Liberose

Honrai o sono e respeitai-o! É isso o principal. Fugi de todos os que dormem mal e que permanecem acordados à noite.

Não é pouco saber dormir; para isso é necessário preparar-se durante o dia.

Dez vezes ao dia você deve saber vencer-se a si mesmo; isto origina uma fadiga considerável, e esta é a dormideira da alma.

Dez vezes deve reconciliar-se consigo mesmo, porque é difícil vencermo-nos, e o que não estiver reconciliado dorme mal.

Dez verdades há de encontrar durante o dia; se assim não suceder, ainda procurará verdades durante a noite e a sua alma estará faminta.

Dez vezes ao dia precisa rir e estar alegre, se não incomodar-se-á de noite o estômago, esse pai da aflição.

E se tivessem as virtudes, seria necessário saber fazer uma coisa: adormecer ao mesmo tempo todas as virtudes.

  • Das cátedras da virtude (NIETZSCHE, F.)

O sono lhe faltava e à medida que as noites iam encurtando aumentavam os devaneios durante o dia. Sua mente se movera de um estado racional temperado com pitadas de fantasia para um vasto império de confabulações delimitado por pontuais intervenções terrenas dado os compromissos do escritório, agora, móvel. Tarcísio era um homem de negócios, muitos negócios, uns negócios, mas também nada daqueles negócios, se bem que tem uns negocinhos que ele não conhecia e, ao provar, se sentiu um tanto coisado. Negócio de louco? Negócio da China! Nada poderia prender mais a sua atenção do que as próprias simulações hipotéticas e maravilhosas que surgiam em sua cabeça, pensava um incauto qualquer ao selar promissora amizade com o jovem rapaz de camisas engomadas e sapato docksider. Que homem incrível, inteligente, bem educado e progressista. Dizem até que é o maior feminista vivo, seja lá o que uma definição como aquela pode significar para uma… mulher!

Tarcísio sofreu abusos na infância e resolveu que o negacionismo era o melhor dos antídotos da sofrência. Só que, medicado pela ciência do “muda de assunto que aqui não se fala disso” ele foi, aos poucos, sendo afetado pelos efeitos colaterais da despreocupação acentuada e da irrelevância aguda a tudo o que considera ser mais fácil deixar para os outros. Mudando a direção dos olhos conseguiu se esquivar das agulhas do passado e, positivamente mirando os altos cumes, construiu um império. Casa grande sem senzala, despensa cheia, adega farta, esposa retocada e filho obediente, tudo sob as próprias rédeas do controle patriarcal. Tarcísio é um homem de valores.

Os amigos estão sempre à volta; da mesa, do fogão, da piscina. Não existe silêncio onde ele está presente, pois silêncio impele a mente ao raciocínio recordativo, à reflexão dialética e estas coisas são como lavar louça para o mancebo. Tarcísio não lava louças. Na dúvida, na ausência de palavras ou idéias exalta a maior das suas características ao exclamar:

– Bora beber?

O álcool e Tarcísio, Tarcísio e o álcool. Uma história de amor, de reciprocidade, de carinho e acalanto. Não há nada mais gostoso que se embriagar a ponto de… se desculpar por “possíveis” erros do passado. Possíveis, pois difícil é para Tarcísio assumir culpa quando sóbrio e, caso seja confrontado com a admissão da mesma quando em avançada situação de ebriedade, há de negar com um sutil convite evasivo de…

– Bora beber?

Os negócios de Tarcísio vão muito bem, obrigado! Sua fala pode transparecer uma gagueira besta, insistente, mas não passa da trepidação que tanto volume intelectual causa ao se precipitar sobre a língua. Livros? Ler, para Tarcísio, é essencial como praticar 30 minutos de exercício meditativo pelas manhãs. Ele não pratica. Surfando nas ondas de uma juventude alongada e de uma maturidade ainda distante, seu físico resiste incólume às agressões gratuitas de privação de sono e nutrientes. Talvez um dos mais graves sintomas da terceirização de responsabilidades tenha sido quando Tarcísio chegou à excepcional conclusão de que todos os alimentos, hoje, são processados. Se, por bem de uma verdade acolhedora, é definido como processado tudo aquilo que passa pelas mãos do homem e sua cadeia produtiva até chegar às mãos do consumidor, então… só fogem do rótulo as frutas que colhemos direto do pé. Aliás, frutas são para Tarcísio o que a igreja no domingo de manhã é para ele e sua família. Eles não a frequentam.

O sono começa tarde, acaba cedo e não é calibrado durante o dia para o nosso herói. Dizem que é durante o sono que o corpo humano secreta a maior dose de hormônio do crescimento. Tarcísio parou nos 1,67m. É mister risada para um bom sono? Olha que ele ri fartamente, o dia todo, todos os dias. De si mesmo, quando conta histórias que, não raro, sempre o colocam como uma espécie de azarão que tem tudo para dar errado, só que…

“- E lá estava eu, na frente daquele monte de gente no balcão do bar. Um bando de negão e o idiota aqui com a certeza que ia apanhar, né?”

