Polegadas

Maria foi uma boa esposa durante uma das quatro estações do ano. Casou-se com Alfredo apesar do nome em desuso. Ela imaginava como foi a adolescência de um garoto chamado Alfredo e ele elucubrava como teria sido a infância dela sem pai. Cada um nos seus pensamentos particulares, porque eram ofensivos demais para servir à mesa. Maria não andava bem e esquecia a tampa do vaso levantada. Maria dormia com a boca aberta e roncava, mas Alfredo achava aquilo fofo. Fofo, mas insuportável, por isso ele a cutucava com o cotovelo. Casaram-se no outono, quando as folhas caíam. O caminho era poético, na antessala do renascer florido. No inverno, Maria não aguentava. Suspeitava do marido e roía as unhas que já eram curtas. Feria as cutículas e então tomava vinho. Alfredo a encontrava bêbada, desacordada, reclamando do vizinho. Ela sequer conhecia o vizinho. Moravam distante da família e não havia corrida para colo nenhum que resolvesse. Eram os dois, um para o outro, não importa o que acontecesse. Alfredo a amava e o amor é aquilo que o aquecedor faz nas noites mais frias, mesmo que o motor, toda a engenhoca que faz a coisa ficar quente, permaneça no lado de fora da casa sob um rigoroso frio. Maria era doce, uma menina, tinha os pezinhos tortos e os dedos compridos. Nasceu para ser menino, mas Deus quis diferente. Ainda bem, porque Maria era linda com cabelos que pareciam fios de linho. Alfredo se sentia completo, mesmo com as neuroses de Maria. Neuroses são essenciais ao negócio humano, dizem os psicanalistas. Opiniões, como cachos de banana, crescendo a torto e a direito como se o mundo fosse adubado por inteiro. Maria passou a suspeitar que Alfredo estava tendo um caso com alguém do escritório. Ele era funcionário público, batedor de carimbo, um daqueles de futuro, mas com todo o tédio do mundo. Saía cedo e levava a comidinha que seu amor preparava, mas então, com o diabo a lhe sussurrar diabruras, Maria parou. Simplesmente parou e escolheu a TV. O marido notou e reclamou, mas Maria alegou tontura. Disse que o alho queimava as mãos, que não suportava mais o cheiro de fritura. Alfredo, resignado, saía de mãos vazias. Trabalhava feito um condenado para que o dinheiro rendesse uma casa própria. Maria assistia ao televisor com a mente suspensa. A televisão não exige pré-requisitos, não exige sequer inteligência, a televisão só necessita ser ligada e Maria sabia bem apertar o botão vermelho. Maria poderia trabalhar em uma usina nuclear para deflagrar o alarme de desastre. Oh, Maria. Em uma manhã, ela acordou e se sentou em frente ao aparelho. Desligado, era como um negro espelho. Assistia a uma programação idiota, típica de geração vazia. Assustou-se com o estampido de uma música trágica que comunicava o impossível. “Interrompemos a programação para um anúncio especial” disse o âncora. “Devido a forte nevasca, os bombeiros têm dificuldade em acessar o prédio central da administração pública onde um incêndio sem precedentes derrete as colunas seculares”. O mundo de Maria naufragava, mas havia um âncora. Ela levantou e, nervosa, só pensava em fogo, no Alfredo, nos cigarros que ela tanto gostava. Maria subiu as escadas e bateu na porta do quarto onde o marido dormia. Ele caíra doente e dormia em um quarto separado para poupar a esposa da tosse renitente. Bateu com o polegar, como se surrasse um pandeiro. Maria não batia bem. Não houve resposta. Desceu as escadas e grudou no telefone. Ligava insistentemente para o escritório onde o marido trabalhava. Ninguém atendia, deviam estar todos mortos com a fumaça, ou pior, queimados. Maria enfiava os dedos nos cabelos e não sabia o que fazer. Conferiu a garagem e se espantou, pois o carro dele continuava lá. Tornou a subir as escadas, a bater com o polegar direito na porta branca e a chamar por Alfredo, Alfredo. Oh, a constatação! Se Alfredo não estava ali nem no serviço, só poderia estar com a amante. Nem a

neve poderia esfriar sua espinha mais que aquele pensamento. Maria entreteve a ideia e não viu saída. Fugiu de casa, usando o carro do marido. Maria aprendera a dirigir recentemente, mas a ira a guiava. Foi a um bar e pediu bebida. Serviram. Bufava e tremia. Não demorou até que um sujeito se aproximasse e procurasse ouvi-la. Existem mais homens bondosos, nessas horas, do que há certezas nesta vida. Maria vomitava o carrossel de mágoas e o cara, com a cabeça, assentia. Maria não parava, falava mais do que devia. Aos poucos, mesmo o sujeito da malícia, o garçom e os outros homens que ali bebiam se afastaram. Mas era um bar velho, sujo, daqueles que têm buracos na parede. E em um desses buracos tinha quem a ouvia. Uma barata e um rato, imóveis como se paralisados pela estricnina. Maria notou e não se intimidou, discursou para a baixa prole dos seus desejos de patifaria. Bebeu e praguejou e se levantou bastante zonza. Ninguém ajudou, eles queriam que ela se fosse. Maria entrou no carro e deu a partida, mas não conseguia ver. Havia neve sobre o pára-brisa e ela então ativou o limpador. Aguardou que a brancura se dissipasse e julgou, a inocente, que via plenamente com capacidade de uma águia careca. O carro patinou no gelo liso mas Maria, embriagada, julgou que tudo ocorria bem, da mesma forma que saiu de casa. O automóvel replicava as pernas da esposa desastrada. Na casa, enquanto isso, Alfredo destrancou a porta e pisou na sala. Não havia barulho, não havia nada. Apenas a TV ligada e um noticiário mudo. Ele mirou o quintal branco e a beleza da invernada. Torceu para ver uma raposa, um veado, um feixe de Sol naquela manhã castigada. Fez café e deu falta de Maria, mas pensou que a amada estivesse no quarto lendo ou coisa que o valha. Alfredo, segurando uma caneca azul, sentou-se no sofá e aumentou o volume do televisor que mostrava imagens de um fogo imenso, mas que não conseguia distinguir onde se passava. Foi interrompido por um anúncio urgente dentro da programação urgente que retratava uma outra emergência. “Interrompemos a programação especial para outro anúncio especial”. Alfredo recostou-se para acompanhar. “Uma caminhonete, placa RDC-8240, chocou-se contra o prédio em chamas da administração pública. Os bombeiros informam que não há sobreviventes, embora não tenham certeza de quantas pessoas estavam no automóvel”. O prédio era onde ele trabalhava. A placa era a do carro dele. Aflito, Alfredo levantou-se num salto e derramou café quente. Ele pensava sobre aquilo e não sabia o que fazer. Ele queria saber se alguém estava no carro com Maria. Alfredo estremeceu. Polegadas de neve impediam a saída e ele arrefeceu. Aquele era um sábado, ele não entendia como o incêndio começou, por que tudo acabou em fogo e por que ela o trairia.

A paz, o pacto, o ato ineficaz

Não fui o primeiro a ousar o acordo e o mundo
Esse mundo doente do homem que mente
Ainda há de gerar muito tormento
Para que outro iníquo assobie o trítono
E da matéria incendiada a fumaça dê a forma
O cheiro e a desesperança
Da estrela príncipe da manhã.

Poder, êxito e dominância
Oh, serpente, eu invoco a tua presença
De valores invertidos
E virtudes controversas
Com a voz da minha ganância.

