniente explicar o sucesso de um CEO porque ele é de áries. Quer poder, impõe autoridade e etc. Ousado é analisar, sob a ótica do zodíaco, o grande sofrimento do mundo. Danem-se os bem sucedidos, o que fascina é a tragédia!

Vejam Sócrates, por exemplo. O rosto inchado, vermelho, coalhado na manguaça. Dos olhos correm lágrimas e do canto da boca a baba escorrega solta.

– Ela me deixou, mas eu só tinha amor por ela! Todos me abandonaram! Minha família não me quis mais! – soluçava e repetia esse mantra abraçado a uma garrafa de aguardente 51. – Eu tinha um filho, dois filhos!

– O que houve, camarada? Morreram? – não me aguentei e dirigi a pergunta ao grande lamentador.

– Não materialmente. Afastaram os dois de mim, acusaram-me de corrompê-los. De corrompê-los! Logo eu, um pai amoroso que só queria lhes ensinar o valor do que é belo. Queria que conhecessem a si mesmos, queria que acreditassem.

– No quê, homem? – interessei-me pelo discurso.

– Nas virtudes! Na prática – ic! – das virtudes. Ações e não palavras. Agir! Porra, eu os levei para a zona… queria que experimentassem algumas coisinhas…

Que figura! Estava quase acreditando que deveria ser canonizado quando, entre um soluço e outro, ele soltou aquela pérola. O tom de sua voz era tão triste que comovia. Qual seria a grande virtude? Deve ter frequentado a escola, ter sido o primeiro da classe. Acho que acabou na rua por desgosto. Sabe usar as palavras, mas não duvidem: a verdade é uma só. Ai de confundirem-no com os sofistas, aqueles crápulas prolixos.

Sócrates, meu amigo, por que será que todos o deixaram? Terá sido a bebida o grande problema? Os maus hábitos de um adicto ou a flagrante falta de limites em ser um chorão desgraçado? Puteiro e canja de galinha, com parcimônia, nunca fez mal a ninguém. Acabei de inventar isso, mas quem se importa? Ninguém te aguenta, canceriano de uma figa! Reclamar é a sua segunda profissão, a primeira é galgar o grande trono de rei do drama. Acho que é por isso que o dono da venda dá garrafas de graça para ele, para simplesmente evitar o chororô. Enquanto conversávamos, o sr. Jair veio e entregou uma garrafa novinha em folha de conhaque de alcatrão.

– Esse daí tem história, viu? Parece que ele já esteve até na faculdade – disse o botequeiro.

Faculdade da vida, meu caro. Fácil de entrar e difícil de sair.

D’Artagnan não deve viver em tempo integral na rua. Está um pouco mais bem vestido que os demais e tem a barba feita. Serve uma dose de cachaça junto aos amigos em seu copo descartável e a bebe olhando para um pequeno espelho afixado na traseira do carrinho de compras que transporta os bens pessoais da trupe. Vaidoso, megalomaníaco com sua caixa de som colorida. Ele se acha o máximo, um líder natural. Os outros o acham um perfeito idiota. Leonino, é óbvio! Fala pouco, mas fica sorrindo. Sente que faz parte da bagunça só durante a farra, nunca se mantém sob o luar como os demais. Seu lugar é algum cômodo protegido dos temores trevosos das esquinas mal frequentadas. A prepotência é tão grande que se pode cogitar, sem medo de errar, que ele precisará de dois caixões quando morrer. Um para ele, outro para o ego. Seria um bom ditador, capaz de dar ordens as quais, claramente, não tem competência nenhuma para executar por si só. Pensando nisso lembrei: qual será o signo do presidente da república?

Platão, Sócrates, Diógenes e D’Artagnan, quatro exemplares da justiça astrológica. Sofrem com a impiedosa dança dos astros. Pergunto aos céus: esses filósofos do asfalto assumiram em algum momento as consequências dos caminhos escolhidos ou se vitimizaram e apontaram diferentes culpados? Ignoraram a revisão e reflexão que era necessária. Entraram em rota de colisão com Saturno retrógrado e são a prova cabal de como os astros não destilam misericórdia. Devem continuar a catar latinhas, os três ou quatro, enquanto não analisarem seus quadrantes astrais. Horóscopo até que faz sentido agora. Pensei na velha e cheguei a conclusão de que ela deve ter feito seu mapa astral em algum momento da vida. Por isso tem casa, uma cadeira e cajus.

