Lá vem

Cerveja atrás de cerveja
Garrafas que empilho não se movem sozinhas
Bebo porque é líquido e trago porque não sei quem vem
Sou das tardezinhas e dos lamentos
Da simpatia com quem se apresenta
Dos versos cada vez mais soltos
Porque no céu o que há é mato
E os coelhos estão todos aqui a fornicar
Eu vos digo que querer o desejado
É desejar o querer
E os quereres estão obsoletos
Porque se assim não fosse Araçatuba seria a nova Paris
E as guerras seriam coisa pra depois
Só que isso diz quem é bebum, niilista ou depravado
E eu sou logo os três
E mordo e assopro e cuspo
E se deixarem eu assovio
Pra dizer que três é demais
Dois é veneno
E um
Só um
Um só
Um filho da puta é o que basta pra coisa desandar.

Bula

Ao homem nascente, em meu nome, que lhe seja recomendado

Antes de tudo que a vida trama
Mas que não há o certo, tampouco o errado.

A família, a tenha por princípio
e a escola para o aprendizado
porém aos amores cuidado, são um perigo!
Haverá quem o ame por seus adjetivos
e quem o faça somente pelos seus predicados.
Que valorize, em tempo, os dias santos entre os de trabalho pois graças a igreja gozará
o seu descanso sempre aos feriados.
Mas se lhe falte a família
ou a escola não o deixe encantado
e se as mulheres não o quiserem por marido
ou para Deus você não reserve o sábado
não esqueça do começo
pois tentarão provar o contrário
e será sua meta ante o destino
provar que não reina a escuridão, tampouco tudo é claro.

Haverá só você, no fim de tudo

tão tranqüilo, mas desesperado.

Convicto que viveu certo, na dúvida se fez errado.

Vista cansada

– 13 dólares e 85 centavos.

– Também um maço de Camel azul, por favor – eu disse.

– 19,05 o total.

Entreguei uma nota de 20.

– Fique com o troco e tenha um bom dia – disse ao sorrir, levantar a aba do meu chapéu e pegar a sacola com um burrito de carne, água com vitaminas e, é claro, o maço de cigarros.

Ela sorriu e olhou para baixo. Ela gosta de mim, só que ela tem 16 anos. Míseros dezesseis. Eu perguntei, seu nome é Hannah inclusive. Só uso o chapéu para ir à loja de conveniência e criar a imagem do cowboy fodão, coisa que eu não sou. Nem quero conquistar a Hannah, afinal ela é menor de idade e esse tipo de transgressão é nojenta. Mas, por que não deixar ela toda feliz por atender um destemido domador de cavalos? Coisa que eu não sou, mas ela pode imaginar à vontade. Camisa xadrez, botas, óculos escuros, jeans apertados e o bendito maço de cigarro sob a sombra de um chapéu de respeito. Cara, ela deve falar de mim para as amigas e imaginar que eu sou proprietário de terras e muito gado. Ela deve achar que eu fumo admirando as pradarias povoadas por equinos galopantes. Bem o cara do Marlboro.

Nem fumar eu fumo. Já são 12 maços acomodados no porta-luvas do carro desde que eu a conheci. E eu estaciono na parte de trás da loja. Se ela vir meu carro de duas portas ela desaba. Melhor manter a lenda viva.

Sou um cara normal. E, dada a normalidade, o barato é inventar meu mundo mágico sem fazer mal nenhum a ninguém.

Fui almoçar e pedi a carne do hambúrguer bem passada. Ela veio exatamente como pedi. Alface, tomate, cebola, picles, queijo cheddar. Uma crosta negra na superfície da proteína. Que coisa linda. Nada a acrescentar, não saiu nada errado. Eu às vezes queria ter o que contar como o meu irmão tem, uma linha do tempo fantástica onde tudo dá errado, daí volta a dar certo, aí então algo inesperado acontece mas ele maneja, o céu desaba em trovoadas, ele constrói uma canoa com uma lata de lixo enferrujada e põe o mundo todo em segurança. Nananina, comigo é tudo na manteiga. O café da manhã nunca sai do controle. Mamão, ovos, abacate e leite. Religiosamente. Outro dia fui visitar um amigo em um estado distante. Cheguei em cima da hora no aeroporto. O avião estava lá e a atendente foi graciosa. Embarquei. Minha bagagem nunca foi extraviada. Chega a incomodar.

Tá aí, sou um frustrado de frustração.

Sábado de manhã é dia de caminhar no parque com meu cachorro. Preparei a sacola para recolher suas necessidades, a garrafa d’água e a coleira. Ele saltou sobre o banco do passageiro e partimos. Parei para comprar chicletes com a Hannah. Ted, o cão, entrou comigo. Ela sorriu com um sorriso nervoso. Até que enfim algo saía do normal. Uma gota de suor escorria pelo flanco esquerdo do seu rosto pueril. O ar condicionado da loja era inacreditável de frio. O que fazia ela estar assim? Não fazia a menor ideia e ela não deu a mínima para o Ted. Estranho. Paguei e me virei. Virei de novo e voltei ao caixa. Foi quando vi o cano da arma. Por debaixo da máquina registradora alguém mantinha a pobre garota refém. Oh, cara, sejamos francos. Ovos, waffles, sol e borboletas são coisas que você espera de um sábado de manhã. Armas e crime não.

– E aí baby, como vai seu dia? – perguntei

– Ahn, normal eu acho…

– Seus olhos e seus olhares… você está com conjuntivite?

– Como assim? – ela se espantou.

Caceta. Foi o que me veio à cabeça. Eu sei lá por quê. Só queria manter a presença e salvar a minha amiga.

– Parecem meio avermelhados, você está doente? Sabe, não deve trabalhar nessas circunstâncias pois pode contaminar outras pessoas.

