Polegadas

Maria foi uma boa esposa durante uma das quatro estações do ano. Casou-se com Alfredo apesar do nome em desuso. Ela imaginava como foi a adolescência de um garoto chamado Alfredo e ele elucubrava como teria sido a infância dela sem pai. Cada um nos seus pensamentos particulares, porque eram ofensivos demais para servir à mesa. Maria não andava bem e esquecia a tampa do vaso levantada. Maria dormia com a boca aberta e roncava, mas Alfredo achava aquilo fofo. Fofo, mas insuportável, por isso ele a cutucava com o cotovelo. Casaram-se no outono, quando as folhas caíam. O caminho era poético, na antessala do renascer florido. No inverno, Maria não aguentava. Suspeitava do marido e roía as unhas que já eram curtas. Feria as cutículas e então tomava vinho. Alfredo a encontrava bêbada, desacordada, reclamando do vizinho. Ela sequer conhecia o vizinho. Moravam distante da família e não havia corrida para colo nenhum que resolvesse. Eram os dois, um para o outro, não importa o que acontecesse. Alfredo a amava e o amor é aquilo que o aquecedor faz nas noites mais frias, mesmo que o motor, toda a engenhoca que faz a coisa ficar quente, permaneça no lado de fora da casa sob um rigoroso frio. Maria era doce, uma menina, tinha os pezinhos tortos e os dedos compridos. Nasceu para ser menino, mas Deus quis diferente. Ainda bem, porque Maria era linda com cabelos que pareciam fios de linho. Alfredo se sentia completo, mesmo com as neuroses de Maria. Neuroses são essenciais ao negócio humano, dizem os psicanalistas. Opiniões, como cachos de banana, crescendo a torto e a direito como se o mundo fosse adubado por inteiro. Maria passou a suspeitar que Alfredo estava tendo um caso com alguém do escritório. Ele era funcionário público, batedor de carimbo, um daqueles de futuro, mas com todo o tédio do mundo. Saía cedo e levava a comidinha que seu amor preparava, mas então, com o diabo a lhe sussurrar diabruras, Maria parou. Simplesmente parou e escolheu a TV. O marido notou e reclamou, mas Maria alegou tontura. Disse que o alho queimava as mãos, que não suportava mais o cheiro de fritura. Alfredo, resignado, saía de mãos vazias. Trabalhava feito um condenado para que o dinheiro rendesse uma casa própria. Maria assistia ao televisor com a mente suspensa. A televisão não exige pré-requisitos, não exige sequer inteligência, a televisão só necessita ser ligada e Maria sabia bem apertar o botão vermelho. Maria poderia trabalhar em uma usina nuclear para deflagrar o alarme de desastre. Oh, Maria. Em uma manhã, ela acordou e se sentou em frente ao aparelho. Desligado, era como um negro espelho. Assistia a uma programação idiota, típica de geração vazia. Assustou-se com o estampido de uma música trágica que comunicava o impossível. “Interrompemos a programação para um anúncio especial” disse o âncora. “Devido a forte nevasca, os bombeiros têm dificuldade em acessar o prédio central da administração pública onde um incêndio sem precedentes derrete as colunas seculares”. O mundo de Maria naufragava, mas havia um âncora. Ela levantou e, nervosa, só pensava em fogo, no Alfredo, nos cigarros que ela tanto gostava. Maria subiu as escadas e bateu na porta do quarto onde o marido dormia. Ele caíra doente e dormia em um quarto separado para poupar a esposa da tosse renitente. Bateu com o polegar, como se surrasse um pandeiro. Maria não batia bem. Não houve resposta. Desceu as escadas e grudou no telefone. Ligava insistentemente para o escritório onde o marido trabalhava. Ninguém atendia, deviam estar todos mortos com a fumaça, ou pior, queimados. Maria enfiava os dedos nos cabelos e não sabia o que fazer. Conferiu a garagem e se espantou, pois o carro dele continuava lá. Tornou a subir as escadas, a bater com o polegar direito na porta branca e a chamar por Alfredo, Alfredo. Oh, a constatação! Se Alfredo não estava ali nem no serviço, só poderia estar com a amante. Nem a

