Polegadas

Maria foi uma boa esposa durante uma das quatro estações do ano. Casou-se com Alfredo apesar do nome em desuso. Ela imaginava como foi a adolescência de um garoto chamado Alfredo e ele elucubrava como teria sido a infância dela sem pai. Cada um nos seus pensamentos particulares, porque eram ofensivos demais para servir à mesa. Maria não andava bem e esquecia a tampa do vaso levantada. Maria dormia com a boca aberta e roncava, mas Alfredo achava aquilo fofo. Fofo, mas insuportável, por isso ele a cutucava com o cotovelo. Casaram-se no outono, quando as folhas caíam. O caminho era poético, na antessala do renascer florido. No inverno, Maria não aguentava. Suspeitava do marido e roía as unhas que já eram curtas. Feria as cutículas e então tomava vinho. Alfredo a encontrava bêbada, desacordada, reclamando do vizinho. Ela sequer conhecia o vizinho. Moravam distante da família e não havia corrida para colo nenhum que resolvesse. Eram os dois, um para o outro, não importa o que acontecesse. Alfredo a amava e o amor é aquilo que o aquecedor faz nas noites mais frias, mesmo que o motor, toda a engenhoca que faz a coisa ficar quente, permaneça no lado de fora da casa sob um rigoroso frio. Maria era doce, uma menina, tinha os pezinhos tortos e os dedos compridos. Nasceu para ser menino, mas Deus quis diferente. Ainda bem, porque Maria era linda com cabelos que pareciam fios de linho. Alfredo se sentia completo, mesmo com as neuroses de Maria. Neuroses são essenciais ao negócio humano, dizem os psicanalistas. Opiniões, como cachos de banana, crescendo a torto e a direito como se o mundo fosse adubado por inteiro. Maria passou a suspeitar que Alfredo estava tendo um caso com alguém do escritório. Ele era funcionário público, batedor de carimbo, um daqueles de futuro, mas com todo o tédio do mundo. Saía cedo e levava a comidinha que seu amor preparava, mas então, com o diabo a lhe sussurrar diabruras, Maria parou. Simplesmente parou e escolheu a TV. O marido notou e reclamou, mas Maria alegou tontura. Disse que o alho queimava as mãos, que não suportava mais o cheiro de fritura. Alfredo, resignado, saía de mãos vazias. Trabalhava feito um condenado para que o dinheiro rendesse uma casa própria. Maria assistia ao televisor com a mente suspensa. A televisão não exige pré-requisitos, não exige sequer inteligência, a televisão só necessita ser ligada e Maria sabia bem apertar o botão vermelho. Maria poderia trabalhar em uma usina nuclear para deflagrar o alarme de desastre. Oh, Maria. Em uma manhã, ela acordou e se sentou em frente ao aparelho. Desligado, era como um negro espelho. Assistia a uma programação idiota, típica de geração vazia. Assustou-se com o estampido de uma música trágica que comunicava o impossível. “Interrompemos a programação para um anúncio especial” disse o âncora. “Devido a forte nevasca, os bombeiros têm dificuldade em acessar o prédio central da administração pública onde um incêndio sem precedentes derrete as colunas seculares”. O mundo de Maria naufragava, mas havia um âncora. Ela levantou e, nervosa, só pensava em fogo, no Alfredo, nos cigarros que ela tanto gostava. Maria subiu as escadas e bateu na porta do quarto onde o marido dormia. Ele caíra doente e dormia em um quarto separado para poupar a esposa da tosse renitente. Bateu com o polegar, como se surrasse um pandeiro. Maria não batia bem. Não houve resposta. Desceu as escadas e grudou no telefone. Ligava insistentemente para o escritório onde o marido trabalhava. Ninguém atendia, deviam estar todos mortos com a fumaça, ou pior, queimados. Maria enfiava os dedos nos cabelos e não sabia o que fazer. Conferiu a garagem e se espantou, pois o carro dele continuava lá. Tornou a subir as escadas, a bater com o polegar direito na porta branca e a chamar por Alfredo, Alfredo. Oh, a constatação! Se Alfredo não estava ali nem no serviço, só poderia estar com a amante. Nem a

