Polegadas

Maria foi uma boa esposa durante uma das quatro estações do ano. Casou-se com Alfredo apesar do nome em desuso. Ela imaginava como foi a adolescência de um garoto chamado Alfredo e ele elucubrava como teria sido a infância dela sem pai. Cada um nos seus pensamentos particulares, porque eram ofensivos demais para servir à mesa. Maria não andava bem e esquecia a tampa do vaso levantada. Maria dormia com a boca aberta e roncava, mas Alfredo achava aquilo fofo. Fofo, mas insuportável, por isso ele a cutucava com o cotovelo. Casaram-se no outono, quando as folhas caíam. O caminho era poético, na antessala do renascer florido. No inverno, Maria não aguentava. Suspeitava do marido e roía as unhas que já eram curtas. Feria as cutículas e então tomava vinho. Alfredo a encontrava bêbada, desacordada, reclamando do vizinho. Ela sequer conhecia o vizinho. Moravam distante da família e não havia corrida para colo nenhum que resolvesse. Eram os dois, um para o outro, não importa o que acontecesse. Alfredo a amava e o amor é aquilo que o aquecedor faz nas noites mais frias, mesmo que o motor, toda a engenhoca que faz a coisa ficar quente, permaneça no lado de fora da casa sob um rigoroso frio. Maria era doce, uma menina, tinha os pezinhos tortos e os dedos compridos. Nasceu para ser menino, mas Deus quis diferente. Ainda bem, porque Maria era linda com cabelos que pareciam fios de linho. Alfredo se sentia completo, mesmo com as neuroses de Maria. Neuroses são essenciais ao negócio humano, dizem os psicanalistas. Opiniões, como cachos de banana, crescendo a torto e a direito como se o mundo fosse adubado por inteiro. Maria passou a suspeitar que Alfredo estava tendo um caso com alguém do escritório. Ele era funcionário público, batedor de carimbo, um daqueles de futuro, mas com todo o tédio do mundo. Saía cedo e levava a comidinha que seu amor preparava, mas então, com o diabo a lhe sussurrar diabruras, Maria parou. Simplesmente parou e escolheu a TV. O marido notou e reclamou, mas Maria alegou tontura. Disse que o alho queimava as mãos, que não suportava mais o cheiro de fritura. Alfredo, resignado, saía de mãos vazias. Trabalhava feito um condenado para que o dinheiro rendesse uma casa própria. Maria assistia ao televisor com a mente suspensa. A televisão não exige pré-requisitos, não exige sequer inteligência, a televisão só necessita ser ligada e Maria sabia bem apertar o botão vermelho. Maria poderia trabalhar em uma usina nuclear para deflagrar o alarme de desastre. Oh, Maria. Em uma manhã, ela acordou e se sentou em frente ao aparelho. Desligado, era como um negro espelho. Assistia a uma programação idiota, típica de geração vazia. Assustou-se com o estampido de uma música trágica que comunicava o impossível. “Interrompemos a programação para um anúncio especial” disse o âncora. “Devido a forte nevasca, os bombeiros têm dificuldade em acessar o prédio central da administração pública onde um incêndio sem precedentes derrete as colunas seculares”. O mundo de Maria naufragava, mas havia um âncora. Ela levantou e, nervosa, só pensava em fogo, no Alfredo, nos cigarros que ela tanto gostava. Maria subiu as escadas e bateu na porta do quarto onde o marido dormia. Ele caíra doente e dormia em um quarto separado para poupar a esposa da tosse renitente. Bateu com o polegar, como se surrasse um pandeiro. Maria não batia bem. Não houve resposta. Desceu as escadas e grudou no telefone. Ligava insistentemente para o escritório onde o marido trabalhava. Ninguém atendia, deviam estar todos mortos com a fumaça, ou pior, queimados. Maria enfiava os dedos nos cabelos e não sabia o que fazer. Conferiu a garagem e se espantou, pois o carro dele continuava lá. Tornou a subir as escadas, a bater com o polegar direito na porta branca e a chamar por Alfredo, Alfredo. Oh, a constatação! Se Alfredo não estava ali nem no serviço, só poderia estar com a amante. Nem a

