Antiquado

Dois quarteirões acima da rua onde mora há uma praça. Acima é um conceito relativo, as ruas são planas e não há aclive nenhum em um raio de tantos quilômetros. Mas, para o sujeito que reside permanentemente em um tal estado débil, aquele punhado de terra circular, delineado por grama rasteira e cercado por calçadas pedregosas representava a elevação do moral. Por isso, o convite é emblemático ao seu modo: “vamos subir pra pracinha?” é o que costuma dizer o excêntrico homem maturado quando deixa fluir a empolgação ocasional. Vive sozinho, a casa dos cinquenta. Sua última companheira o deixou há algum tempo quando percebeu que ele tinha o talento para cozinhar um pecado e servi-lo ao molho madeira.

Antes, no início excitante dos encontros vespertinos e nas jovens noites, a bebida do casal era cachaça orgânica e a cervejinha gelada, como todo bom tupiniquim. Foi numa das madrugadas de verão, aquelas que só o morador do interior do estado de São Paulo conhece, que deram para abrir uma garrafa de vinho. Escutariam a obra Tristão e Isolda de Wagner e beberiam do sagrado a comentar sobre a fina erudição de outrora. Eram daquele tipo de saudosista obcecado que diz no meu tempo que era bom. Eram cultos, os dois, e pacientes o suficiente para permanecerem sentados admirando com os ouvidos. Na sala da casa havia duas poltronas estilo Luis XV, com apoio de pernas. Eram bem antigas e o estofado tinha remendos, puído, mas um tipo de peça que nunca perde a elegância. Entre os assentos, uma mesa baixa com as taças e um balde de gelo onde se metia a garrafa. A mesa em um azul celeste lindo, mas já estava um pouco enferrujada sob a pintura metálica que descascava, muito semelhante ao espírito do dono, coitado. À frente dos dois corpos cansados, repousava a vitrola preciosa na prateleira central de uma estante de madeira, daquelas montadas em passos simples de encaixe da madeira, sem adornos ou detalhes caprichosos quaisquer. Colocou o disco e desceu a agulha. Sentou-se e alcançou a garrafa de Cabernet Sauvignon. Derramou dose generosa para a mulher e, ao servir o néctar de Baco para si, pescou três cubos de gelo e os despejou na taça.

Così, come se fossero azeitonas?

– Como assim?

No uno, ma tre cubetti!

– Mas qual é o problema?

– Pedras d’acqua em una bevanda così pura que o próprio filho do Homem usava para acalmar os ânimos na Galiléia!

– Faz muito calor…

Porco cane! Ma non è un martini, quelle non sono olive, Dio Santo!

O mundo acabou ali. Gioconda não se sentiu outra coisa além de indignada e foi embora, afinal, um nome desses dispensa comentários sobre a ascendência italiana. Água no vinho, ópera, solidão, gelo no peito. O homem que ouvia Wagner tornou-se, ele mesmo, um tristão. Inconsolável.

Desde a separação, um silêncio gutural se apossou dos aposentos bege, decorados por mobília insossa, e a cama se tornou o lugar preferido para manter o corpo. Imóvel, o homem lia poesia e literatura cômica, pois precisava rir a fim de distrair a mente daquilo que ela perseguia. Ser abandonado por causa de algo tão besta não fazia sentido para ele. Claro, ele não era italiano. Rompendo a inércia da tristeza, decidiu que era hora de voltar a subir para a praça. Frequentar o ambiente efervescente onde as crianças do bairro vão a fim de exercerem a infância em plenos pulmões, levando sua vitrola a tiracolo, parecia uma ótima ideia. Os brinquedos ficam tomados por uma infinidade de meninas e meninos que correm, saltam e gritam, enchendo os olhos e ouvidos de Astolfo. Algumas cavam o solo e outras só parecem se importar com o compromisso de sujar as roupas. O prazer de contemplar a diversão alheia é quase tão grande quanto ao de fazer o mesmo no parque para cachorros. Quase. No banco central da área recreativa ele acomoda a vitrola, que funciona também à baterias, ao seu lado. Logo começa a dança das bolachas de vinil. Álbuns da década de 60 e 70, de quando os grandes intérpretes da MPB gravavam músicas infantis, são a isca para despertar a atenção dos pimpolhos que parecem não sossegar por nada em nenhum minuto.