Um conto de Boston – parte 2

Parece que há grande prazer no jogo das migalhas jogadas ao léu. Passou-se uma semana, a sexta-feira chegou, e havia mais um papel dobrado sobre o banco que dá para os trilhos da estação ferroviária norte de Boston. O local era o mesmo, a minha surpresa foi a mesma. Outro recibo semanal, um resumo da jornada de um alguém que eu sequer sei se me observa à distância. Não posso manter para mim estas palavras que seguem. Se guardasse ou jogasse fora, daria no mesmo, mataria a história por omissão. Algo me sussurra a necessidade de compartilhar a voz alheia. O antes despretensioso papel dobrado agora tinha apresentação:

“A quem interessar possa…

Começo me redimindo da deselegância. Garanto que não derrubarei comida nenhuma sobre esta folha. Quando era mais novo, meu irmão me ensinou um truque para conferir mais idade a uma carta. Você derrama chá mate sobre a página e depois queima levemente as bordas a fim de conferir um aspecto ancestral ao papel. O chá dá um tom amarelado de coisa antiga. Meu pai é já um senhor de idade, mas não é pela cor que entrega a idade. É antigo, mas não é amarelo, é branquinho. Não cora as bochechas nem quando mente ou quando fala umas sem-vergonhices. Senhor do bem, velhinho dos bons. Se tem um fato que me dá uma ardente alegria, esse é o do meu genitor não se conformar com a minha escrita. Onde ele procura romance e rimas fesceninas tem encontrado relatos crus do dia-a-dia. Daí ele me presenteou antes de ontem. Disse que o tripé por onde se equilibra o meu pensamento é formado por mordacidade, ironia e cinismo! Pater Deo, meu pai que é deus!

Faz um frio danado hoje. Semana passada o termômetro marcava -1,1°C, hoje está em -4,4°C. Será que dá sorte esses números repetidos? Sorte para o cara que vende luvas na entrada da estação, sem sombra de dúvida. Eu contei para o terapeuta que tinha ganhado tais elogios do meu pai e ele provocou se ironia e cinismo não eram a mesma coisa. Respondi verbalmente que não, balançando a cabeça de cima a baixo demonstrando “sim”. Cinismo é a doutrina filosófica grega que estabelece as vantagens de uma vida simples e natural, cujos valores principais eram buscados no desapego às normas sociais, bens e riquezas, sendo efetivada através do autocontrole. Cínico, portanto, é quem demonstra desprezo pelas normas sociais ou pela moral estabelecida; atrevimento, descaramento, despudor.

Reparei há pouco que duas verdades hão de se perpetuar ad eternum: o açúcar é uma coisa que deixa o café muito amargo quando nele não é posto e que a situação no Brasil é grave, mas não é séria.