neve poderia esfriar sua espinha mais que aquele pensamento. Maria entreteve a ideia e não viu saída. Fugiu de casa, usando o carro do marido. Maria aprendera a dirigir recentemente, mas a ira a guiava. Foi a um bar e pediu bebida. Serviram. Bufava e tremia. Não demorou até que um sujeito se aproximasse e procurasse ouvi-la. Existem mais homens bondosos, nessas horas, do que há certezas nesta vida. Maria vomitava o carrossel de mágoas e o cara, com a cabeça, assentia. Maria não parava, falava mais do que devia. Aos poucos, mesmo o sujeito da malícia, o garçom e os outros homens que ali bebiam se afastaram. Mas era um bar velho, sujo, daqueles que têm buracos na parede. E em um desses buracos tinha quem a ouvia. Uma barata e um rato, imóveis como se paralisados pela estricnina. Maria notou e não se intimidou, discursou para a baixa prole dos seus desejos de patifaria. Bebeu e praguejou e se levantou bastante zonza. Ninguém ajudou, eles queriam que ela se fosse. Maria entrou no carro e deu a partida, mas não conseguia ver. Havia neve sobre o pára-brisa e ela então ativou o limpador. Aguardou que a brancura se dissipasse e julgou, a inocente, que via plenamente com capacidade de uma águia careca. O carro patinou no gelo liso mas Maria, embriagada, julgou que tudo ocorria bem, da mesma forma que saiu de casa. O automóvel replicava as pernas da esposa desastrada. Na casa, enquanto isso, Alfredo destrancou a porta e pisou na sala. Não havia barulho, não havia nada. Apenas a TV ligada e um noticiário mudo. Ele mirou o quintal branco e a beleza da invernada. Torceu para ver uma raposa, um veado, um feixe de Sol naquela manhã castigada. Fez café e deu falta de Maria, mas pensou que a amada estivesse no quarto lendo ou coisa que o valha. Alfredo, segurando uma caneca azul, sentou-se no sofá e aumentou o volume do televisor que mostrava imagens de um fogo imenso, mas que não conseguia distinguir onde se passava. Foi interrompido por um anúncio urgente dentro da programação urgente que retratava uma outra emergência. “Interrompemos a programação especial para outro anúncio especial”. Alfredo recostou-se para acompanhar. “Uma caminhonete, placa RDC-8240, chocou-se contra o prédio em chamas da administração pública. Os bombeiros informam que não há sobreviventes, embora não tenham certeza de quantas pessoas estavam no automóvel”. O prédio era onde ele trabalhava. A placa era a do carro dele. Aflito, Alfredo levantou-se num salto e derramou café quente. Ele pensava sobre aquilo e não sabia o que fazer. Ele queria saber se alguém estava no carro com Maria. Alfredo estremeceu. Polegadas de neve impediam a saída e ele arrefeceu. Aquele era um sábado, ele não entendia como o incêndio começou, por que tudo acabou em fogo e por que ela o trairia.

Spray, Sparta, Spyro Gyro

De dentro da cozinha vinha o grito:

⁃ MERDA!

Seguia-se um tapa na bancada. Isso significava que mais um pedido tinha saído errado. O cozinheiro ia à loucura. Tudo tem limite, ou deveria.

Ouvi um cara dizer que era iraniano, simpático às tampas. Cheguei mais perto, falei:

⁃ حال شما چطور است؟

Ele não entendeu. Fui mais perto da sua orelha e repeti:

⁃ حال شما چطور است؟

Ele estalou os olhos. Estendeu o braço e apertamos as mãos.

⁃ Você falou Farsi perfeitamente, sem sotaque. Como sabe a minha língua?

⁃ Ah, cara, eu já fui um negociador de tâmaras por aquelas bandas.

Entusiasmado, passou seu telefone e disse que em duas semanas estaria em Teerã e queria que eu me hospedasse na casa de sua família. Em duas semanas eu completo 35 voltas em torno do sol. A data tão temida. Eu poderia ter explicado que aprendi três frases em Farsi com aquele simpático grupo de iranianos que buscou um avião na TAM em São Carlos, no longínquo ano de 2007. Acontece que eu sempre quis negociar tâmaras. Sucesso garantido.

Duas mesas para a direita e uma moça parecia deslocada. Quando tomei conhecimento da sua história, senti uma pontada no baixo ventre. Exatamente um ano atrás, seu marido a aguardava na sala de estar para que fossem às ruas para uma noite de lazer. Enquanto esperava, decidiu limpar sua arma. Por acidente, ela disparou e ele se foi. Exatos 365 dias atrás. Eles iriam para o mesmo bar. Isso não é triste, meu chapa, é entristecedor. E há grande diferença entre as coisas. É necessário dominar a língua para traduzir a melancolia.

Procurei meu celular e enviei algumas mensagens de amor aos entes queridos. A gente nunca sabe.

Na América o verão é desejado, mas se mantém desdenhoso. Ele sempre passa. Por isso há tanta vida nas calçadas, nos pátios, nos parques. As pessoas aproveitam porque sabem que acaba. O oposto do que costumam fazer nos relacionamentos. Pensam que é para sempre. E já dizia a Cássia Eller…

Carrego uma lista de expressões para brindar em diferentes línguas.

Nazdrave, em búlgaro. Nazdarovia, em russo. Parecido, mas não vá cometer e lambança de dizer que é tudo igual. Ofensa na hora de encher a cara pode resultar em um dente quebrado. Ou abandono. Zivelji em croata. Aí você deve estar se perguntando porque tantas expressões vindas do leste europeu. Deixa isso pra lá, come on!

