Polegadas

Maria foi uma boa esposa durante uma das quatro estações do ano. Casou-se com Alfredo apesar do nome em desuso. Ela imaginava como foi a adolescência de um garoto chamado Alfredo e ele elucubrava como teria sido a infância dela sem pai. Cada um nos seus pensamentos particulares, porque eram ofensivos demais para servir à mesa. Maria não andava bem e esquecia a tampa do vaso levantada. Maria dormia com a boca aberta e roncava, mas Alfredo achava aquilo fofo. Fofo, mas insuportável, por isso ele a cutucava com o cotovelo. Casaram-se no outono, quando as folhas caíam. O caminho era poético, na antessala do renascer florido. No inverno, Maria não aguentava. Suspeitava do marido e roía as unhas que já eram curtas. Feria as cutículas e então tomava vinho. Alfredo a encontrava bêbada, desacordada, reclamando do vizinho. Ela sequer conhecia o vizinho. Moravam distante da família e não havia corrida para colo nenhum que resolvesse. Eram os dois, um para o outro, não importa o que acontecesse. Alfredo a amava e o amor é aquilo que o aquecedor faz nas noites mais frias, mesmo que o motor, toda a engenhoca que faz a coisa ficar quente, permaneça no lado de fora da casa sob um rigoroso frio. Maria era doce, uma menina, tinha os pezinhos tortos e os dedos compridos. Nasceu para ser menino, mas Deus quis diferente. Ainda bem, porque Maria era linda com cabelos que pareciam fios de linho. Alfredo se sentia completo, mesmo com as neuroses de Maria. Neuroses são essenciais ao negócio humano, dizem os psicanalistas. Opiniões, como cachos de banana, crescendo a torto e a direito como se o mundo fosse adubado por inteiro. Maria passou a suspeitar que Alfredo estava tendo um caso com alguém do escritório. Ele era funcionário público, batedor de carimbo, um daqueles de futuro, mas com todo o tédio do mundo. Saía cedo e levava a comidinha que seu amor preparava, mas então, com o diabo a lhe sussurrar diabruras, Maria parou. Simplesmente parou e escolheu a TV. O marido notou e reclamou, mas Maria alegou tontura. Disse que o alho queimava as mãos, que não suportava mais o cheiro de fritura. Alfredo, resignado, saía de mãos vazias. Trabalhava feito um condenado para que o dinheiro rendesse uma casa própria. Maria assistia ao televisor com a mente suspensa. A televisão não exige pré-requisitos, não exige sequer inteligência, a televisão só necessita ser ligada e Maria sabia bem apertar o botão vermelho. Maria poderia trabalhar em uma usina nuclear para deflagrar o alarme de desastre. Oh, Maria. Em uma manhã, ela acordou e se sentou em frente ao aparelho. Desligado, era como um negro espelho. Assistia a uma programação idiota, típica de geração vazia. Assustou-se com o estampido de uma música trágica que comunicava o impossível. “Interrompemos a programação para um anúncio especial” disse o âncora. “Devido a forte nevasca, os bombeiros têm dificuldade em acessar o prédio central da administração pública onde um incêndio sem precedentes derrete as colunas seculares”. O mundo de Maria naufragava, mas havia um âncora. Ela levantou e, nervosa, só pensava em fogo, no Alfredo, nos cigarros que ela tanto gostava. Maria subiu as escadas e bateu na porta do quarto onde o marido dormia. Ele caíra doente e dormia em um quarto separado para poupar a esposa da tosse renitente. Bateu com o polegar, como se surrasse um pandeiro. Maria não batia bem. Não houve resposta. Desceu as escadas e grudou no telefone. Ligava insistentemente para o escritório onde o marido trabalhava. Ninguém atendia, deviam estar todos mortos com a fumaça, ou pior, queimados. Maria enfiava os dedos nos cabelos e não sabia o que fazer. Conferiu a garagem e se espantou, pois o carro dele continuava lá. Tornou a subir as escadas, a bater com o polegar direito na porta branca e a chamar por Alfredo, Alfredo. Oh, a constatação! Se Alfredo não estava ali nem no serviço, só poderia estar com a amante. Nem a