neve poderia esfriar sua espinha mais que aquele pensamento. Maria entreteve a ideia e não viu saída. Fugiu de casa, usando o carro do marido. Maria aprendera a dirigir recentemente, mas a ira a guiava. Foi a um bar e pediu bebida. Serviram. Bufava e tremia. Não demorou até que um sujeito se aproximasse e procurasse ouvi-la. Existem mais homens bondosos, nessas horas, do que há certezas nesta vida. Maria vomitava o carrossel de mágoas e o cara, com a cabeça, assentia. Maria não parava, falava mais do que devia. Aos poucos, mesmo o sujeito da malícia, o garçom e os outros homens que ali bebiam se afastaram. Mas era um bar velho, sujo, daqueles que têm buracos na parede. E em um desses buracos tinha quem a ouvia. Uma barata e um rato, imóveis como se paralisados pela estricnina. Maria notou e não se intimidou, discursou para a baixa prole dos seus desejos de patifaria. Bebeu e praguejou e se levantou bastante zonza. Ninguém ajudou, eles queriam que ela se fosse. Maria entrou no carro e deu a partida, mas não conseguia ver. Havia neve sobre o pára-brisa e ela então ativou o limpador. Aguardou que a brancura se dissipasse e julgou, a inocente, que via plenamente com capacidade de uma águia careca. O carro patinou no gelo liso mas Maria, embriagada, julgou que tudo ocorria bem, da mesma forma que saiu de casa. O automóvel replicava as pernas da esposa desastrada. Na casa, enquanto isso, Alfredo destrancou a porta e pisou na sala. Não havia barulho, não havia nada. Apenas a TV ligada e um noticiário mudo. Ele mirou o quintal branco e a beleza da invernada. Torceu para ver uma raposa, um veado, um feixe de Sol naquela manhã castigada. Fez café e deu falta de Maria, mas pensou que a amada estivesse no quarto lendo ou coisa que o valha. Alfredo, segurando uma caneca azul, sentou-se no sofá e aumentou o volume do televisor que mostrava imagens de um fogo imenso, mas que não conseguia distinguir onde se passava. Foi interrompido por um anúncio urgente dentro da programação urgente que retratava uma outra emergência. “Interrompemos a programação especial para outro anúncio especial”. Alfredo recostou-se para acompanhar. “Uma caminhonete, placa RDC-8240, chocou-se contra o prédio em chamas da administração pública. Os bombeiros informam que não há sobreviventes, embora não tenham certeza de quantas pessoas estavam no automóvel”. O prédio era onde ele trabalhava. A placa era a do carro dele. Aflito, Alfredo levantou-se num salto e derramou café quente. Ele pensava sobre aquilo e não sabia o que fazer. Ele queria saber se alguém estava no carro com Maria. Alfredo estremeceu. Polegadas de neve impediam a saída e ele arrefeceu. Aquele era um sábado, ele não entendia como o incêndio começou, por que tudo acabou em fogo e por que ela o trairia.

Nozes

Eu vim para usar meu macacão jeans, mascar tabaco ou chicletes, beber destilados e trabalhar embaixo do Sol. Um dia bem quente, um lenço vermelho amarrado no pescoço e um chapéu para proteger minha, ainda cabeluda, cabeça. Será que eu vou ficar careca? Diz a genética que sim. Diz o meu ego que não. Uma enxada na mão para revolver a terra, um saco de sementes no bolso. Um tratorzinho para percorrer a propriedade. Meu nome é Barney, vivo aqui desde sempre.No começo, era difícil me fazer calçar botas. Sentia que nasci livre o suficiente para viver de pés no chão, ao menos literalmente. Vieram o frio, os carrapatos, os bichos-do-pé, as serpentes e os sapos para me convencerem do contrário. Sou Gaia em sua forma e representação. Não há energia elétrica ou água encanada, casa de alvenaria ou aquecedor central que me sequestre do mato. Muitos sons nascem do escuro noturno que me circunda. Às vezes acho que são espíritos da floresta, guardiães de uma alma humana bem intencionada. Outras vezes, julgo que os predadores estão a me espreitar. Adoro encontrar cobras por aí e delas há muitas, algumas com escamas.