O diabo apareceu
Porque o diabo é diferente do irmão
Que tudo ouve e nada diz.
Não é vermelho e dos olhos não salta facho
Não veste capa nem coisa alguma
Caminha de couro despido
E não nos dá as costas.
Anhanguera oferta ouro mas também esconde o rabo.
Satanás é exibido e entre as pernas mostra o sexo
Posto que sem nexo e muito rígido
Aponta para baixo.
Não exala enxofre como se quis
E embora nu, o cão veste sapatos
Pois tem pés imaculados.

Mamãe me disse que quando em face de um dilema
Eu me furtasse a frieza e fosse só humano
Demasiado humano.
Que não me ardesse em indiferença.
Ora, essa é a fantasia do tinhoso, que sejamos mais crus e
Que andemos, como ele, todos nus!

Em troca de favores ofereci a alma
Mas esqueci de maldita saliência que define o coisa ruim
            Não se atém à boa vontade
            E ama o enfado das escrituras
            Que condena homens em verdade
            Às clausuras eternas
            De temas do pecado.

No semblante daquele bicho um prazer desgraçado emanava dissabores
Tão claros como discretos e simples e complexos sobre o rosto enrugado.
Sorri e fica sério
Diz que sim mas não convence
Faz mistério. Faz assim.
É a sombra do adultério.
É o vício que sempre vence e a inconsequência que o antecede.
É o querer e o desamor e a delinquência e a harmonia.
É a nota aguda.
É sob as roupas o calor.
É a fantasia. É a recusa de ajuda.
É a autofagia.
É ele, somos nós, quem sois vós?
Antropofagia! Ator do ato trágico. Da carne à carne
Um mágico! Um profeta! Um renegado!

Diferente dEle, o mofento é sarcasmo e ironia. Afina o bigode e aperta o laço.
Cruza as pernas e aumenta a aposta.
Mais sem ter menos, o tal venha a nós mas sem o vosso reino.

Pé de cabra, sete peles, teu número é engraçado!

Vi arcos se contorcerem e a luz se alterar e a terra chacoalhar
E das ventas saltar vapor
Quando acusei no maledetto a própria semelhança
Das mudanças de humor.

O vidro polido se rompeu
E percebi em pedro-botelho
O mais assustador e incensurável.
A lembrança de tudo o que aprendi, de tudo o que se leu.
No espelho reconheci o fardo incomensurável
De que aquele sujeito era eu.

Um conto de Boston – parte 10

A última carta deixada pelo digníssimo foi desconcertante. Português rebuscado, texto sem direção e prosopopéias mirabolantes. Cogumelos mágicos ou o mais puro retrato de uma mente maníaca? José Armando Passos, eu quero falar com você. Fazer perguntas e duvidar sutilmente das suas respostas. Quero azedar suas verdades. Mas, como? Se tudo o que faço é observar à segurança do anonimato, como interagir com você para além da passividade? Zé, Zé, Zé. Que mato. Estou cheio. Aquele texto de amor tresloucado por uma Carlota Joaquina passou dos limites. O que você me deixou hoje foi estarrecedor. O que leva um homem a dizer tanto sem revelar nada? Por que o texto é mais fácil que a conversa face a face? O que é que compõe a tal coisa essencial de nós mesmos, aquilo que nos define em identidade? Nestas cartas que recebo vejo um tanto de ti, um tanto de mim, outro tanto de nós.

João, meu João dos Prazeres. Eu nasci dentro disso. Sou a própria matéria deste mundo selvagem no qual a regra dominante é a de que nada supera o lucro. Johnny, eu tô falando de capitalismo. Dinheiro, horas de trabalho, recibo do aluguel, café para nos tornar mais produtivos. A engrenagem do planeta Terra está apoiada no sistema financeiro. Arquimedes, nos dias de hoje, pediria uma alavanca, um ponto de apoio e uns trocados para executar o serviço de mover o mundo. Nada mais justo, mas eu faria de graça. Só pela onda de ver o globo sacudido e uma baita quantidade de peso morto sair voando pelos céus afora. Já imaginou como nos faz bem essas catástrofes que se passam de quando em quando? Sei não, mas parece que o controle populacional não é algo assim tão maligno. Pode me julgar.

Okay, ultimamente soo muito amargo, né? A saliva anda vermelha, dá pra fazer um negroni com o que escorre da minha boca. Eu casei, lembra? O casamento é um barato. O silêncio custa caro. A rotina de trabalho tem sido tão apertada que não me lembro de acontecimentos recentes dignos de serem compartilhados. Você sabe, o homem ocupado é pago e promovido. Sou um deles, bastante ocupado.

Queria saber tocar um instrumento que fosse. Gaita, por exemplo, parece fácil e talvez até seja. Nunca tentei. Fuófuófuó  fi fi fififi por aí, sentado em uma pedra mirando o horizonte. Romântico ou triste, depende de quem vê. Já faz alguns meses que não uso nada para, digamos, potencializar a minha mente. Nenhuma droga. Parece moleza? Bem, depende das circunstâncias. Porque se uma pessoa corta as substâncias e, ao mesmo tempo, goza de tempo livre o suficiente para ficar em casa assistindo a TV e se masturbando, ele não sente a pancada da abstinência. O cérebro humano – pera aí – o cérebro do humano acostumado ao modelo de vida social contemporânea, é altamente dependente dos estímulos que lhe causam sensação de bem-estar. Por isso, cortar a brisa da fumaça mas continuar a compensar a química do sangue com outras fontes de dependência dá no mesmo. Comigo não foi assim. Eu saí da realidade paz e amor para a do turno de trabalho, sono, trabalho, sono e, em alguns dias da semana, dois turnos nas mesmas 24h. Money talks, man.

O que vivi até aqui? Ah, meu amigo, eu vou contar com um orgulho desmedido:

Até aqui vivi na flauta, ainda que não faça ideia de como tocá-la. Viajei muito, por lugares físicos e instantes de pensamento. Morei em diversas localidades, convivi com culturas, dialetos, cores, gêneros e orientações distintas. Nunca me faltou boa comida e uma cama confortável. Aspirei ao cume dos esportes e o alcancei sendo atleta amador universitário com muitas medalhas de ouro. De igual modo, quis escrever e, ainda que não me considere maduro, obtive meus méritos. Desejei as moças desde sempre e o único empecilho foi a adolescência e a minha cara feia. Finda a feiúra, deslanchei. Não houve amor profundo que não tenha conquistado ou corpo raso onde não tenha me encostado. Bons salários, boas companhias, lazeres voluptuosos. Confesso que só passei a me vestir bem depois que um amigo gay me deu uns toques sobre estilo, isso já bem grandinho. Antes eu era um meninão vestido como meninão. O passado nos condena em certos aspectos. Descobri que havia em mim uma grande propensão em coexistir com o perigo. Quanto maior a ameaça, melhor eu me sentia. Notei, de início, que meus animais favoritos eram a cobra, o tubarão e o leão. Uma parte da minha infância foi no cerrado e lá trombei com cobras aos montes. É uma sensação extrema, você querer ver de perto, mas morre de medo de levar uma mordida. A bicha lá, toda encolhida pronta para dar o bote, com sua língua bifurcada a ler o ambiente em lambidas no ar. Mais velho, tive a oportunidade de nadar com tubarões. O ápice da excitação, porque diferente da serpente, o tubarão vem até você e investiga, chega perto, se bobear tenta uma mordida. Quanto maior o perigo, maior a noção da vida, soa até clichê, mas é verdade. Já pulei de paraquedas, inclusive. Sabia que não senti medo? Esse nosso cérebro é um trem mesmo. Em um parque de diversões, a cada elevação do barco viking você se borra de medo, sente aquele frio na barriga e o gelo se alonga por todos os nervos do corpo. Agora, a quilômetros distante do chão, em plena queda livre, a sensação é absolutamente outra. Você sequer sente que está descendo. O limite, a terra firme, está tão longe que não assusta. O medo vem da visualização do fim. Em pleno voo essa noção é zero. Bem que o doutor me perguntou um dia ‘em vista do abismo, você tem medo ou vontade de se jogar?’ e a resposta estava na ponta da língua ‘vontade de me jogar, caramba!!’. Loucura, não? A terapeuta agora diria ‘nós não usamos essa palavra aqui, sr. José’.