neve poderia esfriar sua espinha mais que aquele pensamento. Maria entreteve a ideia e não viu saída. Fugiu de casa, usando o carro do marido. Maria aprendera a dirigir recentemente, mas a ira a guiava. Foi a um bar e pediu bebida. Serviram. Bufava e tremia. Não demorou até que um sujeito se aproximasse e procurasse ouvi-la. Existem mais homens bondosos, nessas horas, do que há certezas nesta vida. Maria vomitava o carrossel de mágoas e o cara, com a cabeça, assentia. Maria não parava, falava mais do que devia. Aos poucos, mesmo o sujeito da malícia, o garçom e os outros homens que ali bebiam se afastaram. Mas era um bar velho, sujo, daqueles que têm buracos na parede. E em um desses buracos tinha quem a ouvia. Uma barata e um rato, imóveis como se paralisados pela estricnina. Maria notou e não se intimidou, discursou para a baixa prole dos seus desejos de patifaria. Bebeu e praguejou e se levantou bastante zonza. Ninguém ajudou, eles queriam que ela se fosse. Maria entrou no carro e deu a partida, mas não conseguia ver. Havia neve sobre o pára-brisa e ela então ativou o limpador. Aguardou que a brancura se dissipasse e julgou, a inocente, que via plenamente com capacidade de uma águia careca. O carro patinou no gelo liso mas Maria, embriagada, julgou que tudo ocorria bem, da mesma forma que saiu de casa. O automóvel replicava as pernas da esposa desastrada. Na casa, enquanto isso, Alfredo destrancou a porta e pisou na sala. Não havia barulho, não havia nada. Apenas a TV ligada e um noticiário mudo. Ele mirou o quintal branco e a beleza da invernada. Torceu para ver uma raposa, um veado, um feixe de Sol naquela manhã castigada. Fez café e deu falta de Maria, mas pensou que a amada estivesse no quarto lendo ou coisa que o valha. Alfredo, segurando uma caneca azul, sentou-se no sofá e aumentou o volume do televisor que mostrava imagens de um fogo imenso, mas que não conseguia distinguir onde se passava. Foi interrompido por um anúncio urgente dentro da programação urgente que retratava uma outra emergência. “Interrompemos a programação especial para outro anúncio especial”. Alfredo recostou-se para acompanhar. “Uma caminhonete, placa RDC-8240, chocou-se contra o prédio em chamas da administração pública. Os bombeiros informam que não há sobreviventes, embora não tenham certeza de quantas pessoas estavam no automóvel”. O prédio era onde ele trabalhava. A placa era a do carro dele. Aflito, Alfredo levantou-se num salto e derramou café quente. Ele pensava sobre aquilo e não sabia o que fazer. Ele queria saber se alguém estava no carro com Maria. Alfredo estremeceu. Polegadas de neve impediam a saída e ele arrefeceu. Aquele era um sábado, ele não entendia como o incêndio começou, por que tudo acabou em fogo e por que ela o trairia.

