Polegadas

Maria foi uma boa esposa durante uma das quatro estações do ano. Casou-se com Alfredo apesar do nome em desuso. Ela imaginava como foi a adolescência de um garoto chamado Alfredo e ele elucubrava como teria sido a infância dela sem pai. Cada um nos seus pensamentos particulares, porque eram ofensivos demais para servir à mesa. Maria não andava bem e esquecia a tampa do vaso levantada. Maria dormia com a boca aberta e roncava, mas Alfredo achava aquilo fofo. Fofo, mas insuportável, por isso ele a cutucava com o cotovelo. Casaram-se no outono, quando as folhas caíam. O caminho era poético, na antessala do renascer florido. No inverno, Maria não aguentava. Suspeitava do marido e roía as unhas que já eram curtas. Feria as cutículas e então tomava vinho. Alfredo a encontrava bêbada, desacordada, reclamando do vizinho. Ela sequer conhecia o vizinho. Moravam distante da família e não havia corrida para colo nenhum que resolvesse. Eram os dois, um para o outro, não importa o que acontecesse. Alfredo a amava e o amor é aquilo que o aquecedor faz nas noites mais frias, mesmo que o motor, toda a engenhoca que faz a coisa ficar quente, permaneça no lado de fora da casa sob um rigoroso frio. Maria era doce, uma menina, tinha os pezinhos tortos e os dedos compridos. Nasceu para ser menino, mas Deus quis diferente. Ainda bem, porque Maria era linda com cabelos que pareciam fios de linho. Alfredo se sentia completo, mesmo com as neuroses de Maria. Neuroses são essenciais ao negócio humano, dizem os psicanalistas. Opiniões, como cachos de banana, crescendo a torto e a direito como se o mundo fosse adubado por inteiro. Maria passou a suspeitar que Alfredo estava tendo um caso com alguém do escritório. Ele era funcionário público, batedor de carimbo, um daqueles de futuro, mas com todo o tédio do mundo. Saía cedo e levava a comidinha que seu amor preparava, mas então, com o diabo a lhe sussurrar diabruras, Maria parou. Simplesmente parou e escolheu a TV. O marido notou e reclamou, mas Maria alegou tontura. Disse que o alho queimava as mãos, que não suportava mais o cheiro de fritura. Alfredo, resignado, saía de mãos vazias. Trabalhava feito um condenado para que o dinheiro rendesse uma casa própria. Maria assistia ao televisor com a mente suspensa. A televisão não exige pré-requisitos, não exige sequer inteligência, a televisão só necessita ser ligada e Maria sabia bem apertar o botão vermelho. Maria poderia trabalhar em uma usina nuclear para deflagrar o alarme de desastre. Oh, Maria. Em uma manhã, ela acordou e se sentou em frente ao aparelho. Desligado, era como um negro espelho. Assistia a uma programação idiota, típica de geração vazia. Assustou-se com o estampido de uma música trágica que comunicava o impossível. “Interrompemos a programação para um anúncio especial” disse o âncora. “Devido a forte nevasca, os bombeiros têm dificuldade em acessar o prédio central da administração pública onde um incêndio sem precedentes derrete as colunas seculares”. O mundo de Maria naufragava, mas havia um âncora. Ela levantou e, nervosa, só pensava em fogo, no Alfredo, nos cigarros que ela tanto gostava. Maria subiu as escadas e bateu na porta do quarto onde o marido dormia. Ele caíra doente e dormia em um quarto separado para poupar a esposa da tosse renitente. Bateu com o polegar, como se surrasse um pandeiro. Maria não batia bem. Não houve resposta. Desceu as escadas e grudou no telefone. Ligava insistentemente para o escritório onde o marido trabalhava. Ninguém atendia, deviam estar todos mortos com a fumaça, ou pior, queimados. Maria enfiava os dedos nos cabelos e não sabia o que fazer. Conferiu a garagem e se espantou, pois o carro dele continuava lá. Tornou a subir as escadas, a bater com o polegar direito na porta branca e a chamar por Alfredo, Alfredo. Oh, a constatação! Se Alfredo não estava ali nem no serviço, só poderia estar com a amante. Nem a

neve poderia esfriar sua espinha mais que aquele pensamento. Maria entreteve a ideia e não viu saída. Fugiu de casa, usando o carro do marido. Maria aprendera a dirigir recentemente, mas a ira a guiava. Foi a um bar e pediu bebida. Serviram. Bufava e tremia. Não demorou até que um sujeito se aproximasse e procurasse ouvi-la. Existem mais homens bondosos, nessas horas, do que há certezas nesta vida. Maria vomitava o carrossel de mágoas e o cara, com a cabeça, assentia. Maria não parava, falava mais do que devia. Aos poucos, mesmo o sujeito da malícia, o garçom e os outros homens que ali bebiam se afastaram. Mas era um bar velho, sujo, daqueles que têm buracos na parede. E em um desses buracos tinha quem a ouvia. Uma barata e um rato, imóveis como se paralisados pela estricnina. Maria notou e não se intimidou, discursou para a baixa prole dos seus desejos de patifaria. Bebeu e praguejou e se levantou bastante zonza. Ninguém ajudou, eles queriam que ela se fosse. Maria entrou no carro e deu a partida, mas não conseguia ver. Havia neve sobre o pára-brisa e ela então ativou o limpador. Aguardou que a brancura se dissipasse e julgou, a inocente, que via plenamente com capacidade de uma águia careca. O carro patinou no gelo liso mas Maria, embriagada, julgou que tudo ocorria bem, da mesma forma que saiu de casa. O automóvel replicava as pernas da esposa desastrada. Na casa, enquanto isso, Alfredo destrancou a porta e pisou na sala. Não havia barulho, não havia nada. Apenas a TV ligada e um noticiário mudo. Ele mirou o quintal branco e a beleza da invernada. Torceu para ver uma raposa, um veado, um feixe de Sol naquela manhã castigada. Fez café e deu falta de Maria, mas pensou que a amada estivesse no quarto lendo ou coisa que o valha. Alfredo, segurando uma caneca azul, sentou-se no sofá e aumentou o volume do televisor que mostrava imagens de um fogo imenso, mas que não conseguia distinguir onde se passava. Foi interrompido por um anúncio urgente dentro da programação urgente que retratava uma outra emergência. “Interrompemos a programação especial para outro anúncio especial”. Alfredo recostou-se para acompanhar. “Uma caminhonete, placa RDC-8240, chocou-se contra o prédio em chamas da administração pública. Os bombeiros informam que não há sobreviventes, embora não tenham certeza de quantas pessoas estavam no automóvel”. O prédio era onde ele trabalhava. A placa era a do carro dele. Aflito, Alfredo levantou-se num salto e derramou café quente. Ele pensava sobre aquilo e não sabia o que fazer. Ele queria saber se alguém estava no carro com Maria. Alfredo estremeceu. Polegadas de neve impediam a saída e ele arrefeceu. Aquele era um sábado, ele não entendia como o incêndio começou, por que tudo acabou em fogo e por que ela o trairia.