Bebendo rum puro com a Larissa na Tailândia em uma sarjeta de Bangkok, fomos abordados por duas garotas.

⁃ Oh, vocês bebem muito!

⁃ Err, obrigado?

⁃ Não estamos acostumadas a ver uma garota beber assim com tanta liberdade. Temos até uma expressão para isso. Lumyong, significa moça bonita que bebe whisky.

Hoje é sábado, amanhã é domingo, nada como o dia para passar. Saravá, Vinicius. Como não sou uma árvore e não crio raizes – só razões – posso sempre me levantar e caminhar. E mudar, de cor, de opinião, de amigos e de motivos. Cobra que não muda de pele morre.

Um conto de Boston – parte 6

José Armando me deixou em maus lençóis. Depois do primeiro encontro casual, houve uma certa sincronia e passei a garimpar suas cartas com grande êxito. Vez ou outra ele se atrasou, mas nada que fosse como agora. Mais de um mês separou a quinta missiva desta que agora reproduzo, a de número seis. Como fiel observador de testemunhos errantes, não me entreguei de mãos beijadas. Insisti, saboreei cafés e terminei grandes obras. Sempre sentado naquele mesmo banco frio da estação de trens de Boston. De um salto surgiu, desvencilhando-se da multidão formicular o Pero Vaz de Caminha do autoconhecimento. Sorria e já sabia o que fazer. Deixou o envelope, deu um giro com os pés feito o Michael Jackson e saiu andando sobre a lua.

Meu querido João dos Prazeres,

Eu me casei e o coração agora sinto diferente. Por isso, andei ausente. Desapareci da estação, andei faltando ao trabalho, perdi a hora em manhãs seguidas e deixei muita comida queimar. Ando meio avoado. Não sei quanto a você, mas eu dei uma desencontrada ainda que, na ótica de Vinicius, a vida seja a arte do encontro. Não sinto falta de nada que um indivíduo possa enumerar como fundamental para a plena felicidade:

Amor de Eros

Amor de Philos

(continuo com minhas extravagâncias existenciais quanto ao amor Ágape)

Renda

Adrenalina

Conflitos (né?)

Aeroportos

E aqui faço honras: que santa mulher me faz companhia. Ama-me como marido e como amante, despe minha alma tão bem quanto o faz com meu corpo. Faz do nada, do vazio, um retiro de paz imperturbável.

Mas, continuo perdidão. Muitas questões se levantaram nas últimas visitas ao terapeuta. Fico aqui pensando: como será que você reagiu aos meus escritos mais estrambólicos? E, dada a certeza em ter esse leitor cativo, o que faz com que você volte outra e mais uma vez?

A paixão tem me bagunçado a cabeça naquele sentido perfumado da coisa. Apaixonado, planejo o mundo e cortejo a eternidade. Tudo com medida e método.

O doutor me perguntou por que eu insisto em manter contato com algumas pessoas, por que eu consumo substâncias entorpecentes concomitante a profissão da saúde, por que eu ajo impulsivamente com a raiva e tão racionalmente com a placidez. O gajo me indagou, ao ouvir a minha reticência quanto a alcançar um parente, se aquilo era sobre mim ou sobre ele. Puta que me pariu, que cara abençoado. Mais do que falar, sabe como falar. Direto, com seu olhar penetrante e impassível e sem a menor misericórdia.

Como eu gosto dele. Fiz uma auto-análise e cheguei à conclusão de que eu faço de tudo para que ele não perceba essa minha admiração. A bem da verdade, eu bato. Bato muito, o coitado se transforma em Judas aos meus olhos. Judas na sexta feira da paixão. Em Jerusalém. Minha orelha chega a esquentar.

Êxtase. O mais alto regozijo sinto quando ouço a minha mulher desmontar as considerações alheias que vêm embebidas em mesquinharia. Discorria uma terceira pessoa sobre issos e aquilos de sua viagem ao Havaí. À parte da introdução elogiativa sobre as maravilhas naturais daquele paraíso, veio um maremoto de etcéteras depreciativas. Tudo é caro por lá, o trânsito sempre está engarrafado, a comida é ruim. Eis que a minha dama retruca:

  • E as pessoas, como são? Você fez amizades?

Ah, quanta sutileza! Por essas e outras… bom, hei de ser sincero. Também pela sua bunda. Que coisinha!

Aqui, relendo o que acabo de escrever, notei que nunca fui tão bem comportado. Deve ser a medicação. Ou a saciedade. Ando fazendo todas as minhas vontades e, quando não faço, alguém o faz por mim. Acho que estou empanturrado e, por isso, vou escrever mais. É o meu alívio.

O distinto deve me perdoar, eu espero. Muita coisa aconteceu. O rio já não é o mesmo e eu me mudei. De agora em diante, o céu deixa de ter cor e eu assumo a luz de todo o universo.

O grande Eu Sou.

Liberose

Honrai o sono e respeitai-o! É isso o principal. Fugi de todos os que dormem mal e que permanecem acordados à noite.