neve poderia esfriar sua espinha mais que aquele pensamento. Maria entreteve a ideia e não viu saída. Fugiu de casa, usando o carro do marido. Maria aprendera a dirigir recentemente, mas a ira a guiava. Foi a um bar e pediu bebida. Serviram. Bufava e tremia. Não demorou até que um sujeito se aproximasse e procurasse ouvi-la. Existem mais homens bondosos, nessas horas, do que há certezas nesta vida. Maria vomitava o carrossel de mágoas e o cara, com a cabeça, assentia. Maria não parava, falava mais do que devia. Aos poucos, mesmo o sujeito da malícia, o garçom e os outros homens que ali bebiam se afastaram. Mas era um bar velho, sujo, daqueles que têm buracos na parede. E em um desses buracos tinha quem a ouvia. Uma barata e um rato, imóveis como se paralisados pela estricnina. Maria notou e não se intimidou, discursou para a baixa prole dos seus desejos de patifaria. Bebeu e praguejou e se levantou bastante zonza. Ninguém ajudou, eles queriam que ela se fosse. Maria entrou no carro e deu a partida, mas não conseguia ver. Havia neve sobre o pára-brisa e ela então ativou o limpador. Aguardou que a brancura se dissipasse e julgou, a inocente, que via plenamente com capacidade de uma águia careca. O carro patinou no gelo liso mas Maria, embriagada, julgou que tudo ocorria bem, da mesma forma que saiu de casa. O automóvel replicava as pernas da esposa desastrada. Na casa, enquanto isso, Alfredo destrancou a porta e pisou na sala. Não havia barulho, não havia nada. Apenas a TV ligada e um noticiário mudo. Ele mirou o quintal branco e a beleza da invernada. Torceu para ver uma raposa, um veado, um feixe de Sol naquela manhã castigada. Fez café e deu falta de Maria, mas pensou que a amada estivesse no quarto lendo ou coisa que o valha. Alfredo, segurando uma caneca azul, sentou-se no sofá e aumentou o volume do televisor que mostrava imagens de um fogo imenso, mas que não conseguia distinguir onde se passava. Foi interrompido por um anúncio urgente dentro da programação urgente que retratava uma outra emergência. “Interrompemos a programação especial para outro anúncio especial”. Alfredo recostou-se para acompanhar. “Uma caminhonete, placa RDC-8240, chocou-se contra o prédio em chamas da administração pública. Os bombeiros informam que não há sobreviventes, embora não tenham certeza de quantas pessoas estavam no automóvel”. O prédio era onde ele trabalhava. A placa era a do carro dele. Aflito, Alfredo levantou-se num salto e derramou café quente. Ele pensava sobre aquilo e não sabia o que fazer. Ele queria saber se alguém estava no carro com Maria. Alfredo estremeceu. Polegadas de neve impediam a saída e ele arrefeceu. Aquele era um sábado, ele não entendia como o incêndio começou, por que tudo acabou em fogo e por que ela o trairia.

Bula

Ao homem nascente, em meu nome, que lhe seja recomendado

Antes de tudo que a vida trama
Mas que não há o certo, tampouco o errado.

A família, a tenha por princípio
e a escola para o aprendizado
porém aos amores cuidado, são um perigo!
Haverá quem o ame por seus adjetivos
e quem o faça somente pelos seus predicados.
Que valorize, em tempo, os dias santos entre os de trabalho pois graças a igreja gozará
o seu descanso sempre aos feriados.
Mas se lhe falte a família
ou a escola não o deixe encantado
e se as mulheres não o quiserem por marido
ou para Deus você não reserve o sábado
não esqueça do começo
pois tentarão provar o contrário
e será sua meta ante o destino
provar que não reina a escuridão, tampouco tudo é claro.