A vida aqui nos Estados Unidos é tranquila com pitadas de alerta, mas os perigos são outros. Na terra do tio Sam há os assassinos em série, uma gente que sofre de patologias da psique e que põe em prática atos violentos contra outros humanos ou animais. Mês passado executaram um tal de Ted Bundy, o cara era um facínora. Fritaram o cara na cadeira elétrica. No Brasil a gente não sofre desses medos, mas, por outro lado, parece que às vezes somos comandados por psicopatas referendados pelo próprio povo. É cada uma. A vida não é de brincadeira, embora possa ser muito divertida. O que confunde é que costumamos levar farra a sério e o que é importante na piada. No último sábado, resolvi mimetizar os grandes escritores da sarjeta e tomei um porre com requintes de romance. Bebi todo vinho que comprei, três litros, e fumei dois maços de cigarro na companhia de duas atraentes damas. Uma delas era loira e de baixa estatura, a outra de longos cabelos negros e quase da minha altura. Eu tenho um metro e noventa centímetros, ela 1,85. A baixinha era um pedaço de mau caminho, a outra era o caminho inteiro. Encontrei-as na mesa ao lado e levantei a minha taça em um brinde simpático. Sentamos juntos e não nos apresentamos. Tombo as palavras sobre este papel sem poder dar-lhes nome ainda que as tenha carregado em lembranças vívidas sobre o tecido vermelho que me recobre os lábios. Ao me dirigir à mesa vizinha, afastei a terceira e vazia cadeira e estendi minha mão dizendo boa noite. Sem que se levantassem, cada uma me puxou e me beijou na boca. Fiquei entusiasmado. Elas tinham um sotaque diferente, mas a embriaguez compromete a lembrança da nacionalidade. Devem ser russas, eles beijam na boca por lá ao se cumprimentarem, eu acho. Não faço ideia, tampouco importa, não tenho planos de visitar o leste europeu tão cedo. Uma pena. Conheci uma russa uma vez, eu amava conversar com ela. Ouvia, ouvia e ouvia. Ávida por beber do meu conhecimento, modéstia à parte, que nutro com longos goles nas fontes imortais dos gregos aos contemporâneos. Até que um dia lhe perguntei sobre um assunto tal: “o que você acha disso?” Ela respondeu “até que enfim você quer saber a minha opinião sobre algo”. Aquilo foi um banho de sabedoria, não a opinião em questão sobre um determinado assunto, mas a lição de que eu a deveria ouvir também. Desci do meu degrau de orador intocável e aprendi mais com ela, que tinha extenso tesouro intelectual guardado dentro da mente. Já no sábado, bêbados e tresloucados, a conversa foi outra. Em dado momento, uma delas passou a querer divagar sobre assuntos que ela não conhecia, mas eu sim. Calei. Era um suplício e eu estava fumando cigarros. Eu não fumo cigarros. Quis impressionar. Já se foram seis dias desde aquele encontro e eu continuo a tossir feito cachorro. Será que os cães satirizam uns aos outros dizendo que estão com tosse de humano? A necessidade de expressão da moça era tanto que não aguentei, remanejei o tema. Ela insistia. Recusei a réplica, ela se ofendeu. Bebi o último trago, saudei as donzelas e parti. Contei para o terapeuta e ele fez o que faz de melhor, desnudar as minhas inconsistências prático-teóricas. Que grande filho da puta. Eu ou ele? Os dois. Fiquei vulnerável, logo eu. Todo tolo gosta de ouvir que é importante. Eu prefiro os insultos, são mais palpáveis.

Será que alguém encontrou a carta que deixei aqui, neste mesmo banco, há sete dias? Será que foi parar no lixo? Observo os transeuntes e eles parecem muito distantes. Não como os meus parentes que estão separados por milhares de quilômetros geográficos, mas afastados em presença. Alguns parentes são ótimos justamente à distância, mas um fracasso na convivência próxima. Os usuários do trem olham com estranheza o chumaço de papel e a garrafa de café que levo a tiracolo. Desde que li um tal filósofo indagar “devo tomar café ou me matar?”, agarrei-me ao filtrado. Talvez soe inocente, mas é científico: há de se estar vivo para beber café. Puta sacada. Ainda assim, escrevo a eles, com eles, por eles. Quiçá sou lido, com certeza preterido. Bukowski tem me matado, por fora. Por dentro, enche de ganas para registrar acontecimentos. Externamente, faz com que eu sinta glamour no álcool e no cigarro. Preciso de um xarope – ah! Que saudade da água de coco do Brasil! O café acabou e o nariz começou a escorrer. Finalizo com efusivas saudações ao primeiro que percorrer estas linhas, mesmo que sejam os micróbios que habitam os latões de despejo reciclável. Escrevo para todos e para ninguém.”

Amarração para o amor

Cansada de um povo bisbilhoteiro e mesquinho, um conjunto massificado de pessoas que a oprimiam e empurravam-na em direção ao abismo da vida pacata de acordo com os preceitos morais do rebanho, resolveu, por bem, romper com a tradição social que reserva à mulher recém solteira a pudicícia e o confessionário. Em sua presença, as amigas desejavam a renovação e superação do trauma amoroso, mas pelas costas repreendiam as fagulhas de liberdade que rompiam sob a aura casta. Sendo que, pelas costas, o que ela queria mesmo era ser devorada, dominada, agarrada de ladinho, de quatro, de olhos vendados. Evita decidiu emputerar-se,

(nota do autor: atentar ao acasalamento do substantivo puta com o verbo empoderar)

fornecer a torto e a direito o seu sagrado maná feminino e sorver de todo o fluído que lhe fosse oferecido consentidamente. Evita agora era quem chorava por eles e elas, os grandes arcabouços do recalque.

