Crônica irreversível do dia em que pedi a mão dela em casamento

A minha cabeça se afastava da conversa e eu mantinha os olhos fixos nela, nos movimentos rítmicos dos lábios que se afastavam em sons agudos e se atraíam para emitir os graves. Gesticulava, socava a língua entre os dentes para produzir os sons de “th” como deve ser. A língua inglesa, tão objetiva. Seus pés se encontravam aos meus, sob a mesa. Meu raciocínio se embaralhava e eu percebia um lapso de vinte segundos da narrativa que voava da boca dela. As palavras trotavam como uma égua puro sangue e as frases terminavam com a gargalhada de tom feminino. As chamas lhe pareciam incendiar as ideias e, ao contrário do que preconizam as leis físicas, corriam corpo abaixo tomando o colo branco e incendiando o ventre liso até aterrar em seus delicados e pequeninos dedos espremidos em um sapato de salto. Eu me sentia aterrorizado por um constante dejavu, antecedendo coisas cujas consequências eu já poderia imaginar. Um filme cujo roteiro é escrito por mim, dirigido por minha pessoa e protagonizado pelo meu eu lírico, eis a vida.

As luzes da casa tremeram e à distância rugiu o trovão. Corremos para o chuveiro. No cubículo úmido por vapores valsamos sem música e evitamos o sabão que poderia limpar-nos a indecência que brotava dos poros. Imundos de tudo o que é pecaminoso aos olhos do mundo, deixamos que escorresse as lascívias justificadas. Pela janela os olhos avistavam galhos rompidos que despencavam das alturas. O vento sacudia as folhas verdejantes como assim o fazíamos com nossas ancas. As luzes tornaram a piscar, mas o aquecimento é movido a gás, e nosso gás parecia infinito. Os sopros intensificados passaram a arremessar tudo pelos ares. Algo grande se pronunciava na natureza enquanto eu ouvia uma orquestra de câmara a excitar-me.

Os ouvidos. Os olvidos. Lembro-me de muito pouco do antes de ontem. Sei que existe uma mulher à minha frente e outra dentro de mim. Fêmeas que se cheiram. Às vezes não se bicam. Eu vou ao quintal e grito por ela. Uma chuva fina cai e tropeça em mim. A minha dama vem porque eu gritei por ela e também bati à janela. Eu digo que há algo de errado com o chão. Ela pergunta o que é. Eu digo que é o meu joelho. Como assim? Eu me ajoelho, devoto, saco do bolso a pequena caixa da esperança. Pergunto o que preciso saber. Ela diz sim. Mãos à boca e corpo curvado. Levanto e a beijo. Vamos para um restaurante. Peço drinks e ela pede que eu fale. Tudo tão rápido como nossa fábula de paixão e necessidade. O copo dela contém sal de lava negra vulcânica. No meu, aperitivo. Rimos e percebemos que os coquetéis não conseguem se manter bons até o fim, assim como a maioria dos casamentos. O desafio é arredondar núpcias e batidinhas que conservem o frescor antes de se tornarem aguadas.

Outro bar, agora com o triplo de pessoas do local anterior. Chamam-me pelo nome e notam a aliança no dedo dela. As luzes e as bênçãos e as energias derramam-se por ela. Pedimos as gotas mágicas. TCHAC TCHAC! A bartender agita as coqueteleiras com o vigor do Atlântico Norte. TCHAC TCHAC! Há cachaça no dela, há rabo de galo no meu. TCHAC TCHAC! Que os céus sejam moderados com os rabos de saia, porque eu só quero os de galo, os de galo! TCHAC TCHAC! Violentos agitos dos tubos prateados com gelo e álcool e especiarias. TCHAC TCHAC! Ela esparrama a bebida da minha noiva em uma taça circular com a borda cravejada por açúcar. No meu copo há uma bola de gelo do tamanho das de sinuca. Brindamos em nome de nós, cegos. Estamos apaixonados e não podemos ver nada como é. Há um creme brulée e agora os beijos estão ainda mais doces. Seria um desperdício não petiscar tanto quanto o apetite pede. Arriscamos viver em cativeiro um dia, alguém consegue se lembrar?

Agora há uma mesa entre nós e o garçom tem cabelos longos e loiros, cacheados e serpenteantes. Ele faz gracinhas que nos deixa à vontade. Sinto vontade de ficar de cuecas e abraçar a ele e ao chef, que manda pernas de rã fritas e ostras frescas no gelo. Bebo uma dose de não sei o quê. Serviram algo de envolvente, acho que foi camaradagem. Há brilho nos olhos dela, há um espelho d’água nos olhos meus. Acho que ela fez o impossível, não, não acho não.

Tudo continua como o planejado, eu sei. A história é minha, eu regulei a luz, ajustei o foco, gritei ação. Nada é encenado no palco da gente. Vou ao banheiro ansioso por voltar à mesa, onde em mim ela me tem. Na minha ausência, o garçom diz que ela é uma mulher de sorte. O dono do estabelecimento tem cabelos brancos e bigode branco. As curvas de seu bigode lhe conferem um título automático de lorde. Ele acena com a cabeça, elegante.

Eu retorno e a tomo pela mão. Voltamos para casa e a eletricidade continua ausente. As janelas agora estão abertas. Estendo o meu coração em uma delas, para quem quiser ver. Sou homem feito da carne humana, vim do pó e hei de voltar, amo porque a mim compete, do espírito me saltam verdades.

Há a escuridão e nossos troncos. Enterramo-nos. Um órgão que pulsa e um órgão que emite notas. No breu uma luz repentina. No céu, no peito, cá dentro. Adormeci nas costas dela e acordei nos céus suspenso.