Piedade de nós, desatados

O leite materno é uma das maravilhas da existência terrena e existe íntima relação entre o bom andamento da vida de uma pessoa e seu tempo de amamentação na primeira infância. Somos mamíferos por definição e, como tais, dominamos o planeta. Sugar da fonte de nutrição que nos é ofertada cria raízes imunológicas inabaláveis. Mamar nos liga ao ser que gerou e nos trouxe à luz da realidade. Mamei até os dois anos e dois meses, exatidão atestada por uma mãe orgulhosa - e cansada. Tentou de tudo, a coitada, para me fazer desapegar do peito. Babosa, adesivos de silicone, viagens sem despedida. Ao regressar de uma quinzena de dias, na distância dos confins da esquina leste do país, ouviu a demanda do pequeno rebento tão logo a porta se abriu: "quero mamar!". Mamar fortalece os ossos.
Escrevo com dificuldade, colidindo os dedos repetidamente contra o teclado. Não há o glamour de dizer que sento em frente à máquina de escrever como os escritores de antigamente mas, por outro lado, há a conveniência de poder registrar pensamentos em qualquer lugar e a qualquer momento. Meu bloco de notas cabe no bolso e não precisa de caneta, porém a duração da bateria é sempre um empecilho. Faz frio na manhã de hoje, tais quais em todas desde que cheguei a esta casa. O ar gelado é o mesmo da fatídica noite quando sofri o acidente, mas a companhia já não é a mesma. Naquela noite eu pensava ter alguém e hoje, sentado em um sofá de veludo, tenho a certeza da solidão. Escutei coiotes na noite de ontem e também uma coruja. A sinfonia da noite escura com seus animais sagazes lembra o comportamento das pessoas que agem na surdina. Continuo com a geladeira cheia, com as cervejas sobrando e o vinho, solícito, aguardando a vez de ser tomado. Santo remédio, o suco fermentado das uvas.
Eu fazia bico de segurança em um bar e as coisas eram para ser como sempre eram, artificiais e simples e tranquilas e nojentas, sim, porque limpar banheiro de festa após 200 jovens mijarem até no teto é aborrecedor. Eles e elas vomitam, cagam na borda do vaso, cheiram pó, levam garrafas clandestinas de bebida e as deixam vazias por todos os lados. As mais assanhadas apertavam minha bunda e eu olhava para trás para encontrar um mar de mocinhas loiras, esbeltas, com olhos azuis e sorrisos de simpatia. Elas queriam fazer amizade e davam o primeiro passo tocando os meus glúteos. Eu queria que elas fossem embora o quanto antes, eu pudesse pegar o meu cheque e voltar para o universo pragmático de trabalhar, comer, dormir e repetir o mesmo dia uma centena de vezes. Fazia cara de mal para que me respeitassem e isso sempre funcionou. Além do que, solteiro eu não era. Ponto para os registros biográficos do bom cidadão. Até que surgiu um tal filho pródigo de um pai rico, branco como deve ser todo rebelde sem causa. Bigode de motoqueiro enrustido e atitude de quem cresceu com o sucrilhos sempre à mesa. Alcoolizado, o rapaz foi escoltado por mim para fora do bar mas, durante o trajeto, agitando os braços de atleta amador, golpeou-me e, assim, perdi a consciência. Uma tragédia, se não de fato, mas pessoal. Fui alvejado e caíram sobre mim as desgraças. Dali direto para o hospital.
Aguardava a minha vez, a vez da entrevista de acolhimento. Da recepção para a triagem. No salão imperava a quietude mórbida do ambiente gélido onde a morte ronda arrastando seus grilhões. Falávamos inglês, mas um pequeno folheto garantia o direito de solicitar um intérprete para qualquer língua. Eu só falava merda naquela noite e duvido que alguém fosse fluente por ali.
- Nome completo?
- Aquiles Guedes Rapassi.

Ela era simpática, magra como a Olivia Palito do Popeye.

- Data de nascimento?
- 05/08/1986.
- Oito de maio de 86?
- Oh, não, me desculpe, Angélica. Esqueci que estou nos Estados Unidos. 08/05/1986. Sou de agosto, mês do cachorro louco.
- Cachorro louco? O senhor está bem?
- Deixa pra lá, acho que vocês não tem esse ditado por aqui.

Muita coisa ela não entenderia, mas o que é que me restava? Fazer cara de coitado para alguém que lida com coitados durante turnos de 24 horas?

- Fumante?
- Não. Digo, fumante do quê?
- O senhor fuma cigarro?
- Oh, não, Deus me livre.
- Álcool?
- Sim, por favor.

Ela riu. Ela aceitou minhas gracinhas. Em situação de miséria, o que se quer além de misericórdia?

- Sim, senhora. Bebo às vezes - eu disse.
- Peso e altura?
- 89 quilos, 1,90m de dia, 1,88m à noite exceto na balada. Nas festas eu tenho 2 metros de altura. Você sabe, a gente diminui durante o dia, mas cresce quando é preciso.
- Certo. Sofre algum tipo de violência em casa?
- Minha esposa às vezes não me espera com o jantar pronto.