É bom ter coragem de pedir que a visitante vá embora após o sexo. Ajuda a manter a lembrança da parte boa. Você goza, ela goza, todo mundo goza e daí tchau! E uma outra que me presenteou, na data do meu aniversário, com uma cueca? Fez a maior propaganda que aquela era uma peça sem costuras, com material de algodão mesclado à fibra elástica natural, que era à prova de odores e proliferação de fungos, um artigo de extremo bom gosto para acolchoar as minhas bolas. O tamanho que a belezinha comprou? M, de médio. Ou de medíocre. Ou de meh… Caramba. Poderia ter comprado uma Zorba amarela, tão fina como papel, que eu não ficaria chateado. Errar justo para menos no quesito roupa íntima para um homem? Quer dizer que eu sou mediano? Não passou pela cabeça dela que eu sou G? E aquele papo de “ai, minha nossa, isso não vai caber em mim não, nunca vi deste tamanho”? Essa mesma belezinha toma água e não enche a garrafa. É a gota d’água!

Muito prazer, sou Stewart, o bom gosto em pessoa. Alguém tem que zelar pelas boas práticas do lar. Não deixe a toalha de chão fora do lugar no banheiro, o rolo de papel deve ficar sempre com a ponta por cima e, pelo amor dos meus filhinhos, xixi se faz sentado. Acham que é fácil? Na verdade é quando eu estou sozinho. Mas sempre tem alguém para perturbar a paz. Se minha mãe me visita, já não consigo me ausentar da sala com tranquilidade. Não sei o que dá nelas, mas as mães têm essa tendência de querer alterar a disposição de móveis sem notícia prévia. Você vai cortar uma fatia de bolo e, quando volta, o sofá andou pra lá e surgiu uma mesinha de centro absolutamente fora do contexto. Morar sozinho traz o benefício do sozinho da coisa. Você decide por tudo e todos (eu). Nessas aventuras casuais eu já fui obrigado a aguentar ronco, uma moça esfomeada, uma que roncava quando comia, outra que roncava quando ria. Ronco não é um problema. O conflito era quando elas queriam cozinhar e se adiantavam em trazer os ingredientes. Oh, quanta porcaria! A vantagem da relação descartável é que eu nunca ia ser deselegante de reclamar de nada – ou muito pouco. Uma garota trouxe vinho e ele se chamava Quinta do Morgado. Quem morgou fui eu e, a partir daquela noite, nunca mais me deixei na mão dela. O vinho, além de horrível, foi também um curioso caminho para outra descoberta. Ela derramou a taça quase toda sobre suas sandálias brancas que estavam no canto da sala. Os amassos estavam quentes e ela mantinha a bebida em punho. Seu hálito de vinho barato me excitava, esse tipo de coisa que não se explica. Eis que o chão recebe o conteúdo vermelho despejado à meia altura. Foi só então que eu pude perceber como eram tenebrosas aquelas sandálias, credo.


Arranha-céus e garoa e roupas elegantes e restaurantes finos e uísque 21 anos e carros com banco de couro e sapatos italianos e mulheres deslumbrantes e noites infinitas e manhãs de after-party e verões à beira-mar e mimosas no café da manhã e números de telefone trocados a cada 15 dias e paranóias delirantes e ataques de pânico e tiros para o alto e o medo estampado nos olhos de – quase – todo mundo que se encontra com você. Saled Le Dif, muito prazer e ele é todo meu. Meia idade ou ela toda, todas as vontades realizadas. Sobre os sonhos? Talvez, não parei para pensar profundamente na questão. Quando criança eu queria ser um guerreiro ninja. Bem, acabei por andar nas sombras mas por razões distintas. O que eu quis comprar, comprei. Inclusive pessoas, favores, silêncios. Dizia um alguém histórico (é melhor suprimir o nome dele, hein!) que “não quero que nos amem, quero que nos temam”. É bem por aí, por mais que doa admitir. Há algo de nefasto que pulsa em mim e esse algo clama por poder. A fogueira que queima sem se ver é alimentada pelo combustível do crime. Você então pode se perguntar se há mesmo glamour nisso tudo. Ora, meu chapa, claro que sim. Eu sou branco! 