– Não, não, meus olhos estão perfeitos. Não se preocupe, obrigada.

– Você tem certeza? Parece meio cansada, com olheiras.

– É que a vida de uma adolescente que estuda e trabalha não é das mais fáceis. A escola dá um milhão de trabalhos para fazermos e sempre me falta tempo.

Debrucei-me sobre o balcão com os cotovelos. Agora era questão de honra salvar aquela pobre alma. Ted não deu um pio. Claro, ele não era um galo e sim um cachorro. Ted não latiu nem manifestou perceber que havia um ladrão por ali. Ted é um chihuahua, não vá se enganando que eu tenho um pitbull marrom de pelo lustroso e músculos avantajados. Um pequeno cãozinho que ganhei da tia Arminda, doce e frágil sim, mas uma besta apocalíptica quando se enfeza. Acontece que Ted não é um cão de guarda, não dá para colocar todo esse fardo nas costas dele. Até porque, coitado, com essas costinhas minúsculas…

– Você deveria tirar uma folga, baby. Será que essa virose que tem pegado todo mundo não te pegou também?

– Não, vai por mim, está tudo bem. Estou saudável.

– É que essas olheiras…

– Escuta, você já falou três vezes das minhas olheiras. Eu durmo tarde e acordo cedo e não tenho tempo para maquiagem, okay? Só porque eu sou mulher não sou obrigada a estar sempre linda não, meu caro – militou.

– Perdoe a minha indiscrição. Só quero ajudar. Deixe-me ver sua temperatura.

Estiquei o braço balcão adentro rumo à testa pacífica da refém. Não havia nenhuma dobra nem sinal de que aquela testa pudesse, mesmo em face do maior desencanto, franzir. Um anjo sob as garras de um bandido. Ela recuou.

– Não quero sua ajuda. Não tenho febre – ela disse com desprezo.

– Vamos lá, deixe eu tomar sua temperatura, menina!

– Não sou uma menina. Já sou mulher!

– Seus olhos indicam alguma convalescença, calma.

– Outra vez meus olhos? Jesus, que obsessão! E não me mande ter calma.

Escutei então uma risada incontida e vi o cano da arma balançar. O safado estava se divertindo com minhas tentativas idiotas.

– Olha, Hannah, há esse vírus pelo ar, você vive em ambiente fechado, eu TENHO que tomar a sua temperatura. Por bem ou por mal.

– Se você tocar em mim eu grito. Chamo a polícia. Faço um escarcéu!

– Não é possível, venha cá – disse e a segurei pelo braço direito. Ela me mordeu.

– Aaaaaah! Caramba, ingrata!

– Eu avisei.

O filho da puta agora riu sem pudores. Levantou gargalhando e com o cano apontando para baixo. 

– Cara, como você é chato hahaha – disse ele.

Acertei-o com minha direita bem no queixo. Foi ao chão. Hannah gritou e se refugiou no canto da parede. A arma reluzia com sua superfície prateada. Tinha alguma ferrugem, mas era de verdade. O indivíduo estava atordoado porque foi à nocaute, mas ainda assim balbuciou um insulto:

– Chato pra caralho hahaha.

Dei a volta no balcão e alcancei o revólver. Segurei-o enquanto via a garotinha aterrorizada se contorcendo em vista do cenário da desgraça patética que se desenhava ante aos olhos.

– Sabe, docinho, agora quero que feche esses olhinhos cansados. Vamos, feche os olhos, baby.

Ela cerrou as pálpebras com tanta força que se formaram dobras volumosas na pele que cobria os globos oculares verdes como a grama do parque. Em pé, com o assaltante grogue aos meus pés e Hannah sob minha vista, descarreguei sete tiros fatais na carcaça moribunda. Hannah emudeceu mas não abriu os olhinhos. Soltei a arma sobre o corpo. Agora a cena era só uma desgraça, mas não era mais patética.

– Baby, mantenha os olhos fechados. Você sabe quem eu sou? Sabe quem somos?

– Não, não sei, só sei que…que…que você falou de novo dos meus…dos meus olhos cansados – disse a pobrezinha aos soluços.

– Sou, assim como você e como esse mal acabado sujeito, o meu próprio demônio. Este mundo é o nosso inferno. Agora vou ao parque.

– Posso abrir os olhos?

– Depende. Além de cansados, você os quer aterrorizados? Há vísceras e pedaços de cérebro por todo o lugar.

– MEUS OLHOS NÃO ESTÃO CANSADOS, PORRA!

Ted lambia o sangue que escorria do defunto. Tomei-o no colo e parti. Nunca mais soube dela.

Um conto de Boston – parte 9

Uma constatação terrível me arranha o pensar. Talvez – veja lá a cautela – talvez o meu prodigioso escrevinhador sofra de melancolismo. Não sou nenhum especialista, mas as evidências borbulham a cada linha e esse papel parece gotejar o pranto de um amor claudicante. O homem que se esforça por condicionar os impulsos destrutivos consegue, além da melhora em seus relacionamentos interpessoais, fermentar um tal ácido mosto de coisa infeliz. Vê-se que o artista passa por uma alteração em estilo, tema e eloquência. Faz tempo? Não, foi resentment.

Oh, único encanto meu! Oh, tormento insuperável! Oh, jovem besta de presas indecorosas! Oh, espelho do céu!

Eis aqui o teu bardo. O monstro teu. O princípio e o fim das tuas noites de passos leves. O teu lugar comum, o teu professor maldito.