Choo Choo

O corpo oscilava. Quando o metrô parava, ela inclinava à direita e tirava um pezinho do chão para se equilibrar. As portas se abriam, uns tantos entravam e outros saíam na promiscuidade dos viajantes urbanos que cavalgam trilhos e mantêm o silêncio. Vagões cheios que se esvaziam e vagões vazios que dão medo. Na fricção das ferrovias emulam o clímax ao chegar lá, ou aqui, sempre em um constante diverso de onde embarcaram. Empresários, iniciantes, putas, mendigos, donas de casa e analistas de sistema. Telefones com dados e a sorte esquecida no travesseiro. Quando dormem, os cidadãos deixam de fazer e são feitos. São um, são dois, são cem. O submundo da cidade grande, o literal universo que existe sob o asfalto, é um terreno democrático porque custa três e uns trocados ou coisa que o valha. E há quem não pode pagar, mas mesmo assim está lá porque pular a catraca é um ato revolucionário. Santas panturrilhas.

O pescoço da garota, duro como os julgos morais que martelavam o pensamento inquieto de uma mente proletária, resistia aos sacolejos. Ela precisava de massagem na carne, mas tudo o que andava conseguindo era no ego. Ao partir, o trem a fazia tombar para a esquerda porque o progresso e o progressismo têm dessas coisas, um desarranjo aqui, um rompimento com o status quo ali, uma quebra da inércia que é mais fácil de sentir que de explicar, imagina de fazer. Sexo, casamento, tempo de vôo entre Nova Iorque e Los Angeles, salário mínimo, por que diabos o Wagner Moura aceitou fazer o tributo ao Legião Urbana? A moça alimentava pensamentos com uma tal liberdade que só a privacidade garante. Viu então uma outra mulher – ou homem, não estava claro e ninguém se importa – que tinha cabelos tão longos que alcançavam as costas do joelho. Quão difícil deve ser para que aquela pessoa use a privada? – pensou. Uma cabecinha paradisíaca como uma ilha, se pequena em diâmetro, larga em maravilhas. Em suas narinas entravam todos os cheiros do mundo, das fragrâncias de bergamota ao chorume das ratazanas da rede de esgoto. A garota batucava com os dedos contra o assento laranja e respirava fundo. Um dia aquilo tudo seria memória, lição de vida, ou quem sabe um arrependimento. Quantos casamentos ela já havia recusado, quantos rapazolas de cabelos longos haviam prometido os confortos de salas de estar bem decoradas? Não era daquelas que aceitam as submissões exigidas para o cargo, ainda que existam inúmeras plantas para decorar os apartamentos à beira-mar. Não era uma dama decorativa. Falo de uma mulher em plena posse de suas errâncias e independências, ao ponto da recusa aos tribunais e confiança nos amanhãs. Vai para a cama só ou acompanhada, nunca insegura.

Um cara em pé lia um livro qualquer na tela do celular e um senhor idoso, corcunda, pedia contribuições voluntárias para que ele não morresse de fome. Na sociedade dos excluídos, na linha temporal dos que sobrevivem ao preço das suas horas, tudo tem preço mas nada tem sentido. Os momentos contam como séculos.

A garota tinha olheiras como todos têm, mas ela não as escondia. Seu único rabo preso era o de cavalo. Na grande maçã todos dormem pouco e cospem muito. Cigarros, tragos, fluidos pegajosos. Os prazeres da vida parecem se resumir em coisas que não são permanentes. Ela pensava em quando começar a ter coragem. Aquele livro, o diário, a luta de espadas contra o dragão invisível da letargia. Uma sirene sempre soa ao fundo quando ela caminha pelas ruas cinzas da metrópole dos tumultos controlados. Há tanto barulho em sua mente que os trens e seus gritos de metal já não conseguem atrapalhar os processos internos. Falta uma buzina dentro de sua cabeça, um alarme, um som de alerta que a obrigue ao susto. Viver não com receio, mas em alerta de prontidão, sentinela para a ação voluntária. Há momentos em que ela se vê amarrada, imóvel, vendo a locomotiva se aproximar sobre si mesma. A garota então pisca e chacoalha a cabeça e volta a si. Não há muito espaço para divagações quando falta sete estações até o seu destino. Ela ainda não ama o que lhe acontece porque ninguém a ensinou a tanto. Reclama em breves arroubos de insatisfação, como foi acostumada. Não por menor paixão pelo otimismo, mas por hábito de despertar compaixão alheia ela lamenta à espera de esmolas afetivas. Nas megalópoles dos deuses financeiros ninguém se importa com nada além dos dígitos antes da vírgula.

