Carta a ausente

Parte I

“(…)

– Alto lá! Quem vem com as mãos vazias de perdão a brumar um pensamento escuso na fervura de tão insossas lágrimas a verter de olhos medusiformes? És tu a própria bruxa dos cabelos meneantes? Ou és a serpente de grande língua, multiplicada por mil parasitando a cabeça?

– Sou a loba da noite, a quimera de tua mente fraca, sou a dança alfa e o ômega pétreo, o uivo teu mesclado ao meu uníssono em prazer e dor. Sou tua flecha derradeira, penetro profundamente essa pele moribunda e me consagro como a mulher dentro de um homem, pois sou ferida inestancável. Eu sou tua e tu és meu.

– Alto lá, espírito suíno, com tuas grunhidelas! Saco da lapela um lenço de mil-fios para cobrir minha face de tão enlameado discurso. Defenestras palavras da tua boca sem cerimônia, suicida-se por teus lábios a verdade. Nem um passo além tampouco para onde está, inicia teu retorno mas sem dar-me as costas. Anda para trás, essa é tua sina!

– Vou-me mas não sem confessar meu amor. Antes, e com tal garbo, digo o que quero de ti: sou um calmo delírio inconsequente, tremendo produto de Eros o egoísta. Quero teu sangue pois é espírito, quero tua carne pois é alimento, quero teu sono pois é fantasia. Descontrolo-te!

(…)

– Oh sereia escamosa de canto abafado, despe tu dessa mortalha embolorada! Não é fecunda a tua intenção e será podre a tua descendência. Aborta esse feto monstruoso que se esquiva da vida dentro de ti. Tu queres meu sangue, então inclina o bestunto e bebe-o todo pois essa sangria é obra tua. Anseia tu por alimentares de minha polpa, mas não há o que se morder. Todo músculo está em convulsivo estado de carne viva após toca-los essa tua peçonha desumana. Por fim, pedes o meu sono? Ora, que inocência! Já não habito o mundo onírico há tempos desde minha queda ante aos portões de Morfeu. Forcei-me adentro e esgueirando pelas lanças enferrujadas do irreal feriu-me mortalmente o tétano desgraçado. Eu não sou teu e tu jamais foste minha! Mas engana-te a soberba pois não me descontrolas, sou descontrolado.

– Desato a chorar!

– Para! Não lamentas tu falsa lástima, guarda para a hora do desespero. Haverá o sol a pino para deixar tudo claro e dar à luz a verdade. E logo em seguida o astro se inclina fazendo da tua sombra a mais alongada sobre o pó que te sustentas pois grande será a tua treva.

– Meu choro é incontido!

– Agora sim te reconheço! Não és Medusa pois rocha não me fizeste quando mirei por séculos em teus olhos formidáveis. És tampouco a cobra melênica. És tu a víbora que se difere da serpente pela ausência de fossas lacrimais, és a engalanadora da fronte de Menelau, uma euforia, um passado.

(…)

– Não digas palavras essas de desamor, cessa o teu delírio assim como de repente nada se sucedeu. Perdoa a minha atitude, pelos céus, pois eu errei! Açoita-me a distancia tua mas cala-te por vez, homem! Olvida as nossas mazelas e deixa-me passar, permita a minha ausência. Não sei em qual polo estás, se resides em mágoa ou nostalgia, se em ti brotam flores ou erva-daninha, penso que te tornaste um louco.

– Ora, meu doce pecado, vê como te desesperas fora de hora. Tu vais à Canossa no lombo de cavalo manco, humilha-te sem mister. Torno a lembrar que estas paredes do meu templo, um templo sem deus, são refratárias por excelência. Tu te esforças para que creia em tua súplica, mas o que vejo é um período absorto em solecismos. Desiste da ladainha e carrega teu bote, pois proceloso mar se alevanta e a água salgada não conhece misericórdia. E eu sou filho da água.”

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