Anos de relacionamento morno lhe renderam uns quilogramas a mais, é bem verdade. A dieta daquela mulher continua pobre em nutrientes e rica em açúcares, é bem verdade também. Mas a alma corrompida só pensava em sentar e levantar repetidamente e, empirismo seja prova, o impacto orgástico de suas carnes volumosas sobre a pelve alheia era muito maior na abundância do que na escassez. Em português claro, os homens adoravam sua gostosura. Seios não lhe faltavam e se tornaram mais uma arma no sufocamento erótico. Usando do Tinder e abusando de homens ela passou a colecionar abatimentos. Escrevia em um caderno o nome, o tipo físico, se a tinha feito gozar e o tempo que levou para ele atingir o orgasmo. Finalizava a ficha com uma nota de 0 a 10. Os marmanjos, assustados com a temperatura que apresentavam todos os lábios daquela mulher, perdiam a dianteira da ação. Estavam acostumados a dominar, a ditar posições e, logo após atingirem o clímax, a irem embora com alguma desculpa vulgar. Só que a heroína devassa trancava a porta de casa, a porta do quarto e só permitia que fossem embora após ela se sentir devidamente satisfeita. Uma? Duas? Três? A jovem literalmente rodava uma roleta cuja numeração, ora vejam só a audácia, partia do dois e passava do 30. Só com o número definido é que o escravo vislumbrava a alforria por entre as portas do palácio luxurioso. Há uma lenda urbana sobre um mancebo que se atirou da janela ao visualizar o número 22 ser preenchido pela bolinha do jogo. Evita agia, selvagem, não só por tesão mas por vingança. Ela queria de volta os anos que desperdiçara e – por que não? – os ânus também. Ao descobrir que o prazer do homem aumenta ao se massagear o orifício mais ao sul, passou a praticar o fio-terra em todos, sem sequer permitir permissão. Bastava que anunciassem que gozariam e lá ia seu dedo intrrépido a perturbar o sossego. Ganhou alguns gritos desesperados de protesto mas, os tetos espelhados não mentem, ganhou um séquito fiel de fãs. Evita se tornara uma bruxa do hedonismo. Assim, tal como uma droga comum, o sexo começou a pedir por mais, por muitos, por diferentes estímulos.

Rogou à sua amiga que a incluísse em um ménage à trois, mas lhe foi negado o pedido. Havia se transformado de gatinha em onça em curto espaço de tempo e isso causava receio nas outras mulheres. Tinham medo não só que lhes roubassem o marido como a elas próprias. Onde ela encontraria a robustez fálica que causaria calma e tranquilidade para parar com a libertinagem, ainda que apenas por um período breve? Um novo match no Tinder, cuja descrição era ousada, e o nome bizarro fez com que ela salivasse: “Monge Shibari. Faço amarração para o amor, BDSM”. Na galeria de fotos havia apenas uma de costas e traje branco de linho, com um chapéu escuro na cabeça. Tudo nele era estiloso, a foto, o texto, o chapéu de gângster. O gajo poderia ser casado, ou estar de saída do tal mundo ecumênico ou, ainda, só gostar mesmo do clima de mistério. Ou monastério, afinal o cara era um monge! Evita não era flor que se cheirasse e partiu para o ataque na batalha dos corpos, apimentada pela possibilidade de perverter um autêntico homem eclesiástico. No fundo, no fundo, ela queria amor. Mas na superfície, na flor d’água, ela desejava a mais pura putaria. Confessou à sua melhor amiga que, muito embora a vontade fosse de trepar como um suíno, seus olhos enchiam de lágrimas ao imaginar o (re)descobrimento da paixão nas mãos de um homem do caminho justo. E assim marcaram encontro, na casa dele. Ela levou um vinho branco e o homem já havia preparado um balde situado entre os dois sofás com bastante gelo dentro. O clima era calmo, um tipo de música tibetana tocava no ambiente que cheirava a incenso nepalês. No canto da sala e pelas paredes havia plantas. Pequenas árvores que cabiam sob o teto de um apartamento de piso de tacos e algumas flores davam ao espaço a sensação de tranquilidade. De tudo o que poderia acontecer ali, Evita tinha a certeza de que algo fora do comum não era de se cogitar. Serviram-se da bebida ainda na atmosfera encabulada das primeiras trocas de olhares. O gelo ainda não havia sido quebrado e ela deu o primeiro passo em direção ao diálogo com aquele homem bonito que não parava de sorrir:

– Muito agradável a sua casa, combina com seu estilo meio largado, meio pacífico.

