Amém

Amanheci na mais profunda ressaca. Tomei quatro garrafas de cerveja, ontem, em curto espaço de tempo. As cervejas eram IPA e a graduação alcoólica era alta. Desprendi-me do meu próprio corpo e antes de dormir pus pra fora boa parte daquele líquido. Acordei sentindo-me como uma lâmina de bacon fritando na frigideira. A boca ressecada, com aquele sabor azedo do ácido clorídrico que expulsei em violentas reações do trato gastrointestinal.

Um descalabro para sexta feira de manhã. Não tive tempo de tomar café da manhã e segui para o trabalho sobre a minha bicicleta ardendo sob o sol da Carolina do Norte. Estou velho e a recuperação é lenta. Mas esse post não é melancólico, bukowskiano ou pendendo para a tristeza. Foi só um erro de cálculo ontem à noite, nada de mais.

O que eu quero contar é sobre o número expressivo de americanos que, durante essa primeira semana do mês de setembro do ano de 2019, estiveram aqui no restaurante para não só me apresentarem a palavra de Cristo como para, especialmente, perguntarem se eu autorizaria que rezassem por mim.

Oração, assim como canja de galinha, não faz mal a ninguém. A minha resposta é sempre sim.

Comoveu-me esse casal, Rosalie e Ted, que hoje perguntaram se eu me ofenderia por eles quererem rezar junto a mim após desfrutarem de uma farta refeição que os servi. Demos as mãos e eles agradeciam a todo tempo pelo Senhor ter me apresentado a eles dois nesse dia de sol após a breve passagem do furacão Dorian pela cidade. Onde eu moro foi uma ligeira visita da tempestade, mas eles vivem na praia e vieram pra cá até que as coisas se normalizem por lá.

Apenas conversando e compartilhando a minha paixão pelo ser humano ao optar, durante todo esse tempo de estrada, por estar sempre ladeado por gente agradável e que gosta de trocar experiências, os dois se emocionaram e repetiram que eu era uma benção na vida deles nessa sexta feira.

Eu considero que eles também são uma benção na minha e, de imediato, agradeci a singela e tão gentil forma de demonstrar amor em forma de oração.

Ainda hoje, logo nos primeiros momentos após abrir o restaurante, um outro rapaz perguntou se havia algo acontecendo que ele pudesse ajudar, pois queria orar por mim em retribuição ao quão solícito eu tinha sido. Respondi que tudo ia muitíssimo bem em minha vida e que, apesar de não precisar, me sentia grato pela gentileza e que sua oração era muito bem-vinda.

É isso: o meu não-teísmo não me obriga a ser um combatente da fé alheia. Estou em um estado conservador e a presença da disciplina cristã é massiva. Trabalho com muçulmanos e compartilho de suas tradições de maneira respeitosa e admirada.

Dá pra tirar muito proveito dos ensinamentos que as pessoas que vivem religiosamente distribuem. Mas cuidado, estou falando dos que são sérios quanto as suas crenças. Não me reporto aos charlatões e aos sovaqueadores de Bíblia, aquela gente decadente que leva a religião como rótulo de um produto que não condiz com o que se exibe. Essa é a escória.

Se tirar o acento agudo da palavra amém, fica amem. Pronto, amem, a si mesmos em primeiro lugar e ao mundo e suas variâncias.