Polegadas

Maria foi uma boa esposa durante uma das quatro estações do ano. Casou-se com Alfredo apesar do nome em desuso. Ela imaginava como foi a adolescência de um garoto chamado Alfredo e ele elucubrava como teria sido a infância dela sem pai. Cada um nos seus pensamentos particulares, porque eram ofensivos demais para servir à mesa. Maria não andava bem e esquecia a tampa do vaso levantada. Maria dormia com a boca aberta e roncava, mas Alfredo achava aquilo fofo. Fofo, mas insuportável, por isso ele a cutucava com o cotovelo. Casaram-se no outono, quando as folhas caíam. O caminho era poético, na antessala do renascer florido. No inverno, Maria não aguentava. Suspeitava do marido e roía as unhas que já eram curtas. Feria as cutículas e então tomava vinho. Alfredo a encontrava bêbada, desacordada, reclamando do vizinho. Ela sequer conhecia o vizinho. Moravam distante da família e não havia corrida para colo nenhum que resolvesse. Eram os dois, um para o outro, não importa o que acontecesse. Alfredo a amava e o amor é aquilo que o aquecedor faz nas noites mais frias, mesmo que o motor, toda a engenhoca que faz a coisa ficar quente, permaneça no lado de fora da casa sob um rigoroso frio. Maria era doce, uma menina, tinha os pezinhos tortos e os dedos compridos. Nasceu para ser menino, mas Deus quis diferente. Ainda bem, porque Maria era linda com cabelos que pareciam fios de linho. Alfredo se sentia completo, mesmo com as neuroses de Maria. Neuroses são essenciais ao negócio humano, dizem os psicanalistas. Opiniões, como cachos de banana, crescendo a torto e a direito como se o mundo fosse adubado por inteiro. Maria passou a suspeitar que Alfredo estava tendo um caso com alguém do escritório. Ele era funcionário público, batedor de carimbo, um daqueles de futuro, mas com todo o tédio do mundo. Saía cedo e levava a comidinha que seu amor preparava, mas então, com o diabo a lhe sussurrar diabruras, Maria parou. Simplesmente parou e escolheu a TV. O marido notou e reclamou, mas Maria alegou tontura. Disse que o alho queimava as mãos, que não suportava mais o cheiro de fritura. Alfredo, resignado, saía de mãos vazias. Trabalhava feito um condenado para que o dinheiro rendesse uma casa própria. Maria assistia ao televisor com a mente suspensa. A televisão não exige pré-requisitos, não exige sequer inteligência, a televisão só necessita ser ligada e Maria sabia bem apertar o botão vermelho. Maria poderia trabalhar em uma usina nuclear para deflagrar o alarme de desastre. Oh, Maria. Em uma manhã, ela acordou e se sentou em frente ao aparelho. Desligado, era como um negro espelho. Assistia a uma programação idiota, típica de geração vazia. Assustou-se com o estampido de uma música trágica que comunicava o impossível. “Interrompemos a programação para um anúncio especial” disse o âncora. “Devido a forte nevasca, os bombeiros têm dificuldade em acessar o prédio central da administração pública onde um incêndio sem precedentes derrete as colunas seculares”. O mundo de Maria naufragava, mas havia um âncora. Ela levantou e, nervosa, só pensava em fogo, no Alfredo, nos cigarros que ela tanto gostava. Maria subiu as escadas e bateu na porta do quarto onde o marido dormia. Ele caíra doente e dormia em um quarto separado para poupar a esposa da tosse renitente. Bateu com o polegar, como se surrasse um pandeiro. Maria não batia bem. Não houve resposta. Desceu as escadas e grudou no telefone. Ligava insistentemente para o escritório onde o marido trabalhava. Ninguém atendia, deviam estar todos mortos com a fumaça, ou pior, queimados. Maria enfiava os dedos nos cabelos e não sabia o que fazer. Conferiu a garagem e se espantou, pois o carro dele continuava lá. Tornou a subir as escadas, a bater com o polegar direito na porta branca e a chamar por Alfredo, Alfredo. Oh, a constatação! Se Alfredo não estava ali nem no serviço, só poderia estar com a amante. Nem a