Eis que uma outra mulher adentra a lata metroviária e se senta à frente da garota exausta. Era jovem como ela, usava uma blusa que cobria apenas o tronco e exibia seus braços embranquecidos. Tinha traços de ascendência nativa, talvez indígena ou cabocla ou o que fosse, mas a candura de sua pele denunciava uma vida em clausura de um escritório qualquer, acarpetado e frio onde telefones tocam e galões d’água borbulham. Cabelos cacheados e um semblante confuso, Mona Lisa que combinaria com um acordeon e danças circulares. Tinha os tênis desamarrados, ela queria tropeçar, talvez cair de boca. Elas se reparam muito além do que olhos viciados estão habituados a enxergar. Onde há cores elas compreendem dores e onde há oleosidade elas sabem que há verdade. As fêmeas de uma grande tribo urbana que não sabe uivar mas sabe ir à caça. Encaram-se com curiosidade de eras e ímpeto de poucos. Mulheres, milhares delas que nasceram, reproduziram-se e morreram. Cuidadoras, provedoras, resilientes lagartas que se tornam borboletas apesar dos pesares. Estavam reencontradas, após desconhecidos paradeiros temporais. Quiçá foram contemporâneas em um Egito Antigo ou operárias de alguma revolução industrial. A garota cansada ainda batucava com os dedos enquanto a mulher de braços de fora sacou um bloco de notas e passou a esboçar linhas sobre a sua semelhante. Um lápis amarelo e curto corria a folha também amarela que ela apoiava sobre a coxa esquerda. Um instante anêmico e trivial. Faltava maconha, faltava uma sala com tapetes para que elas pudessem deitar e divagar. Um pandeiro preguiçoso, chá de hortelã, arte sem preocupação. Não havia sorriso aparente, mas havia uma empatia radical. A garota cansada mexeu no próprio cabelo com a mão direita e o gesto despertou algum apetite na outra mulher. Lábios que mordiam, sugestões telepáticas, frestas úmidas que jamais seriam visitadas. Não era possível distinguir se a mulher escrevia ou desenhava, mas era certo que a descrevia em traços toscos. A ponta de carbono a desejava com a mesma velocidade que o trem desenvolvia pelos corredores escuros do labirinto subterrâneo da capital. Cada risco soava mais alto que o último e os bicos dos seios da garota cansada se enrijeciam como o lápis que sentia o suor dos dedos da mulher ousada. Contemplavam a arte alheia, estética ou literária ou plástica ou descabida. Habitam um universo fantasioso onde se ouve o xilofone e onde os rios têm a cor laranja e a chuva é espumante. Mimosas, moçoilas, Marias, maravilhosas, melódicas, meladas e milenares.

Ela poderia ser minha, ela poderia ser do meu amigo, ela poderia estar junto comigo e com o meu amigo. Nós poderíamos ser centenas em um espaço só – assim se justificava a simulação impetuosa da garota. Registraram fotografias uma da outra, na memória do celular também. Tudo o que havia de cretino no mundo as rodeava. Os sujeitos fugazes com roupas de marca cara, as donzelas desatentas que espetam o próximo com suas unhas quilométricas. O trem parou e alguns saltaram e elas ficaram sozinhas. A garota cansada sentiu que era hora e sorriu. A mulher então guardou seu bloco de notas, levantou-se e também partiu. Sozinha, a garota finalmente pôde aceitar o cansaço e a solidão e os minutos que restavam até a sua estação. Recostou a cabeça na janela, colocou os fones de ouvido e fechou os olhos. Tocava Lisa Stanfield – All around the world.

Polegadas

Maria foi uma boa esposa durante uma das quatro estações do ano. Casou-se com Alfredo apesar do nome em desuso. Ela imaginava como foi a adolescência de um garoto chamado Alfredo e ele elucubrava como teria sido a infância dela sem pai. Cada um nos seus pensamentos particulares, porque eram ofensivos demais para servir à mesa. Maria não andava bem e esquecia a tampa do vaso levantada. Maria dormia com a boca aberta e roncava, mas Alfredo achava aquilo fofo. Fofo, mas insuportável, por isso ele a cutucava com o cotovelo. Casaram-se no outono, quando as folhas caíam. O caminho era poético, na antessala do renascer florido. No inverno, Maria não aguentava. Suspeitava do marido e roía as unhas que já eram curtas. Feria as cutículas e então tomava vinho. Alfredo a encontrava bêbada, desacordada, reclamando do vizinho. Ela sequer conhecia o vizinho. Moravam distante da família e não havia corrida para colo nenhum que resolvesse. Eram os dois, um para o outro, não importa o que acontecesse. Alfredo a amava e o amor é aquilo que o aquecedor faz nas noites mais frias, mesmo que o motor, toda a engenhoca que faz a coisa ficar quente, permaneça no lado de fora da casa sob um rigoroso frio. Maria era doce, uma menina, tinha os pezinhos tortos e os dedos compridos. Nasceu para ser menino, mas Deus quis diferente. Ainda bem, porque Maria era linda com cabelos que pareciam fios de linho. Alfredo se sentia completo, mesmo com as neuroses de Maria. Neuroses são essenciais ao negócio humano, dizem os psicanalistas. Opiniões, como cachos de banana, crescendo a torto e a direito como se o mundo fosse adubado por inteiro. Maria passou a suspeitar que Alfredo estava tendo um caso com alguém do escritório. Ele era funcionário público, batedor de carimbo, um daqueles de futuro, mas com todo o tédio do mundo. Saía cedo e levava a comidinha que seu amor preparava, mas então, com o diabo a lhe sussurrar diabruras, Maria parou. Simplesmente parou e escolheu a TV. O marido notou e reclamou, mas Maria alegou tontura. Disse que o alho queimava as mãos, que não suportava mais o cheiro de fritura. Alfredo, resignado, saía de mãos vazias. Trabalhava feito um condenado para que o dinheiro rendesse uma casa própria. Maria assistia ao televisor com a mente suspensa. A televisão não exige pré-requisitos, não exige sequer inteligência, a televisão só necessita ser ligada e Maria sabia bem apertar o botão vermelho. Maria poderia trabalhar em uma usina nuclear para deflagrar o alarme de desastre. Oh, Maria. Em uma manhã, ela acordou e se sentou em frente ao aparelho. Desligado, era como um negro espelho. Assistia a uma programação idiota, típica de geração vazia. Assustou-se com o estampido de uma música trágica que comunicava o impossível. “Interrompemos a programação para um anúncio especial” disse o âncora. “Devido a forte nevasca, os bombeiros têm dificuldade em acessar o prédio central da administração pública onde um incêndio sem precedentes derrete as colunas seculares”. O mundo de Maria naufragava, mas havia um âncora. Ela levantou e, nervosa, só pensava em fogo, no Alfredo, nos cigarros que ela tanto gostava. Maria subiu as escadas e bateu na porta do quarto onde o marido dormia. Ele caíra doente e dormia em um quarto separado para poupar a esposa da tosse renitente. Bateu com o polegar, como se surrasse um pandeiro. Maria não batia bem. Não houve resposta. Desceu as escadas e grudou no telefone. Ligava insistentemente para o escritório onde o marido trabalhava. Ninguém atendia, deviam estar todos mortos com a fumaça, ou pior, queimados. Maria enfiava os dedos nos cabelos e não sabia o que fazer. Conferiu a garagem e se espantou, pois o carro dele continuava lá. Tornou a subir as escadas, a bater com o polegar direito na porta branca e a chamar por Alfredo, Alfredo. Oh, a constatação! Se Alfredo não estava ali nem no serviço, só poderia estar com a amante. Nem a