Haverá só você, no fim de tudo

tão tranqüilo, mas desesperado.

Convicto que viveu certo, na dúvida se fez errado.

Spray, Sparta, Spyro Gyro

De dentro da cozinha vinha o grito:

⁃ MERDA!

Seguia-se um tapa na bancada. Isso significava que mais um pedido tinha saído errado. O cozinheiro ia à loucura. Tudo tem limite, ou deveria.

Ouvi um cara dizer que era iraniano, simpático às tampas. Cheguei mais perto, falei:

⁃ حال شما چطور است؟

Ele não entendeu. Fui mais perto da sua orelha e repeti:

⁃ حال شما چطور است؟

Ele estalou os olhos. Estendeu o braço e apertamos as mãos.

⁃ Você falou Farsi perfeitamente, sem sotaque. Como sabe a minha língua?

⁃ Ah, cara, eu já fui um negociador de tâmaras por aquelas bandas.

Entusiasmado, passou seu telefone e disse que em duas semanas estaria em Teerã e queria que eu me hospedasse na casa de sua família. Em duas semanas eu completo 35 voltas em torno do sol. A data tão temida. Eu poderia ter explicado que aprendi três frases em Farsi com aquele simpático grupo de iranianos que buscou um avião na TAM em São Carlos, no longínquo ano de 2007. Acontece que eu sempre quis negociar tâmaras. Sucesso garantido.

Duas mesas para a direita e uma moça parecia deslocada. Quando tomei conhecimento da sua história, senti uma pontada no baixo ventre. Exatamente um ano atrás, seu marido a aguardava na sala de estar para que fossem às ruas para uma noite de lazer. Enquanto esperava, decidiu limpar sua arma. Por acidente, ela disparou e ele se foi. Exatos 365 dias atrás. Eles iriam para o mesmo bar. Isso não é triste, meu chapa, é entristecedor. E há grande diferença entre as coisas. É necessário dominar a língua para traduzir a melancolia.

Procurei meu celular e enviei algumas mensagens de amor aos entes queridos. A gente nunca sabe.

Na América o verão é desejado, mas se mantém desdenhoso. Ele sempre passa. Por isso há tanta vida nas calçadas, nos pátios, nos parques. As pessoas aproveitam porque sabem que acaba. O oposto do que costumam fazer nos relacionamentos. Pensam que é para sempre. E já dizia a Cássia Eller…

Carrego uma lista de expressões para brindar em diferentes línguas.

Nazdrave, em búlgaro. Nazdarovia, em russo. Parecido, mas não vá cometer e lambança de dizer que é tudo igual. Ofensa na hora de encher a cara pode resultar em um dente quebrado. Ou abandono. Zivelji em croata. Aí você deve estar se perguntando porque tantas expressões vindas do leste europeu. Deixa isso pra lá, come on!

Bebendo rum puro com a Larissa na Tailândia em uma sarjeta de Bangkok, fomos abordados por duas garotas.

⁃ Oh, vocês bebem muito!

⁃ Err, obrigado?

⁃ Não estamos acostumadas a ver uma garota beber assim com tanta liberdade. Temos até uma expressão para isso. Lumyong, significa moça bonita que bebe whisky.

Hoje é sábado, amanhã é domingo, nada como o dia para passar. Saravá, Vinicius. Como não sou uma árvore e não crio raizes – só razões – posso sempre me levantar e caminhar. E mudar, de cor, de opinião, de amigos e de motivos. Cobra que não muda de pele morre.

