Dois mil e vinte

Um ano atrás eu despertava de frente ao mar, na companhia de gente muito querida, na praia de Riacho Doce, em Maceió, faixa Norte do litoral alagoano.

Muitos cenários mudaram, tantas rotinas se sucederam, países se substituíram a encantar os meus olhos, amigos foram e vieram, quantidades enormes de álcool foram ingeridas, muitas tardes de solidão e noites de música, inúmeras manhãs de café amargo como a própria vida é, às vezes, à revelia da minha (ou nossa) angústia pela euforia permanente e compartilhável, aquilo a que chamamos felicidade.

Ausente da minha terra natal fiz das redes sociais o canal direto de comunicação entre familiares e amigos além, marca dessa era, um bando de “seguidores” desconhecidos. Por que me refiro a esses com aspas? Porque, objetivamente, não os busco ou sequer dou grande relevância a essa suposta “devoção” que se cria e mantém com gente que nunca vi e que, por sua parte, tem como costume idealizar uma figura e, daí, segui-la.

Como? Você procura?Gostaria de decuplicar-se, centuplicar-se?Procura seguidores? — Procure zeros!

O aforismo acima é de Nietzsche, número 14, no livro O crepúsculo dos ídolos.

E eu, agora, busco os meus zeros.

Em 2019 escrevi diariamente em um diário estóico, um trecho ao iniciar o dia e outro ao cair do sol. Respectivamente, preparação e reflexão sobre o que o dia poderia me oferecer. Premeditatio malorum, diriam os romanos.

Premeditação dos males e infortúnios que podem vir ao meu encontro.

Um ano inteiro de higiene intelectual e comprometimento com o exercício de treinamento da mente trouxe a vontade de me afastar. Distanciar-me das conversas pequenas, do despropósito em mostrar nada além de imagens, de testemunhar fofocas, de forçosamente me calar ao ser o ouvinte cativo de tantos e tantos sujeitos que insistem em derramar sua verborragia inexperiente nos ouvidos de, ora vejam , justo quem?!

Soa arrogante? Talvez, especialmente aos que se deleitam em projetar naquele que fala alguma tipo de identidade, de similaridade, uma imagem sacral de bondade absoluta. Ora, mas a filosofia que me nutre o espírito é aquela do martelo e, por vocação, tem a ânsia de quebrar as velhas tábuas de tradições!

Deixei o Instagram pra , tranquei-me no meu próprio universo de livros e palavras abstratas. Em 2020 escreverei mais do que os últimos 33 anos juntos.

Chega dos medíocres! Chega dos bajuladores! Chega dos néscios que não se envergonham da sua pobre erudição e insistem em falar mais do que ouvir.

Da disciplinada atividade de compartilhar os tesouros que venho a coletar pelo caminho faço a minha semeadura para o futuro que desejo.

Eis o Homem!

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