Piedade de nós, desatados

O leite materno é uma das maravilhas da existência terrena e existe íntima relação entre o bom andamento da vida de uma pessoa e seu tempo de amamentação na primeira infância. Somos mamíferos por definição e, como tais, dominamos o planeta. Sugar da fonte de nutrição que nos é ofertada cria raízes imunológicas inabaláveis. Mamar nos liga ao ser que gerou e nos trouxe à luz da realidade. Mamei até os dois anos e dois meses, exatidão atestada por uma mãe orgulhosa - e cansada. Tentou de tudo, a coitada, para me fazer desapegar do peito. Babosa, adesivos de silicone, viagens sem despedida. Ao regressar de uma quinzena de dias, na distância dos confins da esquina leste do país, ouviu a demanda do pequeno rebento tão logo a porta se abriu: "quero mamar!". Mamar fortalece os ossos.
Escrevo com dificuldade, colidindo os dedos repetidamente contra o teclado. Não há o glamour de dizer que sento em frente à máquina de escrever como os escritores de antigamente mas, por outro lado, há a conveniência de poder registrar pensamentos em qualquer lugar e a qualquer momento. Meu bloco de notas cabe no bolso e não precisa de caneta, porém a duração da bateria é sempre um empecilho. Faz frio na manhã de hoje, tais quais em todas desde que cheguei a esta casa. O ar gelado é o mesmo da fatídica noite quando sofri o acidente, mas a companhia já não é a mesma. Naquela noite eu pensava ter alguém e hoje, sentado em um sofá de veludo, tenho a certeza da solidão. Escutei coiotes na noite de ontem e também uma coruja. A sinfonia da noite escura com seus animais sagazes lembra o comportamento das pessoas que agem na surdina. Continuo com a geladeira cheia, com as cervejas sobrando e o vinho, solícito, aguardando a vez de ser tomado. Santo remédio, o suco fermentado das uvas.
Eu fazia bico de segurança em um bar e as coisas eram para ser como sempre eram, artificiais e simples e tranquilas e nojentas, sim, porque limpar banheiro de festa após 200 jovens mijarem até no teto é aborrecedor. Eles e elas vomitam, cagam na borda do vaso, cheiram pó, levam garrafas clandestinas de bebida e as deixam vazias por todos os lados. As mais assanhadas apertavam minha bunda e eu olhava para trás para encontrar um mar de mocinhas loiras, esbeltas, com olhos azuis e sorrisos de simpatia. Elas queriam fazer amizade e davam o primeiro passo tocando os meus glúteos. Eu queria que elas fossem embora o quanto antes, eu pudesse pegar o meu cheque e voltar para o universo pragmático de trabalhar, comer, dormir e repetir o mesmo dia uma centena de vezes. Fazia cara de mal para que me respeitassem e isso sempre funcionou. Além do que, solteiro eu não era. Ponto para os registros biográficos do bom cidadão. Até que surgiu um tal filho pródigo de um pai rico, branco como deve ser todo rebelde sem causa. Bigode de motoqueiro enrustido e atitude de quem cresceu com o sucrilhos sempre à mesa. Alcoolizado, o rapaz foi escoltado por mim para fora do bar mas, durante o trajeto, agitando os braços de atleta amador, golpeou-me e, assim, perdi a consciência. Uma tragédia, se não de fato, mas pessoal. Fui alvejado e caíram sobre mim as desgraças. Dali direto para o hospital.
Aguardava a minha vez, a vez da entrevista de acolhimento. Da recepção para a triagem. No salão imperava a quietude mórbida do ambiente gélido onde a morte ronda arrastando seus grilhões. Falávamos inglês, mas um pequeno folheto garantia o direito de solicitar um intérprete para qualquer língua. Eu só falava merda naquela noite e duvido que alguém fosse fluente por ali.
- Nome completo?
- Aquiles Guedes Rapassi.

Ela era simpática, magra como a Olivia Palito do Popeye.

- Data de nascimento?
- 05/08/1986.
- Oito de maio de 86?
- Oh, não, me desculpe, Angélica. Esqueci que estou nos Estados Unidos. 08/05/1986. Sou de agosto, mês do cachorro louco.
- Cachorro louco? O senhor está bem?
- Deixa pra lá, acho que vocês não tem esse ditado por aqui.

Muita coisa ela não entenderia, mas o que é que me restava? Fazer cara de coitado para alguém que lida com coitados durante turnos de 24 horas?

- Fumante?
- Não. Digo, fumante do quê?
- O senhor fuma cigarro?
- Oh, não, Deus me livre.
- Álcool?
- Sim, por favor.

Ela riu. Ela aceitou minhas gracinhas. Em situação de miséria, o que se quer além de misericórdia?