Não é pouco saber dormir; para isso é necessário preparar-se durante o dia.

Dez vezes ao dia você deve saber vencer-se a si mesmo; isto origina uma fadiga considerável, e esta é a dormideira da alma.

Dez vezes deve reconciliar-se consigo mesmo, porque é difícil vencermo-nos, e o que não estiver reconciliado dorme mal.

Dez verdades há de encontrar durante o dia; se assim não suceder, ainda procurará verdades durante a noite e a sua alma estará faminta.

Dez vezes ao dia precisa rir e estar alegre, se não incomodar-se-á de noite o estômago, esse pai da aflição.

E se tivessem as virtudes, seria necessário saber fazer uma coisa: adormecer ao mesmo tempo todas as virtudes.

  • Das cátedras da virtude (NIETZSCHE, F.)

O sono lhe faltava e à medida que as noites iam encurtando aumentavam os devaneios durante o dia. Sua mente se movera de um estado racional temperado com pitadas de fantasia para um vasto império de confabulações delimitado por pontuais intervenções terrenas dado os compromissos do escritório, agora, móvel. Tarcísio era um homem de negócios, muitos negócios, uns negócios, mas também nada daqueles negócios, se bem que tem uns negocinhos que ele não conhecia e, ao provar, se sentiu um tanto coisado. Negócio de louco? Negócio da China! Nada poderia prender mais a sua atenção do que as próprias simulações hipotéticas e maravilhosas que surgiam em sua cabeça, pensava um incauto qualquer ao selar promissora amizade com o jovem rapaz de camisas engomadas e sapato docksider. Que homem incrível, inteligente, bem educado e progressista. Dizem até que é o maior feminista vivo, seja lá o que uma definição como aquela pode significar para uma… mulher!

Tarcísio sofreu abusos na infância e resolveu que o negacionismo era o melhor dos antídotos da sofrência. Só que, medicado pela ciência do “muda de assunto que aqui não se fala disso” ele foi, aos poucos, sendo afetado pelos efeitos colaterais da despreocupação acentuada e da irrelevância aguda a tudo o que considera ser mais fácil deixar para os outros. Mudando a direção dos olhos conseguiu se esquivar das agulhas do passado e, positivamente mirando os altos cumes, construiu um império. Casa grande sem senzala, despensa cheia, adega farta, esposa retocada e filho obediente, tudo sob as próprias rédeas do controle patriarcal. Tarcísio é um homem de valores.

Os amigos estão sempre à volta; da mesa, do fogão, da piscina. Não existe silêncio onde ele está presente, pois silêncio impele a mente ao raciocínio recordativo, à reflexão dialética e estas coisas são como lavar louça para o mancebo. Tarcísio não lava louças. Na dúvida, na ausência de palavras ou idéias exalta a maior das suas características ao exclamar:

– Bora beber?

O álcool e Tarcísio, Tarcísio e o álcool. Uma história de amor, de reciprocidade, de carinho e acalanto. Não há nada mais gostoso que se embriagar a ponto de… se desculpar por “possíveis” erros do passado. Possíveis, pois difícil é para Tarcísio assumir culpa quando sóbrio e, caso seja confrontado com a admissão da mesma quando em avançada situação de ebriedade, há de negar com um sutil convite evasivo de…

– Bora beber?

Os negócios de Tarcísio vão muito bem, obrigado! Sua fala pode transparecer uma gagueira besta, insistente, mas não passa da trepidação que tanto volume intelectual causa ao se precipitar sobre a língua. Livros? Ler, para Tarcísio, é essencial como praticar 30 minutos de exercício meditativo pelas manhãs. Ele não pratica. Surfando nas ondas de uma juventude alongada e de uma maturidade ainda distante, seu físico resiste incólume às agressões gratuitas de privação de sono e nutrientes. Talvez um dos mais graves sintomas da terceirização de responsabilidades tenha sido quando Tarcísio chegou à excepcional conclusão de que todos os alimentos, hoje, são processados. Se, por bem de uma verdade acolhedora, é definido como processado tudo aquilo que passa pelas mãos do homem e sua cadeia produtiva até chegar às mãos do consumidor, então… só fogem do rótulo as frutas que colhemos direto do pé. Aliás, frutas são para Tarcísio o que a igreja no domingo de manhã é para ele e sua família. Eles não a frequentam.

O sono começa tarde, acaba cedo e não é calibrado durante o dia para o nosso herói. Dizem que é durante o sono que o corpo humano secreta a maior dose de hormônio do crescimento. Tarcísio parou nos 1,67m. É mister risada para um bom sono? Olha que ele ri fartamente, o dia todo, todos os dias. De si mesmo, quando conta histórias que, não raro, sempre o colocam como uma espécie de azarão que tem tudo para dar errado, só que…

“- E lá estava eu, na frente daquele monte de gente no balcão do bar. Um bando de negão e o idiota aqui com a certeza que ia apanhar, né?”