Engajado

Essa é a América. Tudo é possível na América. Brasileiro se ofende, mas eu não sei o resto do continente: ouvir os Estados Unidos se auto-intitularem como América dá uma azedo no juízo. É ou não é? Ficar rico, comprar ou vender, capitalizar, isentar-se do princípio da boa fé nas relações comerciais. Só na América. Quando cai pro lado motivante da coisa, essa dimensão onde tudo é possível, uma terra do nunca, aí sim o nome combina. América é a terra da oportunidade, justa e democrática. América só não combina com discurso negativo.

Cerveja barata, carro barato, comida barata. Só as casas são caras por aqui e, bem, eu não acho que isso seja um problema. Você pode se embriagar e matar a fome, meu chapa!

Um doido, recentemente, quis fazer a América formidável outra vez. Ha ha. Que belo golpe de marketing. Quando foi que ela deixou de ser formidável? Alguém consegue responder? Patifes.

Entrei no trem ontem e um homem negro, vestindo uniforme hospitalar, prontificou-se a ajudar este distinto turista com comportamento desencontrado. Você está indo para onde? – Pompano Beach. Você sabe chegar lá? – Acho que sim, tenho que ir para o Norte, não? Bom, você tem que saltar em Opa-Locka e daí esperar, deixe-me ver, por uns 90 minutos antes de pegar o próximo trem.

Ele prescreveu esse plano de ação enquanto observava o relógio e batia os pés como que criando cadência para um pensamento envolto em ritmo e poesia. Gostei da cena. Acontece que acabei olhando para o seu relógio e descobri que aquela história era digna de se contestar a sanidade. Não havia um único ponteiro ali. A tela branca, os números dispostos em um círculo de 1 a 12 e no meio, escuro como o infinito, um buraco indicava onde deveriam ser alocados os ponteiros que indicassem a exata localização temporal do seu dono (e a minha também, no caso).

Caramba, convenhamos! Quais são as chances? A América quer você.

A cervejaria mais antiga na América se chama Yuengling. Se você contar isso a dez brasileiros, onze dirão: e tem nome chinês?

Não é fácil impressionar quando se é um hóspede na América. Lavar pratos? Eles têm máquinas de lavar louça. Há drones, carros autônomos fazendo entregas, cada vez menos gente andando nas ruas. Uma revolução em curso. Na América, destino ou não, somos menos julgados pelos outros. Aqui dá pra ser qualquer coisa, até o Batman. Não que eu queira, deus me livre. Seria mais uma responsabilidade. Gostoso é não ter nenhuma. Daqui da sacada eu vejo a piscina e imagino os compromissos. Não há santa consciência que escolha responsabilidades a uma piscina aquecida à noite. Ora, ora.

Você quer perfurar uns campos de petróleo comigo e fazer 90 mil dólares ao ano? Meu camarada, que pergunta! Quem não quer? Essa é a América que te faz propostas tentadoras no balcão de um bar em uma noite qualquer. Não ando à sua frente nem atrás de você, mas ando ao seu lado. Sou o Doug, conte comigo. Caceta. Nunca mais falei com o infeliz, mas o apelo foi forte. Senti que poderia planejar uma caminhada de três meses pelas trilhas Apalache com ele, quatro quem sabe? Doug, cabelo loiro e camisa xadrez. No seu chaveiro dava para ler Proud to be American.

A América precisa de você. De mim? Músculos e disposição e jovialidade e vontade e disponibilidade e, mais do que tudo, paixão pelo status-quo. Ha ha, que obra de arte. Preciso de um eufemismo para desespero. Que tal engajamento?

Amarração para o amor

Cansada de um povo bisbilhoteiro e mesquinho, um conjunto massificado de pessoas que a oprimiam e empurravam-na em direção ao abismo da vida pacata de acordo com os preceitos morais do rebanho, resolveu, por bem, romper com a tradição social que reserva à mulher recém solteira a pudicícia e o confessionário. Em sua presença, as amigas desejavam a renovação e superação do trauma amoroso, mas pelas costas repreendiam as fagulhas de liberdade que rompiam sob a aura casta. Sendo que, pelas costas, o que ela queria mesmo era ser devorada, dominada, agarrada de ladinho, de quatro, de olhos vendados. Evita decidiu emputerar-se,

(nota do autor: atentar ao acasalamento do substantivo puta com o verbo empoderar)

fornecer a torto e a direito o seu sagrado maná feminino e sorver de todo o fluído que lhe fosse oferecido consentidamente. Evita agora era quem chorava por eles e elas, os grandes arcabouços do recalque.