Ela riu de novo. Eu estava desesperado. Mal sabia eu que era sequer a primeira onda que me atingiria. Aquilo era uma simples marola. Sentia que descontrair com a enfermeira era a melhor saída. O cérebro humano se apega à chance de distração em face do sofrimento. Eu faço parte da regra. As enfermeiras, tais quais as aeromoças e strippers, compõem o grupo de profissões que todo homem julga ter chance de conseguir uma tal conquista relâmpago. Acontece mais frequentemente com as dançarinas. Poucos homens têm sucesso na empreitada.
Tomou a temperatura, a pressão arterial, anotou a frequência cardíaca e me mandou de volta à sala de espera. Apesar do galo enorme que surgiu no topo do crânio, a cabeça não doía. A nuca não doía. Nada doía, exceto as mãos. Meu instinto sabia o diagnóstico, mas a visita ao médico era obrigatória. Estava ali pelo respeito aos protocolos. Bem, não é assim tão simples. Quando a água bate na bunda, você pensa na família, nos parentes, naqueles que podem vir a sofrer com seus problemas. Você toma decisões baseadas em terceiros, tipo quando, mesmo a donzela dizendo que não está com fome, você compra mais comida porque sabe que ela vai sim querer.
Os sinais aferentes viajavam de neurônio em neurônio, via sinapses, e informavam meu cérebro que algo mais grave tinha ocorrido. Um formigamento interminável castigava os dedos e a pele passara a um estado hiper sensível. Tentei lavar a mão antes de vir ao hospital. A água fria da torneira queimava como ácido. Oh, céus, incendiava. Doía como dói a noção de que aqueles que amamos tramam contra a gente em plena madrugada. Enquanto o médico não me chamava, fiquei à deriva no salão oval, com pessoas que tossem, pessoas que gemem e pessoas que dormem. Um casal chegou e comunicou que fala apenas a língua espanhola. Ela está grávida e a barriga pende quase tocando o chão. O marido carrega a bolsa da maternidade preparada para o grande momento. Ambos não sorriem. Presságio?
Refaço as cenas que estão na memória. O instante em que senti o choque elétrico e a queda no solo. As pernas bambas, a incapacidade de me levantar. Nocauteado pelas costas, deficiente temporário. A humilhação de não conseguir me pôr em pé incomoda-me para sempre. Pobre desgraçado. A vista embaralhada. Enfim, consegui. Seguraram o agressor e a polícia veio. O filhinho quis colocar a polícia em contato com o papai. Eu assistia toda aquela cena desprezível com uma certa confusão mental. A pancada reiniciou meu cérebro e eu pude sentir isso. Ali estavam dois policiais a cercar o agressor, um moleque grande com queixo de três pessoas adultas somadas. Bêbado como elefantes da África, tentava se levantar e era posto sentado à força pelos homens da lei. Era apenas outro sujeito mimado, com bigode ilusório de uma maturidade inexistente. Ordinário, um bezerro que clamava pelo rebanho. Se ele merecia um corretivo, seria da parte do destino, porque algo de incomum tomava-me a consciência. A paz, a paz incomum que despontou no peito. Não me irritei, não senti o sangue ferver. Eu pensava em quebrar seu joelho direito com um pisão frontal, mas por defesa própria. Na verdade, só queria voltar para casa, deitar no sofá reclinável com um balde de frango frito e um refrigerante à mão. Eu queria ver filmes e tergiversar sobre a vida e os planos futuros, queria uma companhia leal naquele e em todos momentos. O que eu tinha eram tremores e desconfiança.

O médico chamou, mas a enfermeira não me deixou andar. Empurrou a minha carcaça em uma confortável cadeira de rodas. Oficialmente um inválido, ainda que momentaneamente, mas vergonhosamente subjugado. Doutor Cooper, nome de médico de seriado. Plantão médico. Gostei, me inspirou a contar a história. Dá charme ao texto. Doc Cooper, gente fina, andava com seu jaleco branco e um estetoscópio pendurado no pescoço. Gravata listrada, azul e vermelha. Um patriota, herói, com certeza tinha história para contar, algo do tipo ele ter salvado um batalhão inteiro na guerra com simples infusões de soro caseiro usando um canudo e bexigas de festa. Doc Cooper, cabelo alinhado com pomada de efeito matte e bebedor de chá ao invés de café. Eu conseguia sentir, era um homem de classe. Eu queria ser seu amigo porque, é claro, eu seria a maçã podre para desvirtuar. Se fôssemos camaradas ele deixaria de visitar a igreja batista nos domingos pela manhã.

Pediu exames, lamentou a situação e comunicou sua solidariedade. Ouviu meus palpites e achou plausível. Os resultados vieram e eu estava certo. Impacto no topo da cabeça, efeito chicote da musculatura que protege as vértebras cervicais e uma compressão anormal que leva ao pinçamento das raízes nervosas que irrigam os membros superiores. Por isso as dores, por isso a sensibilidade. Diagnóstico tranquilo. Edema esperado. Sem fraturas, nada de grave. Mas, com toda sua habilidade e sapiência, o Doc Cooper não poderia explicar minha calma. Aliás, desde o primeiro momento, todos os envolvidos elogiavam exaustivamente minha tranquilidade, como conduzi a situação. Tocavam a cabeça do leão e diziam "bom menino, bom menino". Insólito pássaro de asas cortadas.
O diabo em meu ombro direito assopra ideias de vingança, de ódio, de forma que eu possa encontrar fomentar a ira. O diabo do outro ombro enaltece o respeito à lei por não me rebaixar ao nível do agressor. São dois diabos, afinal. O que é que eu quero com isso? Já me basto a mim mesmo.

Agora tenho uma lista extensa de remédios para tomar, inclusive opióides. Continuo dócil e devo intensificar a doçura com as drogas prescritas. Concussão não é motivo para ficar em casa e o doutor Cooper me deu apenas um dia de licença médica, que piada. Não me vem nenhum lampejo negativo. O que é que há? Perdi o jeito?
Só me resta não deixar a mente vazia. A sensação de impotência bate à porta do raciocínio. Mais violência? Mais? Um ciclo infinito de guerra? E continuo sem vontade de me alterar. A porção anticristã que habita meu ser provoca com acidez:
- Levou porrada e ainda deu a outra face? Quer ser canonizado?
Um processo interno de julgamento e contestação quer se prolongar dentro da psique. Mas essa cabeça não é a oficina de nenhum capeta. Engulo as hidrocodonas e o remédio bate rápido. Que coisa maravilhosa, que leveza, que alívio. Em relação à dor que sinto nas mãos a droga tem pouco efeito, mas a chapação que causa é de se considerar. Já não me importa que perderei dias de trabalho, que mal consigo tomar banho ou limpar a própria bunda. Tenho ópio para compensar a falta de ódio. É isso aí. Leva oito horas pro efeito chegar ao fim. O corpo acostuma fácil. Que decepção. Fazia 13 graus naquele 13 de novembro. Não recebi cuidados, ninguém cozinhou uma canja e desejou melhoras. Eu me tornara, oficialmente, um ser abandonado. Os dedos continuavam a arder e me faziam ver estrelas.
Dois meses depois, tudo está de volta. As dores, o desânimo mas, acima de tudo, a indiferença alheia. Foi tudo em vão. Gostaria de ir ao hospital só para brincar com a enfermeira e fazê-la rir. Nenhuma indenização foi paga, ninguém se importou. Ainda bem que eu mamei muito e os ossos cresceram sadios, duros, grossos, a ponto de resistir às agressões. Quem dera o coração fosse nutrido pelo leite materno!

Bula

Ao homem nascente, em meu nome, que lhe seja recomendado

Antes de tudo que a vida trama
Mas que não há o certo, tampouco o errado.