- Sim, senhora. Bebo às vezes - eu disse.
- Peso e altura?
- 89 quilos, 1,90m de dia, 1,88m à noite exceto na balada. Nas festas eu tenho 2 metros de altura. Você sabe, a gente diminui durante o dia, mas cresce quando é preciso.
- Certo. Sofre algum tipo de violência em casa?
- Minha esposa às vezes não me espera com o jantar pronto.

Ela riu de novo. Eu estava desesperado. Mal sabia eu que era sequer a primeira onda que me atingiria. Aquilo era uma simples marola. Sentia que descontrair com a enfermeira era a melhor saída. O cérebro humano se apega à chance de distração em face do sofrimento. Eu faço parte da regra. As enfermeiras, tais quais as aeromoças e strippers, compõem o grupo de profissões que todo homem julga ter chance de conseguir uma tal conquista relâmpago. Acontece mais frequentemente com as dançarinas. Poucos homens têm sucesso na empreitada.
Tomou a temperatura, a pressão arterial, anotou a frequência cardíaca e me mandou de volta à sala de espera. Apesar do galo enorme que surgiu no topo do crânio, a cabeça não doía. A nuca não doía. Nada doía, exceto as mãos. Meu instinto sabia o diagnóstico, mas a visita ao médico era obrigatória. Estava ali pelo respeito aos protocolos. Bem, não é assim tão simples. Quando a água bate na bunda, você pensa na família, nos parentes, naqueles que podem vir a sofrer com seus problemas. Você toma decisões baseadas em terceiros, tipo quando, mesmo a donzela dizendo que não está com fome, você compra mais comida porque sabe que ela vai sim querer.
Os sinais aferentes viajavam de neurônio em neurônio, via sinapses, e informavam meu cérebro que algo mais grave tinha ocorrido. Um formigamento interminável castigava os dedos e a pele passara a um estado hiper sensível. Tentei lavar a mão antes de vir ao hospital. A água fria da torneira queimava como ácido. Oh, céus, incendiava. Doía como dói a noção de que aqueles que amamos tramam contra a gente em plena madrugada. Enquanto o médico não me chamava, fiquei à deriva no salão oval, com pessoas que tossem, pessoas que gemem e pessoas que dormem. Um casal chegou e comunicou que fala apenas a língua espanhola. Ela está grávida e a barriga pende quase tocando o chão. O marido carrega a bolsa da maternidade preparada para o grande momento. Ambos não sorriem. Presságio?
Refaço as cenas que estão na memória. O instante em que senti o choque elétrico e a queda no solo. As pernas bambas, a incapacidade de me levantar. Nocauteado pelas costas, deficiente temporário. A humilhação de não conseguir me pôr em pé incomoda-me para sempre. Pobre desgraçado. A vista embaralhada. Enfim, consegui. Seguraram o agressor e a polícia veio. O filhinho quis colocar a polícia em contato com o papai. Eu assistia toda aquela cena desprezível com uma certa confusão mental. A pancada reiniciou meu cérebro e eu pude sentir isso. Ali estavam dois policiais a cercar o agressor, um moleque grande com queixo de três pessoas adultas somadas. Bêbado como elefantes da África, tentava se levantar e era posto sentado à força pelos homens da lei. Era apenas outro sujeito mimado, com bigode ilusório de uma maturidade inexistente. Ordinário, um bezerro que clamava pelo rebanho. Se ele merecia um corretivo, seria da parte do destino, porque algo de incomum tomava-me a consciência. A paz, a paz incomum que despontou no peito. Não me irritei, não senti o sangue ferver. Eu pensava em quebrar seu joelho direito com um pisão frontal, mas por defesa própria. Na verdade, só queria voltar para casa, deitar no sofá reclinável com um balde de frango frito e um refrigerante à mão. Eu queria ver filmes e tergiversar sobre a vida e os planos futuros, queria uma companhia leal naquele e em todos momentos. O que eu tinha eram tremores e desconfiança.