Tantas aventuras haveriam de culminar com a ousadia suprema. Dei por gostar do envolvimento com mulheres casadas. Oh, cara, isso já faz tempo. Eu era solteiro e começou por um acaso. Coisa fina. Daí a coisa embolou. O bolo virou rolo. Vixe, só não acabou em tragédia porque o cara é a frouxidão em pessoa. Um amigo meu cravou o termo: Prego é o que ele é, com P maiúsculo. Coitado, nunca tive a menor intenção de fazer troça do cara. Nem pra senhora sua esposa eu fazia qualquer tipo de brincadeira com o nome dele. Daí, vou negar? Viciei. Outra e outra e outra. Casadas, com o mesmo perfil familiar, porém uma absolutamente distinta da outra. Iguais em desgraça. E eu, quando comecei a sofrer por elas, descobri que o desgraçado era eu. Quantas noites, quantos porres, quantos quase. Vivo por uma sequência feliz de acasos.

Serviu de lição? Lamento dizer que não. Meu instinto selvagem desejava mais perigo. E aí entrei pro crime. É, cara, isso mesmo que você está lendo, crime organizado. Drogas, armas, mortes e o escambau. O lobo em pele de cordeiro. Eu transitava invisível entre aqueles que perseguiam um certo alguém. Mal sabiam, eu na verdade era ninguém.

Cansei de tudo, cansei de todos. Mesmo em face do maior dos riscos, a invencibilidade traz monotonia. E aí, o que fiz? Resolvi ser um bundão.

José Armando Passos, 35, garçom e pizzaiolo, homem de família, monogâmico, reza antes da refeição e bebe apenas aos domingos. Trabalha 7 dias na semana em prol da casa própria. Não possui carro e depende de caronas, no momento. É amado e envia dinheiro à família. Resignado pai de maus frutos, esperançoso conquistador da redenção.

Nozes

Eu vim para usar meu macacão jeans, mascar tabaco ou chicletes, beber destilados e trabalhar embaixo do Sol. Um dia bem quente, um lenço vermelho amarrado no pescoço e um chapéu para proteger minha, ainda cabeluda, cabeça. Será que eu vou ficar careca? Diz a genética que sim. Diz o meu ego que não. Uma enxada na mão para revolver a terra, um saco de sementes no bolso. Um tratorzinho para percorrer a propriedade. Meu nome é Barney, vivo aqui desde sempre.No começo, era difícil me fazer calçar botas. Sentia que nasci livre o suficiente para viver de pés no chão, ao menos literalmente. Vieram o frio, os carrapatos, os bichos-do-pé, as serpentes e os sapos para me convencerem do contrário. Sou Gaia em sua forma e representação. Não há energia elétrica ou água encanada, casa de alvenaria ou aquecedor central que me sequestre do mato. Muitos sons nascem do escuro noturno que me circunda. Às vezes acho que são espíritos da floresta, guardiães de uma alma humana bem intencionada. Outras vezes, julgo que os predadores estão a me espreitar. Adoro encontrar cobras por aí e delas há muitas, algumas com escamas.


É bom ter coragem de pedir que a visitante vá embora após o sexo. Ajuda a manter a lembrança da parte boa. Você goza, ela goza, todo mundo goza e daí tchau! E uma outra que me presenteou, na data do meu aniversário, com uma cueca? Fez a maior propaganda que aquela era uma peça sem costuras, com material de algodão mesclado à fibra elástica natural, que era à prova de odores e proliferação de fungos, um artigo de extremo bom gosto para acolchoar as minhas bolas. O tamanho que a belezinha comprou? M, de médio. Ou de medíocre. Ou de meh… Caramba. Poderia ter comprado uma Zorba amarela, tão fina como papel, que eu não ficaria chateado. Errar justo para menos no quesito roupa íntima para um homem? Quer dizer que eu sou mediano? Não passou pela cabeça dela que eu sou G? E aquele papo de “ai, minha nossa, isso não vai caber em mim não, nunca vi deste tamanho”? Essa mesma belezinha toma água e não enche a garrafa. É a gota d’água!

Muito prazer, sou Stewart, o bom gosto em pessoa. Alguém tem que zelar pelas boas práticas do lar. Não deixe a toalha de chão fora do lugar no banheiro, o rolo de papel deve ficar sempre com a ponta por cima e, pelo amor dos meus filhinhos, xixi se faz sentado. Acham que é fácil? Na verdade é quando eu estou sozinho. Mas sempre tem alguém para perturbar a paz. Se minha mãe me visita, já não consigo me ausentar da sala com tranquilidade. Não sei o que dá nelas, mas as mães têm essa tendência de querer alterar a disposição de móveis sem notícia prévia. Você vai cortar uma fatia de bolo e, quando volta, o sofá andou pra lá e surgiu uma mesinha de centro absolutamente fora do contexto. Morar sozinho traz o benefício do sozinho da coisa. Você decide por tudo e todos (eu). Nessas aventuras casuais eu já fui obrigado a aguentar ronco, uma moça esfomeada, uma que roncava quando comia, outra que roncava quando ria. Ronco não é um problema. O conflito era quando elas queriam cozinhar e se adiantavam em trazer os ingredientes. Oh, quanta porcaria! A vantagem da relação descartável é que eu nunca ia ser deselegante de reclamar de nada – ou muito pouco. Uma garota trouxe vinho e ele se chamava Quinta do Morgado. Quem morgou fui eu e, a partir daquela noite, nunca mais me deixei na mão dela. O vinho, além de horrível, foi também um curioso caminho para outra descoberta. Ela derramou a taça quase toda sobre suas sandálias brancas que estavam no canto da sala. Os amassos estavam quentes e ela mantinha a bebida em punho. Seu hálito de vinho barato me excitava, esse tipo de coisa que não se explica. Eis que o chão recebe o conteúdo vermelho despejado à meia altura. Foi só então que eu pude perceber como eram tenebrosas aquelas sandálias, credo.