neve poderia esfriar sua espinha mais que aquele pensamento. Maria entreteve a ideia e não viu saída. Fugiu de casa, usando o carro do marido. Maria aprendera a dirigir recentemente, mas a ira a guiava. Foi a um bar e pediu bebida. Serviram. Bufava e tremia. Não demorou até que um sujeito se aproximasse e procurasse ouvi-la. Existem mais homens bondosos, nessas horas, do que há certezas nesta vida. Maria vomitava o carrossel de mágoas e o cara, com a cabeça, assentia. Maria não parava, falava mais do que devia. Aos poucos, mesmo o sujeito da malícia, o garçom e os outros homens que ali bebiam se afastaram. Mas era um bar velho, sujo, daqueles que têm buracos na parede. E em um desses buracos tinha quem a ouvia. Uma barata e um rato, imóveis como se paralisados pela estricnina. Maria notou e não se intimidou, discursou para a baixa prole dos seus desejos de patifaria. Bebeu e praguejou e se levantou bastante zonza. Ninguém ajudou, eles queriam que ela se fosse. Maria entrou no carro e deu a partida, mas não conseguia ver. Havia neve sobre o pára-brisa e ela então ativou o limpador. Aguardou que a brancura se dissipasse e julgou, a inocente, que via plenamente com capacidade de uma águia careca. O carro patinou no gelo liso mas Maria, embriagada, julgou que tudo ocorria bem, da mesma forma que saiu de casa. O automóvel replicava as pernas da esposa desastrada. Na casa, enquanto isso, Alfredo destrancou a porta e pisou na sala. Não havia barulho, não havia nada. Apenas a TV ligada e um noticiário mudo. Ele mirou o quintal branco e a beleza da invernada. Torceu para ver uma raposa, um veado, um feixe de Sol naquela manhã castigada. Fez café e deu falta de Maria, mas pensou que a amada estivesse no quarto lendo ou coisa que o valha. Alfredo, segurando uma caneca azul, sentou-se no sofá e aumentou o volume do televisor que mostrava imagens de um fogo imenso, mas que não conseguia distinguir onde se passava. Foi interrompido por um anúncio urgente dentro da programação urgente que retratava uma outra emergência. “Interrompemos a programação especial para outro anúncio especial”. Alfredo recostou-se para acompanhar. “Uma caminhonete, placa RDC-8240, chocou-se contra o prédio em chamas da administração pública. Os bombeiros informam que não há sobreviventes, embora não tenham certeza de quantas pessoas estavam no automóvel”. O prédio era onde ele trabalhava. A placa era a do carro dele. Aflito, Alfredo levantou-se num salto e derramou café quente. Ele pensava sobre aquilo e não sabia o que fazer. Ele queria saber se alguém estava no carro com Maria. Alfredo estremeceu. Polegadas de neve impediam a saída e ele arrefeceu. Aquele era um sábado, ele não entendia como o incêndio começou, por que tudo acabou em fogo e por que ela o trairia.

Nos ouvidos, a água causa dor

– Vai se matar?

– Tenho pai e mãe ainda vivos.

– Não foi essa a pergunta.

– Estudei o Mito de Sísifo.

– Pode ser mais claro?

– Sou obrigado.

– A me explicar o que quer dizer?

– A dizer que o melhor cookie do mundo é vegano, você acredita?

– O que isso tem a ver com a minha pergunta inicial?

– Hoje é dia noturno, não há sol que possa iluminar.

– Qual dor é essa?

– Daquelas que ardem sem se ver.

– Isso é Camões?

– Sim. E não haverá mais piadas com mamão.

– O que está acontecendo?

– Não adianta tentar explicar, Inês é morta. E isso também está em Camões. E, sabe, Camões está em nós.

– O que você tira disso tudo?

– Eu posso ouvir. Há o tique-taque incessante, mas não há relógio em vista. Só há o som, o inexorável. Galopa o cavalo do apocalipse sem sinal de cansaço. É o destino do universo a contração, a expansão, a criação e a destruição. Não há o que não acabe e não existe o que não estrague. Bom, menos o mel. A doçura única da natureza que não tem data de validade desde que não seja contaminado. Que coisa essa. É por isso que é tão sério escolher honey para chamar alguém de sua estima. Não usar o substantivo em vão, um dos mandamentos.

– Como você está se sentindo?

– Com vontade.

– De quê?

– De acabar com tudo, por um fim em tudo, deixar de ser tudo.

– Está bastante confuso.

– Basta bloquear ou ignorar. As similaridades com seus monstros são o que mais lhe compromete a convicção. Atacar é verbalizar as semelhanças. Tempos líquidos, amores líquidos.

– Supere!

– Mais alguma ordem ou sugestão?

– Não, só a mesma indagação. Você vai se matar?

– E o que resta para matar que já não esteja sem vida? Carne fria, decomposta, mente de lembranças pálidas. Se o coração bate é por involuntariedade. Os pés doem porque tem de suportar o peso. Olhos veem e enxergam, mãos procuram mas não encontram.

– Então, o quê?