O médico chamou, mas a enfermeira não me deixou andar. Empurrou a minha carcaça em uma confortável cadeira de rodas. Oficialmente um inválido, ainda que momentaneamente, mas vergonhosamente subjugado. Doutor Cooper, nome de médico de seriado. Plantão médico. Gostei, me inspirou a contar a história. Dá charme ao texto. Doc Cooper, gente fina, andava com seu jaleco branco e um estetoscópio pendurado no pescoço. Gravata listrada, azul e vermelha. Um patriota, herói, com certeza tinha história para contar, algo do tipo ele ter salvado um batalhão inteiro na guerra com simples infusões de soro caseiro usando um canudo e bexigas de festa. Doc Cooper, cabelo alinhado com pomada de efeito matte e bebedor de chá ao invés de café. Eu conseguia sentir, era um homem de classe. Eu queria ser seu amigo porque, é claro, eu seria a maçã podre para desvirtuar. Se fôssemos camaradas ele deixaria de visitar a igreja batista nos domingos pela manhã.

Pediu exames, lamentou a situação e comunicou sua solidariedade. Ouviu meus palpites e achou plausível. Os resultados vieram e eu estava certo. Impacto no topo da cabeça, efeito chicote da musculatura que protege as vértebras cervicais e uma compressão anormal que leva ao pinçamento das raízes nervosas que irrigam os membros superiores. Por isso as dores, por isso a sensibilidade. Diagnóstico tranquilo. Edema esperado. Sem fraturas, nada de grave. Mas, com toda sua habilidade e sapiência, o Doc Cooper não poderia explicar minha calma. Aliás, desde o primeiro momento, todos os envolvidos elogiavam exaustivamente minha tranquilidade, como conduzi a situação. Tocavam a cabeça do leão e diziam "bom menino, bom menino". Insólito pássaro de asas cortadas.
O diabo em meu ombro direito assopra ideias de vingança, de ódio, de forma que eu possa encontrar fomentar a ira. O diabo do outro ombro enaltece o respeito à lei por não me rebaixar ao nível do agressor. São dois diabos, afinal. O que é que eu quero com isso? Já me basto a mim mesmo.

Agora tenho uma lista extensa de remédios para tomar, inclusive opióides. Continuo dócil e devo intensificar a doçura com as drogas prescritas. Concussão não é motivo para ficar em casa e o doutor Cooper me deu apenas um dia de licença médica, que piada. Não me vem nenhum lampejo negativo. O que é que há? Perdi o jeito?
Só me resta não deixar a mente vazia. A sensação de impotência bate à porta do raciocínio. Mais violência? Mais? Um ciclo infinito de guerra? E continuo sem vontade de me alterar. A porção anticristã que habita meu ser provoca com acidez:
- Levou porrada e ainda deu a outra face? Quer ser canonizado?
Um processo interno de julgamento e contestação quer se prolongar dentro da psique. Mas essa cabeça não é a oficina de nenhum capeta. Engulo as hidrocodonas e o remédio bate rápido. Que coisa maravilhosa, que leveza, que alívio. Em relação à dor que sinto nas mãos a droga tem pouco efeito, mas a chapação que causa é de se considerar. Já não me importa que perderei dias de trabalho, que mal consigo tomar banho ou limpar a própria bunda. Tenho ópio para compensar a falta de ódio. É isso aí. Leva oito horas pro efeito chegar ao fim. O corpo acostuma fácil. Que decepção. Fazia 13 graus naquele 13 de novembro. Não recebi cuidados, ninguém cozinhou uma canja e desejou melhoras. Eu me tornara, oficialmente, um ser abandonado. Os dedos continuavam a arder e me faziam ver estrelas.
Dois meses depois, tudo está de volta. As dores, o desânimo mas, acima de tudo, a indiferença alheia. Foi tudo em vão. Gostaria de ir ao hospital só para brincar com a enfermeira e fazê-la rir. Nenhuma indenização foi paga, ninguém se importou. Ainda bem que eu mamei muito e os ossos cresceram sadios, duros, grossos, a ponto de resistir às agressões. Quem dera o coração fosse nutrido pelo leite materno!