Mas, as histórias sempre acabam incrivelmente bem. E ele ainda ri – e muito – dos outros. Motivo? Basta alguma confidência sobre algo que desagrade ou seja sensível para uma pessoa em questão. Aí é um desbunde, um bullying sem fim. Foi na performance das suas gracinhas graciosas com mulheres que Tarcísio se viu empossado como o grão mestre do… feminismo! Deus escreve por linhas tortas, há de se convir.

Tarcísio cometeu o maior dos absurdos recentemente quando, ao trocar ideias superficiais com uma nova amiga que é psicóloga, confidenciou que delegou aos seus funcionários a feitura das próprias tapiocas do café da manhã. Ao comentar sobre ter um desejo de se importar cada vez menos com as coisas, afinal, nas palavras dele, o mundo precisa de liberdade, sentenciou:

– Sabe, Bibi, tudo é passageiro. Eu não desejo controlar nada, quero que tudo seja livre. Mesmo as tapiocas, as super cápsula-blindas. Eu quero menos coisa sob meu controle, embora não possa abrir mão de controlar bens essenciais como a minha mulher. Sabe como é, sou um liberal…

– Não, meu amigo, você sofre de liberose ácida!

E foram transar.

Pombal

Ai, ai, ai, ui, ui / Loira ou morena / Tremendo mulherão / Sorria, pois você está na televisão / Quem quer dinheiro?

Assim ele sabia que seu final de semana havia, oficialmente, chegado ao fim quando o Silvio Santos começava a cantar nas noites de domingo em pleno palco do Topa tudo por dinheiro, programa pitoresco de humor liderado por um judeu, ex-camelô e simpático apoiador da política de direita. A maior constatação da velhice enraizada na mente humana é quando ela – a humanidade – passa a calibrar os horários do dia, as tarefas cotidianas, com a programação da televisão. Certa vez, logo após buscar os pães quentinhos da primeira fornada matinal, topou com um velho conhecido na porta da padaria.

– Senhor Bonifácio, gostaria de convidá-lo para um recital de violão que será realizado na próxima sexta-feira.

– Onde tomará forma tal apresentação?

– O teatro municipal será a casa das cordas melodiosas.

– Qual o horário do evento?

– Às 20h, meu amigo.

– E dura quanto tempo?

– A seresta mais a devida confraternização no boteco do Valdir, que fica em frente ao teatro, deve roubar três horas noturnas do ilustre cavalheiro. O mestre cervejeiro agora anda servindo um tal bolinho de feijoada, recheado com couve, feijão preto e paio. Dizem que é de cair o queixo.

– Infelizmente devo informar que não comparecerei, pois não posso perder o comentário político do jornal das 21h e também já aguardo ansioso o Globo Repórter sobre as belezas do rio Nilo que dar-se-á no mesmo intervalo de tempo do concerto. Agradeço o convite, até logo.

Direto nas opiniões e conservacionista da arte de observação à distância, pela janela, Bonifácio adora ter sua opinião ouvida. A bem da justiça, a dependência da TV só se dá em período noturno. Durante o dia, toma seu café preto e sem açúcar e, acompanhado por livros, senta-se em frente ao buraco na parede que é preenchido por vidro. Do alto da soberba e do nono andar, pensa a esmo recolhido ao silêncio da incompatibilidade com o mundo. Em frente ao prédio onde mora há a igreja matriz da cidade onde, nas bordas da abóbada central, concentram-se uns tantos pombos que entre arrulhos e voos também copulam. Ainda que não seja esteticamente feio, o pombo é o animal símbolo da doença, da sujeira, da vida ingrata pelas ruas. O rato de asas, como se costuma referir ao ente aviário, é agraciado com exceção quando está em unidade solitária e sua cor é branca. A pomba da paz, do espírito santo, da graça. E é exatamente uma pomba sozinha, branca como leite, que criou a  mais inusitada relação homem-animal com o velho Boni. Observando-a ciscando por entre os vãos do telhado ecumênico, com aquele jogo de pescoço vai-e-volta típico, assistiu ao impossível. A pomba parou o que estava fazendo e o fitou diretamente, da distância abismal que os separavam. Alçou voo direto com poucas batidas de asas e pousou na janela que servia como vitrine do mundo. Bonifácio, encantado com a proximidade do animal e seu olhar inquisidor, inclinou-se na cadeira de balanço e sorriu para a ave. Com olhos vermelhos, a pomba girava a cabeça a fim de que os dois globos laterais pudessem analisar a figura idosa que se projetava com curiosidade frente ao animalzinho. Um vento revolto batia e levantava insistentemente as penas de sua cabeça conferindo-lhe uma tal aparência patética. A pomba então bicou três vezes a região do trinco que travava a abertura da janela.

– Ora, que bichinho mais esperto! – disse Bonifácio em voz alta do lado de dentro do apartamento.