– Citar Manuel Bandeira.

– Dizendo?

– A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Desobediência servil

Tem coisas que não se conta para ninguém, mas se descreve em detalhes.

O ambiente de trabalho e suas paredes de confinamento silencioso, as correntes da escravidão financeira, as alterações hormonais que se dão espontaneamente, a confissão anônima da proletária que digladia com as horas esparsas por um salário apequenado. 

Era uma outra tarde inexpressiva, sob a luz artificial do shopping center que recebia as madames de sempre e os príncipes de nunca. O ar condicionado a resfriar-lhe a cútis e o tédio a afugentar a esperança. Rompiam quatorze horas do dia e a hora de saída, da almejada troca de turno, parecia uma famigerada utopia. Passavam as mães de mãos dadas com os filhos e homens desatentos a tropeçar enquanto usavam seus smartphones.

No balcão dela ninguém se debruçava e o telefone sobre ele havia tocado, a última vez, lá pelas 10 da manhã.

Era um retumbante abismo de desinteresse. O colosso do enfado ocupacional.

A atendente, além do trabalho de meio período, ainda ajudava nas tarefas domésticas. O que mais ela poderia fazer? O que mais ela poderia querer? Pais conservadores, resignados na palavra do santíssimo. Às vezes, ela suspeitava que seu pai escapava da estrada do matrimônio. E era uma derrapada de ré. Do que mais ela poderia duvidar? Com o tique-taque insistente, ela planejava o que seria da noite. Seria sopa outra vez? Após a refeição, lavava os pratos e saía para andar com o cachorro, esse era o truque para se encontrar com aquele sujeito estranho que veio de algum lugar que não se recorda mais. A amnésia repentina é uma grande aliada para uma vida feliz. Ela não dava grande importância, afinal, ele não a tratava como deveria. O rapaz tinha a mão pesada para aplicar tapas na sua bunda, mas uma língua débil que não lhe garantia prazer. Voltava com as nádegas vermelhas quase a sangrar e com um vazio no peito do clímax não alcançado. Não era amor, tampouco paixão. Ela tão somente satisfazia a carne com um homem postiço que, por ora (e como é de praxe no universo masculino), não lhe negava fogo.

O último encontro havia sido decepcionante e só de lembrar já lhe ocorria uma sensação angustiante de dúvida: será que seria assim de novo? Será que continuaria a ver navios enquanto o seu permaneceria encalhado? 

Acontece que os homens, a maioria, tendem a, quando já acostumados ao terreno, minimizar suas potências no campo de batalha.

Antes, o repertório completo era:

O sujeito a fazia gozar. Gozava depois. Tinha repeteco. Ficavam abraçados e de chamego.

Mas, com o passar do tempo, o macho começa a se acomodar. Preguiça ou falta de vontade? Enquanto isso, afundam-se as mulheres na areia movediça do desamparo.

E ela era uma mulher comum. Todas são. Os homens todos são comuns também. Ninguém é especial e nem um pouco não-especial. As pessoas são um grande conjunto de organismos iguais que necessitam de ar para respirar e comida para gerar energia e água para equilibrar e orgasmos para viver. Somos idênticos no pressuposto do êxtase fundamental, acontece que alguns passam por doutrinação negacionista e daí…

Franzina, a donzela de pernas finas entrega a devassidão nos trejeitos safados que se camuflam em brincadeiras. Está sempre a provocar com sutileza, está sempre a um passo de se embebedar nos pecados. Seus braços finos foram um dia comparados, por ela mesma, com um membro viril e duro.

Será que o seu é da mesma grossura que o meu?

Embriagada ela se veste da sua melhor versão. O corpo todo reluz em tom acetinado, meio caminho entre o branco das nuvens e o bege do trigo virgem. Fosse uma bebida, seria a cerveja Weiss, refrescante e com sabor de cravo, envolvente, com uma cor amarela intensa e nada translúcida, é claro. O corpo da bebida esconde seus mistérios. A mais pura idealização da castidade, essa mulher esconde um imenso apetite sexual que a persegue durante o horário de serviço. Basta vestir o uniforme, observar os visitantes do centro comercial e pronto. Sua mente viaja sem amarras, visita os campos proibidos que ela tanto sonha em conhecer e as coisas das quais fora privada durante toda uma vida. Quer se lambuzar, algum dia, se assim o destino lhe permitir. É aquele tipo de par perfeito que obriga o colchão a ser virado após horas sobre ele, a fim de que seque o suor da selvageria.

A frustração da última noite medíocre lhe causava um quê de má vontade em relação a encontrá-lo novamente. Suspirava em desmantelo. Era melhor não pensar muito nisso, tinha eventuais clientes a atender e não queria ser obrigada a disfarçar um sorriso amarelo.

A garota tem os dentes da frente separados e, segundo uma ancestral filosofia, é esse o indicativo da mais avassaladora tormenta sexual em uma mulher.

Ela, tomada pelo calor de um gozo represado e ansiosa por entreter-se, conformou o cotovelo sobre o balcão e os quadris no desconforto de um banco alto. Segurava o queixo com a mão direita.

O tempo indelével trouxe uma jovem mulher, loira e de coxas firmes, quadris estreitos e bunda empinada, a desfilar em sua frente. A beldade estava acompanhada.

A solitária vendedora, de pronto se acendeu em rebolados. Pôs-se a cobiçar o dorso de dois corpos que se colocavam entre uma dada vitrine e ela que, por sua vez, continuava encarcerada no quiosque de vendas. Aquela ilha onde habitava uma náufraga da luxúria.

O casal não sabia, mas conseguira fazer sua mente desocupada começar a trabalhar. Um milagre. Se faltavam consumidores, por outro lado uma chama a consumia pelo estômago e fazia a virilha esquentar e o vão entre-coxas umedecer.