Nos ouvidos, a água causa dor

– Vai se matar?

– Tenho pai e mãe ainda vivos.

– Não foi essa a pergunta.

– Estudei o Mito de Sísifo.

– Pode ser mais claro?

– Sou obrigado.

– A me explicar o que quer dizer?

– A dizer que o melhor cookie do mundo é vegano, você acredita?

– O que isso tem a ver com a minha pergunta inicial?

– Hoje é dia noturno, não há sol que possa iluminar.

– Qual dor é essa?

– Daquelas que ardem sem se ver.

– Isso é Camões?

– Sim. E não haverá mais piadas com mamão.

– O que está acontecendo?

– Não adianta tentar explicar, Inês é morta. E isso também está em Camões. E, sabe, Camões está em nós.

– O que você tira disso tudo?

– Eu posso ouvir. Há o tique-taque incessante, mas não há relógio em vista. Só há o som, o inexorável. Galopa o cavalo do apocalipse sem sinal de cansaço. É o destino do universo a contração, a expansão, a criação e a destruição. Não há o que não acabe e não existe o que não estrague. Bom, menos o mel. A doçura única da natureza que não tem data de validade desde que não seja contaminado. Que coisa essa. É por isso que é tão sério escolher honey para chamar alguém de sua estima. Não usar o substantivo em vão, um dos mandamentos.

– Como você está se sentindo?

– Com vontade.

– De quê?

– De acabar com tudo, por um fim em tudo, deixar de ser tudo.

– Está bastante confuso.

– Basta bloquear ou ignorar. As similaridades com seus monstros são o que mais lhe compromete a convicção. Atacar é verbalizar as semelhanças. Tempos líquidos, amores líquidos.

– Supere!

– Mais alguma ordem ou sugestão?

– Não, só a mesma indagação. Você vai se matar?

– E o que resta para matar que já não esteja sem vida? Carne fria, decomposta, mente de lembranças pálidas. Se o coração bate é por involuntariedade. Os pés doem porque tem de suportar o peso. Olhos veem e enxergam, mãos procuram mas não encontram.

– Então, o quê?

– Citar Manuel Bandeira.

– Dizendo?

– A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

O hey o

Roy had a car accident this week. Or last week, I can’t remember. The days go on and I lose track of time. My head is okay, my lungs are okay, my heart is okay, even my spine is okay. My mind is not, it floats on different moods throughout its journey. Like a river, it feels going down with the current, often being pushed to the shore. One gotta master buoyancy in order to stay in the very middle of the river without fear of drowning. There are curves on the river length, there are fallen trees in the way, there are the most dangerous things too – shallow and murky waters. From time to time, a fish breaks out the surface and flexes its shining body before returning and disappearing into the vast realm. Those fishes are like ideas that visit my mind and ring the bell giving me a few seconds to open the door before all of that vanishes into the void of consciousness.

We were in Ohio two weeks ago, his homeland. Roy Dan, my best friend. I would never plan a trip to Ohio on my own but there goes my motivation to travel: friends. So, there I was in the midwest surrounded by corn crops and silos and gray skies and pale vegetation and amish people. How exciting it is to see people rolling around on their carriages, which they call buggies. No modern tools, just living life in a way they use their skills for the benefit of others. Amish in the average people’s language is called utopia. Pretty much like maturity for youngsters.

