O transplante

– Meu filho, a pá está aí atrás de você encostada na parede – ele disse.

– É pequena, pai, mas dá pro gasto – eu disse.

– Vai precisar de mais alguma coisa?

– Que você traga uma dose de cachaça generosa enquanto eu faço o transplante.

– Essa é fácil!

Ausentou-se o meu pai do quintal de grama alta em busca da aguardente dourada. Fui de joelhos ao chão e medi com a mão as distâncias de raio do pequeno broto de goiabeira que brotava do solo em um canto que não lhe seria favorável no porvir. A vizinhança de grevilhas robustas dava, embora fonte segura de matéria-prima para bengalas, pouco espaço para o viço que se esperava da árvore que haveria de vingar. Meu pai voltou com a taça na mão, cheia e transbordando, a derramar sobre uma mão trêmula. O sol daquela manhã fazia jus ao título. Marquei o ponto aonde se destinaria a árvore da esperança de geléias melhores. Penetrei a terra úmida com estocadas firmes e únicas e paralelas até formar um círculo irregular. Folgazei o solo e vi o buraco nascer de uma só içada. A grama das cercanias recebeu o descarte.

– Aqui, meu filho, beba – disse ele.

Fitei-o nos olhos sob a aba do chapéu panamá que lhe protegia a testa alva. Ele sorria ao me entregar o cálice. Sorvi o líquido com satisfação. Enxuguei a testa com o dorso da mão direita que já se encontrava enlameada. Assim ficou a minha fronte, ornada pelo vermelho terroso.

– À sombra dos galhos da jurubeba? Assim está bem para a goiabeira, pai?

– Sim, vou podar os galhos em breve, inclusive.

– Tem jurubeba em conserva para um franguinho? – perguntei.

– Ô, mas é claro! – entusiasmou-se.

Engatinhei até a pequenina árvore. Repeti o procedimento de afundar a ponta da ferramenta em volta da planta, porém desta vez com ainda maior alcance das profundezas. Não podia deixar a raiz ser maculada.

– É agora, já posso executar a cirurgia – anunciei, de costas, ao único espectador.

– Calma, tome outro gole.

Tomei. Sujei as paredes da pequena taça bojuda. Do lado de fora, terra; dentro, as lágrimas persistentes da bebida de oleosidade equilibrada. Levantei o punhado de chão sustentando-o, atento, pela face côncava da pá enferrujada. Ele se sacudiu em celebração. Assistiu ao movimento destro com o pescoço espichado. Num só volteio assentei o vegetal.

– Bravo! – disse ao bater a palma da mão contra o antebraço oposto, uma vez que tinha um copo na mão.

Suturei a área e fechei o buraco vazio com o que sobrara das raspagens e virei o resto da cachaça. Estava coberto de suor e o barro ensaboava as mãos.

– Agora você vai ver, vou regá-la diariamente e vamos ter muita goiaba para comer daqui a um ano. Vou fazer doce de goiaba, vai ser aquela farra. Janeiro de 2022 promete!

De fato, ele mantém o zelo de um sultão por todo o jardim e cuida da goiabeira como se fosse uma de suas esposas. Na última ligação, contou-me que a arvorezinha cresceu e já bate no umbigo.

Saí feliz porque adoro goiabada cascão e adoro passar férias na casa dele e – por que negar? – sabia que ele não alimentava a fé nas minhas habilidades de jardineiro.

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Há formigas por todos os lados e elas parecem não conhecer nada além do mantra “a rainha tem fome, a rainha guia a colônia”. Nunca tinham me perturbado as operárias, até semana passada. Há uma evolução carbo-hidratada que se dá em mim e parece que estou virando mocinha. Antes, só vivia da fotossíntese e da contemplação dos pássaros que pousam hora ou outra por aqui. O limoeiro à minha esquerda sempre foi o rei do quintal. O tempo todo lhe assaltam os galhos e levam os frutos com uma leve torcida no pedúnculo. Quantos não vi serem fatiados, esmagados, soterrados em açúcar e depois afogados em um tal líquido transparente? Inúmeros. Só sei que, após ingerir essa bebida, todos ficam alegres. Dançam e riem. Nunca ninguém despejou nada do tipo em mim, mas de vez em quando algum desavisado alivia a água do joelho por aqui. Um horror.

Desde há pouco, as minhas estruturas entraram em mutação e meus ramos se alongaram ao passo que senti maior volume a percorrer as vias aferentes. O Sol é generoso, muito embora as noites esfriem quando o céu se faz em negrume estável e duradouro. Fui transferida de posição aqui no quintal quando ainda era pequenina, pelo filho do senhor que me rega todos os dias. Ele despeja água só quando o sol já não arde em brasa, para não me queimar as folhas. Velhinho sabido. Quando houve o ataque impiedoso de uma praga na folhagem ele logo reagiu. Despejou um preparado qualquer de coisas, dentre as quais tabaco. Reconheci porque já fui fumante em alguma vida passada. Tossi e senti prazer pelo fumo. Só que não deu conta dos pulgões e ele teve que usar veneno. Não tenho opinião formada sobre o assunto, afinal, sou uma planta agora.

No dia que me transplantou, seu filho cuidou com todo esmero do meu corpo e o fez com paciência. Guardei a imagem de seu pai, ao fundo, sorrindo durante todo o tempo com orgulho do feito. Acredito que alimenta grande admiração pelo rapaz. Antes de ir embora, naquela tarde ainda, o rapaz voltou e me beijou nas folhas e na base. Balbuciou com a voz embargada “cresça forte, goiabeirinha, para fazer companhia ao meu pai”.

Não que tenha outra opção, mas tomei por bem levar aquilo a sério. Em franco desenvolvimento, sinto que vou na pujança de dias melhores inspirada pelo futuro que me aguarda. Alimentarei a família, as aves que aqui gorjeiam e a própria terra que me cerca, no fertilizar contínuo que as goiabas caídas hão de promover com suas sementes expostas ao solo hirsuto que hoje me sustenta. Locupletemo-nos.