Anos de relacionamento morno lhe renderam uns quilogramas a mais, é bem verdade. A dieta daquela mulher continua pobre em nutrientes e rica em açúcares, é bem verdade também. Mas a alma corrompida só pensava em sentar e levantar repetidamente e, empirismo seja prova, o impacto orgástico de suas carnes volumosas sobre a pelve alheia era muito maior na abundância do que na escassez. Em português claro, os homens adoravam sua gostosura. Seios não lhe faltavam e se tornaram mais uma arma no sufocamento erótico. Usando do Tinder e abusando de homens ela passou a colecionar abatimentos. Escrevia em um caderno o nome, o tipo físico, se a tinha feito gozar e o tempo que levou para ele atingir o orgasmo. Finalizava a ficha com uma nota de 0 a 10. Os marmanjos, assustados com a temperatura que apresentavam todos os lábios daquela mulher, perdiam a dianteira da ação. Estavam acostumados a dominar, a ditar posições e, logo após atingirem o clímax, a irem embora com alguma desculpa vulgar. Só que a heroína devassa trancava a porta de casa, a porta do quarto e só permitia que fossem embora após ela se sentir devidamente satisfeita. Uma? Duas? Três? A jovem literalmente rodava uma roleta cuja numeração, ora vejam só a audácia, partia do dois e passava do 30. Só com o número definido é que o escravo vislumbrava a alforria por entre as portas do palácio luxurioso. Há uma lenda urbana sobre um mancebo que se atirou da janela ao visualizar o número 22 ser preenchido pela bolinha do jogo. Evita agia, selvagem, não só por tesão mas por vingança. Ela queria de volta os anos que desperdiçara e – por que não? – os ânus também. Ao descobrir que o prazer do homem aumenta ao se massagear o orifício mais ao sul, passou a praticar o fio-terra em todos, sem sequer permitir permissão. Bastava que anunciassem que gozariam e lá ia seu dedo intrrépido a perturbar o sossego. Ganhou alguns gritos desesperados de protesto mas, os tetos espelhados não mentem, ganhou um séquito fiel de fãs. Evita se tornara uma bruxa do hedonismo. Assim, tal como uma droga comum, o sexo começou a pedir por mais, por muitos, por diferentes estímulos.

Rogou à sua amiga que a incluísse em um ménage à trois, mas lhe foi negado o pedido. Havia se transformado de gatinha em onça em curto espaço de tempo e isso causava receio nas outras mulheres. Tinham medo não só que lhes roubassem o marido como a elas próprias. Onde ela encontraria a robustez fálica que causaria calma e tranquilidade para parar com a libertinagem, ainda que apenas por um período breve? Um novo match no Tinder, cuja descrição era ousada, e o nome bizarro fez com que ela salivasse: “Monge Shibari. Faço amarração para o amor, BDSM”. Na galeria de fotos havia apenas uma de costas e traje branco de linho, com um chapéu escuro na cabeça. Tudo nele era estiloso, a foto, o texto, o chapéu de gângster. O gajo poderia ser casado, ou estar de saída do tal mundo ecumênico ou, ainda, só gostar mesmo do clima de mistério. Ou monastério, afinal o cara era um monge! Evita não era flor que se cheirasse e partiu para o ataque na batalha dos corpos, apimentada pela possibilidade de perverter um autêntico homem eclesiástico. No fundo, no fundo, ela queria amor. Mas na superfície, na flor d’água, ela desejava a mais pura putaria. Confessou à sua melhor amiga que, muito embora a vontade fosse de trepar como um suíno, seus olhos enchiam de lágrimas ao imaginar o (re)descobrimento da paixão nas mãos de um homem do caminho justo. E assim marcaram encontro, na casa dele. Ela levou um vinho branco e o homem já havia preparado um balde situado entre os dois sofás com bastante gelo dentro. O clima era calmo, um tipo de música tibetana tocava no ambiente que cheirava a incenso nepalês. No canto da sala e pelas paredes havia plantas. Pequenas árvores que cabiam sob o teto de um apartamento de piso de tacos e algumas flores davam ao espaço a sensação de tranquilidade. De tudo o que poderia acontecer ali, Evita tinha a certeza de que algo fora do comum não era de se cogitar. Serviram-se da bebida ainda na atmosfera encabulada das primeiras trocas de olhares. O gelo ainda não havia sido quebrado e ela deu o primeiro passo em direção ao diálogo com aquele homem bonito que não parava de sorrir:

– Muito agradável a sua casa, combina com seu estilo meio largado, meio pacífico.

– Muito obrigado, a calmaria tanto antecede como sucede a tempestade. – disse o tal monge que agora sorria de uma forma diferente, antes puramente simpática e agora um tanto maliciosa ao arquear uma das sobrancelhas.

– Leva tempo que você se dedicou ao caminho da prática?

– Já tem alguns meses, a disciplina da repetição proporciona a destreza na execução.

– Admiro essa firmeza de caráter, espero aprender mais com você.

– Fiquei curioso com a sua vontade escancarada de se entregar aos meus domínios. Você já experimentou alguma vez?

– Nunca, sempre quis meditar mas nunca tive paciência o suficiente. Essas coisas de budismo, eu acho, acontecem melhor quando instruídas por alguém assim de mãos fortes… – decretou e, ao perceber as recepções sorridentes às suas insinuações, jogou-se sobre o corpo do Shibari.

Beijaram com sofreguidão e Evita deu vazão aos seus princípios primitivos de fêmea alfa que consome o alimento no mesmo lugar do abate. Imobilizou o rapaz com os joelhos sobre os braços que corriam na lateral do corpo. Sentada sobre ele, afogou-o em seu colo farto enquanto usava as próprias mãos para desabotoar o sutiã. Saltou sobre o sofá em um movimento felino, virou as costas para o indefeso monge e o presenteou com a visão íntima de suas nádegas enquanto se contorcia a fim de despir a última peça de roupa. Ainda vestindo os saltos altos que colocara intencionalmente para exercer o papel de predadora, livrou-se da calcinha enquanto a polpa de seus glúteos roçava levemente a ponta do nariz do homem. Mal sabia ela que aquele strip-tease era o último ato voluntário que executaria. Uma vez nua em completo, sentiu os braços fortes do monge a lhe prender pelo tronco a ponto de quase não respirar.

– Você consente que eu a inicie no meu mundo?

– Ahhh… sim, sim, sim!

O monge usou a mão esquerda para puxar uma fita vermelha do sofá e, com ela amarrada sem piedade, calou a boca da mulher. Ela já não podia fazer nada além de emitir seus gemidos. Levou-a para o chão da sala, sobre o tapete. Com a agilidade e simetria de um verdadeiro mestre passou a puxar metros e mais metros de corda de vime de dentro de um cesto rústico. Ao balé de laços e puxões, a mobilidade dos membros de Evita foi desaparecendo aos poucos. Seus olhos pareciam muito assustados e algumas lágrimas escapavam. Da boca nenhum pedido de socorro ou misericórdia saltava. Eram apenas gemidos e grunhidos de prazer. Após finalizar o trabalho exaustivo e meticuloso de deixar a moça feito uma boneca empalhada para seu usufruto, o monge buscou um espelho para que ela pudesse ver do que se tratava a sua arte. Ela, estupefata, só fazia arfar em fôlegos incandescentes. Ele, então, a vendou. Sem que nada pudesse ver e de jeito nenhum pudesse se mexer, ela sentiu a invasão morna e gentil das carnes nas carnes. O monge sussurrou em seu ouvido:

– Água. Se você balbuciar o elemento água eu paro imediatamente. É a sua palavra de segurança.