A família, a tenha por princípio
e a escola para o aprendizado
porém aos amores cuidado, são um perigo!
Haverá quem o ame por seus adjetivos
e quem o faça somente pelos seus predicados.
Que valorize, em tempo, os dias santos entre os de trabalho pois graças a igreja gozará
o seu descanso sempre aos feriados.
Mas se lhe falte a família
ou a escola não o deixe encantado
e se as mulheres não o quiserem por marido
ou para Deus você não reserve o sábado
não esqueça do começo
pois tentarão provar o contrário
e será sua meta ante o destino
provar que não reina a escuridão, tampouco tudo é claro.

Haverá só você, no fim de tudo

tão tranqüilo, mas desesperado.

Convicto que viveu certo, na dúvida se fez errado.

Spray, Sparta, Spyro Gyro

De dentro da cozinha vinha o grito:

⁃ MERDA!

Seguia-se um tapa na bancada. Isso significava que mais um pedido tinha saído errado. O cozinheiro ia à loucura. Tudo tem limite, ou deveria.

Ouvi um cara dizer que era iraniano, simpático às tampas. Cheguei mais perto, falei:

⁃ حال شما چطور است؟

Ele não entendeu. Fui mais perto da sua orelha e repeti:

⁃ حال شما چطور است؟

Ele estalou os olhos. Estendeu o braço e apertamos as mãos.

⁃ Você falou Farsi perfeitamente, sem sotaque. Como sabe a minha língua?

⁃ Ah, cara, eu já fui um negociador de tâmaras por aquelas bandas.

Entusiasmado, passou seu telefone e disse que em duas semanas estaria em Teerã e queria que eu me hospedasse na casa de sua família. Em duas semanas eu completo 35 voltas em torno do sol. A data tão temida. Eu poderia ter explicado que aprendi três frases em Farsi com aquele simpático grupo de iranianos que buscou um avião na TAM em São Carlos, no longínquo ano de 2007. Acontece que eu sempre quis negociar tâmaras. Sucesso garantido.

Duas mesas para a direita e uma moça parecia deslocada. Quando tomei conhecimento da sua história, senti uma pontada no baixo ventre. Exatamente um ano atrás, seu marido a aguardava na sala de estar para que fossem às ruas para uma noite de lazer. Enquanto esperava, decidiu limpar sua arma. Por acidente, ela disparou e ele se foi. Exatos 365 dias atrás. Eles iriam para o mesmo bar. Isso não é triste, meu chapa, é entristecedor. E há grande diferença entre as coisas. É necessário dominar a língua para traduzir a melancolia.

Procurei meu celular e enviei algumas mensagens de amor aos entes queridos. A gente nunca sabe.

Na América o verão é desejado, mas se mantém desdenhoso. Ele sempre passa. Por isso há tanta vida nas calçadas, nos pátios, nos parques. As pessoas aproveitam porque sabem que acaba. O oposto do que costumam fazer nos relacionamentos. Pensam que é para sempre. E já dizia a Cássia Eller…

Carrego uma lista de expressões para brindar em diferentes línguas.

Nazdrave, em búlgaro. Nazdarovia, em russo. Parecido, mas não vá cometer e lambança de dizer que é tudo igual. Ofensa na hora de encher a cara pode resultar em um dente quebrado. Ou abandono. Zivelji em croata. Aí você deve estar se perguntando porque tantas expressões vindas do leste europeu. Deixa isso pra lá, come on!

Bebendo rum puro com a Larissa na Tailândia em uma sarjeta de Bangkok, fomos abordados por duas garotas.

⁃ Oh, vocês bebem muito!

⁃ Err, obrigado?

⁃ Não estamos acostumadas a ver uma garota beber assim com tanta liberdade. Temos até uma expressão para isso. Lumyong, significa moça bonita que bebe whisky.

Hoje é sábado, amanhã é domingo, nada como o dia para passar. Saravá, Vinicius. Como não sou uma árvore e não crio raizes – só razões – posso sempre me levantar e caminhar. E mudar, de cor, de opinião, de amigos e de motivos. Cobra que não muda de pele morre.

Constância

Iogurte fresco da fazenda, banho de água fria, 50 abdominais e 50 flexões de braço. Mamãozinho picado para abrir os trabalhos. Chorinho no rádio, chororô no corredores do prédio. As cigarras estridulam e os cigarros jazem à meia-vida no cinzeiro mal higienizado. Não confundir o substantivo feminino com o masculino, um vem da terra e o outro te manda para baixo dela. Meu nome é Astolfo das Cruzes, sou o maior vendedor de ilusões da paróquia. Meu vizinho, o Asdrúbal, é quem pesca. Bom, era. Seus joelhos começaram a doer e ele resolveu dar um tempo.

Eu, não. Não paro, não dou um tempo, não alivio. Um chopinho, bora marcar. As coisas vão melhorar, o dólar vai sim baixar. É só tirar quem está lá. E quem é que está lá? Tanto faz, é só a gente tirar. Daí, tudo muda. Ou não. Mas temos que continuar tirando. Pedrada no ônibus, protesto na avenida Brasil. Palavras de ordem. Pátria, progresso, cachaça pura e o bicho de pé. Meu nome é Astolfo das Cruzes, o maior vendedor de ilusões destes rincões. Tenho um nome – e sobrenome – a zelar. O segredo é a paixão. Sou vidrado no lucro e olha que não estou falando de dinheiro. Posso vender peças usadas para o dono da loja de roupas. Eu só não consigo vender consciência de classe, mas posso vender até a ideia de que eu presto. Ser da família das Cruzes ajuda. Background religioso, você sabe, dá um certo apelo de confiabilidade.

Não preciso fazer terapia, caramba, eu sou Astor para os mais chegados. O segredo é conversar com quem faz, daí fica uma baba: eles chamam a minha atenção com pitacos que ouvem de seus terapeutas e, magistralmente, transferem para o próximo indivíduo com quem interagem. Se me chamam prolixo, é porque ontem foram acusados de loquacidade. Ai ai, chega a dar um comichão, tamanha a ansiedade em ouvir suas análises projecionais. Sendo atacado eu conheço mais sobre eles. Quanto a mim? Pô, eu usou Astor, o perspicaz, o maior vendedor de ilusões do mundo inferior. Astor, me lembra um cachorro que tive. Dogue alemão, pernas longas e bochechão caído com a baba escorrida se esticando quase até o chão. Eu pareço o Astor quando ficava no cio. Que baixaria. É só eu não fumar que não uso os aplicativos de relacionamento. É só eu não beber que eu não fumo. É só eu não brigar com a minha vizinha, a Cleide, que eu não bebo. É só a Cleide não tocar Wilson Simonal que eu não brigo com ela. É só não ser sexta-feira de manhã que a Cleide não toca Wilson Simonal. Puta que me pariu, lá vou eu de novo. É sexta-feira, já posso ouvir meu limão, meu limoeiro.