Arranha-céus e garoa e roupas elegantes e restaurantes finos e uísque 21 anos e carros com banco de couro e sapatos italianos e mulheres deslumbrantes e noites infinitas e manhãs de after-party e verões à beira-mar e mimosas no café da manhã e números de telefone trocados a cada 15 dias e paranóias delirantes e ataques de pânico e tiros para o alto e o medo estampado nos olhos de – quase – todo mundo que se encontra com você. Saled Le Dif, muito prazer e ele é todo meu. Meia idade ou ela toda, todas as vontades realizadas. Sobre os sonhos? Talvez, não parei para pensar profundamente na questão. Quando criança eu queria ser um guerreiro ninja. Bem, acabei por andar nas sombras mas por razões distintas. O que eu quis comprar, comprei. Inclusive pessoas, favores, silêncios. Dizia um alguém histórico (é melhor suprimir o nome dele, hein!) que “não quero que nos amem, quero que nos temam”. É bem por aí, por mais que doa admitir. Há algo de nefasto que pulsa em mim e esse algo clama por poder. A fogueira que queima sem se ver é alimentada pelo combustível do crime. Você então pode se perguntar se há mesmo glamour nisso tudo. Ora, meu chapa, claro que sim. Eu sou branco! 90% das vezes passo batido por revistas, blitzes, checagem de segurança de aeroportos e o escambau só por causa da cor da minha pele. O mundo é muito racista e o que eu posso fazer sobre isso? Tirar vantagem. No começo me batia uns conflitos sobre esses privilégios brancos. Aí eu encostava a cabeça no sofá, abria meu pequeno cofre de madeira com cadeado romano e contava meu dinheiro não declarado. Ali percebi que deveria dispor de uma caixa maior pois o montante de grana iria aumentar. E aumentou. Não há nada que não se queira comprar quando a fortuna que você tem é de origem ilícita. Se você enriquece pelas vias normais é natural que fique cheio de dedos para gastar. Mas, se a riqueza veio em forma de desgastadas cédulas conduzidas por mãos maltrapilhas, então que se foda. Não é questão de irresponsabilidade não, é só um orgasmo social por ser inimigo do sistema. Bem, também não me entendam mal. Inimigo do sistema é quem quer pará-lo e, a bem da verdade, um criminoso quer mais é que o sistema continue como ele é. O estado e a polícia que usem seus mecanismos para investigar quem eles quiserem, nós continuaremos a burlar os tiras. É uma tragédia para quem vê de fora, é uma montanha russa para quem está dentro. E a maior parte dos jovens e das garotas ama montanhas russas. Sou Le Dif, sou o nosso amigo, sou o menino lá, sou o patrão, sou Theo, sou um monte de gente. E aquele que é amigo de todos, não é amigo de ninguém. Você já assistiu a algum filme que retrata uma história de sucesso de um cheirador de pó? Tem final feliz e triunfante de um farinheiro para contar? A regra é clara, nunca se meta com a cocaína. Deixe isso para as mulheres, para os canelas secas, para os zé miquinhos. Para todos aqueles cuja preocupação maior é somente o rumo que a festa vai tomar. Eu não faço parte deles, meu negócio é ir em frente e para isso tenho que estar sempre no controle, chapado, mas ligado no que faço. A psicologia do crime envolve potência, é óbvio, e respeito aos demais. Quando as pessoas com quem você negocia e faz transações tem uma arma na cintura, não há espaço para desaforos. Até para passar a perna tem que existir sutileza. Eu venho de uma família disfuncional, a televisão sempre foi minha melhor amiga, a música me ajudava a tomar banho e a sede de potência foi respeitada pelo meu eu-lírico. Meus pais nunca me levaram ao terapeuta, graças a deus. Teria me enquadrado no status-quo e talvez eu fosse hoje um bancário. Ou escrivão da polícia. Ou juiz federal. Tenha piedade, eu hein?! O que mais me preocupa são as crises paranóicas. Deus, como elas têm sido recorrentes. Vivo achando que alguém tocou na maçaneta e a porta vai desabar com os homens da lei entrando e barbarizando. Mas, quando isso acontecer, que chances terei eu?


Eu quero falar de planos. Andam acabando com o planeta e o tempo que resta é curto. Senegal, Congo, Costa do Marfim. Isso aí no continente africano. Depois, Vietnã, a Tailândia e o Sri Lanka lá na Ásia. Caramba, tenho que trocar de mochila, encontrei dois furos. Vi uns sachês de café individuais que vêm em uma cartela de papel que se monta sobre a caneca e são coadores descartáveis. Comprar uma caixa. Por que deixar para depois se posso digitar e usar o celular para fazer o pedido? Comprar com um clique na Amazon, um colosso. Pouca roupa para viajar leve. Pode ser que eu decida ficar em algum desses países por mais tempo, a gente nunca sabe. Tantas moças que eu vou conhecer, vai ser inevitável. Já posso sentir o perfume da Jessica de Iowa e a risada estridente da Josefine da Suécia. Não há mulheres de mais nesse mundo? Não é esse o meu destino, conhecê-las? Ah, os convites obscenos para diversão a três com as canadenses Hollis e Renee. Já consigo antever tudo isso que está prestes a acontecer. Maggie vai me presentear a sua calcinha Victoria’s Secrets e depois sumir. Calcinha preta, com as marcas indeléveis do tesão incontido por mim. Vou curtir essas paradas, toda santa noite, sem limites para a repetição da conduta. Dane-se. O importante é acordar cedo e aproveitar o dia. Dou-me um cochilo de presente após o almoço, mas a manhã é sagrada para caminhar sem destino. Aliás, qual será o meu? Ser o CEO de uma companhia global? Nah… acho que não. Já perdi as contas de tudo o que eu me imaginei sendo. Pronto, café comprado e a mochila nova também. Ainda aceitei a sugestão de um carregador solar portátil e adicionei ao carrinho de compras. Vai ser útil. Posso passar alguns dias acampando na floresta e conhecer alguma mulher local que se engrace comigo. Poderia ser uma vietnamita. Seria perfeito se fosse uma asiática que se apaixonasse, casasse comigo e propusesse um negócio para abrirmos, quem sabe, em Bangkok. Casa de comida brasileira e outras coisas brasileiras também. Já conheci uma tailandesa que se apaixonou por mim e quis casar e abrir uma empresa. Exatamente do jeitinho que eu descrevi. Acontece que daí eu conheci uma dinamarquesa chamada Annie na mesma época. E uma norueguesa chamada Juliette. Oh, céus, que crápula eu sou. Aqui, juntando os trapos para viajar outra vez, já se pode perceber que nada vingou. Paciência. O importante é que agora vem um plano infalível para a estrada: comprar uma câmera polaroid e tirar fotos de turistas pelo caminho por alguns trocados. Dá pra pagar a comida, então já barateia a jornada. Alguém me disse que eu sou ansioso. Que mané ansioso, eu sou Hugh, aquele Hugh, sim, o único que merece o status de fodão, o Hugh criador do ícone da boa vida, o cara que vivia de roupão de seda. Meu nome foi em sua homenagem e eu tento fazer por onde. Coitado de mim. Sinto o corpo quente. Será uma febre ou só a sala que está quente demais? A porta da sacada está fechada e o vento não corre. O ar condicionado está regulado para uma temperatura tipo o hálito de um mendigo. Eca. Pensei agora em sorvete de azeitona, será que existe? Se não existe, eu poderia inventar. Mas deve ser muito ruim. Estou prestes a viajar e ainda tenho que me despedir da Raquel, da Ana Luiza, da Paula, da Carla, da Lilian, da Carina. Caceta. Cada uma delas tem que ser uma noite toda. Será que eu consigo convencer algumas delas a se unirem em pares? Já salvaria um tempinho. E a Paula pelo menos, aquele quilômetro de mulher, sabe dobrar roupa como ninguém. Ela vai gostar de me ajudar. Mulheres, aeroportos e empreendedorismo. 365.000 planos. Aí vou eu.