E continuou. Por horas ele a consumiu como se o corpo não carregasse alma. Dada a tensão das cordas e o misticismo daquele ato, ela atingiu o clímax inúmeras vezes e nunca pediu água. Quando despertou, estava livre das amarras e sozinha. O monge havia saído e deixado um bilhete ao lado de um jarro d’água, pedindo que se hidratasse antes de partir. Evita se sentou meio zonza na cama, tomou a água e, ao se pôr em pé, sentiu a frouxidão das articulações por ter ficado tanto tempo imobilizada e caiu como uma árvore arrastando tudo ao seu redor. Havia uma luminária em forma de globo terrestre e, em cima, o tal chapéu da foto. Ela viu o mundo, mas não viu o chapéu. Foi embora atordoada e, talvez, finalmente com o fogo controlado. Descobriu nos dias seguintes que BDSM não correspondia à Budismo, como havia pensado, e sim a Bondage e Sado Masoquismo, uma prática sexual que envolve dominação e submissão. Ainda, ouviu rios de risadas das amigas ao tomar conhecimento de que Shibari é o nome da técnica oriental para o uso de cordas como meio de comunicação, imobilização e até terapêutico.

Ela havia caído no conto do monge, que de monge não tinha nada como tampouco seu nome era Shibari. Acontece que Evita enlouqueceu e pediu mais. Afortunadamente, ganhou a concessão de explorar as lascívias daquela perversão toda semana, sempre às quintas-feiras. Descobriu, com sucesso, que haviam gourmetizado a amarração para o amor.

5 de agosto

Dia desses, meu pai disse que só o deus cristão era Deus assim, em maiúscula. Mas, o meu mesmo pai – e eu só tenho um – me ensinou que regras e bolachas foram feitas para serem quebradas e eu cresci para dar muito orgulho a ele! Das festas, dos ciclos vitais, da insânia, do vinho e da intoxicação que funde o humano com a deidade, da porra louquice, por assim dizer. A ele dedico a primeira foto da retrospectiva que se abre. Evoé, Dioniso, oh Deus (!) daquilo que é caótico e foge à razão humana. E você achando que eu era ateu, né? Nesse dia perfeito em que tudo amadurece, caiu-me na vida um raio de sol: olhei para trás, olhei para frente, nunca vi tantas e tão boas coisas de uma vez. Não foi à toa que enterrei hoje meu trigésimo terceiro ano. Adaptado do bigodês de Frederico.

A humanidade é um barato, completa voltas em torno do sol e vai à loucura, dá significado para a coisa, relaciona a posição dos astros e constelações, prediz o futuro e justifica o passado, tudo graças aos rodopios em torno de uma estrela. Uma onda. Cá estou após quatro meses de abstinência das redes sociais, a registrar o meu aniversário. Exaltar a mim mesmo e expressar “gratidão”? Não, obrigado. Recomendo mais semântica, saravá Gugu Tarô! Ai de mim se eu resolvesse contar ao mundo o quão decadente sou, um decadente par excellence para ser honesto. O texto ia soar pessimista justo na data do meu aniversário e teríamos uma tragédia. Recomendo aprender a cozinhar feijão e o salutar exercício de ser visita nos lares do mundo, tudo isso a fim de aprimorar a si próprio. As casas que abrigam exigem comprometimento com a disciplina, com a cordialidade e com a limpeza. Eis a minha receita para a excelência: aprender a ser hóspede! Na quarentena li uma penca de livros e escrevi dois. Logo os publicarei, tudo a seu tempo. Exercitemos a virtude da paciência. Alguém tem um real? Silenciei o mundo e passei a assistir os stories do cotidiano, ao vivo, a cores e sabores. Concluí que os livros continuam mais interessantes e, acima de tudo, mais profundos.