90% das vezes passo batido por revistas, blitzes, checagem de segurança de aeroportos e o escambau só por causa da cor da minha pele. O mundo é muito racista e o que eu posso fazer sobre isso? Tirar vantagem. No começo me batia uns conflitos sobre esses privilégios brancos. Aí eu encostava a cabeça no sofá, abria meu pequeno cofre de madeira com cadeado romano e contava meu dinheiro não declarado. Ali percebi que deveria dispor de uma caixa maior pois o montante de grana iria aumentar. E aumentou. Não há nada que não se queira comprar quando a fortuna que você tem é de origem ilícita. Se você enriquece pelas vias normais é natural que fique cheio de dedos para gastar. Mas, se a riqueza veio em forma de desgastadas cédulas conduzidas por mãos maltrapilhas, então que se foda. Não é questão de irresponsabilidade não, é só um orgasmo social por ser inimigo do sistema. Bem, também não me entendam mal. Inimigo do sistema é quem quer pará-lo e, a bem da verdade, um criminoso quer mais é que o sistema continue como ele é. O estado e a polícia que usem seus mecanismos para investigar quem eles quiserem, nós continuaremos a burlar os tiras. É uma tragédia para quem vê de fora, é uma montanha russa para quem está dentro. E a maior parte dos jovens e das garotas ama montanhas russas. Sou Le Dif, sou o nosso amigo, sou o menino lá, sou o patrão, sou Theo, sou um monte de gente. E aquele que é amigo de todos, não é amigo de ninguém. Você já assistiu a algum filme que retrata uma história de sucesso de um cheirador de pó? Tem final feliz e triunfante de um farinheiro para contar? A regra é clara, nunca se meta com a cocaína. Deixe isso para as mulheres, para os canelas secas, para os zé miquinhos. Para todos aqueles cuja preocupação maior é somente o rumo que a festa vai tomar. Eu não faço parte deles, meu negócio é ir em frente e para isso tenho que estar sempre no controle, chapado, mas ligado no que faço. A psicologia do crime envolve potência, é óbvio, e respeito aos demais. Quando as pessoas com quem você negocia e faz transações tem uma arma na cintura, não há espaço para desaforos. Até para passar a perna tem que existir sutileza. Eu venho de uma família disfuncional, a televisão sempre foi minha melhor amiga, a música me ajudava a tomar banho e a sede de potência foi respeitada pelo meu eu-lírico. Meus pais nunca me levaram ao terapeuta, graças a deus. Teria me enquadrado no status-quo e talvez eu fosse hoje um bancário. Ou escrivão da polícia. Ou juiz federal. Tenha piedade, eu hein?! O que mais me preocupa são as crises paranóicas. Deus, como elas têm sido recorrentes. Vivo achando que alguém tocou na maçaneta e a porta vai desabar com os homens da lei entrando e barbarizando. Mas, quando isso acontecer, que chances terei eu?


Eu quero falar de planos. Andam acabando com o planeta e o tempo que resta é curto. Senegal, Congo, Costa do Marfim. Isso aí no continente africano. Depois, Vietnã, a Tailândia e o Sri Lanka lá na Ásia. Caramba, tenho que trocar de mochila, encontrei dois furos. Vi uns sachês de café individuais que vêm em uma cartela de papel que se monta sobre a caneca e são coadores descartáveis. Comprar uma caixa. Por que deixar para depois se posso digitar e usar o celular para fazer o pedido? Comprar com um clique na Amazon, um colosso. Pouca roupa para viajar leve. Pode ser que eu decida ficar em algum desses países por mais tempo, a gente nunca sabe. Tantas moças que eu vou conhecer, vai ser inevitável. Já posso sentir o perfume da Jessica de Iowa e a risada estridente da Josefine da Suécia. Não há mulheres de mais nesse mundo? Não é esse o meu destino, conhecê-las? Ah, os convites obscenos para diversão a três com as canadenses Hollis e Renee. Já consigo antever tudo isso que está prestes a acontecer. Maggie vai me presentear a sua calcinha Victoria’s Secrets e depois sumir. Calcinha preta, com as marcas indeléveis do tesão incontido por mim. Vou curtir essas paradas, toda santa noite, sem limites para a repetição da conduta. Dane-se. O importante é acordar cedo e aproveitar o dia. Dou-me um cochilo de presente após o almoço, mas a manhã é sagrada para caminhar sem destino. Aliás, qual será o meu? Ser o CEO de uma companhia global? Nah… acho que não. Já perdi as contas de tudo o que eu