Se um dia eu postar esta merda de texto, aposto que alguém vai surgir e dizer “oh, como você escreve bem” e coisas do tipo, elogios lambe-botas. Quem irá proferir tais palavras? Um pederasta, ou uma leitora de auto-ajuda. Ou um coach paz e amor. Puta que pariu, o inferno está mesmo vazio e os diabos realmente estão todos aqui. Aqui, na minha fuça. Chamam-me tóxico, a palavrinha do momento. Mando à merda. Sejam bem vindos ao show de porra nenhuma, sou seu anfitrião Rick. Adoram me perguntar se é a corruptela de Ricardo. Meus amigos, tenham bom senso. Ninguém chamado Ricardo quer assumir que se chama Ricardo. Deixem os Ricks, os Ricos, os Cacás quietos por aí. Mania de… de… de querer saber de toda a raiz etimológica de um reles nome. Eu ia dizer que era mania de v… mas ia acabar pegando mal. Não se pode mais ter liberdade de expressão para ofender os outros neste mundo contemporâneo. Antes, meu pai chamava tudo quanto era negão de alemão. Eu não entendia como aquilo fazia sentido. Cresci e entendi. Mas, agora não pode mais. Uma porrada de coisas é mal vista hoje em dia enquanto outras, que ninguém poderia imaginar, tornaram-se banais. Eu não quero repetir esse discurso barato pseudo-intelectual contra o politicamente correto. Ser confundido com a grande massa, o rebanho ordenado, a multidão nua que se agita pelos mesmos estímulos e exerce o imenso, incomensurável, plastificado magnetismo da compaixão universal. Não é possível. Eu não quero ter empatia com ninguém porque já me obrigam a isso. Obrigam-me a pagar impostos, a segurar a porta do elevador, a separar o lixo, a parar na faixa de pedestres, a distribuir esmolas por aí. E eu? E o que é meu? É duro conviver com tanta gente limitada. Gente que passa três ou quatro horas olhando para uma tela iluminada que cabe no bolso. Aliás, você está lendo isso pelo seu celular? Ótimo, metalinguagem na sua forma pura. Você é um idiota? Melhor ainda, pois estou falando de você. Com você e para você. Seu putinho sentimental. Você faz parte de alguma minoria? Estou me lixando para isso. Alguém morreu na sua família vítima de COVID-19? Deus quis assim, não é como vocês justificam tudo? A vontade Dele? Eis aqui a minha vontade, eu a apresento com tópicos bem acabados e detalhados. Primeiro um tsunami, volumoso e extenso, em toda a costa brasileira. Impiedoso, exterminador da esperança e de herdeiros improdutivos. A água levaria as varandas, encheria as piscinas com lama e arrastaria land-rovers sem o menor rastro de complacência. Quantos sobrenomes teriam suas proles gordas e inúteis arrasadas? Daí então uma guerra com um país vizinho, de preferência um que seja subestimado pela arrogância canarinha. Uma Venezuela, que exemplo magnífico. Declarado conflito, Roraima invadido, a costa ainda se recuperando dos estragos do maremoto. Caos perfeito, daquele que dá à luz uma estrela brilhante. Os herdeiros que sobraram das famílias da elite seriam forçados a se alistarem. Lutariam lado a lado com os meninos do bairro, aqueles que estão acostumados a tiroteios e corpos jazendo nas ruas. Teriam de se ajudar e se proteger, brancos e negros e cafuzos e até os que não se encaixam em padrão nenhum. Morreriam, ah como morreriam! Aos montes, cadáveres e caixões amontoados. A confecção da bandeira nacional atingiria novos recordes. O hino seria entoado sem gaguejar por todos os brasileiros. Choro, comoção. Carnaval cancelado por cinco anos, no mínimo. Silêncio, a pátria aquietada. Algo se torna sério, finalmente, e não somente grave. Mães chorarão ao receberem a visita do soldado que carrega a carta derradeira de seus filhos. “Lutou bravamente e me salvou um dia”, dirão os que se salvaram. E a indústria bélica dará um salto, afinal, nem tudo é desgraça.


Oi, eu sou Stanley. Hoje acordei às seis horas da manhã. Bom, seis e quinze. Ok, seis e treze. Nunca consigo ter paz se não dou os detalhes exatos sobre as coisas. Tudo bem, é só um horário. Acordei cedo porque dormi super bem. Dormi super bem porque tomei um dramin. Risos. Estava cansado e queria me sentir desmaiado na cama. Funcionou, sonhei até com um antigo amor. Oh, não. Essa parte não foi boa. Risos. Não houve nada de sexual no sonho, ainda bem. Esse pensamento seria nocivo para a minha serenidade. Acordei suado e com a sensação de pesadelo. Mas, tudo bem também. Alguma coisa não deve estar tão bem resolvida em mim. Devo trabalhar isso e a melhor forma de trabalhar é falando sobre. Sinto-me muito realizado por contar com tanta gente boa à minha volta. Amigos, esposa, familiares. Como é bela a harmonia e o sentimento coletivo de fraternidade. Gosto de cozinhar para todas essas pessoas em retribuição a tanta bênção que me cerca. Uma carne na pressão com legumes, comida afetiva. Uma ligação inesperada também serve, acalenta o coração alheio. O meu também. Na dúvida, o certo é ligar, mandar uma mensagem, um cartão postal ou seja o que for que funcione para demonstrar como é importante aquela ponte. É sobre eles, sobre mim, sobre todos nós. Construir pontes e não muros. Seríamos todos seres que habitam este planeta Terra com um sentido pré determinado? Nascer, crescer, procriar? Ouvir e difundir a palavra de um criador? Ou a vida não tem sentido algum e, daí então, esse seria o próprio sentido da vida, o de dar a própria significação subjetiva, intransferível e nominal? Tudo bem quem acredita nisso ou naquilo, no fim das contas a gente nunca vai saber esse treco de verdade absoluta. Supimpa, já faz alguns meses que não ingiro nenhuma substância entorpecente e eu me sinto ótimo. Leve como uma pluma, sagaz como um lince. Miau. Uma delícia essa sensação de que a gente não precisa de nada para render. Suco de cenoura pela manhã, feito com 34 cenouras, gengibre e açafrão. Risos. 34 cenouras, só isso já entregou que eu comprei pronto, porque ninguém em sã consciência usa 34 cenouras para fazer um suco. Ser saudável é bom, respeitar as leis e as regras de convivência é uma maravilha. E ler poesia à tarde, antes do trabalho. Dizer ao pé do ouvido da minha esposa o quanto a amo e, de quebra, escrever na parede bem grande para que ela possa ver o dia todo. Eu te amo, eu te quero, eu te venero. Como é agradável se agradar.


Só uma coisa é mais importante que o dinheiro no bolso e essa coisa são as calorias que me mantém forte o bastante para trabalhar feito um camelo adulto e poder ganhar toda a grana do mundo. Não me importa mais nada. Calorias, meu irmão. Calorias do açúcar, da gordura, de proteína magra ou não. Ovos na manteiga. Shake hipercalórico, sobremesa e suspiro pós treino. Oh yes eu estou vivo, sinto que estou vivo, vivão e vivendo! Alguém me segure! Já perceberam que a ingesta hipercalórica causa um barato? O famoso doidão de açúcar, nunca conheceu um? Eles existem e eu sou um deles. Frango frito no café da manhã, waffles com mel e bacon. Quer mais? Adicione uma dose de uísque e outra de licor ao café e pronto, mais calorias sem que o álcool possa danificar o rendimento. Ciência, caceta! Aliás, muita água durante o dia. A única exceção do dia, em prol do bom funcionamento da máquina. Agora, hora da refeição é sagrada. Refrigerante, pelos carboidratos, pelo gelo (olha a água aí) e pelo gás. Uma arrotada e o volume de comida desce que é uma beleza. Pudim é sempre uma ótima combinação para depois. Tem leite, tem ovo e tem açúcar. Quer mais o quê? Almoço de meia hora e pau na máquina de novo. Carga nas costas, jornadas intermináveis. Não há desafios para o homem das calorias. Só eu, Hank, domino essa técnica. Em todo caso que envolver alimentos, a escolha deve ser baseada na tabela nutricional. É isso. Só não esqueça a água durante o dia, nos intervalos. Álcool, refrigerantes, sucos de fruta, macarrão com feijão, hambúrgueres monstruosos. Nada importa, só as calorias e crescer. Cresce o corpo, crescem os músculos, cresce o bolso. Au!