Só um instante! Que blá-blá-blá sem fim. Dizia que era vendedor de ilusões. Posso vender o glamour de ser fora-da-lei, sim, esse Astolfo aqui, de pele fina e bom gosto quanto às marcas de alcachofra em conserva que há no supermercado. Com a minha cara de ilustre cidadão criado à base de sustagen, posso lhe convencer que não só sou um criminoso como que, também, o crime compensa. Não compensa para todo mundo, é claro. Somos brancos, nós que nos entendamos. Tapa na mesa! Pá! Pombas, que sacada! Sou o senhor das Cruzes segundo o Fabiano, o porteiro do condomínio. Um dos porteiros, porque tem ainda o Williams, o João e o Gasparzinho. Sobre esse último, o nome é em homenagem ao seu comportamento durante a guarda noturna. O lazarento nunca está em seu posto. Paciência, afinal, eu tenho. Astolfo das Cruzes, maior vendedor de ilusões do condomínio. Todos pensam que eu sou um estranho no ninho por ali. Tratam-me como uma espécie de subcelebridade, vai entender?

O segredo é iludir. Ducha, exercícios, café gelado, vitamina D, beringela com alecrim, suco de romã, amor ao próximo, cachorro-quente com carne moída, cerveja malzbier para lactantes, entrevistas consigo mesmo no espelho, meditação reversa, chocolate meio amargo, delitos e repentinos arrependimentos, saudade e asco, contradições justificáveis, caipisaquê de lima, hipocrisia sem açúcar, banana com mel, compaixão arrependida, aventuras de shopping center, brincos novos, socos na parede, ódio ao tabaco e overdose de Lucky Strike, massagem na penumbra, banquete com os leões, porres homéricos, dobradinha com farinha e pimenta, anarquia e obediência, grupal, convencional, monótono e desequilibrado, música lenta para acordar, gemidos para dormir, dinheiro na cueca e pau no, pássaro na gaiola, carne na gôndola do mercado, kombucha para o estômago, surdez para a sanidade, cor azul na parede da sala, criado mudo para a casa grande, esgoto ao mar e flúor nas torneiras, remédio para ema e vacina para todos. Sou Astolfo das Cruzes, o maior vendedor de ilusões desta página. O segredo é a constância.

Zodículo

Saí de casa em direção à esquina. Nada de mais nem de menos, eu só queria ventilar ar puro para dentro dos pulmões. As más influências, a vizinha do primeiro andar e seus glúteos estonteantes, o barulho de furadeira do cara do segundo andar, o estado pandêmico, o cinzeiro de papel cheio de bitucas de cigarro e cinzas que se levantam com a brisa que entra pela janela da sala, a falta de álcool na geladeira, o excesso de álcool no sangue, o grito do sujeito que vende legumes na rua, as dores no corpo em virtude da ressaca impiedosa, os meus tênis com a sola furada, tudo aquilo me conduzia à estafa mental. Foda-se – pensei -, caminhar não pode piorar as coisas. Saí descalço, queria literalmente manter os pés no chão.

A massa operária mantinha as engrenagens nos trilhos e eu era apenas um homem branco comum, insatisfeito dentro da minha própria bolha reluzente com problemas de um universo privilegiado.

Meus olhos sofriam com a luz do Sol e alcei os óculos escuros. Lentes negras e máscara formam o disfarce perfeito neste início de século. São tempos de uma doença global que assusta não pela sua letalidade, mas pelos métodos de enfrentamento que desencadeou ao redor da Terra. Ao redor, ora ora, que ironia. Para ser inclusivo, incluindo estritamente os muito burros, hei de dizer que o termo correto é ao longo da Terra, pois há aqueles que acreditam ela ser plana. Tão rasa quanto suas reentrâncias encefálicas. Caminhei por um quarteirão e avistei a velha em seu lugar, como na canção. Geralmente sentada, permanece durante parte da manhã observando a rua. E ela começa cedo. Dia desses, eu saí de casa às quatro e meia e lá estava ela. Mas hoje, para a minha alegria, descobri que a velha ainda tem as pernas em operacionalidade.

Bom dia – eu disse. Tão imóvel quanto as grades do portão que a protege, a velha é quase invisível. Somente olhos demasiado humanos podem vê-la. Bom dia – ela respondeu naquela madrugada que precipitava as cores da alvorada.

Sem que a mosca lhe fizesse mal, a velha estava na calçada um pouco distante de sua casa. Estava de pé, com a sua máscara sobre o queixo e a boca ruminando algo que lhe escorria pelo canto da boca. Contraí as cordas vocais para direcionar as únicas palavras que nos cabem, aquelas de cumprimento cordial, mas ela se antecipou:

– Quer caju? – disse, empunhando uma porção de frescos cajus amarelos e vermelhos que carregava na mão esquerda.

– Muito obrigado, que a senhora tenha um bom dia – retruquei, bondoso, com um sorriso.

Ela não podia ver os meus dentes exibidos, porque a máscara sanitária os escondia. A feição carinhosa só não morreu nesta era porque, ao sorrir, contraímos inúmeros músculos da face e isso se pode perceber especialmente no canto dos olhos, ali onde se identificam os pés-de-galinha. Durante a pandemia, sorrimos com os olhos. Quando bebo e escrevo me sinto um gênio, mas não necessariamente quando bebo ou quando escrevo. Fiquei com dor na consciência por não ter aceito ao menos uma das frutas, mas fazer o quê, já não havia muitas coisas que a arcada dentária da velha suportava mastigar. Os cajus lhe fariam grande justiça nutricional. Ela os sugava e cuspia as fibras no chão.

Uma esquina a mais na minha caminhada plano-terrena e lá estavam os três amigos, mais D’Artagnan. Trata-se de três moradores de rua que, ocasionalmente, têm um convidado a mais a acompanhá-los. Grande prazer o deles, esse de ter o mundo como lar. Nós, civilizados e obedientes ao deus Capital, temos de adquirir propriedade privada para que possamos denominá-la casa. Eles não, toda calçada é sala de estar e todo o mar é banheira. Los tres amigos são idosos, bem que se diga. Nunca lhes dei bom dia, como faço com a velha. Acho que, no fundo, é inveja da minha parte. Quando vou trabalhar, pela manhã, encontro suas carcaças estiradas em posição fetal, mão sob a cabeça, sorrindo em um sono profundo. Sonham com algo que a realidade não pode cumprir, dormem profundamente em um coma induzido pelo álcool etílico, descansam enquanto os outros só fazem atingir a fadiga. Quando volto para casa ao meio-dia, eles estão de pé, dançando sem música e almoçando a cachaça pura. Dividem um carrinho de compras onde guardam seus valiosos pertences. Poderia dizer que ali está tudo o que têm, mas em verdade reflito que eles têm muito mais do que percebem. D’Artagnan eu chamo o quarto amigo que se junta a eles, um cara especial. O digníssimo hoje se superou. De alguma forma conseguiu uma caixa de som e, para a alegria de todos, o instrumento faz os homens cantarem e dançarem freneticamente. Estão todos acordados mais cedo do que o costume, talvez pelo êxtase da música. É uma festa open bar e não há seguranças para barrar a entrada de ninguém.