me imaginei sendo. Pronto, café comprado e a mochila nova também. Ainda aceitei a sugestão de um carregador solar portátil e adicionei ao carrinho de compras. Vai ser útil. Posso passar alguns dias acampando na floresta e conhecer alguma mulher local que se engrace comigo. Poderia ser uma vietnamita. Seria perfeito se fosse uma asiática que se apaixonasse, casasse comigo e propusesse um negócio para abrirmos, quem sabe, em Bangkok. Casa de comida brasileira e outras coisas brasileiras também. Já conheci uma tailandesa que se apaixonou por mim e quis casar e abrir uma empresa. Exatamente do jeitinho que eu descrevi. Acontece que daí eu conheci uma dinamarquesa chamada Annie na mesma época. E uma norueguesa chamada Juliette. Oh, céus, que crápula eu sou. Aqui, juntando os trapos para viajar outra vez, já se pode perceber que nada vingou. Paciência. O importante é que agora vem um plano infalível para a estrada: comprar uma câmera polaroid e tirar fotos de turistas pelo caminho por alguns trocados. Dá pra pagar a comida, então já barateia a jornada. Alguém me disse que eu sou ansioso. Que mané ansioso, eu sou Hugh, aquele Hugh, sim, o único que merece o status de fodão, o Hugh criador do ícone da boa vida, o cara que vivia de roupão de seda. Meu nome foi em sua homenagem e eu tento fazer por onde. Coitado de mim. Sinto o corpo quente. Será uma febre ou só a sala que está quente demais? A porta da sacada está fechada e o vento não corre. O ar condicionado está regulado para uma temperatura tipo o hálito de um mendigo. Eca. Pensei agora em sorvete de azeitona, será que existe? Se não existe, eu poderia inventar. Mas deve ser muito ruim. Estou prestes a viajar e ainda tenho que me despedir da Raquel, da Ana Luiza, da Paula, da Carla, da Lilian, da Carina. Caceta. Cada uma delas tem que ser uma noite toda. Será que eu consigo convencer algumas delas a se unirem em pares? Já salvaria um tempinho. E a Paula pelo menos, aquele quilômetro de mulher, sabe dobrar roupa como ninguém. Ela vai gostar de me ajudar. Mulheres, aeroportos e empreendedorismo. 365.000 planos. Aí vou eu.


Se um dia eu postar esta merda de texto, aposto que alguém vai surgir e dizer “oh, como você escreve bem” e coisas do tipo, elogios lambe-botas. Quem irá proferir tais palavras? Um pederasta, ou uma leitora de auto-ajuda. Ou um coach paz e amor. Puta que pariu, o inferno está mesmo vazio e os diabos realmente estão todos aqui. Aqui, na minha fuça. Chamam-me tóxico, a palavrinha do momento. Mando à merda. Sejam bem vindos ao show de porra nenhuma, sou seu anfitrião Rick. Adoram me perguntar se é a corruptela de Ricardo. Meus amigos, tenham bom senso. Ninguém chamado Ricardo quer assumir que se chama Ricardo. Deixem os Ricks, os Ricos, os Cacás quietos por aí. Mania de… de… de querer saber de toda a raiz etimológica de um reles nome. Eu ia dizer que era mania de v… mas ia acabar pegando mal. Não se pode mais ter liberdade de expressão para ofender os outros neste mundo contemporâneo. Antes, meu pai chamava tudo quanto era negão de alemão. Eu não entendia como aquilo fazia sentido. Cresci e entendi. Mas, agora não pode mais. Uma porrada de coisas é mal vista hoje em dia enquanto outras, que ninguém poderia imaginar, tornaram-se banais. Eu não quero repetir esse discurso barato pseudo-intelectual contra o politicamente correto. Ser confundido com a grande massa, o rebanho ordenado, a multidão nua que se agita pelos mesmos estímulos e exerce o imenso, incomensurável, plastificado magnetismo da compaixão universal. Não é possível. Eu não quero ter empatia com ninguém porque já me obrigam a isso. Obrigam-me a pagar impostos, a segurar a porta do elevador, a separar o lixo, a parar na faixa de pedestres, a distribuir esmolas por aí. E eu? E o que é meu? É duro conviver com tanta gente limitada. Gente que passa três ou quatro horas olhando para uma tela iluminada que cabe no bolso. Aliás, você está lendo isso pelo seu celular? Ótimo, metalinguagem na sua forma pura. Você é um idiota? Melhor ainda, pois estou falando de você. Com você e para você. Seu