Fui despertado por essa estranha sensação de não ser mais o mesmo que eu era há alguns anos. Meu corpo mudou em virtude das barganhas na alimentação, indulgências na conduta física e, não dá para negar, alguns revezes sentimentais. Uma bola de neve que virou avalanche. Olhei no espelho e me encontrei com mais gordura corporal que costumava ter. Ok, ainda consigo ver os gomos do meu abdômen, mas, convenhamos, não está igual. Significa que isso me diminui em algum aspecto? De jeito maneira. Não me resumo à minha identidade física, claro que não. Sou muito mais que simples músculos amontoados sob a pele, acontece que a gente tem que cuidar da imagem, né? Faz parte do sucesso ter também uma apresentação de sucesso e, no geral, um corpo bem definido e treinado passa a ideia de compromisso e disciplina. E fome hahaha. Não dá pra comer de tudo e muito menos comer porcaria. O corpo é um templo. Amém. Minha companheira, pobrezinha, nunca experimentou uma dieta rigorosa e chega a dar pena. Os fracos não sobrevivem. Nós temos que seguir o plano. Calorias baixas e valor nutritivo alto. Quem não ama um sanduíche? Todo mundo é louco por pão, mas agora a história mudou e o barco virou e o capitão sou eu. Legumes cozidos no vapor, carne magra e muito chá entre as refeições para estimular o corpo a se manter em funcionamento. Vem aí a mudança física do ano! É só temperar tudo certinho que ninguém sente falta de excessos gordurosos ou farináceos. Ao despertar, ingiro só líquidos. Suco natural, vitamina ou leite puro alimentam e tem esvaziamento gástrico rápido. Em poucos minutos estou apto a treinar. Uma caminhada até a academia como aquecimento, ritmo acelerado. Música tranquila durante o trajeto para preparar o espírito. Os ouvidos ainda estão despertando, não há a necessidade de pular etapas. Na esquina da academia a coisa muda de figura. Punk rock, eletrônica ou heavy metal. Sobem as batidas, aumenta-se a frequência e o sangue afina. Tudo flui. Bom dia aos funcionários da recepção do ginásio. Não adianta ser good vibes e não cumprimentar a galera. Levanto o primeiro halter e o coração acelera. Vasodilatação faz os olhos brilharem ao se auto observar. Pode existir uma academia sem espelhos? Uau, enquanto descanso no intervalo da super série, um pensamento me invade a cachola. O que seria da humanidade se os espelhos nunca tivessem sido inventados? Isso daria uma tese de conclusão de residência em psiquiatria na UNICAMP. Alguém chame uma ambulância, mas não para mim. Tenho que erguer essa carga monstruosa e deixar a mente silenciada. Modo avião para reflexões nesse momento. Só se permite flexões, as de braço.Cada um tenta resumir o caráter através da compleição física. Nada de errado, mas eu não faço parte dessa galera. Treino porque faz bem e porque a idade vai chegando, tenho que manter o mínimo de condicionamento. Nem ligo tanto assim para a imagem, caramba, mas não posso deixar meu nome afundar. O meu nome é Erasmo e eu vou confessar aqui que já ouvi as más línguas me chamando de Era. Era o escambau! Ainda sou, seus mal acabados. Só creatina, whey e mel de suplementação enquanto vocês se acabam nos esteróides anabólicos. Não que eu me importe com essa supervalorização do corpo e seus atributos estéticos, longe disso, mas o que é do homem o bicho não come. A César o que é de César. Tem um pessoal, pessoal não, a maioria dos frequentadores do ambiente de treino, que se autointitula guerreiro. Guerreiros, atletas. Motivo para tal título? Puxarem ferro para cima e para baixo, para frente e para trás. Um pouco excessivo, certo? Eu acho. É a pitada de bom senso que falta nessa multidão perdida. Dia desses o cara que vende pamonha na rua perguntou onde que eu treino. Quero começar a masculação, ele disse. Masculação, caramba! Errando ele imortalizou todo um conceito. Mais que treinar os músculos, parece que toda uma geração exercita a masculinização. Querem ser mais viris, mais tenazes, mais agressivos, mais fortes, essas coisas que se atribui ao gênero masculino. Provavelmente irão se frustrar, filosófico ou materialmente. De um jeito ou de outro. Eu só quero perder a minha gordura.


Sejam bem vindxs a este antro, esta casa de perdição e vícios, ao lúgubre e ao mesmo tempo plácido ambiente das mil faces. Uma dor a mais, um excesso, um amor, uma abstinência. Tem de tudo, tem para todxs. Eu sempre estive aqui, desde o início, assim como estou em todo o mundo, para ser franca. Meu nome é Marlene, a essência feminina da alma, o abrigo e também a austeridade, a missiva com as direções cardinais e o ponto de encontro. Sim, todo indivíduo me tem ainda que inconscientemente. Assim é. Em mim reside as razões de um que agride, de outro que ama, de um que usa, de outro que teme. Mulheres, milhares, melhores. Evoé, Deusa! Chorar é obrigatório. Se você não chorar ficará perdido na própria tristeza. Assim eu digo, assim dizem os séculos. E também os analistas. Mas, cuidado, alguns desses analistas estão presos em um século passado. O mundo gira e o vacilão roda, diriam as quebradas. Pura sabedoria. Não é tarefa pequena coexistir com identidades masculinas. Ainda que sejam múltiplas, desordenadas e conflituosas, tudo bem, vá lá, a gente conduz da melhor maneira possível. Mas, não bastasse todo o privilégio histórico e enorme vantagem que gozam, ainda se valem de um tratamento muito mimado por parte da sociedade. Já passou da hora de uns safanões. Ok, esqueça essa parte dos safanões, se não vão associar a violência e é justamente esse um dos problemas. São muitos eus, muitos nós, muitos meus, muitas minhas, muitas nozes. Aquelx que cresce com uma mãe há de criar a concepção das mulheres que encontrará pela vida a partir dessa mãe. Como ela era? Como eram seus hábitos? Como se tratavam? Como os outros homens da família a tratavam? Como ainda se tratam atualmente? Já buscaram tratamento? Quais foram suas conclusões de vida, seus interesses, seus prazeres, suas frustrações, seus planos, suas exceções, as permissões e privações? Quem a amou? Tudinho que é processado pelo núcleo algorítmico do cérebro humano é projetado ante os olhos. Assim se forma o espectro consciente da figura feminina para o observador. Por isso, uns isso e outros aquilo com as fêmeas. Em muitos casos, será lamentável conhecer o passado do sujeito analisado. Em outros, será inspirador. O negócio gira em torno de entender que dá pra mudar o que reside dentro de nós, ainda que sejam inúmeras manifestações de personalidades metamórficas e desafiadoras. Quanto aos outros – ah, que tragédia lhes informar isso! Esperem, sentadx de preferência. As pessoas tendem a pensar que podem mudar os outros ao passo que são imutáveis elas mesmas, grandes poços de água parada e inalcançável. É o contrário. Sobre nós reside todo o poder e, quanto aos demais, tão somente a contemplação. Sobre os outrxs, ao menos, podemos atribuir o inferno. Ha ha ha, uma pitada de sarcasmo sem perder a compostura. O inferno são os outrxs; Deus está mortx; ótimos exemplos de como a leitura pode resultar em interpretações tacanhas da filosofia. Não bastam frases, mas obras completas. Não há de nos satisfazer apenas os genitais alheios e sim, como um grande fluxo, toda a energia que flui dos pés à cabeça. Amemo-nos, pois, primeiro a nós mesmxs e daí, numa justa consequência do amor que busca amar mais, amaremos ao próximx. E tenho dito!

Spray, Sparta, Spyro Gyro

De dentro da cozinha vinha o grito:

⁃ MERDA!

Seguia-se um tapa na bancada. Isso significava que mais um pedido tinha saído errado. O cozinheiro ia à loucura. Tudo tem limite, ou deveria.