– O que disse, Marinho? – indagou sua funcionária doméstica que o chamava pelo sobrenome.

– Nada, não é contigo, Railúcia. Fia-te às tuas obrigações. – disse um ríspido Boni que não é dos mais afáveis patrões e, sabe-se lá o porquê, expressa-se quase sempre na segunda pessoa do singular.

A pomba então voltou a bater o bico outras três vezes contra o vidro e a girar a cabeça em sinal de ansiedade. O velho puxou a cadeira para mais perto da janela e, puxando uma trava, permitiu que o fluxo de ar entrasse sala adentro. Com um salto simples, a ave se assentou na borda da basculante. Bonifácio estava maravilhado com aquele encontro, tão inusitado quanto pouco crível. Empolgado, exclamou em voz alta:

– Tu estás com fome ou sede, ó amiguinha? Vou buscar algumas sementes e água!

Ao insinuar o movimento de pernas e braços para se erguer da poltrona de balanço, eis que a parte fantástica da história entrou em cena. Com uma voz aveludada e do gênero feminino, com dicção pausada e clara, a pomba se apresentou:

– Meu bom senhor, fique bem aí onde está. Meu nome é Clarice e eu não tenho fome, senão a por conhecimento. Já fui planta e já fui gente, essa gente comum do dia-a-dia, já fui felina e até mesmo uma nuvem, veja só! Certa vez tomei a forma de pernilongo e percebi que chupar o sangue de humanos não era tão distinto de lhes trair a confiança sendo eu outra humana. Ao tentar puxar papo na forma do mosquito indesejado, não percebi que minha voz saía muito baixinha e que o que chegava aos ouvidos dos homens era apenas o zumbido irritante que caracteriza a classe. Acabei em um tapa violento, esmagada entre as palmas gigantescas de um Zé qualquer. Tenho apetite pela conversa boa e franca, ademais não poderia me alimentar das sementes suas pois sou ave ralé, daquelas que ciscam o resto do resto, que resta de um todo. Diga-me, o senhor não se cansa?

O pobre Bonifácio beirava o colapso nervoso ao presenciar um animal que falava, articulava com maestria e ainda indagava com petulância.

– Meu Deus, o que é isso? Estaria eu sob efeitos alucinógenos? Uma pomba que fala! Como és tão bonita, lustrosas as tuas penas e tua voz tão agradável! Sou Bonifácio Marinho, teu criado. Agora, confuso me encontro com tal pergunta. Cansado de quê?

– Ora, meu bom homem, cansado de tanto olhar, olhar, olhar e não interagir. Há semanas que perambulo pelas redondezas e o vejo sempre aí, na distância do olhar comedido que muito vê, porém pouco compartilha. Creio que há muito o que sair destas cordas vocais suas. Já sente o peso da idade? Encontra-se cansado daquilo que é humano, demasiado humano? Permita-me, preciso conhecê-lo melhor, aquele é um Picasso?

A safada da pomba reconhecera um quadro pendurado às costas do sexagenário.

– Sim, é um Picasso. Mas é uma cópia, não posso arcar com os custos de um original. Que coincidência feliz, uma criança acolhendo uma pomba!

– Que diferença faz o original? Este lar não é um museu, pouco importa outra coisa senão a imagem em si. Quanta ternura. Sim, mas retomando, quais são as suas queixas?

– Ora, minha amiga, sou um homem que muito já viveu. Alegrias, desilusões, ilusões  de esperança. No meu tempo que era bom, nós conversávamos com propriedade sobre assuntos diversos e a cordialidade ditava a melodia do diálogo. No meu tempo tudo  aquilo que fosse chulo era rejeitado, no meu tempo…-  os tempos agora são outros e eu prefiro me recolher ao seguro refúgio da minha própria sala de estar.

– É por isso que tem preferido assistir ao Silvio Santos a encontrar com os seus?

– E como sabes disso, ó pombinha enxerida?

– Ora, tenho asas e posso voar aonde bem entender, pois por vontades sou guiada. Às vezes encontro-me quieta a observar e a escutar, sobre as cabeças daqueles que só tendem a olhar para o chão. Estando no alto, posso olhar ainda mais para cima, com os ouvidos porém atentos a tudo o que vem de abaixo.

– O que queres dizer?

– Você precisa subir, Boni! Ou talvez navegar, fazendo jus ao sobrenome. Diga-me, já não é hora de deixar a cadeira e passar a, então, balançar o mundo?

