Cardeais da discórdia

A faca não era vermelha, para começar. A minha bermuda, sim, vermelha e com múltiplas inscrições em baixo relevo que diziam “fuck it”, foda-se em português. Era como me sentia, muito embora jamais fosse visto com tal vestuário pelas ruas, afinal, tinha muita classe e a defenderia com afinco antes de que uma acusação leviana, distraída como aquela pudesse ser levada à frente. A perambular pelas calçadas maltrapilhas desse antro de sub-humanos, estou sempre alinhado, como deve fazer um homem adulto. Naquele dia fatídico, no entanto, desci às pressas ao testemunhar o abominável e, por isso, os joelhos à mostra. É um país sectário onde me encontro, embebido em ódio inflamável que enxerga na cor vermelha a semente do mal personificada e que assiste, imóvel, a escalada da violência estúpida que tem se guiado, veja só, não apenas por ideologia propriamente adereçada mas, o alto cume da incivilidade, por cores. Ontem, aquilo que preto. Hoje, aquilo que preto e que vermelho, mas não preto e vermelho porque aí se trata do flamengo, o rubro-negro carioca, a segunda maior paixão da massa brasileira, atrás do alvinegro corintiano.

Eu possuo um canivete residente no bolso direito, que seja admitido nestas linhas de modo objetivo. Corpo vermelho, lâmina inoxidável, sete funções, produto suíço de acabamento preciso e lâmina confiável. Deste fragmentado solo onde redijo o escopo da minha defesa, argumento em causa própria por minha sanidade e segurança. Minha navalha não pode ter sido vista no referido protesto e, por consequência, ser acusada de coisa alguma. Acolchoada a um palmo do flanco direito dos meus quadris ela continuou intocada. O céu estava limpo, era por volta de 11h30 de um domingo canicular e eu limpava camarões, com as janelas do meu apartamento todas abertas, sentindo a brisa leve que corre ininterrupta da África até aqui. Na vitrola (sim, vitrola de vinil), tocava Fela Kuti e sua rítmica batida, capaz de invocar passos involuntários nesse descascador de crustáceos. Uma vez limpos, uma fervura leve de três a cinco minutos para que não perdessem forma e peso, seguida do mergulho em leite de côco com curry tailandês. A cor do curry? Vermelha, apimentada como a capa do diabo. O capiroto usa capa? Nunca havia pensado nisso. Não conheci – e nem quero – o sete peles, mas já encontrei muitas das suas diletas filhas. Para acompanhar o cremoso, arroz de jasmin com lascas de amêndoas.

Nada de álcool estava envolvido naquele dia santo, que isso não seja motivo de me duvidar a sobriedade. Bebia água gelada com folhas de menta e hortelã, refrescante como tina cheia de gelo para hibernação ideológica. Havia um protesto agendado para aquele dia e hora, com ponto de início vizinho ao meu prédio. Marcha protofascista que seria cômica, risível se não fosse tão miserável. As camisas pardas agora são verdes e amarelas, as opiniões públicas nada mais que preguiças privadas. Pelas tantas, comecei a escutar o zurro de um dos capitães-do-mato daquela esbórnia, coisa que me incomoda muito pelo fato de não ser feita no gogó, mas em alto-falantes. Isso já é demais! Não podia escutar com clareza o suingue tribal que pulava da minha vitrola sem que fechasse as janelas; com elas fechadas, as moscas enamoradas do perfume dos frutos do mar não dariam sossego e o calor escalava ao limite do suportável. Podia ligar o ventilador, é claro, ao preço de novamente não ser possível ouvir a música com clareza. Tudo graças ao raivoso babar de ovos de um grupelho no mínimo mimado, no máximo lamentável. Contrariado, fui obrigado a fechar os vidros corridos do lar. A temperatura subiu, os mosquitos voaram frenéticos, como esperado. A fim de distrair a ira efervescente, suspendi a preparação da comida e fui às escadas.

Desci os cinco andares pacientemente, dissolvendo o desgosto a ponto de, ao atingir o térreo, sentir-me novamente leve e profundamente sarcástico. Estava ali para presenciar o desfile de reis momos e bobos da côrte, apreciar cada detalhe sórdido, refocilar-me na lama da decadência social. Há quem diga que os monumentais equinos queiram o bem do país, que são os patrióticos estandartes do futuro de todo um povo. Primeiramente, a denominação correta é gente, não povo, tamanha a falta de representatividade do todo que constitui a república, um punhado de terra composto, em sua maioria, por pretos de tão pobres e pobres de tão pretos. Não os une sentimento nobre ou auspício de grandeza, elevação da raça que representam. Nivelam-se pelo suco gástrico e sua dispepsia. Escarafunchei as dezenas de “indignados” e não avistei um mulato que fosse. Os de pele mais escura usavam óculos ray-ban, sapatênis e bermudas de linho, bronzeados pelos passeios de lancha. A vitrine da elite do atraso, em carne, osso e tecnologia.

Como informado, desci trajando meus shorts vermelhos e logo fui mirado pela horda. Dada a minha compleição física, reservadamente atlética, não se empolgaram a me insultar. Costumam avolumar seus instintos canibalescos com mulheres, geralmente. Com um sorriso ácido no rosto, pus-me a assistir o irônico e inconteste pressuposto básico da democracia, o direito ao livre discurso. A vontade de sangue vermelho escorrendo pelos bueiros vinha da sede por crucificar “comunistas”, entre aspas porque a definição dos mentecaptos não corresponde à original, daqueles adeptos ao ideal político-social do comunismo. Para os canarinhos engomados, comuna é a pessoa qualquer que não faz parte do grupo deles. Enquanto se abraçavam e se auto afirmavam, a natureza caprichou em sua arte providencial.

Em um fio elétrico acima da metástase concentrada, logo à minha frente, havia um casal de pássaros vermelhos, da espécie cardeal. Namorando, conversando ou jogando pedras na Geni, permaneciam os dois a observar com movimentos cíclicos das cabeças. Sem cerimônia, soltaram rajada de fezes aviárias. Duas emissões solenes de material pegajoso e arroxeado, resultado da alimentação baseada em frutos. A bomba acertou ombros, nuca e cabelo de um dado cidadão de bem. Aliviados, alçaram voo aqueles dois rubis alados. Em convulsão apoplética, sem chance de defesa, o suíno atingido sacou de uma faca, cabo branco e entalhado de madeira. Desferiu golpes a esmo nos que o rodeavam e riam fartamente, inclusive eu mesmo. O sangue lhe cobriu a mão e a arma branca, tornando-a vermelha, por sua vez. Atordoados, em frenesi de medo, passaram todos a buscar o culpado. Encontraram-me no filtro de cores de sua cólera.

– Foi o comunista!

Corri, de volta ao meu domínio particular. Aquela era a besta fera em pessoa. Mas a faca, não, ela não era vermelha, para começar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s