neve poderia esfriar sua espinha mais que aquele pensamento. Maria entreteve a ideia e não viu saída. Fugiu de casa, usando o carro do marido. Maria aprendera a dirigir recentemente, mas a ira a guiava. Foi a um bar e pediu bebida. Serviram. Bufava e tremia. Não demorou até que um sujeito se aproximasse e procurasse ouvi-la. Existem mais homens bondosos, nessas horas, do que há certezas nesta vida. Maria vomitava o carrossel de mágoas e o cara, com a cabeça, assentia. Maria não parava, falava mais do que devia. Aos poucos, mesmo o sujeito da malícia, o garçom e os outros homens que ali bebiam se afastaram. Mas era um bar velho, sujo, daqueles que têm buracos na parede. E em um desses buracos tinha quem a ouvia. Uma barata e um rato, imóveis como se paralisados pela estricnina. Maria notou e não se intimidou, discursou para a baixa prole dos seus desejos de patifaria. Bebeu e praguejou e se levantou bastante zonza. Ninguém ajudou, eles queriam que ela se fosse. Maria entrou no carro e deu a partida, mas não conseguia ver. Havia neve sobre o pára-brisa e ela então ativou o limpador. Aguardou que a brancura se dissipasse e julgou, a inocente, que via plenamente com capacidade de uma águia careca. O carro patinou no gelo liso mas Maria, embriagada, julgou que tudo ocorria bem, da mesma forma que saiu de casa. O automóvel replicava as pernas da esposa desastrada. Na casa, enquanto isso, Alfredo destrancou a porta e pisou na sala. Não havia barulho, não havia nada. Apenas a TV ligada e um noticiário mudo. Ele mirou o quintal branco e a beleza da invernada. Torceu para ver uma raposa, um veado, um feixe de Sol naquela manhã castigada. Fez café e deu falta de Maria, mas pensou que a amada estivesse no quarto lendo ou coisa que o valha. Alfredo, segurando uma caneca azul, sentou-se no sofá e aumentou o volume do televisor que mostrava imagens de um fogo imenso, mas que não conseguia distinguir onde se passava. Foi interrompido por um anúncio urgente dentro da programação urgente que retratava uma outra emergência. “Interrompemos a programação especial para outro anúncio especial”. Alfredo recostou-se para acompanhar. “Uma caminhonete, placa RDC-8240, chocou-se contra o prédio em chamas da administração pública. Os bombeiros informam que não há sobreviventes, embora não tenham certeza de quantas pessoas estavam no automóvel”. O prédio era onde ele trabalhava. A placa era a do carro dele. Aflito, Alfredo levantou-se num salto e derramou café quente. Ele pensava sobre aquilo e não sabia o que fazer. Ele queria saber se alguém estava no carro com Maria. Alfredo estremeceu. Polegadas de neve impediam a saída e ele arrefeceu. Aquele era um sábado, ele não entendia como o incêndio começou, por que tudo acabou em fogo e por que ela o trairia.

Bula

Ao homem nascente, em meu nome, que lhe seja recomendado

Antes de tudo que a vida trama
Mas que não há o certo, tampouco o errado.

A família, a tenha por princípio
e a escola para o aprendizado
porém aos amores cuidado, são um perigo!
Haverá quem o ame por seus adjetivos
e quem o faça somente pelos seus predicados.
Que valorize, em tempo, os dias santos entre os de trabalho pois graças a igreja gozará
o seu descanso sempre aos feriados.
Mas se lhe falte a família
ou a escola não o deixe encantado
e se as mulheres não o quiserem por marido
ou para Deus você não reserve o sábado
não esqueça do começo
pois tentarão provar o contrário
e será sua meta ante o destino
provar que não reina a escuridão, tampouco tudo é claro.

Haverá só você, no fim de tudo

tão tranqüilo, mas desesperado.

Convicto que viveu certo, na dúvida se fez errado.

A paz, o pacto, o ato ineficaz

Não fui o primeiro a ousar o acordo e o mundo
Esse mundo doente do homem que mente
Ainda há de gerar muito tormento
Para que outro iníquo assobie o trítono
E da matéria incendiada a fumaça dê a forma
O cheiro e a desesperança
Da estrela príncipe da manhã.