Ao melhor estilo mestra dos magos, tão logo pronunciou a frase enigmática abriu as asas e despencou ao sabor da gravidade. O velho deu um salto e acompanhou a queda livre da ave por alguns andares até que, em vigorosas agitações aladas, ela recuperasse o controle do plano de voo. Sumiu em curvas por entre os prédios da vizinhança. Bonifácio ficou entusiasmado com a intervenção sofrida naquela manhã fatídica e decidiu reunir os amigos no mesmo boteco do Valdir rejeitado previamente. Lá se encontraram, conversaram e, claro, degustaram os bolinhos de feijoada, uma iguaria que correspondia à expectativa. Os convivas, que já desde há muito só encontravam Bonifácio ao acaso da fila do pão ou da lotérica quando iam pagar contas, perceberam no companheiro um homem alterado como em um passe de mágica. Falante, com a voz impostada e desejoso por debates clássicos de mesa de bar. Argüiram sobre política, religião, futebol, tudo aquilo que a cartilha de bons modos reza por não se discutir. Sobre damas formosas e os efeitos entorpecentes de seus atributos físicos, comuns em outrora, também relembraram. As garrafas de cerveja secavam, vinham outras e mais amendoim, bolinhos de bacalhau, guardanapos baratos que desmanchavam ao contato com a gordura sobressalente. Ao se despedir, recebeu afetuosos abraços e a alegria geral era tanta que não o deixaram sequer pagar a conta. Havia reconquistado a plena admiração do grupo. Voltou para casa sorridente e ansioso. Gostaria de conversar mais com Clarice. Deitou-se e deixou as janelas abertas. Pelo corredor de vento entravam também os sons da rua e os arrulhos noturnos dos ninhos urbanos das centenas de pombos que habitavam a região. Na manhã seguinte, enquanto se servia de café fresco, escutou a batida tri-executada a quebrar a monotonia da alvorada. Tec-tec-tec…

– Bom dia, Clarice! Que felicidade em rever-te, ó voz das boas novas! O que trazes hoje em teu seio da sabedoria?

– Você não perdeu tempo, hein!? Diga-me, o que estava mais gostoso, os petiscos ou o banquete de idéias?

– Ora, os acepipes estavam perfeitos, por mais simples que fossem. Mas, admito, relacionar-me com os amigos e misturar as opiniões foi fantástico. Ontem, é bom que eu diga, deixei de assistir a toda a faixa noturna da programação televisiva para confraternizar. Nem de longe me arrependo, pelo contrário, sinto-me mais jovem até! Claro que alguns alimentam achismos e considerações supérfluas sobre as coisas e..

– Deixe disso, homem! O que é dialogar se não suportar e ser suportado? – interveio uma pomba eloquente.

– Tens razão.

– Quem sabe agora tome coragem para aquilo que já é hora de acontecer.

– E a que te referes? A metafísica? Os diálogos com Deus e o significado da vida? Devemos discorrer sobre a grande saúde a qual o homem almeja?

– Rai.

– Rai? Engoliste uma sílaba, ó passarinha? Raios de sol?

– Sim, engoli. Railúcia, seu grande amor.

Aquela frase aterrorizou o velho Boni, que num tropeço derramou o café sobre as coxas.

– Qual absurdo proferes! De onde tiraste tal sandice?

– Sandice é desejar uma mulher tão bonita e dedicada como a Rai e não ter a coragem de se declarar, pela simples relação hierárquica patrão-empregada. O amor tem razões que a própria razão desconhece, meu bom homem. Dispense esse trololó e case-se enquanto há tempo. E o tempo urge, enquanto o leão, ainda, ruge! – decretou, simbolicamente, ao se auto-defenestrar.

– Railúcia! Venha já aqui! – gritou um Bonifácio espavorido.

– Sim, meu patrão, o que houve?

– Andaste a falar coisas por aí? Tens algo a me dizer?

– Não compreendo, Marinho. Sobre o que, meu senhor, sobre o que especificamente se refere com essa pergunta?

– Deixa para lá, acho que estou meio maluco. Queres casar comigo? – propôs um absolutamente nada romântico Bonifácio Marinho com a voz embargada.

– Oxalá, meu pai! Tenha pena de nós, tenha dó! Quero sim!

À parte a exaltação afro-religiosa, Boni considerava-se pleno. Pudera! Em dois dias estavam no cartório de registro civil para oficializar a união. Marido e mulher, rumaram ao apartamento para uma recepção modesta com os mais chegados. Na hora de cortar o bolo, Clarice voou pelo recinto e pousou no ombro esquerdo do noivo. Os convidados se derreteram com a imagem dos pombinhos agraciados pela pomba branca da santa Trindade. A foto ficou uma beleza. Clarice cochichou em seu ouvido:

– Meio maluco você é, não acha? Dando corda a uma pomba! – e se foi voando janela afora.

Boni celebrou com entusiasmo. No dia seguinte, deu falta da visita de sua amiga. Lamentou por toda a manhã a ausência de fiel confidente. Estava doido para contar sobre a noite nupcial e sua performance inacreditavelmente soberana sob os lençóis. Sua agora esposa Railúcia Marinho sorria à toa. Disse que tinha uma surpresa para o almoço. Serviu os pratos e pôs à mesa um assado.

– O que é que preparaste para nós neste dia primeiro do resto de nossas vidas, meu benzinho?