Minha quimera és tu, o píncaro onde habitas é meu lar, no entanto parece que não posso outra coisa senão dormir aos pés do grande portão. Não sou bem vindo. Vives entre aqueles que me repudiam. Só em sonhos, só e em sonhos. Só. Eu, sozinho. Solitário em cenas abstratas que se projetam em um sono profundo. Tu me encontras em quinas de corredores longos e sempre há passos ao fundo. Alguém nos persegue. Olá, adeus. Flutuas e então somes. Só me resta correr. O abismo que persegue deseja meu sangue. Sei que o algoz deseja pintar as paredes com meu sangue e expôr minha cabeça como troféu. Oh, angústia de mim!

Mas, eu quem sou? O que me identifica, oh musa alcançada? Já me foge a tenra verdade. Vivi e cresci e me reproduzi, veja, apenas em ideias. Morri, meu amor, morri de dor mordível. Desencarnei a dentadas. Qual sorte fosse engolido, porém a sorte não passara de uma simples hóspede. Foi-se, fui-me, fomos. De fato, só a lamúria. Mastigaste e me cuspiste, mas não te enojes da palavra minha. Sei bem, sou intragável.

Este é o anúncio, grande anúncio, do fim do estado comatoso. É findo o silêncio de milênios. Oh, danação da consciência! Aquele que acorda é aquele que sofre. Impiedoso paradoxo da vida é este: condena-se à dor quem atreve o amor.

Quais palavras conseguem preencher o vão destes corpos que voam afastados?

Um, dois, três. Prole que te dá vida. Um, dois, três, mas é tu que dá à luz. Setembro é o teu mês. Mas, a gosto da luz, nasceste em um tal dezenove de março. Podem teus olhos ateus lembrar? Recorda a memória da pele tua? Que perdoe a mim o qual Deus, mas brotaste como é devido aos implumes deste mundo e hei de dizer: estavas nua. Navegamos, tu em margens e eu em corredeiras. Que absurdo, que grande absurdo.

No princípio, era dia.

No fim, era noite.

Sabes, benzinho. Não falo do tempo senão das nossas almas. Sobrevivemos ao crepúsculo e habitamos as sombras.

Oh, agonia de nós!

Diabos reinantes em inferno próprio. Que assim se conte sobre a fábula dos nefelibatas. Distraídos, pensam que ocupar as nuvens garante divindade.

Às vezes.

Quieta, tu! Escuta o silêncio. Todo o arrependimento.

Aprontávamos quando os ponteiros entardeciam. A mim parece que fiquei cego ao despertar. Na linha do tempo, deste espaço curto de tempo, vivemos horas de paixão não obstante os minutos de aridez. Deserto de euforia. Oásis, tu em esplendor. No sertão, mais que cansaço, o que derruba é a sede.

Nem os bares me curaram. Nem as mini saias, nem as praias, nem os porres.

Reverberam os rufos de uma alvorada. Na sarjeta, em alcova, nos ares ou nos mares, o Sol se alevanta também para todos.

Bendita seja a revoada das andorinhas. Várias delas, porque há de haver. Verão.

Nozes

Eu vim para usar meu macacão jeans, mascar tabaco ou chicletes, beber destilados e trabalhar embaixo do Sol. Um dia bem quente, um lenço vermelho amarrado no pescoço e um chapéu para proteger minha, ainda cabeluda, cabeça. Será que eu vou ficar careca? Diz a genética que sim. Diz o meu ego que não. Uma enxada na mão para revolver a terra, um saco de sementes no bolso. Um tratorzinho para percorrer a propriedade. Meu nome é Barney, vivo aqui desde sempre.No começo, era difícil me fazer calçar botas. Sentia que nasci livre o suficiente para viver de pés no chão, ao menos literalmente. Vieram o frio, os carrapatos, os bichos-do-pé, as serpentes e os sapos para me convencerem do contrário. Sou Gaia em sua forma e representação. Não há energia elétrica ou água encanada, casa de alvenaria ou aquecedor central que me sequestre do mato. Muitos sons nascem do escuro noturno que me circunda. Às vezes acho que são espíritos da floresta, guardiães de uma alma humana bem intencionada. Outras vezes, julgo que os predadores estão a me espreitar. Adoro encontrar cobras por aí e delas há muitas, algumas com escamas.


É bom ter coragem de pedir que a visitante vá embora após o sexo. Ajuda a manter a lembrança da parte boa. Você goza, ela goza, todo mundo goza e daí tchau! E uma outra que me presenteou, na data do meu aniversário, com uma cueca? Fez a maior propaganda que aquela era uma peça sem costuras, com material de algodão mesclado à fibra elástica natural, que era à prova de odores e proliferação de fungos, um artigo de extremo bom gosto para acolchoar as minhas bolas. O tamanho que a belezinha comprou? M, de médio. Ou de medíocre. Ou de meh… Caramba. Poderia ter comprado uma Zorba amarela, tão fina como papel, que eu não ficaria chateado. Errar justo para menos no quesito roupa íntima para um homem? Quer dizer que eu sou mediano? Não passou pela cabeça dela que eu sou G? E aquele papo de “ai, minha nossa, isso não vai caber em mim não, nunca vi deste tamanho”? Essa mesma belezinha toma água e não enche a garrafa. É a gota d’água!