– Muito obrigado, a calmaria tanto antecede como sucede a tempestade. – disse o tal monge que agora sorria de uma forma diferente, antes puramente simpática e agora um tanto maliciosa ao arquear uma das sobrancelhas.

– Leva tempo que você se dedicou ao caminho da prática?

– Já tem alguns meses, a disciplina da repetição proporciona a destreza na execução.

– Admiro essa firmeza de caráter, espero aprender mais com você.

– Fiquei curioso com a sua vontade escancarada de se entregar aos meus domínios. Você já experimentou alguma vez?

– Nunca, sempre quis meditar mas nunca tive paciência o suficiente. Essas coisas de budismo, eu acho, acontecem melhor quando instruídas por alguém assim de mãos fortes… – decretou e, ao perceber as recepções sorridentes às suas insinuações, jogou-se sobre o corpo do Shibari.

Beijaram com sofreguidão e Evita deu vazão aos seus princípios primitivos de fêmea alfa que consome o alimento no mesmo lugar do abate. Imobilizou o rapaz com os joelhos sobre os braços que corriam na lateral do corpo. Sentada sobre ele, afogou-o em seu colo farto enquanto usava as próprias mãos para desabotoar o sutiã. Saltou sobre o sofá em um movimento felino, virou as costas para o indefeso monge e o presenteou com a visão íntima de suas nádegas enquanto se contorcia a fim de despir a última peça de roupa. Ainda vestindo os saltos altos que colocara intencionalmente para exercer o papel de predadora, livrou-se da calcinha enquanto a polpa de seus glúteos roçava levemente a ponta do nariz do homem. Mal sabia ela que aquele strip-tease era o último ato voluntário que executaria. Uma vez nua em completo, sentiu os braços fortes do monge a lhe prender pelo tronco a ponto de quase não respirar.

– Você consente que eu a inicie no meu mundo?

– Ahhh… sim, sim, sim!

O monge usou a mão esquerda para puxar uma fita vermelha do sofá e, com ela amarrada sem piedade, calou a boca da mulher. Ela já não podia fazer nada além de emitir seus gemidos. Levou-a para o chão da sala, sobre o tapete. Com a agilidade e simetria de um verdadeiro mestre passou a puxar metros e mais metros de corda de vime de dentro de um cesto rústico. Ao balé de laços e puxões, a mobilidade dos membros de Evita foi desaparecendo aos poucos. Seus olhos pareciam muito assustados e algumas lágrimas escapavam. Da boca nenhum pedido de socorro ou misericórdia saltava. Eram apenas gemidos e grunhidos de prazer. Após finalizar o trabalho exaustivo e meticuloso de deixar a moça feito uma boneca empalhada para seu usufruto, o monge buscou um espelho para que ela pudesse ver do que se tratava a sua arte. Ela, estupefata, só fazia arfar em fôlegos incandescentes. Ele, então, a vendou. Sem que nada pudesse ver e de jeito nenhum pudesse se mexer, ela sentiu a invasão morna e gentil das carnes nas carnes. O monge sussurrou em seu ouvido:

– Água. Se você balbuciar o elemento água eu paro imediatamente. É a sua palavra de segurança.

E continuou. Por horas ele a consumiu como se o corpo não carregasse alma. Dada a tensão das cordas e o misticismo daquele ato, ela atingiu o clímax inúmeras vezes e nunca pediu água. Quando despertou, estava livre das amarras e sozinha. O monge havia saído e deixado um bilhete ao lado de um jarro d’água, pedindo que se hidratasse antes de partir. Evita se sentou meio zonza na cama, tomou a água e, ao se pôr em pé, sentiu a frouxidão das articulações por ter ficado tanto tempo imobilizada e caiu como uma árvore arrastando tudo ao seu redor. Havia uma luminária em forma de globo terrestre e, em cima, o tal chapéu da foto. Ela viu o mundo, mas não viu o chapéu. Foi embora atordoada e, talvez, finalmente com o fogo controlado. Descobriu nos dias seguintes que BDSM não correspondia à Budismo, como havia pensado, e sim a Bondage e Sado Masoquismo, uma prática sexual que envolve dominação e submissão. Ainda, ouviu rios de risadas das amigas ao tomar conhecimento de que Shibari é o nome da técnica oriental para o uso de cordas como meio de comunicação, imobilização e até terapêutico.