Não usam a máscara de proteção como todo o resto dos habitantes da terra brasilis. Não temem a morte, temem a falta da pinga. Eu os entendo, empatia que chama. Resolvi parar por um tempo para observá-los. Nomeei cada um, para o meu bel-prazer, segundo o instinto mordaz da filosofia. São, então, Platão e Sócrates e Diógenes e D’Artagnan, claro. Três mosqueteiros junto ao agregado.

Diógenes fica o tempo todo com a mão no saco, acariciando. Não o saco onde carrega as latinhas de alumínio que lhe rendem alguns trocados, mas o saco que acolhe as suas bolas. Ao se aproximar uma dama ele passa a se movimentar, as duas mãos ao vento, como em uma dança espiritual. Rodopia e sorri, absolutamente naufragado na bebida.

– Você quer dançar comigo? Procuro e não encontro alguém para dançar! – assim diz o galanteador, segurando uma dose de cachaça em uma mão e a bolsa escrotal na outra.

As mulheres desviam de Diógenes e seu perfume acre resultado da sereno ácido que o banha diariamente. Ele não desiste, parece um enorme predador, faminto por um tipo de carne que, sabe-se lá, já faz tempo que não degusta.

– Olá, que lindo dia, não? – Diógenes repete ao saltar em frente às mulheres que caminham por ali, agora com uma mão na barriga e outra no ar, ensaiando uma valsa.

Uma infância de negligência, pais que o trouxeram ao mundo e depois o abandonaram. Falta de um lar e de cuidados fizeram com que ele fosse morar nas ruas. Viveu entre sacos de lixo rasgados e cães imundos, acostumou-se a respirar fuligem e a comer migalhas. Apanhou sem motivo e sentiu as contrações da puberdade o empurrarem para o beco sem saída do desejo impossível de se consumar. Acordou de pau duro tantas vezes e nunca pôde usufruir daquela potência natural que Deus havia concedido, tão democraticamente, a todos os homens sobre a Terra, ricos ou pobres. Amargou talvez alguns abusos físicos por morar sobre os paralelepípedos. A confusão na fala sugere que também surfou sobre os paralelepípedos de crack. O dia e a noite nunca fizeram sentido, não havia um lençol para cobri-lo nem lábios para embalar o sono. O resultado é mais um miserável sem teto, produto do sistema atravessado que dá de ombros para os menos favorecidos. Essa teoria seria, geralmente, apresentada por um genérico analista social. Eu discordo.

Diógenes só pode ser de gêmeos. Porra, mas é claro. Os geminianos sofrem da tal síndrome do donjuanismo, uma necessidade compulsiva de seduzir o tempo todo. Amam o envolvimento sexual, mas dificilmente as emoções caminham junto com o sexo. Preferível é aquela sedução difícil, que envolve pessoas inacessíveis, comprometidas, casadas. Por um instante chego a imaginar que eu sou de gêmeos também. Não sou. Mas que caralho? O Diógenes contemporâneo vive na rua, não tem vergonha dos instintos selvagens que lhe batem à porta e vive buscando uma mulher honesta, esse crápula. Fosse ele de sagitário, aposto que não estaria em situação tão lamentável. Tarado, sem escrúpulos. De repente, sai de cena e se cobre com papelão em um canto. Eu sei o que ele está fazendo, todo mundo sabe o que ele está fazendo. O papel marrom sobe e desce constantemente. Como poderia seu apelido não ser Diógenes, o cínico? Como geminiano, ele teria grande futuro na cafetinagem.

Platão continua sentado na sarjeta, uma mão no queixo e a outra na cintura. Balança a cabeça, fala com o vento. Acaricia a barba e a brisa bagunça os cabelos encaracolados. Parece inconformado, sua testa franzida revela o desmantelo que se expande no coração. Ora se levanta, ora senta com as mão esticadas para trás. O sapato esquerdo não é do seu tamanho, os dedos ficam para fora por um furo na dianteira. Gesticula com um poste de luz, parecendo dar uma lição aos espíritos que deve enxergar. Tudo o que sai de sua boca é em volume baixo, inaudível para mim que estou à distância. Então, subitamente, ele exclama em alto e bom som:

– OUÇAM! EU TRAGO A VERDADE E COM ELA PODEMOS ALCANÇAR A LIBERDADE!

Deve tragar outra coisa, o safado – pensei. Parece ter fugido de um hospital psiquiátrico, em plena madrugada pulando o muro. Não lhe interessa os carros que raspam o asfalto, não lhe interessa os pássaros sobre os fios de alta tensão, não lhe interessa o vírus tampouco suas variantes, não lhe interessa se há abrigo contra a chuva, não lhe interessa o preço da cesta básica. A ele interessa a salvação. Platão murmura e eu me achego. Estou curioso sobre as filosofias que o homem de feição ancestral tem a compartilhar.

– Ei, chegado, isso tudo aqui, a existência terrena como conhecemos, é passageira. Semeamos aqui, podemos até acabar colhendo uma ilusão ou outra, mas importante é a safra no outro plano. Bendito o mundo da paz e bonança que nos espera, os homens conscientes. Alguém realmente se importa com essa vida mundana? Ai de mim se não alimentar a boa fé. Devemos nos apegar a tudo o que ainda está por vir. Ei, chegado, sirva mais um pouco de bebida para mim? – assim filosofou o moralista.

Platão repetia à torto e à direito o que bem entendia e se dirigia ao tal “chegado” e pedia mais álcool. Fazia tudo isso olhando para o lado oposto de onde eu estava, ou seja, havia mais alguma alma por ali, uma alma hipotética para mim, mas romântica para o idealista. 

– Justiça, oh Senhor! – elevou as mãos aos céus, uma delas segurando o copo meio vazio, em clamor comovente – Não sou digno de ti!