Muito prazer, sou Stewart, o bom gosto em pessoa. Alguém tem que zelar pelas boas práticas do lar. Não deixe a toalha de chão fora do lugar no banheiro, o rolo de papel deve ficar sempre com a ponta por cima e, pelo amor dos meus filhinhos, xixi se faz sentado. Acham que é fácil? Na verdade é quando eu estou sozinho. Mas sempre tem alguém para perturbar a paz. Se minha mãe me visita, já não consigo me ausentar da sala com tranquilidade. Não sei o que dá nelas, mas as mães têm essa tendência de querer alterar a disposição de móveis sem notícia prévia. Você vai cortar uma fatia de bolo e, quando volta, o sofá andou pra lá e surgiu uma mesinha de centro absolutamente fora do contexto. Morar sozinho traz o benefício do sozinho da coisa. Você decide por tudo e todos (eu). Nessas aventuras casuais eu já fui obrigado a aguentar ronco, uma moça esfomeada, uma que roncava quando comia, outra que roncava quando ria. Ronco não é um problema. O conflito era quando elas queriam cozinhar e se adiantavam em trazer os ingredientes. Oh, quanta porcaria! A vantagem da relação descartável é que eu nunca ia ser deselegante de reclamar de nada – ou muito pouco. Uma garota trouxe vinho e ele se chamava Quinta do Morgado. Quem morgou fui eu e, a partir daquela noite, nunca mais me deixei na mão dela. O vinho, além de horrível, foi também um curioso caminho para outra descoberta. Ela derramou a taça quase toda sobre suas sandálias brancas que estavam no canto da sala. Os amassos estavam quentes e ela mantinha a bebida em punho. Seu hálito de vinho barato me excitava, esse tipo de coisa que não se explica. Eis que o chão recebe o conteúdo vermelho despejado à meia altura. Foi só então que eu pude perceber como eram tenebrosas aquelas sandálias, credo.


Arranha-céus e garoa e roupas elegantes e restaurantes finos e uísque 21 anos e carros com banco de couro e sapatos italianos e mulheres deslumbrantes e noites infinitas e manhãs de after-party e verões à beira-mar e mimosas no café da manhã e números de telefone trocados a cada 15 dias e paranóias delirantes e ataques de pânico e tiros para o alto e o medo estampado nos olhos de – quase – todo mundo que se encontra com você. Saled Le Dif, muito prazer e ele é todo meu. Meia idade ou ela toda, todas as vontades realizadas. Sobre os sonhos? Talvez, não parei para pensar profundamente na questão. Quando criança eu queria ser um guerreiro ninja. Bem, acabei por andar nas sombras mas por razões distintas. O que eu quis comprar, comprei. Inclusive pessoas, favores, silêncios. Dizia um alguém histórico (é melhor suprimir o nome dele, hein!) que “não quero que nos amem, quero que nos temam”. É bem por aí, por mais que doa admitir. Há algo de nefasto que pulsa em mim e esse algo clama por poder. A fogueira que queima sem se ver é alimentada pelo combustível do crime. Você então pode se perguntar se há mesmo glamour nisso tudo. Ora, meu chapa, claro que sim. Eu sou branco! 90% das vezes passo batido por revistas, blitzes, checagem de segurança de aeroportos e o escambau só por causa da cor da minha pele. O mundo é muito racista e o que eu posso fazer sobre isso? Tirar vantagem. No começo me batia uns conflitos sobre esses privilégios brancos. Aí eu encostava a cabeça no sofá, abria meu pequeno cofre de madeira com cadeado romano e contava meu dinheiro não declarado. Ali percebi que deveria dispor de uma caixa maior pois o montante de grana iria aumentar. E aumentou. Não há nada que não se queira comprar quando a fortuna que você tem é de origem ilícita. Se você enriquece pelas vias normais é natural que fique cheio de dedos para gastar. Mas, se a riqueza veio em forma de desgastadas cédulas conduzidas por mãos maltrapilhas, então que se foda. Não é questão de irresponsabilidade não, é só um orgasmo social por ser inimigo do sistema. Bem, também não me entendam mal. Inimigo do sistema é quem quer pará-lo e, a bem da verdade, um criminoso quer mais é que o sistema continue como ele é. O estado e a polícia que usem seus mecanismos para investigar quem eles quiserem, nós continuaremos a burlar os tiras. É uma tragédia para quem vê de fora, é uma montanha russa para quem está dentro. E a maior parte dos jovens e das garotas ama montanhas russas. Sou Le Dif, sou o nosso amigo, sou o menino lá, sou o patrão, sou Theo, sou um monte de gente. E aquele que é amigo de todos, não é amigo de ninguém. Você já assistiu a algum filme que retrata uma história de sucesso de um cheirador de pó? Tem final feliz e triunfante de um farinheiro para contar? A regra é clara, nunca se meta com a cocaína. Deixe isso para as mulheres, para os canelas secas, para os zé miquinhos. Para todos aqueles cuja preocupação maior é somente o rumo que a festa vai tomar. Eu não faço parte deles, meu negócio é ir em frente e para isso tenho que estar sempre no controle, chapado, mas ligado no que faço. A psicologia do crime envolve potência, é óbvio, e respeito aos demais. Quando as pessoas com quem você negocia e faz transações tem uma arma na cintura, não há espaço para desaforos. Até para passar a perna tem que existir sutileza. Eu venho de uma família disfuncional, a televisão sempre foi minha melhor amiga, a música me ajudava a tomar banho e a sede de potência foi respeitada pelo meu eu-lírico. Meus pais nunca me levaram ao terapeuta, graças a deus. Teria me enquadrado no status-quo e talvez eu fosse hoje um bancário. Ou escrivão da polícia. Ou juiz federal. Tenha piedade, eu hein?! O que mais me preocupa são as crises paranóicas. Deus, como elas têm sido recorrentes. Vivo achando que alguém tocou na maçaneta e a porta vai desabar com os homens da lei entrando e barbarizando. Mas, quando isso acontecer, que chances terei eu?