Seus pensamentos foram rapidamente multiplicando:

Como será que eles transam? O que será que ele faz nela? Ela tem cara de quem goza regularmente. Será que eles realizam fantasias? Será que eu devo realizar as minhas enquanto há tempo? Será que eu quero ser um casal ou ficar solteira?

Inundada pelo furor de um sentimento despudorado, a vontade lhe perturbou o juízo. Pôs-se a imaginar a carne rude daquele homem a penetrar o talho rosado da sua mulher. Involuntariamente, todo o caminhar era fascinante. O balanço dos glúteos alheios sequestrava o que havia de restante autocontrole na heroína trabalhadora.

Passeavam com seus músculos apertados contra o tecido da roupa chamativa. As silhuetas revelavam a proeminência dos seios, o volume do caralho. Contornos iluminados que serviam de inspiração para uma comum atendente. Não se conteve. A operária dera vazão à sua libido, desabotoara a calça jeans e deslizara alguns dedos dentro da calcinha. Tocava-se e introduzia o dedo médio para averiguar o seu estado corrente. Escondia-se sem preocupação, ninguém poderia imaginar aquilo. Às suas costas a escada rolante continuava a rolar, cheia de homens gordos com sorvete na mão e os olhares fixos nos espelhos do teto. A distração do mundo ignorava os instintos da voyeur exibicionista.

Sua mente figurava o tamanho do membro dele, o estilo de depilação dela. Como será que eles ficavam quando nus? Vermelhos, pálidos?

Pensou em pedir aos dois que concedessem a dádiva de assistir a uma foda bem dada. Ali, na sua frente, ao vivo, enquanto se masturbaria em honra aos gritos terceirizados.

– Oi, posso ver vocês transarem?

A cabeça lhe permitia ousar e em seu sonho desperto ela, inclusive, se colocou entre eles, revezando entre ser lambida, ser penetrada, usar a boca entre sexos.

Entorpecida pelo tesão, continuou a girar os dedos contra o clitóris inchado. Sua calcinha não pôde segurar o néctar e nas coxas já podia sentir o escorrer do maná. Os dentes rangiam e os lábios tremiam. Queria gritar, mas se segurava em sussurros fugidios. Os olhos perdiam o rumo e, descontrolados, viraram ao cerrar das pálpebras. A outra mão, sobre o balcão, contraía a tal ponto que rachou o lápis que se prendia entre os dedos. As penas dobraram com força e pressionaram as hastes da cadeira. Os lábios poderiam sangrar com os dentes que se lhes cravaram.

Com seguidas contrações abdominais, veio um furioso orgasmo.

Sacudindo a cadeira, de dentro do seu cubículo profissional ela entregou ao universo uma cachoeira de júbilo sensual.

Ousada. Absoluta. Quase desacordada, deitou a testa sobre o escuro mogno do balcão, afastando o teclado do computador.

Recuperou o fôlego, fechou o zíper, arrumou os cabelos para trás e levantou a cabeça.

Olhou firme ao horizonte e sorriu. Sorriu como nunca antes.

Ela já não era mais a mesma.

Gemada

Estou cego, com os olhos abertos nada posso enxergar! Doem-me as retinas ao contato com a luz inconveniente que insiste em brilhar mesmo aos fotofóbicos. As cortinas deste quarto mulambento são tão eficientes quanto o estado brasileiro na garantia do bem-estar social. A película negra que foi aplicada diretamente nas janelas está cheia de furos e não consegue manter a escuridão desejada. Feito eu mesmo na noite passada, ao implorar que aquela garota não me servisse mais doses de cachaça, as súplicas não valeram de nada como agora o papel adesivo não faz frente aos raios de sol. Minha cabeça dói e eu reflito se acaso algum outro animal sofre de dor de cabeça ou se é só o ser humano agraciado com esse dom. Cachaça é uma maneira muito polida de me referir àquela bebida que me foi imposta goela abaixo há menos de doze horas. Pinga, cana, mé, coisa de mendigo, mucuri ou meu caralho, tanto faz. Dada a dor que sinto no corpo, devo estar paralítico além de cego.

Sento-me na cama e sinto uma forte onda se formar no estômago, pronunciando esôfago acima um arroto tóxico que precede o vômito. Não me vejo inclinado a perder a batalha orgânica e me concentro de modo a não regurgitar. Botar para fora o que já não tenho seria um erro, fazendo-me, além de cego e paralítico, vítima de um colapso mental profundo. Bastava ela ter respeitado os meus nãos, penso comigo mesmo. Mas, a cada não, ela sorria jogando os cabelos para trás e forçava a rodada de bebida. Ela não era do tipo linda mas ostentava a bunda mais perfeita do bar e eu, bem, sou cafajeste, a verdade seja dita. Filha de uma puta, trepou e foi embora sem se preocupar com a minha ressaca! Algo me dói entre as nádegas mas eu prefiro não pensar sobre isso, afinal, cego e paralítico e atrasado mentalmente até que dá para aceitar mas, desculpem-me, desvirginado não. Ela deve ter apimentado as coisas e eu devo ter aceitado, ou não, não tenho memória disso.

