Kobe e o espetáculo

O planeta basquetebol assistiu em 1996 aquilo que foi o início da transição da era Michael Jordan para a era Kobe Bryant, garoto bastante marrento vindo direto do colegial sem passar pela faculdade.

Pare. Releia. Imagine o que deve ser para um moleque de 18 anos ir jogar na liga contra ninguém menos que o próprio Michael Jordan em carne, osso e língua? O jovem pagou seu preço de juventude e levou muita pedrada antes de alcançar o degrau do pódio dos campeões, na temporada de 1999 pelos Lakers de Los Angeles.

Eu joguei basquete e conto o que motiva um garoto a acompanhar abestalhado o show que representa a liga americana na TV: a plasticidade de seus atletas ícone. A fronteira final das capacidades atléticas do ser humano se unem em movimentos complexos, sequenciais, como que orquestrados, envolvendo a bola, o solo, a bola com o solo, o corpo que gira, acelera, muda de direção, desacelera horizontalmente, transfere potência ao solo e decola, como um jato ultra-sônico, no silêncio da câmera lenta em direção ao aro. O basquete da NBA é hipnotizante e para cada um dos expectadores há um jogador preferido, um time do coração, uma rivalidade clássica.

Kobe Bryant me fazia madrugar. Tomar Red Bull pra assistir Lakers x Spurs a partir da meia noite mesmo tendo aula no dia seguinte pela manhã. O jeito como se movimentava, como que incessantemente agredia a defesa adversária. No contexto, agredir significa repetidamente tentar o arremesso, o sucesso do ataque, uma e outra vez mais como que incansáveis botes de um predador voraz. Daí vem o apelido imortal de Bryant, a mamba negra, serpente das mais venenosas mundo e que tem como característica mordidas seguidas na sua presa.

Quando se ouve que ele era fominha, dá-se uma dureza descomunal com alguém tão dotado de habilidades ofensivas. Kobe era letal. E treinava especificamente para ser um atleta extraordinário, um daqueles que habitam a dimensão dos Imparáveis. Era gostoso assistir e vê-lo fazer mágica. E era estupidamente irritante quando suas opções de ataque não resultavam em êxito.

Ele exercia o domínio da bola como Michael Jordan, voava como o tal, chamava para si a responsabilidade do último arremesso, deixava até a língua de fora em alguns momentos. Todo aquele repertório era, pelas quadras do mundo, copiado pelos adolescentes entusiasmados como eu. A gente assistia ao que faziam Kobe, Tracy McGrady, Allen Iverson, Vince Carter, Jason Kidd e outras estrelas da época para alimentar a fome de nos tornar jogadores espelhados nos nossos ícones.

O sábado era reservado para a mais importante das atividades: o streetball com amigos das 14h até quando fechassem os portões do colégio Dom Bosco da cidade de Americana. Jogávamos e cada um vestia o manto do seu respectivo ídolo

Usando a 8 do Lakers eu era mais um menino sonhador.

Kobe Bryant era um atleta excepcional porque esculpia suas potencialidades físicas com treinos em horários incomuns, longas sessões de arremesso e estudo em vídeo de movimentos e jogo de pernas. Varios foram os treinadores a testemunhar em vídeo histórias sobre quando foram surpreendidos ao marcarem de treinar juntos e, ao chegarem na quadra as 6h da manhã, descobriam que Kobe iniciara as 4h30.

Agora, Kobe Bryant não era somente um atleta. Kobe era intelectual. Foi em uma de suas campanhas publicitárias anunciando um novo modelo de tênis que ele usou o latim pra me cativar:

Scito hoc super omnia.

Haec vita est tua una sola.

Dum vita superest,

utere maxime quoque puncto,

momento, et hora quae habes.

Tempus neminem non manet.

Noli manere tempus.

Carpe diem.

Dali se traduz:

Saiba disso acima de tudo.

Essa vida é a única que você tem.

Pois enquanto viva,

faça o melhor de cada segundo,

minuto e hora que você tiver.

O tempo não espera por ninguém.

Não espere pelo tempo.

Aproveite bem o seu dia.

O tênis daquela temporada, o Kobe 3, eu tive. Aliás, foram 4 os pares de tênis com a assinatura Kobe Bryant que eu coloquei nos pés: Adidas Crazy 1, Nike Huarache 2k4, Kobe 3, Kobe 6.

Quando a campanha veio com a oração em latim acima, tive a primeira vontade de fazer uma tatuagem. Eu queria ser o Kobe, tudo naquele cara me motivava a perseguir o mais nobre dos picos esportivos. Dedicação, seriedade, intelectualidade, espírito vencedor e, com sua resolução sobre o tempo que não espera por ninguém, Kobe se mostrava um estoico. Que exemplo!

Você é fã e tem a camisa, os tênis….

… e também lê as coisas que ele lê. Shaquille O’Neal uma vez reclamou em entrevista que não tinha amizade extra-quadra com o Kobe porque ele preferia ficar lendo a ir para as boates. Ora, ora…

No meu último campeonato disputado, pelo Carcará de Alagoas, escolhi usar a 8. Na minha cabeça eu fazia uma homenagem a quem tanto me motivou num passado recente. Kobe Bean Bryant foi um mentor espiritual que depositou muitos frutos na minha terra fértil.

Para minha última competição eu precisei treinar muito, mas muito mesmo, a fim de ter condições de jogo. Fazia um longo tempo que eu não praticava o esporte e meu condicionamento físico era frágil. Durante meses passei de 40 minutos a uma hora por dia, no meu horário de almoço, treinando sozinho na academia. Tudo porque eu sabia que, se Kobe Bryant ainda no auge da carreira treinava as 4h30 da manhã, quem era Aquiles para ser preguiçoso?

O título veio e com ele a redenção. Quantos bons exemplos o camisa 8 e 24 (Kobe usou as duas) me deu? Obrigado também por isso, Mamba.

Não fui em quadra nem 0,001% do que você jamais foi mas segui seus exemplos de seriedade, de defesa forte, de comprometimento com a vitória e a lealdade com os adversários, com o respeito e o silêncio como mantra.

Desde Ayrton Senna a morte de um atleta machucava tanto os meus olhos.

Ao fazer sua passagem, você caiu do céu. Como um enviado dos deuses, um semideus talhado à imagem e semelhança do onipotente, embora mortal. Em 2013 você rompeu o tendão de Aquiles e continuou em quadra para executar dois arremessos livres antes de ir para o hospital. Em pé como um guerreiro de aço.

Hoje, confesso, o Aquiles se encontra completamente partido. Não o tendão, mas o coração. Que você e Gigi habitem o reino da paz mas nao descansem, pois há muito basquete para jogarem juntos estejam onde estiverem.

R.I.P.

2 comentários em “Kobe e o espetáculo

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