Peça de museu aquele tipo. Se eu fosse ao manicômio municipal haveria de encontrar seu nome na lista de desertores. Ser maluco é uma vocação, alguns a alimentam com drogas ilícitas ou não, outros com a neurose abundante que parece permear insistentemente a sanidade. Será ele um desiludido que sofreu um mal súbito e disse adeus ao bom senso? Alguém o abandonou no altar? Alguém o chifrou? Sofreria ele de problemas de ereção? Qual é o grande porquê por trás daqueles fios de cabelo faciais? Um típico libriano, eis o quê. Ares de inocência ladeiam aquela cabeça confusa, eu sei. Equilibrado e idealista e justo, inverossímil. Romântico, dá a entender que seus ideais são os de que todos deveriam viver na rua e não o contrário. Está a um passo de se tornar pastor, porque em línguas ele já fala. Eu não sei se ele é de libra mesmo ou se é só teimoso. Desaguou na embriaguez da vida. Lógico, deram a opção dele ou estudar ou beber. Ficou em dúvida (coisa de libriano) e o trem passou. Restou os litrões. Refleti que os signos, essa beirada do senso comum, podem ser úteis para explicar a vida dos fracassados. É muito conveniente explicar o sucesso de um CEO porque ele é de áries. Quer poder, impõe autoridade e etc. Ousado é analisar, sob a ótica do zodíaco, o grande sofrimento do mundo. Danem-se os bem sucedidos, o que fascina é a tragédia!

Vejam Sócrates, por exemplo. O rosto inchado, vermelho, coalhado na manguaça. Dos olhos correm lágrimas e do canto da boca a baba escorrega solta.

– Ela me deixou, mas eu só tinha amor por ela! Todos me abandonaram! Minha família não me quis mais! – soluçava e repetia esse mantra abraçado a uma garrafa de aguardente 51. – Eu tinha um filho, dois filhos!

– O que houve, camarada? Morreram? – não me aguentei e dirigi a pergunta ao grande lamentador.

– Não materialmente. Afastaram os dois de mim, acusaram-me de corrompê-los. De corrompê-los! Logo eu, um pai amoroso que só queria lhes ensinar o valor do que é belo. Queria que conhecessem a si mesmos, queria que acreditassem.

– No quê, homem? – interessei-me pelo discurso.

– Nas virtudes! Na prática – ic! – das virtudes. Ações e não palavras. Agir! Porra, eu os levei para a zona… queria que experimentassem algumas coisinhas…

Que figura! Estava quase acreditando que deveria ser canonizado quando, entre um soluço e outro, ele soltou aquela pérola. O tom de sua voz era tão triste que comovia. Qual seria a grande virtude? Deve ter frequentado a escola, ter sido o primeiro da classe. Acho que acabou na rua por desgosto. Sabe usar as palavras, mas não duvidem: a verdade é uma só. Ai de confundirem-no com os sofistas, aqueles crápulas prolixos.

Sócrates, meu amigo, por que será que todos o deixaram? Terá sido a bebida o grande problema? Os maus hábitos de um adicto ou a flagrante falta de limites em ser um chorão desgraçado? Puteiro e canja de galinha, com parcimônia, nunca fez mal a ninguém. Acabei de inventar isso, mas quem se importa? Ninguém te aguenta, canceriano de uma figa! Reclamar é a sua segunda profissão, a primeira é galgar o grande trono de rei do drama. Acho que é por isso que o dono da venda dá garrafas de graça para ele, para simplesmente evitar o chororô. Enquanto conversávamos, o sr. Jair veio e entregou uma garrafa novinha em folha de conhaque de alcatrão.

– Esse daí tem história, viu? Parece que ele já esteve até na faculdade – disse o botequeiro.

Faculdade da vida, meu caro. Fácil de entrar e difícil de sair.

D’Artagnan não deve viver em tempo integral na rua. Está um pouco mais bem vestido que os demais e tem a barba feita. Serve uma dose de cachaça junto aos amigos em seu copo descartável e a bebe olhando para um pequeno espelho afixado na traseira do carrinho de compras que transporta os bens pessoais da trupe. Vaidoso, megalomaníaco com sua caixa de som colorida. Ele se acha o máximo, um líder natural. Os outros o acham um perfeito idiota. Leonino, é óbvio! Fala pouco, mas fica sorrindo. Sente que faz parte da bagunça só durante a farra, nunca se mantém sob o luar como os demais. Seu lugar é algum cômodo protegido dos temores trevosos das esquinas mal frequentadas. A prepotência é tão grande que se pode cogitar, sem medo de errar, que ele precisará de dois caixões quando morrer. Um para ele, outro para o ego. Seria um bom ditador, capaz de dar ordens as quais, claramente, não tem competência nenhuma para executar por si só. Pensando nisso lembrei: qual será o signo do presidente da república?

Platão, Sócrates, Diógenes e D’Artagnan, quatro exemplares da justiça astrológica. Sofrem com a impiedosa dança dos astros. Pergunto aos céus: esses filósofos do asfalto assumiram em algum momento as consequências dos caminhos escolhidos ou se vitimizaram e apontaram diferentes culpados? Ignoraram a revisão e reflexão que era necessária. Entraram em rota de colisão com Saturno retrógrado e são a prova cabal de como os astros não destilam misericórdia. Devem continuar a catar latinhas, os três ou quatro, enquanto não analisarem seus quadrantes astrais. Horóscopo até que faz sentido agora. Pensei na velha e cheguei a conclusão de que ela deve ter feito seu mapa astral em algum momento da vida. Por isso tem casa, uma cadeira e cajus.

Um conto de Boston – parte 3

Penso que deve haver algo de grandioso neste salutar exercício de dar seguimento aos registros apócrifos que encontro, há três semanas, no mesmo lugar e por volta do mesmo horário, na estação norte de trens de Boston. Estava distraído me despedindo de Margareth e quase passei do ponto. Recomendava que ela usasse arnica em seu joelho em alternativa aos fármacos convencionais quando me dei conta que já tinha dado uns dez passos além do cantinho onde costuma estar a carta dobrada, com as margens puídas e letra garranchosa, um baú de intimidades recalcitrantes e confidenciadas sem pudor ou padrão ético. Despedi-me bruscamente de Marge e enviei minhas saudações a Donald. Virei-me e driblei a tropa de cidadãos que marchava impiedosa. Lá estava o pergaminho.

As semanas têm passado mais rápido ou é impressão minha? – existe papo de elevador mais enfadonho que esse? Eu sorri quando a moça exibiu toda a sua genialidade atemporal na tentativa de interagir comigo. Não podia perder a oportunidade. Respirei fundo e falei “sim, tem razão. É um fenômeno observado primariamente na Suiça, por uma junta internacional de cientistas dedicados ao tempo e suas ranhuras. Chama-se inter-relatividade de camadas bósicas não discriminada em funções derivadas, vulgarmente conhecido por subjetividade quântico-temporal.” Silêncio. O elevador apitou – plim! – e eu cheguei ao andar do laboratório de análises clínicas. A cara da garota era impagável. Se fosse uma pizza, seria meia indignação, meia dúvida. Será que eu falava sério? Os outros ocupantes da máquina ascensora estavam todos, ao exemplo da minha interlocutora, com os lábios entreabertos em espanto. Um senhor olhava repetidamente seu relógio de pulso e dava umas pancadas. Continuei sorrindo e saí daquele microcosmos de frivolidade. Estava livre do papo morto, mas ainda tinha o exame para fazer. A lei de compensação divina poderia muito bem equilibrar aquela cretinice com um diagnóstico positivo. Tem coisa pior que aguardar para abrir o envelope com resultado de exames de sangue? Tem, ah se tem. Presunção de conteúdo por livre exercício do pensamento. Gente que fala sem saber, na linguagem popular.