Mas, as histórias sempre acabam incrivelmente bem. E ele ainda ri – e muito – dos outros. Motivo? Basta alguma confidência sobre algo que desagrade ou seja sensível para uma pessoa em questão. Aí é um desbunde, um bullying sem fim. Foi na performance das suas gracinhas graciosas com mulheres que Tarcísio se viu empossado como o grão mestre do… feminismo! Deus escreve por linhas tortas, há de se convir.

Tarcísio cometeu o maior dos absurdos recentemente quando, ao trocar ideias superficiais com uma nova amiga que é psicóloga, confidenciou que delegou aos seus funcionários a feitura das próprias tapiocas do café da manhã. Ao comentar sobre ter um desejo de se importar cada vez menos com as coisas, afinal, nas palavras dele, o mundo precisa de liberdade, sentenciou:

– Sabe, Bibi, tudo é passageiro. Eu não desejo controlar nada, quero que tudo seja livre. Mesmo as tapiocas, as super cápsula-blindas. Eu quero menos coisa sob meu controle, embora não possa abrir mão de controlar bens essenciais como a minha mulher. Sabe como é, sou um liberal…

– Não, meu amigo, você sofre de liberose ácida!

E foram transar.

Amém

Amanheci na mais profunda ressaca. Tomei quatro garrafas de cerveja, ontem, em curto espaço de tempo. As cervejas eram IPA e a graduação alcoólica era alta. Desprendi-me do meu próprio corpo e antes de dormir pus pra fora boa parte daquele líquido. Acordei sentindo-me como uma lâmina de bacon fritando na frigideira. A boca ressecada, com aquele sabor azedo do ácido clorídrico que expulsei em violentas reações do trato gastrointestinal.

Um descalabro para sexta feira de manhã. Não tive tempo de tomar café da manhã e segui para o trabalho sobre a minha bicicleta ardendo sob o sol da Carolina do Norte. Estou velho e a recuperação é lenta. Mas esse post não é melancólico, bukowskiano ou pendendo para a tristeza. Foi só um erro de cálculo ontem à noite, nada de mais.

O que eu quero contar é sobre o número expressivo de americanos que, durante essa primeira semana do mês de setembro do ano de 2019, estiveram aqui no restaurante para não só me apresentarem a palavra de Cristo como para, especialmente, perguntarem se eu autorizaria que rezassem por mim.

Oração, assim como canja de galinha, não faz mal a ninguém. A minha resposta é sempre sim.

Comoveu-me esse casal, Rosalie e Ted, que hoje perguntaram se eu me ofenderia por eles quererem rezar junto a mim após desfrutarem de uma farta refeição que os servi. Demos as mãos e eles agradeciam a todo tempo pelo Senhor ter me apresentado a eles dois nesse dia de sol após a breve passagem do furacão Dorian pela cidade. Onde eu moro foi uma ligeira visita da tempestade, mas eles vivem na praia e vieram pra cá até que as coisas se normalizem por lá.

Apenas conversando e compartilhando a minha paixão pelo ser humano ao optar, durante todo esse tempo de estrada, por estar sempre ladeado por gente agradável e que gosta de trocar experiências, os dois se emocionaram e repetiram que eu era uma benção na vida deles nessa sexta feira.

Eu considero que eles também são uma benção na minha e, de imediato, agradeci a singela e tão gentil forma de demonstrar amor em forma de oração.

Ainda hoje, logo nos primeiros momentos após abrir o restaurante, um outro rapaz perguntou se havia algo acontecendo que ele pudesse ajudar, pois queria orar por mim em retribuição ao quão solícito eu tinha sido. Respondi que tudo ia muitíssimo bem em minha vida e que, apesar de não precisar, me sentia grato pela gentileza e que sua oração era muito bem-vinda.

É isso: o meu não-teísmo não me obriga a ser um combatente da fé alheia. Estou em um estado conservador e a presença da disciplina cristã é massiva. Trabalho com muçulmanos e compartilho de suas tradições de maneira respeitosa e admirada.

Dá pra tirar muito proveito dos ensinamentos que as pessoas que vivem religiosamente distribuem. Mas cuidado, estou falando dos que são sérios quanto as suas crenças. Não me reporto aos charlatões e aos sovaqueadores de Bíblia, aquela gente decadente que leva a religião como rótulo de um produto que não condiz com o que se exibe. Essa é a escória.

Se tirar o acento agudo da palavra amém, fica amem. Pronto, amem, a si mesmos em primeiro lugar e ao mundo e suas variâncias.