Ouvi um cara dizer que era iraniano, simpático às tampas. Cheguei mais perto, falei:

⁃ حال شما چطور است؟

Ele não entendeu. Fui mais perto da sua orelha e repeti:

⁃ حال شما چطور است؟

Ele estalou os olhos. Estendeu o braço e apertamos as mãos.

⁃ Você falou Farsi perfeitamente, sem sotaque. Como sabe a minha língua?

⁃ Ah, cara, eu já fui um negociador de tâmaras por aquelas bandas.

Entusiasmado, passou seu telefone e disse que em duas semanas estaria em Teerã e queria que eu me hospedasse na casa de sua família. Em duas semanas eu completo 35 voltas em torno do sol. A data tão temida. Eu poderia ter explicado que aprendi três frases em Farsi com aquele simpático grupo de iranianos que buscou um avião na TAM em São Carlos, no longínquo ano de 2007. Acontece que eu sempre quis negociar tâmaras. Sucesso garantido.

Duas mesas para a direita e uma moça parecia deslocada. Quando tomei conhecimento da sua história, senti uma pontada no baixo ventre. Exatamente um ano atrás, seu marido a aguardava na sala de estar para que fossem às ruas para uma noite de lazer. Enquanto esperava, decidiu limpar sua arma. Por acidente, ela disparou e ele se foi. Exatos 365 dias atrás. Eles iriam para o mesmo bar. Isso não é triste, meu chapa, é entristecedor. E há grande diferença entre as coisas. É necessário dominar a língua para traduzir a melancolia.

Procurei meu celular e enviei algumas mensagens de amor aos entes queridos. A gente nunca sabe.

Na América o verão é desejado, mas se mantém desdenhoso. Ele sempre passa. Por isso há tanta vida nas calçadas, nos pátios, nos parques. As pessoas aproveitam porque sabem que acaba. O oposto do que costumam fazer nos relacionamentos. Pensam que é para sempre. E já dizia a Cássia Eller…

Carrego uma lista de expressões para brindar em diferentes línguas.

Nazdrave, em búlgaro. Nazdarovia, em russo. Parecido, mas não vá cometer e lambança de dizer que é tudo igual. Ofensa na hora de encher a cara pode resultar em um dente quebrado. Ou abandono. Zivelji em croata. Aí você deve estar se perguntando porque tantas expressões vindas do leste europeu. Deixa isso pra lá, come on!

Bebendo rum puro com a Larissa na Tailândia em uma sarjeta de Bangkok, fomos abordados por duas garotas.

⁃ Oh, vocês bebem muito!

⁃ Err, obrigado?

⁃ Não estamos acostumadas a ver uma garota beber assim com tanta liberdade. Temos até uma expressão para isso. Lumyong, significa moça bonita que bebe whisky.

Hoje é sábado, amanhã é domingo, nada como o dia para passar. Saravá, Vinicius. Como não sou uma árvore e não crio raizes – só razões – posso sempre me levantar e caminhar. E mudar, de cor, de opinião, de amigos e de motivos. Cobra que não muda de pele morre.

Um conto de Boston – parte 6

José Armando me deixou em maus lençóis. Depois do primeiro encontro casual, houve uma certa sincronia e passei a garimpar suas cartas com grande êxito. Vez ou outra ele se atrasou, mas nada que fosse como agora. Mais de um mês separou a quinta missiva desta que agora reproduzo, a de número seis. Como fiel observador de testemunhos errantes, não me entreguei de mãos beijadas. Insisti, saboreei cafés e terminei grandes obras. Sempre sentado naquele mesmo banco frio da estação de trens de Boston. De um salto surgiu, desvencilhando-se da multidão formicular o Pero Vaz de Caminha do autoconhecimento. Sorria e já sabia o que fazer. Deixou o envelope, deu um giro com os pés feito o Michael Jackson e saiu andando sobre a lua.

Meu querido João dos Prazeres,

Eu me casei e o coração agora sinto diferente. Por isso, andei ausente. Desapareci da estação, andei faltando ao trabalho, perdi a hora em manhãs seguidas e deixei muita comida queimar. Ando meio avoado. Não sei quanto a você, mas eu dei uma desencontrada ainda que, na ótica de Vinicius, a vida seja a arte do encontro. Não sinto falta de nada que um indivíduo possa enumerar como fundamental para a plena felicidade:

Amor de Eros

Amor de Philos

(continuo com minhas extravagâncias existenciais quanto ao amor Ágape)

Renda

Adrenalina

Conflitos (né?)

Aeroportos

E aqui faço honras: que santa mulher me faz companhia. Ama-me como marido e como amante, despe minha alma tão bem quanto o faz com meu corpo. Faz do nada, do vazio, um retiro de paz imperturbável.

Mas, continuo perdidão. Muitas questões se levantaram nas últimas visitas ao terapeuta. Fico aqui pensando: como será que você reagiu aos meus escritos mais estrambólicos? E, dada a certeza em ter esse leitor cativo, o que faz com que você volte outra e mais uma vez?

A paixão tem me bagunçado a cabeça naquele sentido perfumado da coisa. Apaixonado, planejo o mundo e cortejo a eternidade. Tudo com medida e método.

O doutor me perguntou por que eu insisto em manter contato com algumas pessoas, por que eu consumo substâncias entorpecentes concomitante a profissão da saúde, por que eu ajo impulsivamente com a raiva e tão racionalmente com a placidez. O gajo me indagou, ao ouvir a minha reticência quanto a alcançar um parente, se aquilo era sobre mim ou sobre ele. Puta que me pariu, que cara abençoado. Mais do que falar, sabe como falar. Direto, com seu olhar penetrante e impassível e sem a menor misericórdia.

Como eu gosto dele. Fiz uma auto-análise e cheguei à conclusão de que eu faço de tudo para que ele não perceba essa minha admiração. A bem da verdade, eu bato. Bato muito, o coitado se transforma em Judas aos meus olhos. Judas na sexta feira da paixão. Em Jerusalém. Minha orelha chega a esquentar.

Êxtase. O mais alto regozijo sinto quando ouço a minha mulher desmontar as considerações alheias que vêm embebidas em mesquinharia. Discorria uma terceira pessoa sobre issos e aquilos de sua viagem ao Havaí. À parte da introdução elogiativa sobre as maravilhas naturais daquele paraíso, veio um maremoto de etcéteras depreciativas. Tudo é caro por lá, o trânsito sempre está engarrafado, a comida é ruim. Eis que a minha dama retruca:

  • E as pessoas, como são? Você fez amizades?

Ah, quanta sutileza! Por essas e outras… bom, hei de ser sincero. Também pela sua bunda. Que coisinha!

Aqui, relendo o que acabo de escrever, notei que nunca fui tão bem comportado. Deve ser a medicação. Ou a saciedade. Ando fazendo todas as minhas vontades e, quando não faço, alguém o faz por mim. Acho que estou empanturrado e, por isso, vou escrever mais. É o meu alívio.

O distinto deve me perdoar, eu espero. Muita coisa aconteceu. O rio já não é o mesmo e eu me mudei. De agora em diante, o céu deixa de ter cor e eu assumo a luz de todo o universo.

O grande Eu Sou.

Um conto de Boston – parte 3

Penso que deve haver algo de grandioso neste salutar exercício de dar seguimento aos registros apócrifos que encontro, há três semanas, no mesmo lugar e por volta do mesmo horário, na estação norte de trens de Boston. Estava distraído me despedindo de Margareth e quase passei do ponto. Recomendava que ela usasse arnica em seu joelho em alternativa aos fármacos convencionais quando me dei conta que já tinha dado uns dez passos além do cantinho onde costuma estar a carta dobrada, com as margens puídas e letra garranchosa, um baú de intimidades recalcitrantes e confidenciadas sem pudor ou padrão ético. Despedi-me bruscamente de Marge e enviei minhas saudações a Donald. Virei-me e driblei a tropa de cidadãos que marchava impiedosa. Lá estava o pergaminho.