Poder, êxito e dominância
Oh, serpente, eu invoco a tua presença
De valores invertidos
E virtudes controversas
Com a voz da minha ganância.

O diabo apareceu
Porque o diabo é diferente do irmão
Que tudo ouve e nada diz.
Não é vermelho e dos olhos não salta facho
Não veste capa nem coisa alguma
Caminha de couro despido
E não nos dá as costas.
Anhanguera oferta ouro mas também esconde o rabo.
Satanás é exibido e entre as pernas mostra o sexo
Posto que sem nexo e muito rígido
Aponta para baixo.
Não exala enxofre como se quis
E embora nu, o cão veste sapatos
Pois tem pés imaculados.

Mamãe me disse que quando em face de um dilema
Eu me furtasse a frieza e fosse só humano
Demasiado humano.
Que não me ardesse em indiferença.
Ora, essa é a fantasia do tinhoso, que sejamos mais crus e
Que andemos, como ele, todos nus!

Em troca de favores ofereci a alma
Mas esqueci de maldita saliência que define o coisa ruim
            Não se atém à boa vontade
            E ama o enfado das escrituras
            Que condena homens em verdade
            Às clausuras eternas
            De temas do pecado.

No semblante daquele bicho um prazer desgraçado emanava dissabores
Tão claros como discretos e simples e complexos sobre o rosto enrugado.
Sorri e fica sério
Diz que sim mas não convence
Faz mistério. Faz assim.
É a sombra do adultério.
É o vício que sempre vence e a inconsequência que o antecede.
É o querer e o desamor e a delinquência e a harmonia.
É a nota aguda.
É sob as roupas o calor.
É a fantasia. É a recusa de ajuda.
É a autofagia.
É ele, somos nós, quem sois vós?
Antropofagia! Ator do ato trágico. Da carne à carne
Um mágico! Um profeta! Um renegado!

Diferente dEle, o mofento é sarcasmo e ironia. Afina o bigode e aperta o laço.
Cruza as pernas e aumenta a aposta.
Mais sem ter menos, o tal venha a nós mas sem o vosso reino.

Pé de cabra, sete peles, teu número é engraçado!

Vi arcos se contorcerem e a luz se alterar e a terra chacoalhar
E das ventas saltar vapor
Quando acusei no maledetto a própria semelhança
Das mudanças de humor.

O vidro polido se rompeu
E percebi em pedro-botelho
O mais assustador e incensurável.
A lembrança de tudo o que aprendi, de tudo o que se leu.
No espelho reconheci o fardo incomensurável
De que aquele sujeito era eu.

Spray, Sparta, Spyro Gyro

De dentro da cozinha vinha o grito:

⁃ MERDA!

Seguia-se um tapa na bancada. Isso significava que mais um pedido tinha saído errado. O cozinheiro ia à loucura. Tudo tem limite, ou deveria.

Ouvi um cara dizer que era iraniano, simpático às tampas. Cheguei mais perto, falei:

⁃ حال شما چطور است؟

Ele não entendeu. Fui mais perto da sua orelha e repeti:

⁃ حال شما چطور است؟

Ele estalou os olhos. Estendeu o braço e apertamos as mãos.

⁃ Você falou Farsi perfeitamente, sem sotaque. Como sabe a minha língua?

⁃ Ah, cara, eu já fui um negociador de tâmaras por aquelas bandas.

Entusiasmado, passou seu telefone e disse que em duas semanas estaria em Teerã e queria que eu me hospedasse na casa de sua família. Em duas semanas eu completo 35 voltas em torno do sol. A data tão temida. Eu poderia ter explicado que aprendi três frases em Farsi com aquele simpático grupo de iranianos que buscou um avião na TAM em São Carlos, no longínquo ano de 2007. Acontece que eu sempre quis negociar tâmaras. Sucesso garantido.

Duas mesas para a direita e uma moça parecia deslocada. Quando tomei conhecimento da sua história, senti uma pontada no baixo ventre. Exatamente um ano atrás, seu marido a aguardava na sala de estar para que fossem às ruas para uma noite de lazer. Enquanto esperava, decidiu limpar sua arma. Por acidente, ela disparou e ele se foi. Exatos 365 dias atrás. Eles iriam para o mesmo bar. Isso não é triste, meu chapa, é entristecedor. E há grande diferença entre as coisas. É necessário dominar a língua para traduzir a melancolia.