Eu quero falar de planos. Andam acabando com o planeta e o tempo que resta é curto. Senegal, Congo, Costa do Marfim. Isso aí no continente africano. Depois, Vietnã, a Tailândia e o Sri Lanka lá na Ásia. Caramba, tenho que trocar de mochila, encontrei dois furos. Vi uns sachês de café individuais que vêm em uma cartela de papel que se monta sobre a caneca e são coadores descartáveis. Comprar uma caixa. Por que deixar para depois se posso digitar e usar o celular para fazer o pedido? Comprar com um clique na Amazon, um colosso. Pouca roupa para viajar leve. Pode ser que eu decida ficar em algum desses países por mais tempo, a gente nunca sabe. Tantas moças que eu vou conhecer, vai ser inevitável. Já posso sentir o perfume da Jessica de Iowa e a risada estridente da Josefine da Suécia. Não há mulheres de mais nesse mundo? Não é esse o meu destino, conhecê-las? Ah, os convites obscenos para diversão a três com as canadenses Hollis e Renee. Já consigo antever tudo isso que está prestes a acontecer. Maggie vai me presentear a sua calcinha Victoria’s Secrets e depois sumir. Calcinha preta, com as marcas indeléveis do tesão incontido por mim. Vou curtir essas paradas, toda santa noite, sem limites para a repetição da conduta. Dane-se. O importante é acordar cedo e aproveitar o dia. Dou-me um cochilo de presente após o almoço, mas a manhã é sagrada para caminhar sem destino. Aliás, qual será o meu? Ser o CEO de uma companhia global? Nah… acho que não. Já perdi as contas de tudo o que eu me imaginei sendo. Pronto, café comprado e a mochila nova também. Ainda aceitei a sugestão de um carregador solar portátil e adicionei ao carrinho de compras. Vai ser útil. Posso passar alguns dias acampando na floresta e conhecer alguma mulher local que se engrace comigo. Poderia ser uma vietnamita. Seria perfeito se fosse uma asiática que se apaixonasse, casasse comigo e propusesse um negócio para abrirmos, quem sabe, em Bangkok. Casa de comida brasileira e outras coisas brasileiras também. Já conheci uma tailandesa que se apaixonou por mim e quis casar e abrir uma empresa. Exatamente do jeitinho que eu descrevi. Acontece que daí eu conheci uma dinamarquesa chamada Annie na mesma época. E uma norueguesa chamada Juliette. Oh, céus, que crápula eu sou. Aqui, juntando os trapos para viajar outra vez, já se pode perceber que nada vingou. Paciência. O importante é que agora vem um plano infalível para a estrada: comprar uma câmera polaroid e tirar fotos de turistas pelo caminho por alguns trocados. Dá pra pagar a comida, então já barateia a jornada. Alguém me disse que eu sou ansioso. Que mané ansioso, eu sou Hugh, aquele Hugh, sim, o único que merece o status de fodão, o Hugh criador do ícone da boa vida, o cara que vivia de roupão de seda. Meu nome foi em sua homenagem e eu tento fazer por onde. Coitado de mim. Sinto o corpo quente. Será uma febre ou só a sala que está quente demais? A porta da sacada está fechada e o vento não corre. O ar condicionado está regulado para uma temperatura tipo o hálito de um mendigo. Eca. Pensei agora em sorvete de azeitona, será que existe? Se não existe, eu poderia inventar. Mas deve ser muito ruim. Estou prestes a viajar e ainda tenho que me despedir da Raquel, da Ana Luiza, da Paula, da Carla, da Lilian, da Carina. Caceta. Cada uma delas tem que ser uma noite toda. Será que eu consigo convencer algumas delas a se unirem em pares? Já salvaria um tempinho. E a Paula pelo menos, aquele quilômetro de mulher, sabe dobrar roupa como ninguém. Ela vai gostar de me ajudar. Mulheres, aeroportos e empreendedorismo. 365.000 planos. Aí vou eu.


Se um dia eu postar esta merda de texto, aposto que alguém vai surgir e dizer “oh, como você escreve bem” e coisas do tipo, elogios lambe-botas. Quem irá proferir tais palavras? Um pederasta, ou uma leitora de auto-ajuda. Ou um coach paz e amor. Puta que pariu, o inferno está mesmo vazio e os diabos realmente estão todos aqui. Aqui, na minha fuça. Chamam-me tóxico, a palavrinha do momento. Mando à merda. Sejam bem vindos ao show de porra nenhuma, sou seu anfitrião Rick. Adoram me perguntar se é a corruptela de Ricardo. Meus amigos, tenham bom senso. Ninguém chamado Ricardo quer assumir que se chama Ricardo. Deixem os Ricks, os Ricos, os Cacás quietos por aí. Mania de… de… de querer saber de toda a raiz etimológica de um reles nome. Eu ia dizer que era mania de v… mas ia acabar pegando mal. Não se pode mais ter liberdade de expressão para ofender os outros neste mundo contemporâneo. Antes, meu pai chamava tudo quanto era negão de alemão. Eu não entendia como aquilo fazia sentido. Cresci e entendi. Mas, agora não pode mais. Uma porrada de coisas é mal vista hoje em dia enquanto outras, que ninguém poderia imaginar, tornaram-se banais. Eu não quero repetir esse discurso barato pseudo-intelectual contra o politicamente correto. Ser confundido com a grande massa, o rebanho ordenado, a multidão nua que se agita pelos mesmos estímulos e exerce o imenso, incomensurável, plastificado magnetismo da compaixão universal. Não é possível. Eu não quero ter empatia com ninguém porque já me obrigam a isso. Obrigam-me a pagar impostos, a segurar a porta do elevador, a separar o lixo, a parar na faixa de pedestres, a distribuir esmolas por aí. E eu? E o que é meu? É duro conviver com tanta gente limitada. Gente que passa três ou quatro horas olhando para uma tela iluminada que cabe no bolso. Aliás, você está lendo isso pelo seu celular? Ótimo, metalinguagem na sua forma pura. Você é um idiota? Melhor ainda, pois estou falando de você. Com você e para você. Seu putinho sentimental. Você faz parte de alguma minoria? Estou me lixando para isso. Alguém morreu na sua família vítima de COVID-19? Deus quis assim, não é como vocês justificam tudo? A vontade Dele? Eis aqui a minha vontade, eu a apresento com tópicos bem acabados e detalhados. Primeiro um tsunami, volumoso e extenso, em toda a costa brasileira. Impiedoso, exterminador da esperança e de herdeiros improdutivos. A água levaria as varandas, encheria as piscinas com lama e arrastaria land-rovers sem o menor rastro de complacência. Quantos sobrenomes teriam suas proles gordas e inúteis arrasadas? Daí então uma guerra com um país vizinho, de preferência um que seja subestimado pela arrogância canarinha. Uma Venezuela, que exemplo magnífico. Declarado conflito, Roraima invadido, a costa ainda se recuperando dos estragos do maremoto. Caos perfeito, daquele que dá à luz uma estrela brilhante. Os herdeiros que sobraram das famílias da elite seriam forçados a se alistarem. Lutariam lado a lado com os meninos do bairro, aqueles que estão acostumados a tiroteios e corpos jazendo nas ruas. Teriam de se ajudar e se proteger, brancos e negros e cafuzos e até os que não se encaixam em padrão nenhum. Morreriam, ah como morreriam! Aos montes, cadáveres e caixões amontoados. A confecção da bandeira nacional atingiria novos recordes. O hino seria entoado sem gaguejar por todos os brasileiros. Choro, comoção. Carnaval cancelado por cinco anos, no mínimo. Silêncio, a pátria aquietada. Algo se torna sério, finalmente, e não somente grave. Mães chorarão ao receberem a visita do soldado que carrega a carta derradeira de seus filhos. “Lutou bravamente e me salvou um dia”, dirão os que se salvaram. E a indústria bélica dará um salto, afinal, nem tudo é desgraça.