Ela havia caído no conto do monge, que de monge não tinha nada como tampouco seu nome era Shibari. Acontece que Evita enlouqueceu e pediu mais. Afortunadamente, ganhou a concessão de explorar as lascívias daquela perversão toda semana, sempre às quintas-feiras. Descobriu, com sucesso, que haviam gourmetizado a amarração para o amor.

Antiquado

Dois quarteirões acima da rua onde mora há uma praça. Acima é um conceito relativo, as ruas são planas e não há aclive nenhum em um raio de tantos quilômetros. Mas, para o sujeito que reside permanentemente em um tal estado débil, aquele punhado de terra circular, delineado por grama rasteira e cercado por calçadas pedregosas representava a elevação do moral. Por isso, o convite é emblemático ao seu modo: “vamos subir pra pracinha?” é o que costuma dizer o excêntrico homem maturado quando deixa fluir a empolgação ocasional. Vive sozinho, a casa dos cinquenta. Sua última companheira o deixou há algum tempo quando percebeu que ele tinha o talento para cozinhar um pecado e servi-lo ao molho madeira.

Antes, no início excitante dos encontros vespertinos e nas jovens noites, a bebida do casal era cachaça orgânica e a cervejinha gelada, como todo bom tupiniquim. Foi numa das madrugadas de verão, aquelas que só o morador do interior do estado de São Paulo conhece, que deram para abrir uma garrafa de vinho. Escutariam a obra Tristão e Isolda de Wagner e beberiam do sagrado a comentar sobre a fina erudição de outrora. Eram daquele tipo de saudosista obcecado que diz no meu tempo que era bom. Eram cultos, os dois, e pacientes o suficiente para permanecerem sentados admirando com os ouvidos. Na sala da casa havia duas poltronas estilo Luis XV, com apoio de pernas. Eram bem antigas e o estofado tinha remendos, puído, mas um tipo de peça que nunca perde a elegância. Entre os assentos, uma mesa baixa com as taças e um balde de gelo onde se metia a garrafa. A mesa em um azul celeste lindo, mas já estava um pouco enferrujada sob a pintura metálica que descascava, muito semelhante ao espírito do dono, coitado. À frente dos dois corpos cansados, repousava a vitrola preciosa na prateleira central de uma estante de madeira, daquelas montadas em passos simples de encaixe da madeira, sem adornos ou detalhes caprichosos quaisquer. Colocou o disco e desceu a agulha. Sentou-se e alcançou a garrafa de Cabernet Sauvignon. Derramou dose generosa para a mulher e, ao servir o néctar de Baco para si, pescou três cubos de gelo e os despejou na taça.

Così, come se fossero azeitonas?

– Como assim?

No uno, ma tre cubetti!

– Mas qual é o problema?

– Pedras d’acqua em una bevanda così pura que o próprio filho do Homem usava para acalmar os ânimos na Galiléia!

– Faz muito calor…

Porco cane! Ma non è un martini, quelle non sono olive, Dio Santo!

O mundo acabou ali. Gioconda não se sentiu outra coisa além de indignada e foi embora, afinal, um nome desses dispensa comentários sobre a ascendência italiana. Água no vinho, ópera, solidão, gelo no peito. O homem que ouvia Wagner tornou-se, ele mesmo, um tristão. Inconsolável.

Desde a separação, um silêncio gutural se apossou dos aposentos bege, decorados por mobília insossa, e a cama se tornou o lugar preferido para manter o corpo. Imóvel, o homem lia poesia e literatura cômica, pois precisava rir a fim de distrair a mente daquilo que ela perseguia. Ser abandonado por causa de algo tão besta não fazia sentido para ele. Claro, ele não era italiano. Rompendo a inércia da tristeza, decidiu que era hora de voltar a subir para a praça. Frequentar o ambiente efervescente onde as crianças do bairro vão a fim de exercerem a infância em plenos pulmões, levando sua vitrola a tiracolo, parecia uma ótima ideia. Os brinquedos ficam tomados por uma infinidade de meninas e meninos que correm, saltam e gritam, enchendo os olhos e ouvidos de Astolfo. Algumas cavam o solo e outras só parecem se importar com o compromisso de sujar as roupas. O prazer de contemplar a diversão alheia é quase tão grande quanto ao de fazer o mesmo no parque para cachorros. Quase. No banco central da área recreativa ele acomoda a vitrola, que funciona também à baterias, ao seu lado. Logo começa a dança das bolachas de vinil. Álbuns da década de 60 e 70, de quando os grandes intérpretes da MPB gravavam músicas infantis, são a isca para despertar a atenção dos pimpolhos que parecem não sossegar por nada em nenhum minuto.