Procurei meu celular e enviei algumas mensagens de amor aos entes queridos. A gente nunca sabe.

Na América o verão é desejado, mas se mantém desdenhoso. Ele sempre passa. Por isso há tanta vida nas calçadas, nos pátios, nos parques. As pessoas aproveitam porque sabem que acaba. O oposto do que costumam fazer nos relacionamentos. Pensam que é para sempre. E já dizia a Cássia Eller…

Carrego uma lista de expressões para brindar em diferentes línguas.

Nazdrave, em búlgaro. Nazdarovia, em russo. Parecido, mas não vá cometer e lambança de dizer que é tudo igual. Ofensa na hora de encher a cara pode resultar em um dente quebrado. Ou abandono. Zivelji em croata. Aí você deve estar se perguntando porque tantas expressões vindas do leste europeu. Deixa isso pra lá, come on!

Bebendo rum puro com a Larissa na Tailândia em uma sarjeta de Bangkok, fomos abordados por duas garotas.

⁃ Oh, vocês bebem muito!

⁃ Err, obrigado?

⁃ Não estamos acostumadas a ver uma garota beber assim com tanta liberdade. Temos até uma expressão para isso. Lumyong, significa moça bonita que bebe whisky.

Hoje é sábado, amanhã é domingo, nada como o dia para passar. Saravá, Vinicius. Como não sou uma árvore e não crio raizes – só razões – posso sempre me levantar e caminhar. E mudar, de cor, de opinião, de amigos e de motivos. Cobra que não muda de pele morre.

Liberose

Honrai o sono e respeitai-o! É isso o principal. Fugi de todos os que dormem mal e que permanecem acordados à noite.

Não é pouco saber dormir; para isso é necessário preparar-se durante o dia.

Dez vezes ao dia você deve saber vencer-se a si mesmo; isto origina uma fadiga considerável, e esta é a dormideira da alma.

Dez vezes deve reconciliar-se consigo mesmo, porque é difícil vencermo-nos, e o que não estiver reconciliado dorme mal.

Dez verdades há de encontrar durante o dia; se assim não suceder, ainda procurará verdades durante a noite e a sua alma estará faminta.

Dez vezes ao dia precisa rir e estar alegre, se não incomodar-se-á de noite o estômago, esse pai da aflição.

E se tivessem as virtudes, seria necessário saber fazer uma coisa: adormecer ao mesmo tempo todas as virtudes.

  • Das cátedras da virtude (NIETZSCHE, F.)

O sono lhe faltava e à medida que as noites iam encurtando aumentavam os devaneios durante o dia. Sua mente se movera de um estado racional temperado com pitadas de fantasia para um vasto império de confabulações delimitado por pontuais intervenções terrenas dado os compromissos do escritório, agora, móvel. Tarcísio era um homem de negócios, muitos negócios, uns negócios, mas também nada daqueles negócios, se bem que tem uns negocinhos que ele não conhecia e, ao provar, se sentiu um tanto coisado. Negócio de louco? Negócio da China! Nada poderia prender mais a sua atenção do que as próprias simulações hipotéticas e maravilhosas que surgiam em sua cabeça, pensava um incauto qualquer ao selar promissora amizade com o jovem rapaz de camisas engomadas e sapato docksider. Que homem incrível, inteligente, bem educado e progressista. Dizem até que é o maior feminista vivo, seja lá o que uma definição como aquela pode significar para uma… mulher!

Tarcísio sofreu abusos na infância e resolveu que o negacionismo era o melhor dos antídotos da sofrência. Só que, medicado pela ciência do “muda de assunto que aqui não se fala disso” ele foi, aos poucos, sendo afetado pelos efeitos colaterais da despreocupação acentuada e da irrelevância aguda a tudo o que considera ser mais fácil deixar para os outros. Mudando a direção dos olhos conseguiu se esquivar das agulhas do passado e, positivamente mirando os altos cumes, construiu um império. Casa grande sem senzala, despensa cheia, adega farta, esposa retocada e filho obediente, tudo sob as próprias rédeas do controle patriarcal. Tarcísio é um homem de valores.