Oi, eu sou Stanley. Hoje acordei às seis horas da manhã. Bom, seis e quinze. Ok, seis e treze. Nunca consigo ter paz se não dou os detalhes exatos sobre as coisas. Tudo bem, é só um horário. Acordei cedo porque dormi super bem. Dormi super bem porque tomei um dramin. Risos. Estava cansado e queria me sentir desmaiado na cama. Funcionou, sonhei até com um antigo amor. Oh, não. Essa parte não foi boa. Risos. Não houve nada de sexual no sonho, ainda bem. Esse pensamento seria nocivo para a minha serenidade. Acordei suado e com a sensação de pesadelo. Mas, tudo bem também. Alguma coisa não deve estar tão bem resolvida em mim. Devo trabalhar isso e a melhor forma de trabalhar é falando sobre. Sinto-me muito realizado por contar com tanta gente boa à minha volta. Amigos, esposa, familiares. Como é bela a harmonia e o sentimento coletivo de fraternidade. Gosto de cozinhar para todas essas pessoas em retribuição a tanta bênção que me cerca. Uma carne na pressão com legumes, comida afetiva. Uma ligação inesperada também serve, acalenta o coração alheio. O meu também. Na dúvida, o certo é ligar, mandar uma mensagem, um cartão postal ou seja o que for que funcione para demonstrar como é importante aquela ponte. É sobre eles, sobre mim, sobre todos nós. Construir pontes e não muros. Seríamos todos seres que habitam este planeta Terra com um sentido pré determinado? Nascer, crescer, procriar? Ouvir e difundir a palavra de um criador? Ou a vida não tem sentido algum e, daí então, esse seria o próprio sentido da vida, o de dar a própria significação subjetiva, intransferível e nominal? Tudo bem quem acredita nisso ou naquilo, no fim das contas a gente nunca vai saber esse treco de verdade absoluta. Supimpa, já faz alguns meses que não ingiro nenhuma substância entorpecente e eu me sinto ótimo. Leve como uma pluma, sagaz como um lince. Miau. Uma delícia essa sensação de que a gente não precisa de nada para render. Suco de cenoura pela manhã, feito com 34 cenouras, gengibre e açafrão. Risos. 34 cenouras, só isso já entregou que eu comprei pronto, porque ninguém em sã consciência usa 34 cenouras para fazer um suco. Ser saudável é bom, respeitar as leis e as regras de convivência é uma maravilha. E ler poesia à tarde, antes do trabalho. Dizer ao pé do ouvido da minha esposa o quanto a amo e, de quebra, escrever na parede bem grande para que ela possa ver o dia todo. Eu te amo, eu te quero, eu te venero. Como é agradável se agradar.


Só uma coisa é mais importante que o dinheiro no bolso e essa coisa são as calorias que me mantém forte o bastante para trabalhar feito um camelo adulto e poder ganhar toda a grana do mundo. Não me importa mais nada. Calorias, meu irmão. Calorias do açúcar, da gordura, de proteína magra ou não. Ovos na manteiga. Shake hipercalórico, sobremesa e suspiro pós treino. Oh yes eu estou vivo, sinto que estou vivo, vivão e vivendo! Alguém me segure! Já perceberam que a ingesta hipercalórica causa um barato? O famoso doidão de açúcar, nunca conheceu um? Eles existem e eu sou um deles. Frango frito no café da manhã, waffles com mel e bacon. Quer mais? Adicione uma dose de uísque e outra de licor ao café e pronto, mais calorias sem que o álcool possa danificar o rendimento. Ciência, caceta! Aliás, muita água durante o dia. A única exceção do dia, em prol do bom funcionamento da máquina. Agora, hora da refeição é sagrada. Refrigerante, pelos carboidratos, pelo gelo (olha a água aí) e pelo gás. Uma arrotada e o volume de comida desce que é uma beleza. Pudim é sempre uma ótima combinação para depois. Tem leite, tem ovo e tem açúcar. Quer mais o quê? Almoço de meia hora e pau na máquina de novo. Carga nas costas, jornadas intermináveis. Não há desafios para o homem das calorias. Só eu, Hank, domino essa técnica. Em todo caso que envolver alimentos, a escolha deve ser baseada na tabela nutricional. É isso. Só não esqueça a água durante o dia, nos intervalos. Álcool, refrigerantes, sucos de fruta, macarrão com feijão, hambúrgueres monstruosos. Nada importa, só as calorias e crescer. Cresce o corpo, crescem os músculos, cresce o bolso. Au!