Vi os homens matando por cor. A negra, as do arco íris também. Uma lástima. E ainda tentam dizer que viemos do macaco, coitado, bichinho simpático para ter gerado uma herança tão abominável. Os assassinos do amanhã se arrepiam ao ouvir sobre entidades africanas ou sobre direitos dos quais são devedores. Eles, os puros sacerdotes. E eu assisti a tudo calado. Quanta dor no mundo! Eles são iguais até quando querem ser diferentes. Perdem o sono por seus investimentos financeiros e se descabelam por acumular ganhos polpudos e fáceis. Eu aqui, sem graça por me aproximar dos 40 sem saber nada de carpintaria. Desvairado feito a paulicéia. Aliás, quero registrar que tenho uma música especial para meu velório e ela é a Bachianinha nº1. Mas, exigência de defunto, quem há de tocá-la é Anerlindo Rodrigues, violonista clássico do interior do Brasil. Peço a vênia, meu amigo, mas terá que morrer depois de mim.

Não há nada como a constatação de um espírito amputado. Não há prótese para isso

Romantizam a elevação do espírito! Fotos em posição de lótus, com o mar e o pôr-do-sol ao fundo, as mãos espalmadas e na legenda: namastê. Valei-me, eu que meditei lavando louça, em horas de jejum lixando as paredes como operário da construção urbana, refinei o pensamento enquanto ardia sob o sol da jardinagem ou ao carregar caixas escadas acima. A filosofia ensina a agir e não a falar. O corpo é o grande pensador, movimento é expressão. Nunca houve verdade tão desafiadora. Comunicai-vos uns aos outros: ação é paz. Todos ensinam, alguns pelo o que não se deve fazer. Lapidei a vontade de me tornar um homem honrado, merecedor de distinção por, feito o mar, aceitar o desague de águas imundas sem comprometer o leito.

Perguntam-me o que quero de presente. Mais do que ter a companheira que me é fiel?   Sacia-me os desejos todos e me rouba a solidão sempre oferecendo real presença. Peça chave da minha fé Bundista, a prova viva da bem aventurança por parte das deusas dedicada a este Aquiles, um imoral por excelência. Obrigado, Larissinha. Aproveitando a deixa que já pedi a música do meu cortejo fúnebre, faço a homenagem a Noel Rosa que cantou “quando eu morrer não quero choro nem vela, quero uma fita amarela, gravada com o nome dela”. E chopp! Pelo amor de Zeus, muito chopp!

Desde o início da pandemia o que mais fiz foi viajar. Condenável, eu sei, mas fez-se necessário quando tantos convites povoaram os ouvidos. Pude conviver entre sobrinhos e irmãos, levar a comida ao fogo e celebrar à mesa. Há tanto amor nisso tudo, como diz o sertanejo: o coração fica aflito, bate uma e a outra falha. Cito o meu próprio pai, uma outra vez: “Aquiles começou a formar a sua família, uma legião de amigos e irmãos: vieram os cachorros órfãos, o irmão Sol, a irmã Lua…”.

Já se vão cinco anos sem pegar uma reles gripe. Aí sim, ostento com orgulho alguma posse: a minha saúde! Foi muita vitamina C que eu chupei pelos anos, por isso a invulnerabilidade. Sarcasmo refinado. Para reclamações sobre o comportamento, favor chamar o número 190. Finalmente, dois anos de carência permitiram que a minha digníssima autorizasse. “Posta aquela foto sua com o flamingo. É hoje ou jamais”, disse Lari. Bom, antes à tarde do que nunca.