As semanas têm passado mais rápido ou é impressão minha? – existe papo de elevador mais enfadonho que esse? Eu sorri quando a moça exibiu toda a sua genialidade atemporal na tentativa de interagir comigo. Não podia perder a oportunidade. Respirei fundo e falei “sim, tem razão. É um fenômeno observado primariamente na Suiça, por uma junta internacional de cientistas dedicados ao tempo e suas ranhuras. Chama-se inter-relatividade de camadas bósicas não discriminada em funções derivadas, vulgarmente conhecido por subjetividade quântico-temporal.” Silêncio. O elevador apitou – plim! – e eu cheguei ao andar do laboratório de análises clínicas. A cara da garota era impagável. Se fosse uma pizza, seria meia indignação, meia dúvida. Será que eu falava sério? Os outros ocupantes da máquina ascensora estavam todos, ao exemplo da minha interlocutora, com os lábios entreabertos em espanto. Um senhor olhava repetidamente seu relógio de pulso e dava umas pancadas. Continuei sorrindo e saí daquele microcosmos de frivolidade. Estava livre do papo morto, mas ainda tinha o exame para fazer. A lei de compensação divina poderia muito bem equilibrar aquela cretinice com um diagnóstico positivo. Tem coisa pior que aguardar para abrir o envelope com resultado de exames de sangue? Tem, ah se tem. Presunção de conteúdo por livre exercício do pensamento. Gente que fala sem saber, na linguagem popular.

Tenho um vizinho que é muito divertido. Gosta de beber bebidas baratas e ficar embriagado. Quando compro alguma bebida mais cara e abro para nós bebermos, ele não se impressiona. Sujeitinho engraçado. Gosta de tecer suas opiniões e eu sou o melhor dos ouvintes. Absolutamente tudo o que ele reporta como suas ideologias é o oposto de sua conduta. Se ele fala que não gosta de futebol, eu rio. Domingo à tarde, posso ouvir seus gritos apaixonados enquanto assiste a uma partida qualquer. A contradição me encanta. Ele se diz anti-capitalista, no entanto… recebe um salário mínimo. Acho que os paradoxos, esses caprichos de arquétipos não previsíveis, inconstantes e fronteiriços, nos unem de uma forma sutilmente comprometedora.

Ontem à noite levei muito tempo até conseguir adormecer. Alguém no prédio ouvia Madonna no último volume. Deve ter riscado o disco. Eu gosto da Madonna, ela tem garra. Antes de ficar famosa, posava nua para artistas. Fotografaram, pintaram as suas curvas e também aquela pinta que ela tem acima da boca. Que sorte a desses caras. Será que ela também realizava alguns favores íntimos em vista de uns trocados? Tem um cara muito bacana, polêmico (ao menos lá no Oregon hehe), uma espécie de guru indiano que manda bem nas colocações. Ele se chama Osho. E Osho disse que “toda vez que ele encontra uma prostituta, ela quer falar sobre Deus e sempre que se reúne a um homem religioso, ele quer falar sobre sexo.” Tudo o que nós negamos a nós mesmos se torna a nossa prisão mental. A renúncia aos desejos não é um caminho fácil para a felicidade. Tenho grande apreço pelas profissionais do sexo, conheci algumas. Já namorei uma. Gente que suporta humilhações, situações desagradáveis e extremos cotidianos em troca de dólares. Quase igual à maioria da sociedade trabalhadora, só que com a diferença de um genital a mais entre as pernas.

Salvei um cavalo no meu último aniversário, um cavalo da polícia montada. Chovia bastante, eu estava encostado no balcão de uma cafeteria. O rapaz que manuseava a máquina de espresso usava um avental de sarja, levava uma boina mostarda de couro de porco na cabeça e óculos sem armação pendurados em um nariz que fazia sombra ao bigode longo e redondo que lhe cobria os lábios. Ele tinha um pano de pratos branco no ombro direito que a toda hora usava para enxugar copos e xícaras. De repente, parou e desarmou a empunhadura de secagem. Ficou com os olhos bem abertos, como a sua boca, olhando para a rua exibida pela fachada de vidro da pequena lojinha. Estava de costas e me virei. Um grande, todo paramentado cavalo empinava as patas em plena avenida. Que cor linda, aquele negrume retinto que reluzia à luz dos relâmpagos que iluminavam o céu. Assustado, o animal relinchava, sacudia o corpo e ameaçava uma tragédia. Eu estava só, bebendo meu café em paz. Os carros buzinavam. Aproximei-me da porta, abri, vasculhei as redondezas e não vi ninguém vindo em socorro. Tirei minha roupa – calma lá, fiquei de calças – e caminhei até o bicho. Sei que não se deve encarar um equino direto nos olhos, mas eu queria sentir a dor dele. Queria decifrar seus pavores, o que havia levado àquele rompante histérico, àquele vexame público. Fui chegando e conversando com ele: “Hey Timothy, calma aí cara, tá tudo numa boa.” Ele gostou do nome. Tim relaxou, eu tomei suas rédeas e o conduzi à calçada. Fazia carinho nos seus pêlos úmidos e coçava seu pescoço. O público gritava, aplaudia. Eu tinha salvado o dia. Logo surgiu uma policial mulher, na sua farda azul escura decorada com a vergonha de uma falha tão monumental. Como ela havia se descuidado daquele bem tão precioso? O sorriso amarelo era o suficiente. Não precisava lhe dar nenhuma lição de moral, afinal, submeter outros ao ridículo é um pecado grave. Eis outro mantra. Sofri com o cavalo a dor de ficar exposto, desencontrado, ansioso. Vulnerável. Que história, não? Parece até mentira, mas não é. Voltei, ensopado, para o café. Não precisei pagar a conta. Sensibilizei-me com o bicho, sensibilizaram-se com o animal aqui.

Tive dores na semana passada, atrás da perna. Surgiram após uma noite de excessos. A investigação foi frustrante porque não podia indicar uma razão plausível para as pontadas que em dois dias passaram. Delírio? Ilusão? Negacionismo? Cerveja gelada. Bebi para passar. Funcionou. Pensar não é pop. Cerveja é pop. Para dores, pop culture.

Não fui ao encontro do terapeuta. Ele que veio até a mim, o desavergonhado. Se eu fosse uma casa com a maçaneta trancada, ele seria o pé de cabra. Aliás, justiça seja feita, ele não é terapeuta e sim médico. Médico psiquiatra. Eu achava que uma coisa levava à outra. Queria que ele me levasse a algumas drogas, hahaha. Gosto demais do sujeito, ele tem fome por provocação. Isso é tenebroso e audaz, uma arte que torna a conversa mais saborosa, instigante, espontânea. Falo vários idiomas, dentre os quais o anglo saxão. O doutor fala inglês, ora veja só. Percebi que não falamos a mesma língua. Dia desses ele se interessou por obras que eu ando lendo. Fez algumas perguntas e eu as respondi. Sabe aquelas impressões pessoais sobre algo que você tem contato? Pois então, são como um couvert de restaurante com azeitonas, pão e salaminho. Abrem o apetite mas, para matar a fome, tem que se pedir o prato principal. Eu dizia:

– Bukowski era um gênio da escrita simples e envolvente, aquele velho desgraçado.

– Curioso que, dentre tantos expoentes românticos e floreios realistas, você opte por se projetar naquela crueza porca. O que resta?

– Devagar…

– Exato, por que será que a fraqueza de se ver assemelhado a algo tão pouco nobre incomoda?

– Devagar…

– Posso divagar mais, muito mais.

– DEVAGAR!”