Fui despertado por essa estranha sensação de não ser mais o mesmo que eu era há alguns anos. Meu corpo mudou em virtude das barganhas na alimentação, indulgências na conduta física e, não dá para negar, alguns revezes sentimentais. Uma bola de neve que virou avalanche. Olhei no espelho e me encontrei com mais gordura corporal que costumava ter. Ok, ainda consigo ver os gomos do meu abdômen, mas, convenhamos, não está igual. Significa que isso me diminui em algum aspecto? De jeito maneira. Não me resumo à minha identidade física, claro que não. Sou muito mais que simples músculos amontoados sob a pele, acontece que a gente tem que cuidar da imagem, né? Faz parte do sucesso ter também uma apresentação de sucesso e, no geral, um corpo bem definido e treinado passa a ideia de compromisso e disciplina. E fome hahaha. Não dá pra comer de tudo e muito menos comer porcaria. O corpo é um templo. Amém. Minha companheira, pobrezinha, nunca experimentou uma dieta rigorosa e chega a dar pena. Os fracos não sobrevivem. Nós temos que seguir o plano. Calorias baixas e valor nutritivo alto. Quem não ama um sanduíche? Todo mundo é louco por pão, mas agora a história mudou e o barco virou e o capitão sou eu. Legumes cozidos no vapor, carne magra e muito chá entre as refeições para estimular o corpo a se manter em funcionamento. Vem aí a mudança física do ano! É só temperar tudo certinho que ninguém sente falta de excessos gordurosos ou farináceos. Ao despertar, ingiro só líquidos. Suco natural, vitamina ou leite puro alimentam e tem esvaziamento gástrico rápido. Em poucos minutos estou apto a treinar. Uma caminhada até a academia como aquecimento, ritmo acelerado. Música tranquila durante o trajeto para preparar o espírito. Os ouvidos ainda estão despertando, não há a necessidade de pular etapas. Na esquina da academia a coisa muda de figura. Punk rock, eletrônica ou heavy metal. Sobem as batidas, aumenta-se a frequência e o sangue afina. Tudo flui. Bom dia aos funcionários da recepção do ginásio. Não adianta ser good vibes e não cumprimentar a galera. Levanto o primeiro halter e o coração acelera. Vasodilatação faz os olhos brilharem ao se auto observar. Pode existir uma academia sem espelhos? Uau, enquanto descanso no intervalo da super série, um pensamento me invade a cachola. O que seria da humanidade se os espelhos nunca tivessem sido inventados? Isso daria uma tese de conclusão de residência em psiquiatria na UNICAMP. Alguém chame uma ambulância, mas não para mim. Tenho que erguer essa carga monstruosa e deixar a mente silenciada. Modo avião para reflexões nesse momento. Só se permite flexões, as de braço.Cada um tenta resumir o caráter através da compleição física. Nada de errado, mas eu não faço parte dessa galera. Treino porque faz bem e porque a idade vai chegando, tenho que manter o mínimo de condicionamento. Nem ligo tanto assim para a imagem, caramba, mas não posso deixar meu nome afundar. O meu nome é Erasmo e eu vou confessar aqui que já ouvi as más línguas me chamando de Era. Era o escambau! Ainda sou, seus mal acabados. Só creatina, whey e mel de suplementação enquanto vocês se acabam nos esteróides anabólicos. Não que eu me importe com essa supervalorização do corpo e seus atributos estéticos, longe disso, mas o que é do homem o bicho não come. A César o que é de César. Tem um pessoal, pessoal não, a maioria dos frequentadores do ambiente de treino, que se autointitula guerreiro. Guerreiros, atletas. Motivo para tal título? Puxarem ferro para cima e para baixo, para frente e para trás. Um pouco excessivo, certo? Eu acho. É a pitada de bom senso que falta nessa multidão perdida. Dia desses o cara que vende pamonha na rua perguntou onde que eu treino. Quero começar a masculação, ele disse. Masculação, caramba! Errando ele imortalizou todo um conceito. Mais que treinar os músculos, parece que toda uma geração exercita a masculinização. Querem ser mais viris, mais tenazes, mais agressivos, mais fortes, essas coisas que se atribui ao gênero masculino. Provavelmente irão se frustrar, filosófico ou materialmente. De um jeito ou de outro. Eu só quero perder a minha gordura.