Tio, o que é esse negócio preto? – dizia um; essa caixa tem bluetooth? – perguntaram aos montes. Ele então tocou as canções dos Saltimbancos e levou a garotada ao delírio com os sons dos animais e suas melodias engraçadinhas. O recital corria muito bem exceto pelo comportamento de um garoto mais velho, sem nenhum par etário, que se juntava aos demais. Dada a vontade de jogar bola e a impaciência por ficar sentado prestigiando as histórias do novo amigo, que usava sapato desbotado e colete de lã, ele reclamava enquanto se mantinha em pé chutando a pelota sozinho, de um lado para o outro. Que saco, isso é muito parado! Ei galera, vamos brincar era o que se ouvia do pentelho. As outras crianças todas eram acompanhadas pelas mães que, por óbvio, adoravam a calmaria da atividade que o velho propunha. O menino inquieto não tinha adulto responsável por perto e, ansioso, perdeu a noção do limite:

– Vocês são uns velhos chatos!

– E você é um menino muito do malcriado! – replicou uma voz feminina vinda de trás do banco onde Astolfo estava sentado. Ele torceu o pescoço com muito esforço a fim de vê-la. Sua mobilidade era pouca e os olhos não alcançaram a vista da interlocutora, logo, apoiou o braço esquerdo na borda da madeira que sustentava as costas e girou o tronco. Lá estava Gioconda em pé, em um vestido azul escuro, aquele olhar faceiro que tinha, e nas mãos uma taça com líquido escuro. Ela se aproximou do homem musical, inclinou-se sobre ele fazendo com que os seios fartos chegassem antes do que suas palavras:

– Sentiu minha falta, bambino?

– Minha amada, e como! Minhas noites foram gélidas mesmo com o calor que faz. Não há mais virtude na vida sem a sua presença. – disse, atrapalhado pela pressão que os peitos faziam contra seu rosto. Aquela mulher tinha a gordura depositada toda no colo.

– Voltei para bebermos juntos. Aceita, amore mio? – disse Gioconda ao estender o braço em direção aos lábios do namorado.

À aproximação do copo, Astolfo percebeu que a cor era de vinho e que nele flutuavam alguns cubos de gelo. Teria sua Gigi se rendido ao frescor da bebida? Seria um agrado em sinal de paz? Oh Gigi musa inspiradora, que coração bom e nobre ao reatar a relação. Abriu-se para a invasão úmida que vertia sobre ele e tomou um gole largo do que se propunha.

Na velocidade que entrou, saiu. À medida que o palato reconhecia os sinais químicos da composição orgânica, o cérebro enfurecia em uma reação inconformada. Doce e, ironia à parte, aguado! Qual ofensa! Gioconda servira bebida sem álcool. Cuspiu todo o oceano roxo sobre as crianças à sua frente que gritaram em um frenesi incontido. As genitoras estupefatas taparam as bocas com a palma da mão. A gargalhada geral se misturava com os berros histéricos. A maior das gargalhadas era de Gigi, como era de se esperar. Cretina, vingativa, calabresa dura na queda. Copiando o gesto, começaram a cuspir águas e suquinhos de maracujá umas sobre as outras, a meninada toda que ali se encontrava. Astolfo tentava proteger a vitrola para que não molhasse. Até o menino mal educado, que aguardava o fim da lenga lenga, gostou da algazarra. Encheu as bochechas com água do bebedouro e saiu borrifando contra a turma. A praça se converteu em anarquia, nem as mães foram poupadas, ficaram ensopadas.

– Isso é suco de uva, não é vinho!

Porca puttana, mas é claro! Não se coloca gelo em vino, disgraziato!

Abriu os olhos assustado. Uma longa baba escorria do canto da boca e manchava o colete de lã. O disco já tinha parado de tocar e, sentada com as pernas cruzadas à sua frente, só havia uma menina sorridente. Olhava para ele fixamente, com uma mão apoiando o queixo e a outra na cintura. Um pouco sem jeito, aprumou-se e tentou disfarçar o deslize. Ao tomar fôlego para iniciar o diálogo com a bela e simpática menininha, foi antecipado:

– Tio, você até roncou. Acho melhor ir para casa descansar.