Tio, o que é esse negócio preto? – dizia um; essa caixa tem bluetooth? – perguntaram aos montes. Ele então tocou as canções dos Saltimbancos e levou a garotada ao delírio com os sons dos animais e suas melodias engraçadinhas. O recital corria muito bem exceto pelo comportamento de um garoto mais velho, sem nenhum par etário, que se juntava aos demais. Dada a vontade de jogar bola e a impaciência por ficar sentado prestigiando as histórias do novo amigo, que usava sapato desbotado e colete de lã, ele reclamava enquanto se mantinha em pé chutando a pelota sozinho, de um lado para o outro. Que saco, isso é muito parado! Ei galera, vamos brincar era o que se ouvia do pentelho. As outras crianças todas eram acompanhadas pelas mães que, por óbvio, adoravam a calmaria da atividade que o velho propunha. O menino inquieto não tinha adulto responsável por perto e, ansioso, perdeu a noção do limite:

– Vocês são uns velhos chatos!

– E você é um menino muito do malcriado! – replicou uma voz feminina vinda de trás do banco onde Astolfo estava sentado. Ele torceu o pescoço com muito esforço a fim de vê-la. Sua mobilidade era pouca e os olhos não alcançaram a vista da interlocutora, logo, apoiou o braço esquerdo na borda da madeira que sustentava as costas e girou o tronco. Lá estava Gioconda em pé, em um vestido azul escuro, aquele olhar faceiro que tinha, e nas mãos uma taça com líquido escuro. Ela se aproximou do homem musical, inclinou-se sobre ele fazendo com que os seios fartos chegassem antes do que suas palavras:

– Sentiu minha falta, bambino?

– Minha amada, e como! Minhas noites foram gélidas mesmo com o calor que faz. Não há mais virtude na vida sem a sua presença. – disse, atrapalhado pela pressão que os peitos faziam contra seu rosto. Aquela mulher tinha a gordura depositada toda no colo.

– Voltei para bebermos juntos. Aceita, amore mio? – disse Gioconda ao estender o braço em direção aos lábios do namorado.

À aproximação do copo, Astolfo percebeu que a cor era de vinho e que nele flutuavam alguns cubos de gelo. Teria sua Gigi se rendido ao frescor da bebida? Seria um agrado em sinal de paz? Oh Gigi musa inspiradora, que coração bom e nobre ao reatar a relação. Abriu-se para a invasão úmida que vertia sobre ele e tomou um gole largo do que se propunha.

Na velocidade que entrou, saiu. À medida que o palato reconhecia os sinais químicos da composição orgânica, o cérebro enfurecia em uma reação inconformada. Doce e, ironia à parte, aguado! Qual ofensa! Gioconda servira bebida sem álcool. Cuspiu todo o oceano roxo sobre as crianças à sua frente que gritaram em um frenesi incontido. As genitoras estupefatas taparam as bocas com a palma da mão. A gargalhada geral se misturava com os berros histéricos. A maior das gargalhadas era de Gigi, como era de se esperar. Cretina, vingativa, calabresa dura na queda. Copiando o gesto, começaram a cuspir águas e suquinhos de maracujá umas sobre as outras, a meninada toda que ali se encontrava. Astolfo tentava proteger a vitrola para que não molhasse. Até o menino mal educado, que aguardava o fim da lenga lenga, gostou da algazarra. Encheu as bochechas com água do bebedouro e saiu borrifando contra a turma. A praça se converteu em anarquia, nem as mães foram poupadas, ficaram ensopadas.

– Isso é suco de uva, não é vinho!

Porca puttana, mas é claro! Não se coloca gelo em vino, disgraziato!

Abriu os olhos assustado. Uma longa baba escorria do canto da boca e manchava o colete de lã. O disco já tinha parado de tocar e, sentada com as pernas cruzadas à sua frente, só havia uma menina sorridente. Olhava para ele fixamente, com uma mão apoiando o queixo e a outra na cintura. Um pouco sem jeito, aprumou-se e tentou disfarçar o deslize. Ao tomar fôlego para iniciar o diálogo com a bela e simpática menininha, foi antecipado:

– Tio, você até roncou. Acho melhor ir para casa descansar.