Meia hora controlando os impulsos regurgitantes e já não os sinto mais. Já consigo enxergar a porta e mexer as pernas, mas parece que o dano neurológico foi permanente. Não que eu (nem ninguém) me considerasse normal antes da noite de ontem mas, ao que tudo indica, um buraco deve ter se formado no meio do cérebro após beber daquela aguardente radioativa. Vou ao banheiro e mijo talvez por uns vinte minutos. Graças a Deus não o fiz na cama, uma vergonha a menos. Será que ela pagou a conta? Será que eu paguei? Será que a lazarenta mexeu na minha carteira e levou meus módicos trocados? Confiro e está tudo lá. Maluca sim, mas com princípios. Quem dera eu pudesse lembrar do sexo, da corrida no uber, do maldito nome dela. Graziela, Mariela, Antonela? Ao pronunciar os fonemas me veio naturalmente, ironia do destino, uma vontade louca de matar a fome com galinha de cabidela. Ridículo! – pensei – necessito de gordura e não de sangue… Sangue! Ela estava menstruada – lembrei e corri de volta ao colchão para constatar que estava manchado com uma larga poça vermelha. Uau, minha cama havia se tornado a parede de uma caverna medieval com pintura rupestre crua. Valei-me. Só uma gemada e um café forte me salvariam.

Três gemas grandes de ovos vermelhos, três colheres de sopa bem cheias de açúcar refinado e mais três colheres iguais de leite em pó. Bater generosamente com a colher em uma caneca funda a fim de se conseguir um creme viscoso e amarelo. Ao sabor do freguês, uma dose de vinho do porto é conveniente adicionar. Que coisa maravilhosa. Doce, gordurosa, calórica e digna dos monges beneditinos mais exigentes. O café restabelece minhas pupilas dilatadas e o açúcar esquenta as orelhas.

Meus ovos vicejam e há a perspectiva de um domingo, porque hoje é sábado.

Amarração para o amor

Cansada de um povo bisbilhoteiro e mesquinho, um conjunto massificado de pessoas que a oprimiam e empurravam-na em direção ao abismo da vida pacata de acordo com os preceitos morais do rebanho, resolveu, por bem, romper com a tradição social que reserva à mulher recém solteira a pudicícia e o confessionário. Em sua presença, as amigas desejavam a renovação e superação do trauma amoroso, mas pelas costas repreendiam as fagulhas de liberdade que rompiam sob a aura casta. Sendo que, pelas costas, o que ela queria mesmo era ser devorada, dominada, agarrada de ladinho, de quatro, de olhos vendados. Evita decidiu emputerar-se,

(nota do autor: atentar ao acasalamento do substantivo puta com o verbo empoderar)

fornecer a torto e a direito o seu sagrado maná feminino e sorver de todo o fluído que lhe fosse oferecido consentidamente. Evita agora era quem chorava por eles e elas, os grandes arcabouços do recalque.

Anos de relacionamento morno lhe renderam uns quilogramas a mais, é bem verdade. A dieta daquela mulher continua pobre em nutrientes e rica em açúcares, é bem verdade também. Mas a alma corrompida só pensava em sentar e levantar repetidamente e, empirismo seja prova, o impacto orgástico de suas carnes volumosas sobre a pelve alheia era muito maior na abundância do que na escassez. Em português claro, os homens adoravam sua gostosura. Seios não lhe faltavam e se tornaram mais uma arma no sufocamento erótico. Usando do Tinder e abusando de homens ela passou a colecionar abatimentos. Escrevia em um caderno o nome, o tipo físico, se a tinha feito gozar e o tempo que levou para ele atingir o orgasmo. Finalizava a ficha com uma nota de 0 a 10. Os marmanjos, assustados com a temperatura que apresentavam todos os lábios daquela mulher, perdiam a dianteira da ação. Estavam acostumados a dominar, a ditar posições e, logo após atingirem o clímax, a irem embora com alguma desculpa vulgar. Só que a heroína devassa trancava a porta de casa, a porta do quarto e só permitia que fossem embora após ela se sentir devidamente satisfeita. Uma? Duas? Três? A jovem literalmente rodava uma roleta cuja numeração, ora vejam só a audácia, partia do dois e passava do 30. Só com o número definido é que o escravo vislumbrava a alforria por entre as portas do palácio luxurioso. Há uma lenda urbana sobre um mancebo que se atirou da janela ao visualizar o número 22 ser preenchido pela bolinha do jogo. Evita agia, selvagem, não só por tesão mas por vingança. Ela queria de volta os anos que desperdiçara e – por que não? – os ânus também. Ao descobrir que o prazer do homem aumenta ao se massagear o orifício mais ao sul, passou a praticar o fio-terra em todos, sem sequer permitir permissão. Bastava que anunciassem que gozariam e lá ia seu dedo intrrépido a perturbar o sossego. Ganhou alguns gritos desesperados de protesto mas, os tetos espelhados não mentem, ganhou um séquito fiel de fãs. Evita se tornara uma bruxa do hedonismo. Assim, tal como uma droga comum, o sexo começou a pedir por mais, por muitos, por diferentes estímulos.

Rogou à sua amiga que a incluísse em um ménage à trois, mas lhe foi negado o pedido. Havia se transformado de gatinha em onça em curto espaço de tempo e isso causava receio nas outras mulheres. Tinham medo não só que lhes roubassem o marido como a elas próprias. Onde ela encontraria a robustez fálica que causaria calma e tranquilidade para parar com a libertinagem, ainda que apenas por um período breve? Um novo match no Tinder, cuja descrição era ousada, e o nome bizarro fez com que ela salivasse: “Monge Shibari. Faço amarração para o amor, BDSM”. Na galeria de fotos havia apenas uma de costas e traje branco de linho, com um chapéu escuro na cabeça. Tudo nele era estiloso, a foto, o texto, o chapéu de gângster. O gajo poderia ser casado, ou estar de saída do tal mundo ecumênico ou, ainda, só gostar mesmo do clima de mistério. Ou monastério, afinal o cara era um monge! Evita não era flor que se cheirasse e partiu para o ataque na batalha dos corpos, apimentada pela possibilidade de perverter um autêntico homem eclesiástico. No fundo, no fundo, ela queria amor. Mas na superfície, na flor d’água, ela desejava a mais pura putaria. Confessou à sua melhor amiga que, muito embora a vontade fosse de trepar como um suíno, seus olhos enchiam de lágrimas ao imaginar o (re)descobrimento da paixão nas mãos de um homem do caminho justo. E assim marcaram encontro, na casa dele. Ela levou um vinho branco e o homem já havia preparado um balde situado entre os dois sofás com bastante gelo dentro. O clima era calmo, um tipo de música tibetana tocava no ambiente que cheirava a incenso nepalês. No canto da sala e pelas paredes havia plantas. Pequenas árvores que cabiam sob o teto de um apartamento de piso de tacos e algumas flores davam ao espaço a sensação de tranquilidade. De tudo o que poderia acontecer ali, Evita tinha a certeza de que algo fora do comum não era de se cogitar. Serviram-se da bebida ainda na atmosfera encabulada das primeiras trocas de olhares. O gelo ainda não havia sido quebrado e ela deu o primeiro passo em direção ao diálogo com aquele homem bonito que não parava de sorrir:

– Muito agradável a sua casa, combina com seu estilo meio largado, meio pacífico.

– Muito obrigado, a calmaria tanto antecede como sucede a tempestade. – disse o tal monge que agora sorria de uma forma diferente, antes puramente simpática e agora um tanto maliciosa ao arquear uma das sobrancelhas.

– Leva tempo que você se dedicou ao caminho da prática?

– Já tem alguns meses, a disciplina da repetição proporciona a destreza na execução.

– Admiro essa firmeza de caráter, espero aprender mais com você.

– Fiquei curioso com a sua vontade escancarada de se entregar aos meus domínios. Você já experimentou alguma vez?

– Nunca, sempre quis meditar mas nunca tive paciência o suficiente. Essas coisas de budismo, eu acho, acontecem melhor quando instruídas por alguém assim de mãos fortes… – decretou e, ao perceber as recepções sorridentes às suas insinuações, jogou-se sobre o corpo do Shibari.

Beijaram com sofreguidão e Evita deu vazão aos seus princípios primitivos de fêmea alfa que consome o alimento no mesmo lugar do abate. Imobilizou o rapaz com os joelhos sobre os braços que corriam na lateral do corpo. Sentada sobre ele, afogou-o em seu colo farto enquanto usava as próprias mãos para desabotoar o sutiã. Saltou sobre o sofá em um movimento felino, virou as costas para o indefeso monge e o presenteou com a visão íntima de suas nádegas enquanto se contorcia a fim de despir a última peça de roupa. Ainda vestindo os saltos altos que colocara intencionalmente para exercer o papel de predadora, livrou-se da calcinha enquanto a polpa de seus glúteos roçava levemente a ponta do nariz do homem. Mal sabia ela que aquele strip-tease era o último ato voluntário que executaria. Uma vez nua em completo, sentiu os braços fortes do monge a lhe prender pelo tronco a ponto de quase não respirar.

– Você consente que eu a inicie no meu mundo?

– Ahhh… sim, sim, sim!

O monge usou a mão esquerda para puxar uma fita vermelha do sofá e, com ela amarrada sem piedade, calou a boca da mulher. Ela já não podia fazer nada além de emitir seus gemidos. Levou-a para o chão da sala, sobre o tapete. Com a agilidade e simetria de um verdadeiro mestre passou a puxar metros e mais metros de corda de vime de dentro de um cesto rústico. Ao balé de laços e puxões, a mobilidade dos membros de Evita foi desaparecendo aos poucos. Seus olhos pareciam muito assustados e algumas lágrimas escapavam. Da boca nenhum pedido de socorro ou misericórdia saltava. Eram apenas gemidos e grunhidos de prazer. Após finalizar o trabalho exaustivo e meticuloso de deixar a moça feito uma boneca empalhada para seu usufruto, o monge buscou um espelho para que ela pudesse ver do que se tratava a sua arte. Ela, estupefata, só fazia arfar em fôlegos incandescentes. Ele, então, a vendou. Sem que nada pudesse ver e de jeito nenhum pudesse se mexer, ela sentiu a invasão morna e gentil das carnes nas carnes. O monge sussurrou em seu ouvido:

– Água. Se você balbuciar o elemento água eu paro imediatamente. É a sua palavra de segurança.

E continuou. Por horas ele a consumiu como se o corpo não carregasse alma. Dada a tensão das cordas e o misticismo daquele ato, ela atingiu o clímax inúmeras vezes e nunca pediu água. Quando despertou, estava livre das amarras e sozinha. O monge havia saído e deixado um bilhete ao lado de um jarro d’água, pedindo que se hidratasse antes de partir. Evita se sentou meio zonza na cama, tomou a água e, ao se pôr em pé, sentiu a frouxidão das articulações por ter ficado tanto tempo imobilizada e caiu como uma árvore arrastando tudo ao seu redor. Havia uma luminária em forma de globo terrestre e, em cima, o tal chapéu da foto. Ela viu o mundo, mas não viu o chapéu. Foi embora atordoada e, talvez, finalmente com o fogo controlado. Descobriu nos dias seguintes que BDSM não correspondia à Budismo, como havia pensado, e sim a Bondage e Sado Masoquismo, uma prática sexual que envolve dominação e submissão. Ainda, ouviu rios de risadas das amigas ao tomar conhecimento de que Shibari é o nome da técnica oriental para o uso de cordas como meio de comunicação, imobilização e até terapêutico.

Ela havia caído no conto do monge, que de monge não tinha nada como tampouco seu nome era Shibari. Acontece que Evita enlouqueceu e pediu mais. Afortunadamente, ganhou a concessão de explorar as lascívias daquela perversão toda semana, sempre às quintas-feiras. Descobriu, com sucesso, que haviam gourmetizado a amarração para o amor.