Os amigos estão sempre à volta; da mesa, do fogão, da piscina. Não existe silêncio onde ele está presente, pois silêncio impele a mente ao raciocínio recordativo, à reflexão dialética e estas coisas são como lavar louça para o mancebo. Tarcísio não lava louças. Na dúvida, na ausência de palavras ou idéias exalta a maior das suas características ao exclamar:

– Bora beber?

O álcool e Tarcísio, Tarcísio e o álcool. Uma história de amor, de reciprocidade, de carinho e acalanto. Não há nada mais gostoso que se embriagar a ponto de… se desculpar por “possíveis” erros do passado. Possíveis, pois difícil é para Tarcísio assumir culpa quando sóbrio e, caso seja confrontado com a admissão da mesma quando em avançada situação de ebriedade, há de negar com um sutil convite evasivo de…

– Bora beber?

Os negócios de Tarcísio vão muito bem, obrigado! Sua fala pode transparecer uma gagueira besta, insistente, mas não passa da trepidação que tanto volume intelectual causa ao se precipitar sobre a língua. Livros? Ler, para Tarcísio, é essencial como praticar 30 minutos de exercício meditativo pelas manhãs. Ele não pratica. Surfando nas ondas de uma juventude alongada e de uma maturidade ainda distante, seu físico resiste incólume às agressões gratuitas de privação de sono e nutrientes. Talvez um dos mais graves sintomas da terceirização de responsabilidades tenha sido quando Tarcísio chegou à excepcional conclusão de que todos os alimentos, hoje, são processados. Se, por bem de uma verdade acolhedora, é definido como processado tudo aquilo que passa pelas mãos do homem e sua cadeia produtiva até chegar às mãos do consumidor, então… só fogem do rótulo as frutas que colhemos direto do pé. Aliás, frutas são para Tarcísio o que a igreja no domingo de manhã é para ele e sua família. Eles não a frequentam.

O sono começa tarde, acaba cedo e não é calibrado durante o dia para o nosso herói. Dizem que é durante o sono que o corpo humano secreta a maior dose de hormônio do crescimento. Tarcísio parou nos 1,67m. É mister risada para um bom sono? Olha que ele ri fartamente, o dia todo, todos os dias. De si mesmo, quando conta histórias que, não raro, sempre o colocam como uma espécie de azarão que tem tudo para dar errado, só que…

“- E lá estava eu, na frente daquele monte de gente no balcão do bar. Um bando de negão e o idiota aqui com a certeza que ia apanhar, né?”

Mas, as histórias sempre acabam incrivelmente bem. E ele ainda ri – e muito – dos outros. Motivo? Basta alguma confidência sobre algo que desagrade ou seja sensível para uma pessoa em questão. Aí é um desbunde, um bullying sem fim. Foi na performance das suas gracinhas graciosas com mulheres que Tarcísio se viu empossado como o grão mestre do… feminismo! Deus escreve por linhas tortas, há de se convir.

Tarcísio cometeu o maior dos absurdos recentemente quando, ao trocar ideias superficiais com uma nova amiga que é psicóloga, confidenciou que delegou aos seus funcionários a feitura das próprias tapiocas do café da manhã. Ao comentar sobre ter um desejo de se importar cada vez menos com as coisas, afinal, nas palavras dele, o mundo precisa de liberdade, sentenciou:

– Sabe, Bibi, tudo é passageiro. Eu não desejo controlar nada, quero que tudo seja livre. Mesmo as tapiocas, as super cápsula-blindas. Eu quero menos coisa sob meu controle, embora não possa abrir mão de controlar bens essenciais como a minha mulher. Sabe como é, sou um liberal…

– Não, meu amigo, você sofre de liberose ácida!

E foram transar.

