Taste of Jerusalem

(post antigo republicado)

Despertei por volta de 8h30 com meu parceiro Gustavo Prestes batendo à minha porta e convocando:

-“Acorda, quero beber!”

Pois bem, salto da cama, tomo um banho, visto a prezada camisa de botões e estampa de abacaxis (que diz a lenda causar no homem acima de 30 anos sensível imoralidade) e desço para o piso térreo de casa. Hoje é meu último domingo na Carolina do Norte e há um brunch de despedida, a fim de reunir os amigos que aqui fiz e com grande orgulho hei de levar em devidos espaços arejados em meu peito.

Ben, Prestes e eu.

O Ben é um daqueles personagens como os de filme, gente boa e de fala mansa, com uma dura história de vida. Ao se ver abandonado pela ex-mulher teve de criar sozinho dois filhos em um país que não permite baixar a guarda para as intempéries do destino. Nos EUA o compasso é outro e para alguém que não goza de herança ou retaguarda familiar, vindo do interior do estado do Mississipi, a luta é seria. Apesar de toda essa batalha, aí está um sujeito de muito bom humor e simpatia. Sempre que eu compartilho algum causo ou mostro algo do meu acervo musical/fotográfico, ele costuma dizer

” You know what? I’ve got a good one for you…” (que saber? Eu tenho uma boa pra te mostrar). E daí ou ele me conta uma história épica, de tempos antigos, ou me fala sobre um determinado filme de Velho Oeste ou, feito hoje, apresenta uma nova música.

Foi nesse ritmo que pedalei, ao me despedir dos nobres amigos que prestigiaram o brunch, rumo ao último dia de trabalho no restaurante Taste of Jerusalem. Pode soar piegas, mas eu sou profundamente afetado por despedidas. São tão somente dois meses de companhia diuturna desses felizes companheiros árabes mas, pro Aquiles aqui, quando o relógio começa a mostrar que faltam apenas duas horas pra dizer adeus, são angustiantes momentos em que uma singular emoção se apodera dos sentidos.

Mohamad, o dono

Desde que anunciei que tinha de partir já na quarta feira o semblante do Mohamad mudou. Assim como eu dele, ele gosta muito de mim. Confia, admira como eu trato e fidelizo os clientes. De minha parte, admiro sua destreza na cozinha assim como a ética em sair da Palestina, vir aos Estados Unidos da América e trabalhar muito, sem descanso, enfrentando preconceito e tendo de aprender uma língua nova para, 30 anos depois, exibir uma bem constituída família sustentada e educada pelo seu esforço incansável. Um homem de valores que abriu as portas do seu negócio para que eu também experimentasse um pouco dessa batalha no American way of life.

Faltam algumas horas para tudo acabar por aqui. Ainda terei oportunidades de contar lembranças que levarei deste lugar.

Por ora, o sol cai e a música monótona do salão vai embalando a melancolia. Neste canto ínfimo da grandeza das minhas vivências registro a emoção de ter conhecido gente tão honesta.

O sol continua a cair e um grande silêncio se faz em meus pensamentos.

Muito agradecido!

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