Even though Ohio State could have many arousing attractions, I was there to meet Mama Bear. The woman who brought to this world Raquel, Roy and Aaron. Her name is Joyce. Of course, she’s a joy. She laughs unconditionally. Good morning, Mama Bear – and you get an extended laughter back along the greeting. We were there to celebrate the winter solstice, so she took all of us on a hike. In cold times all that you see is ice and yellowish leaves. Mud steps, dark soil and birds chirping in the distance, gossiping about how pathetic humans are with their winter clothes. A school of deers showed up jumping. Joyce is a teacher and that is what she does, she teaches, she guides, she shows the way, she educates. I was happy to be in a family like theirs. There was no father around. A generation of men raised by women and fulfilled with the purest love. They were the lesson itself.

Joyce asked us to pick something from the trail. Everybody did. The sun was going down and we praised it as it must. That felt like a real purpose, you know? You can see the sun, you can see what it does to life and what kind of hope it brings. The sun is the materialization of God and you can derive your thinking as much as it pleases you. The sky had blue and gold and red and pink colors mixed. We stood on tiptoes to catch the very last glimpse of the reigning star. The sun light, the water, the fire, the air. Anything else is auxiliary.

We were on our way back to the car and I still didn’t have anything for myself. The abused mind wants to prove something and the search goes unnaturally. I thought about taking a bark piece from a tree. I would talk about my skin, my first layer of physical protection and how, even looking old and moldy, it still nurtures the whole plant. That was not how the game was designed, I was making up stuff, what a shame. Then, I saw it. Like a crown in the middle of long dry leaves. Every single thing in that field was taller than me and I had to open my way, like a forbidden love, in order to reach it.

Back home, Joyce had bought some fine steaks for our special night. Roy and I made the fireplace real. Everybody else was in the kitchen taking care of the salad and preparing the risotto and mixing meaningful thoughts. Holidays, as illnesses, bring the best to people’s hopes and words. We got together around the fire and everybody said, one by one, what their resolution was for the next year. It must be something that would help to heal the planet. I promised to pay attention to my consumption and this is it because I can’t fake being so worried about the environment. I just can not. At the same time, consumption is something that bothers me so, honestly, I will stick to that purpose. Kate will make her own detergent, Aaron will reinforce recycling, Quel wants to waste less. Roy, my dude, wants to take down the system and he needs someone to join him on pipeline sabotage. Oh yeah, he never disappoints. That is the kind of resolution nobody is expecting. After that, Joyce invited us to show our special findings from the hike. She had dried flowers and dried sticks combined to show the power of togetherness. What a thoughtful way to show us how deep and beyond time that gathering was. Everybody listened carefully. Joyce would smile after every two words, such a sweet woman. I bet she has honey instead of blood on those veins. A consumed lumber broke in half and almost set Kate’s dress on fire. The fire spikes were flying over us and I wondered if family hatred would ever end. Asking for a friend.

Aaron and Kate and Roy and Quel waited patiently. I was the second on line and showed everyone my thorned flower. Everybody had a glass of wine, but it was only me drinking it with despair. “I was walking in the woods and could not find anything to pick up when I saw, suddenly, those naked petals standing by sharp shells. It means a lot to me, representing the beauty and sweetness lying inside the danger and pain.” Those were my words and I made it simple and short to avoid my eyes from crying. Men should not cry. Elephants must not be heavy. 

It took me a lot of courage to say that. I bet it was easier for the others, as they were more used to Mama Bear’s dynamics. The talks went about being conscious of the planet, respecting each other and recognizing others’ flaws. It all embarrassed me inside like holding farts. You release your farts in that family. We stood admiring the fire and feeding it. There is something about fireplaces that works the same about feelings: you need to feed it.