Apanágio do homem

Um estrondo de proporções dantescas anunciou, ao mais puro estilo trágico, a interrupção do fornecimento de energia para a vizinhança. Primeiro, uma grande luminosidade clareou o céu anegrado e então se pôde ouvir, em decibéis guturais, a reação impiedosa da corrente elétrica que atingira um indefeso poste de eletricidade. Em seguida, faíscas saltitantes criaram a chuva incandescente que fluiu do gerador carbonizado. Bela, porém arriscada, a cena era magnética aos olhos de todos os que se encontravam na varanda do casarão encartalhado. A luz abundante, nas controvérsias da natureza, criara a escuridão.

O breu incutido de modo espontâneo costuma confirmar a previsibilidade humana: apagam-se as luzes e o que se ouve e sente são gritos de exclamação, uivos histéricos e mãos que tateiam os seres mais próximos, como náufragos que tentam alcançar destroços que lhes garantam a sensação de segurança na procela. Ali estavam Gerônimo, proprietário da residência, Amarilda a esposa e co-proprietária, Carlos Honesto, o filho daquele casal, e João e Maria, amigos que formavam a mais insossa união matrimonial, a começar pelos nomes de fábula e os trajes que cobriam-lhe as carnes; João vestia bermuda cáqui, camisa pólo verde abotoada até o pescoço e sandálias de couro, enquanto Maria os pés calçava com modestas sapatilhas vermelhas ornadas com laço branco, vestido palha com uma faixa em volta da cintura e cabelos alisados penteados para o lado. Ambos já tinham fios grisalhos surgindo entre os demais, coisa que não os incomodava, afinal, não se tratavam de gente vaidosa. Tão logo as lâmpadas se apagaram e os estertores gerais agonizaram as trevas, a dupla de convidados atentou os presentes para a exuberância de um céu estrelado que agora se exibia em seu esplendor sem a interferência da luminosidade poluente das aglomerações urbanas. Silenciaram, todos, por alguns segundos. No céu, em tremenda coincidência, uma estrela cadente rasgou a imensidão. Os que pouco observam o firmamento tendem a crer que aquele fenômeno é raro quando, em verdade, rara é a quietude do contemplar. Espantaram-se e, em uníssono, sugeriram todos o depósito auspicioso de um desejo nos confins da mente. Levantaram-se os personagens do conto dos Grimm e anunciaram a partida:

— Queridos, o apagar das luzes recomenda o momento de recolhimento. Avançada hora nos lembra que temos de dar comida aos gatos.

Despediram-se e foram embora. O relógio cuco, independente à alimentação elétrica, marcava onze horas e onze minutos e o tique-taque dos ponteiros inclinava os presentes à reflexão. Fazia muito (senão nunca) a família não se reunia em silêncio, sem distrações modernas. Carlos Honesto já bocejava. O rapaz carregava como nome um adjetivo, o que lhe rendeu irreparável dever no desenrolar da vida. Afeito ao seu destino pronominal, deu-se de tal modo ao estilo parrésico de se expressar que foi por um punhado de vezes mal interpretado, como se se tratassem seus comentários de reles petulância. Gerônimo o indagou se gostaria de acompanhá-lo em uma taça de aguardente de cana envelhecida e enriquecida em barris de carvalho. “Por mim, tanto faz”, arguiu o jovem em tom lacônico. O semblante do filho único raramente se alterava de uma conformidade frustrada, dando a impressão de que algum tipo de percepção precoce sobre as limitações do seu arbítrio era irremediavelmente intransponível, tornando o exercício da vida um lamentável empurrar de rocha montanha acima, porém, sem a felicidade necessária que se deveria atribuir a tal absurdo. Brindaram, junto à senhora Amarilda, e sorveram dos cálices seguidas rodadas até que a garrafa secou. À penumbra que lhe dividia a face ao meio e deixava a boca semi visível, o unigênito comunicou a ida ao berço recomendando que os pais não se descuidassem, pois a friagem poderia lhes render uma dor de garganta. Beijou as bochechas dos genitores e recebeu a benção da mãe. Ofereceu-se a buscar um cachecol ou blusa de gola alta para os dois ao repetir que “álcool e sereno acabam por fazer dano às amígdalas’’, mas lhe foi garantido que não se preocupasse e dormisse bem.