– Pomba, meu amor! De um criador que conheço. Há de adorar o sabor e a maciez de sua carne tenra.

Bonifácio bem que tentou mas não pôde evitar a dúvida. Seria, por vias da mais selvagem coincidência do mundo, ser aquela pomba a sua querida amiguinha? Sua sábia conselheira havia se tornado a sua refeição? Depois de alimentar-se da fonte abundante de perspicácia, haveria de ingerir também sua matéria? Seria tudo aquilo um sonho? Estaria ele variando das bolas, coisa de velho? Olhou insistentemente para a janela na esperança que Clarice surgisse a cutucar o vidro com o bico afiado. Nada. Sorriu com lábios desesperados para sua esposa que, sem perceber nada, ainda apresentou mais um complemento para o prato:

– E essa é a cabidela, um molho feito com o sangue da pomba, uma iguaria!

A essa altura do campeonato Boni suava frio, tentando disfarçar a reação e não deixar com que sua amada percebesse o nervosismo. Como Jesus Cristo, comeria sua carne e beberia seu sangue, como que em ato memorial? As cortinas todas do apartamento estavam abertas e ele percebia, paranóia ou não, uma revoada de pombos. Estariam todos possuídos por um espírito vingativo? Railúcia saboreava e expressava o prazer a cada garfada:

– Mmmmm que delícia! Não tem fome alguma, meu bem?

– Ainda estou nutrido do amor que me serviste sobre o leito, ó rainha de fogo.

– Ah, como você é perfeito!

A recém casada dona de casa devorava as asas e o peito branco da pomba enquanto balançava a cabeça. Na vitrola tocava um disco de Frank Sinatra e na ponta da mesa continuava o senhor Bonifácio a resistir ao primeiro toque no prato que fora servido. Bastava que uma pomba branca pousasse em sua janela e o alívio seria imediato. Mas ele não poderia começar, a pomba continuava sumida.

Taste of Jerusalem

(post antigo republicado)

Despertei por volta de 8h30 com meu parceiro Gustavo Prestes batendo à minha porta e convocando:

-“Acorda, quero beber!”

Pois bem, salto da cama, tomo um banho, visto a prezada camisa de botões e estampa de abacaxis (que diz a lenda causar no homem acima de 30 anos sensível imoralidade) e desço para o piso térreo de casa. Hoje é meu último domingo na Carolina do Norte e há um brunch de despedida, a fim de reunir os amigos que aqui fiz e com grande orgulho hei de levar em devidos espaços arejados em meu peito.

Ben, Prestes e eu.

O Ben é um daqueles personagens como os de filme, gente boa e de fala mansa, com uma dura história de vida. Ao se ver abandonado pela ex-mulher teve de criar sozinho dois filhos em um país que não permite baixar a guarda para as intempéries do destino. Nos EUA o compasso é outro e para alguém que não goza de herança ou retaguarda familiar, vindo do interior do estado do Mississipi, a luta é seria. Apesar de toda essa batalha, aí está um sujeito de muito bom humor e simpatia. Sempre que eu compartilho algum causo ou mostro algo do meu acervo musical/fotográfico, ele costuma dizer

” You know what? I’ve got a good one for you…” (que saber? Eu tenho uma boa pra te mostrar). E daí ou ele me conta uma história épica, de tempos antigos, ou me fala sobre um determinado filme de Velho Oeste ou, feito hoje, apresenta uma nova música.

Foi nesse ritmo que pedalei, ao me despedir dos nobres amigos que prestigiaram o brunch, rumo ao último dia de trabalho no restaurante Taste of Jerusalem. Pode soar piegas, mas eu sou profundamente afetado por despedidas. São tão somente dois meses de companhia diuturna desses felizes companheiros árabes mas, pro Aquiles aqui, quando o relógio começa a mostrar que faltam apenas duas horas pra dizer adeus, são angustiantes momentos em que uma singular emoção se apodera dos sentidos.

Mohamad, o dono

Desde que anunciei que tinha de partir já na quarta feira o semblante do Mohamad mudou. Assim como eu dele, ele gosta muito de mim. Confia, admira como eu trato e fidelizo os clientes. De minha parte, admiro sua destreza na cozinha assim como a ética em sair da Palestina, vir aos Estados Unidos da América e trabalhar muito, sem descanso, enfrentando preconceito e tendo de aprender uma língua nova para, 30 anos depois, exibir uma bem constituída família sustentada e educada pelo seu esforço incansável. Um homem de valores que abriu as portas do seu negócio para que eu também experimentasse um pouco dessa batalha no American way of life.

Faltam algumas horas para tudo acabar por aqui. Ainda terei oportunidades de contar lembranças que levarei deste lugar.

Por ora, o sol cai e a música monótona do salão vai embalando a melancolia. Neste canto ínfimo da grandeza das minhas vivências registro a emoção de ter conhecido gente tão honesta.

O sol continua a cair e um grande silêncio se faz em meus pensamentos.

Muito agradecido!