Tenho um vizinho que é muito divertido. Gosta de beber bebidas baratas e ficar embriagado. Quando compro alguma bebida mais cara e abro para nós bebermos, ele não se impressiona. Sujeitinho engraçado. Gosta de tecer suas opiniões e eu sou o melhor dos ouvintes. Absolutamente tudo o que ele reporta como suas ideologias é o oposto de sua conduta. Se ele fala que não gosta de futebol, eu rio. Domingo à tarde, posso ouvir seus gritos apaixonados enquanto assiste a uma partida qualquer. A contradição me encanta. Ele se diz anti-capitalista, no entanto… recebe um salário mínimo. Acho que os paradoxos, esses caprichos de arquétipos não previsíveis, inconstantes e fronteiriços, nos unem de uma forma sutilmente comprometedora.

Ontem à noite levei muito tempo até conseguir adormecer. Alguém no prédio ouvia Madonna no último volume. Deve ter riscado o disco. Eu gosto da Madonna, ela tem garra. Antes de ficar famosa, posava nua para artistas. Fotografaram, pintaram as suas curvas e também aquela pinta que ela tem acima da boca. Que sorte a desses caras. Será que ela também realizava alguns favores íntimos em vista de uns trocados? Tem um cara muito bacana, polêmico (ao menos lá no Oregon hehe), uma espécie de guru indiano que manda bem nas colocações. Ele se chama Osho. E Osho disse que “toda vez que ele encontra uma prostituta, ela quer falar sobre Deus e sempre que se reúne a um homem religioso, ele quer falar sobre sexo.” Tudo o que nós negamos a nós mesmos se torna a nossa prisão mental. A renúncia aos desejos não é um caminho fácil para a felicidade. Tenho grande apreço pelas profissionais do sexo, conheci algumas. Já namorei uma. Gente que suporta humilhações, situações desagradáveis e extremos cotidianos em troca de dólares. Quase igual à maioria da sociedade trabalhadora, só que com a diferença de um genital a mais entre as pernas.

Salvei um cavalo no meu último aniversário, um cavalo da polícia montada. Chovia bastante, eu estava encostado no balcão de uma cafeteria. O rapaz que manuseava a máquina de espresso usava um avental de sarja, levava uma boina mostarda de couro de porco na cabeça e óculos sem armação pendurados em um nariz que fazia sombra ao bigode longo e redondo que lhe cobria os lábios. Ele tinha um pano de pratos branco no ombro direito que a toda hora usava para enxugar copos e xícaras. De repente, parou e desarmou a empunhadura de secagem. Ficou com os olhos bem abertos, como a sua boca, olhando para a rua exibida pela fachada de vidro da pequena lojinha. Estava de costas e me virei. Um grande, todo paramentado cavalo empinava as patas em plena avenida. Que cor linda, aquele negrume retinto que reluzia à luz dos relâmpagos que iluminavam o céu. Assustado, o animal relinchava, sacudia o corpo e ameaçava uma tragédia. Eu estava só, bebendo meu café em paz. Os carros buzinavam. Aproximei-me da porta, abri, vasculhei as redondezas e não vi ninguém vindo em socorro. Tirei minha roupa – calma lá, fiquei de calças – e caminhei até o bicho. Sei que não se deve encarar um equino direto nos olhos, mas eu queria sentir a dor dele. Queria decifrar seus pavores, o que havia levado àquele rompante histérico, àquele vexame público. Fui chegando e conversando com ele: “Hey Timothy, calma aí cara, tá tudo numa boa.” Ele gostou do nome. Tim relaxou, eu tomei suas rédeas e o conduzi à calçada. Fazia carinho nos seus pêlos úmidos e coçava seu pescoço. O público gritava, aplaudia. Eu tinha salvado o dia. Logo surgiu uma policial mulher, na sua farda azul escura decorada com a vergonha de uma falha tão monumental. Como ela havia se descuidado daquele bem tão precioso? O sorriso amarelo era o suficiente. Não precisava lhe dar nenhuma lição de moral, afinal, submeter outros ao ridículo é um pecado grave. Eis outro mantra. Sofri com o cavalo a dor de ficar exposto, desencontrado, ansioso. Vulnerável. Que história, não? Parece até mentira, mas não é. Voltei, ensopado, para o café. Não precisei pagar a conta. Sensibilizei-me com o bicho, sensibilizaram-se com o animal aqui.

Tive dores na semana passada, atrás da perna. Surgiram após uma noite de excessos. A investigação foi frustrante porque não podia indicar uma razão plausível para as pontadas que em dois dias passaram. Delírio? Ilusão? Negacionismo? Cerveja gelada. Bebi para passar. Funcionou. Pensar não é pop. Cerveja é pop. Para dores, pop culture.

Não fui ao encontro do terapeuta. Ele que veio até a mim, o desavergonhado. Se eu fosse uma casa com a maçaneta trancada, ele seria o pé de cabra. Aliás, justiça seja feita, ele não é terapeuta e sim médico. Médico psiquiatra. Eu achava que uma coisa levava à outra. Queria que ele me levasse a algumas drogas, hahaha. Gosto demais do sujeito, ele tem fome por provocação. Isso é tenebroso e audaz, uma arte que torna a conversa mais saborosa, instigante, espontânea. Falo vários idiomas, dentre os quais o anglo saxão. O doutor fala inglês, ora veja só. Percebi que não falamos a mesma língua. Dia desses ele se interessou por obras que eu ando lendo. Fez algumas perguntas e eu as respondi. Sabe aquelas impressões pessoais sobre algo que você tem contato? Pois então, são como um couvert de restaurante com azeitonas, pão e salaminho. Abrem o apetite mas, para matar a fome, tem que se pedir o prato principal. Eu dizia:

– Bukowski era um gênio da escrita simples e envolvente, aquele velho desgraçado.

– Curioso que, dentre tantos expoentes românticos e floreios realistas, você opte por se projetar naquela crueza porca. O que resta?

– Devagar…

– Exato, por que será que a fraqueza de se ver assemelhado a algo tão pouco nobre incomoda?

– Devagar…

– Posso divagar mais, muito mais.

– DEVAGAR!”