Sejam bem vindxs a este antro, esta casa de perdição e vícios, ao lúgubre e ao mesmo tempo plácido ambiente das mil faces. Uma dor a mais, um excesso, um amor, uma abstinência. Tem de tudo, tem para todxs. Eu sempre estive aqui, desde o início, assim como estou em todo o mundo, para ser franca. Meu nome é Marlene, a essência feminina da alma, o abrigo e também a austeridade, a missiva com as direções cardinais e o ponto de encontro. Sim, todo indivíduo me tem ainda que inconscientemente. Assim é. Em mim reside as razões de um que agride, de outro que ama, de um que usa, de outro que teme. Mulheres, milhares, melhores. Evoé, Deusa! Chorar é obrigatório. Se você não chorar ficará perdido na própria tristeza. Assim eu digo, assim dizem os séculos. E também os analistas. Mas, cuidado, alguns desses analistas estão presos em um século passado. O mundo gira e o vacilão roda, diriam as quebradas. Pura sabedoria. Não é tarefa pequena coexistir com identidades masculinas. Ainda que sejam múltiplas, desordenadas e conflituosas, tudo bem, vá lá, a gente conduz da melhor maneira possível. Mas, não bastasse todo o privilégio histórico e enorme vantagem que gozam, ainda se valem de um tratamento muito mimado por parte da sociedade. Já passou da hora de uns safanões. Ok, esqueça essa parte dos safanões, se não vão associar a violência e é justamente esse um dos problemas. São muitos eus, muitos nós, muitos meus, muitas minhas, muitas nozes. Aquelx que cresce com uma mãe há de criar a concepção das mulheres que encontrará pela vida a partir dessa mãe. Como ela era? Como eram seus hábitos? Como se tratavam? Como os outros homens da família a tratavam? Como ainda se tratam atualmente? Já buscaram tratamento? Quais foram suas conclusões de vida, seus interesses, seus prazeres, suas frustrações, seus planos, suas exceções, as permissões e privações? Quem a amou? Tudinho que é processado pelo núcleo algorítmico do cérebro humano é projetado ante os olhos. Assim se forma o espectro consciente da figura feminina para o observador. Por isso, uns isso e outros aquilo com as fêmeas. Em muitos casos, será lamentável conhecer o passado do sujeito analisado. Em outros, será inspirador. O negócio gira em torno de entender que dá pra mudar o que reside dentro de nós, ainda que sejam inúmeras manifestações de personalidades metamórficas e desafiadoras. Quanto aos outros – ah, que tragédia lhes informar isso! Esperem, sentadx de preferência. As pessoas tendem a pensar que podem mudar os outros ao passo que são imutáveis elas mesmas, grandes poços de água parada e inalcançável. É o contrário. Sobre nós reside todo o poder e, quanto aos demais, tão somente a contemplação. Sobre os outrxs, ao menos, podemos atribuir o inferno. Ha ha ha, uma pitada de sarcasmo sem perder a compostura. O inferno são os outrxs; Deus está mortx; ótimos exemplos de como a leitura pode resultar em interpretações tacanhas da filosofia. Não bastam frases, mas obras completas. Não há de nos satisfazer apenas os genitais alheios e sim, como um grande fluxo, toda a energia que flui dos pés à cabeça. Amemo-nos, pois, primeiro a nós mesmxs e daí, numa justa consequência do amor que busca amar mais, amaremos ao próximx. E tenho dito!

Spray, Sparta, Spyro Gyro

De dentro da cozinha vinha o grito:

⁃ MERDA!

Seguia-se um tapa na bancada. Isso significava que mais um pedido tinha saído errado. O cozinheiro ia à loucura. Tudo tem limite, ou deveria.

Ouvi um cara dizer que era iraniano, simpático às tampas. Cheguei mais perto, falei:

⁃ حال شما چطور است؟

Ele não entendeu. Fui mais perto da sua orelha e repeti:

⁃ حال شما چطور است؟

Ele estalou os olhos. Estendeu o braço e apertamos as mãos.

⁃ Você falou Farsi perfeitamente, sem sotaque. Como sabe a minha língua?

⁃ Ah, cara, eu já fui um negociador de tâmaras por aquelas bandas.

Entusiasmado, passou seu telefone e disse que em duas semanas estaria em Teerã e queria que eu me hospedasse na casa de sua família. Em duas semanas eu completo 35 voltas em torno do sol. A data tão temida. Eu poderia ter explicado que aprendi três frases em Farsi com aquele simpático grupo de iranianos que buscou um avião na TAM em São Carlos, no longínquo ano de 2007. Acontece que eu sempre quis negociar tâmaras. Sucesso garantido.

Duas mesas para a direita e uma moça parecia deslocada. Quando tomei conhecimento da sua história, senti uma pontada no baixo ventre. Exatamente um ano atrás, seu marido a aguardava na sala de estar para que fossem às ruas para uma noite de lazer. Enquanto esperava, decidiu limpar sua arma. Por acidente, ela disparou e ele se foi. Exatos 365 dias atrás. Eles iriam para o mesmo bar. Isso não é triste, meu chapa, é entristecedor. E há grande diferença entre as coisas. É necessário dominar a língua para traduzir a melancolia.

Procurei meu celular e enviei algumas mensagens de amor aos entes queridos. A gente nunca sabe.

Na América o verão é desejado, mas se mantém desdenhoso. Ele sempre passa. Por isso há tanta vida nas calçadas, nos pátios, nos parques. As pessoas aproveitam porque sabem que acaba. O oposto do que costumam fazer nos relacionamentos. Pensam que é para sempre. E já dizia a Cássia Eller…

Carrego uma lista de expressões para brindar em diferentes línguas.

Nazdrave, em búlgaro. Nazdarovia, em russo. Parecido, mas não vá cometer e lambança de dizer que é tudo igual. Ofensa na hora de encher a cara pode resultar em um dente quebrado. Ou abandono. Zivelji em croata. Aí você deve estar se perguntando porque tantas expressões vindas do leste europeu. Deixa isso pra lá, come on!

Bebendo rum puro com a Larissa na Tailândia em uma sarjeta de Bangkok, fomos abordados por duas garotas.

⁃ Oh, vocês bebem muito!

⁃ Err, obrigado?

⁃ Não estamos acostumadas a ver uma garota beber assim com tanta liberdade. Temos até uma expressão para isso. Lumyong, significa moça bonita que bebe whisky.

Hoje é sábado, amanhã é domingo, nada como o dia para passar. Saravá, Vinicius. Como não sou uma árvore e não crio raizes – só razões – posso sempre me levantar e caminhar. E mudar, de cor, de opinião, de amigos e de motivos. Cobra que não muda de pele morre.