The fire was on point and the funny thing was the fireplace itself, which was about to crash completely. The barbecue pit was in the backyard and it had a lot of leaves and branches on the ground to serve as a fire feeder. I told them that it was time to cook the best steaks of their lives. They went back to the dinner table and I placed the prime meat on the grill. Flames licking it from below and the clear dark sky witnessing it. I was alone with those bloody tender pieces and all the predators in the neighborhood could smell it, I am sure. Are there any? When it was all ready, I headed back to the house. Faces telling expectations. Mama Bear asked me to have her steak a little less rare so I went back outside. The flames made me feel good, burning not only the meat but also my pride. I wish I could be buried in Ohio so Mama Bear would bring me flowers every August the 5th. Brought her meat back and she was delighted. We cheered. The cats and the dog were around the table seeking for a drop of human kindness or human lapse so they could steal a bite. After the meal, everyone exchanged presents. I did not, because I was not aware of the tradition and may the spirits forgive me. Mama Bear gave me a beautiful bag with cattle painted on it. Inside, chocolate, caramels and wool socks. Perfect! I am going to Colorado and that place will be freezing. Is it a reality wool socks for the heart?

Woke up next morning to a text saying “I am with Peter having tea, come on!”. I stood up and looked through the window. Two barefoot guys were sitting in a lotus position over the sea of dried maple leaves. Got inside my jeans without taking my sweatpants off and went down there. Oh boy what a time to be alive. Peter, Roy’s cousin, is a wizard, a guide, a master, a kind of Gandalf of the lost lands. Something about him made me feel home. We started sharing thoughts and visions. He will soon go to China and learn how to zen himself in a Kung Fu temple. How beautiful life can be. We were drinking some kind of black tea and that scared the shit out of me because I thought it was mushrooms. It was not, actually. We were just warming ourselves up with hot beverages and proving fresh friendship at the source. To my surprise, Peter took out of his pocket a bag of mushroom infused chocolate. I was not expecting that but I was glad. Even though that fear was consuming myself, I could feel the medicine connecting to me. Roy and I swallowed it and Peter managed the words. The light stream between the trees felt like strings and the wind sounded like whispers of I am coming, I am coming. They could tell my inner desperation and the conversation went smoothly. I felt like a bug using the mushroom as a shelter. It could be my forever home.

“You smell like a brother” –  I said to Peter. Yes, brothers have a smell. That’s how wolves recognize each other and that is exactly like I found my tribe. We hugged each other and Peter jumped the fence leaving the premises. I got to my phone and called everyone I care for. I love you, forgive me, stay with me – words of inside. Mushrooms make me say things without filtering and I love it. I feel like the most honest man on earth.

On the next day we went to visit Roy’s grandpa, Mama Bear’s dad. A farm, full of cows and a beautiful family. Kind words exchanged, sincere smiles. Treating elders with love is a good way to feel love growing inside of yourself. I drank milk straight from the white and black moo-moos. More fresh, impossible. I love milk and I am not scared of being judged.

While I write these lines, Roy is in front of me. He just got news about his car. Insurance will not pay, there’s a fee for the towing company. Considerable fee. By day. Today is Friday and they return on Monday. Fucking fees and careless drivers. A vile feeling grows and the sky loses its virginity. Are the goddesses playing a dirty game? Nothing else matters more than bile and frustration. Despising an enemy can be a mistake and all I hear is a snore. Facing adversity, he made the best decision one can make. He took a nap. He farts loudly and I don’t know if he is awake. Can we be unworthy even subconsciously? He farts again. I bet the motherfucker can read my mind right now. Stillness, the room’s blacklight is the only thing speaking when it reflects on white surfaces. And it says “I AM PURPLE”.

Laissez faire

Today I woke up for finding out the sunrise would be at 7:48am
Isn't that great? Even the dearest lamb got late
And for that I stayed in underwear, dancing alone on the haunted room
Dragging my feet over all the dirt and broken tiles until I got enough
Ecstatic
To touch the switch and let the electricity shock me a little
Once that
the world and its mean people
Do not get me impressed anymore.

Mediocrity is the new sexy, baby
Come on
Chasing money to freedom
We all dress to get undressed
Forever expires in 6 months
And society became as liquid
As my Fireball.

Nasty!
Sure
Blue agave, premium turf, chardonnay
But
Cheap moonshine too.

Art can only be conceived by sexual intercourse
Between will and hope
And when they fuck, oh boy I gotta tell ya
Pretty twins are born
And their names are laze and despair.