Amarilda não desgrudava da companhia do esposo, por quem alimentava receosa admiração como o faz um soldado pelo valente general. Com as pernas cruzadas e uma manta de tricô a cobri-las, aguardou os passos lentos e cambaleantes dele irem ao encontro de mais uma garrafa. Gerônimo sacou a rolha de cortiça, serviu pequena dose nas duas taças de cristal de Blumenau e os dois as ergueram à altura dos olhos.

— Ao santo! – dedicou ele ao derramarem, os dois, o líquido perfumado no canteiro de flores que se situava às costas.

Os dois eram bastante supersticiosos e aquela oferta cumpria as boas práticas de convivência com as coisas que não podem a nossa vã filosofia explicar. Encheram novamente os recipientes e entornaram o néctar como de costume, matando a sede que os consumia desde os minutos iniciais daquela noite de convidados. João e Maria não bebiam e, castos como transpareciam, o ato de consumir derivados do álcool causava constrangimento na presença deles. Acontece que Maria, em um passado intocável, passara por problemas relacionados ao abuso da substância e, por tal motivo, a diplomacia recomendava abstinência quando em sua companhia. Por este motivo, o da compaixão ao sofrimento alheio, os anfitriões condescendiam ao jejum etílico apesar de que, ansiosos, torciam para a brevidade da permanência dos visitantes a fim de que pudessem se agarrar aos galhos daquela árvore da salvação inebriante. Bêbada, Amarilda comentou como os dois eram feito o sutiã, “oferecendo grande suporte e toleráveis por um tempo, mas delirante em prazer ao se livrar deles”. Riram à beça com a comparação esdrúxula aprendendo, assim, a amar seus inimigos. Na mulher existia uma certa vontade mórbida por conversa, entretanto o assunto que lhe palpitava o coração era o próprio marido e suas improbidades, o que, por submissa justaposição matrimonial e financeira, a impedia de avançar no uso da palavra. Amarilda tomava o fôlego, interrompia a respiração e cerrava os lábios quando, na sinapse de advertência, percebia a impossibilidade da opinião quase comunicada. Seguidas vezes, entre um trago e outro, abortou a fala. Era uma mulher de muitos conceitos, especialmente em relação ao seu companheiro, coisa que muito compartilhava com quem naquela casa não morasse.

As luzes se acenderam por dez segundos e voltaram a apagar, fruto da reparação que se desenrolava pelos técnicos da companhia estatal. Nesse lapso de claridade, Gerônimo percebeu a figura de seu cachorro a observá-lo, por detrás da grade que o enclausurava, sentado pacientemente a zelar pela silhueta do ser humano que, por tradição milenar, deveria dar alimento, abrigo e carinho ao fiel companheiro. Já rompia, ao calar da noite mais escura, as três horas da madrugada e, no afã de instintos confusos, o homem decidiu por libertar o cão.

Levantou-se e recostou a garrafa e taça ao lado da cadeira. Caminhou até o quintal assobiando uma canção de Ennio Morricone, a Infância e Idade Adulta. Ao se ver livre do cercadinho solitário, o bicho era pura alegria, perceptível no fôlego acelerado e nos saltos incontidos que dava no ar. O êxtase supremo do caninus fidelis, a farmácia afetiva da alma, aquela cena se assemelhava ao explodir de fogos de artifício na celebração pagã de um dia qualquer, o grito último do júbilo latido. Ao saltar para cima de seu dono, o cão levou uma joelhada desencorajadora. Arqueou as patas e preparou novo salto que foi reprimido, com traumática violência, por um chute de bico no peito do pobre galgo.

— Não! – pôde-se ouvir o grito de Carlos Honesto, que a tudo assistia da janela do seu quarto.

O canino, ao segundo ato agressor, rosnou e foi, pela mão forte e repetidora, agarrado pela coleira e reconduzido à sua cela emitindo grunhidos agonizantes. A grama, as plantas, as árvores eram testemunhas de que naquele momento fora libertada outra fera, a besta normalizadora. Em processos angustiantes, ela estava aprendendo não só a amar seus inimigos como, também, a odiar seus amigos.

Ao amanhecer, o Sol aqueceu a relva e levantou a neblina que dormiu no orvalho. Tanto Amarilda como Gerônimo sofriam com uma descomunal dor de garganta.