putinho sentimental. Você faz parte de alguma minoria? Estou me lixando para isso. Alguém morreu na sua família vítima de COVID-19? Deus quis assim, não é como vocês justificam tudo? A vontade Dele? Eis aqui a minha vontade, eu a apresento com tópicos bem acabados e detalhados. Primeiro um tsunami, volumoso e extenso, em toda a costa brasileira. Impiedoso, exterminador da esperança e de herdeiros improdutivos. A água levaria as varandas, encheria as piscinas com lama e arrastaria land-rovers sem o menor rastro de complacência. Quantos sobrenomes teriam suas proles gordas e inúteis arrasadas? Daí então uma guerra com um país vizinho, de preferência um que seja subestimado pela arrogância canarinha. Uma Venezuela, que exemplo magnífico. Declarado conflito, Roraima invadido, a costa ainda se recuperando dos estragos do maremoto. Caos perfeito, daquele que dá à luz uma estrela brilhante. Os herdeiros que sobraram das famílias da elite seriam forçados a se alistarem. Lutariam lado a lado com os meninos do bairro, aqueles que estão acostumados a tiroteios e corpos jazendo nas ruas. Teriam de se ajudar e se proteger, brancos e negros e cafuzos e até os que não se encaixam em padrão nenhum. Morreriam, ah como morreriam! Aos montes, cadáveres e caixões amontoados. A confecção da bandeira nacional atingiria novos recordes. O hino seria entoado sem gaguejar por todos os brasileiros. Choro, comoção. Carnaval cancelado por cinco anos, no mínimo. Silêncio, a pátria aquietada. Algo se torna sério, finalmente, e não somente grave. Mães chorarão ao receberem a visita do soldado que carrega a carta derradeira de seus filhos. “Lutou bravamente e me salvou um dia”, dirão os que se salvaram. E a indústria bélica dará um salto, afinal, nem tudo é desgraça.


Oi, eu sou Stanley. Hoje acordei às seis horas da manhã. Bom, seis e quinze. Ok, seis e treze. Nunca consigo ter paz se não dou os detalhes exatos sobre as coisas. Tudo bem, é só um horário. Acordei cedo porque dormi super bem. Dormi super bem porque tomei um dramin. Risos. Estava cansado e queria me sentir desmaiado na cama. Funcionou, sonhei até com um antigo amor. Oh, não. Essa parte não foi boa. Risos. Não houve nada de sexual no sonho, ainda bem. Esse pensamento seria nocivo para a minha serenidade. Acordei suado e com a sensação de pesadelo. Mas, tudo bem também. Alguma coisa não deve estar tão bem resolvida em mim. Devo trabalhar isso e a melhor forma de trabalhar é falando sobre. Sinto-me muito realizado por contar com tanta gente boa à minha volta. Amigos, esposa, familiares. Como é bela a harmonia e o sentimento coletivo de fraternidade. Gosto de cozinhar para todas essas pessoas em retribuição a tanta bênção que me cerca. Uma carne na pressão com legumes, comida afetiva. Uma ligação inesperada também serve, acalenta o coração alheio. O meu também. Na dúvida, o certo é ligar, mandar uma mensagem, um cartão postal ou seja o que for que funcione para demonstrar como é importante aquela ponte. É sobre eles, sobre mim, sobre todos nós. Construir pontes e não muros. Seríamos todos seres que habitam este planeta Terra com um sentido pré determinado? Nascer, crescer, procriar? Ouvir e difundir a palavra de um criador? Ou a vida não tem sentido algum e, daí então, esse seria o próprio sentido da vida, o de dar a própria significação subjetiva, intransferível e nominal? Tudo bem quem acredita nisso ou naquilo, no fim das contas a gente nunca vai saber esse treco de verdade absoluta. Supimpa, já faz alguns meses que não ingiro nenhuma substância entorpecente e eu me sinto ótimo. Leve como uma pluma, sagaz como um lince. Miau. Uma delícia essa sensação de que a gente não precisa de nada para render. Suco de cenoura pela manhã, feito com 34 cenouras, gengibre e açafrão. Risos. 34 cenouras, só isso já entregou que eu comprei pronto, porque ninguém em sã consciência usa 34 cenouras para fazer um suco. Ser saudável é bom, respeitar as leis e as regras de convivência é uma maravilha. E ler poesia à tarde, antes do trabalho. Dizer ao pé do ouvido da minha esposa o quanto a amo e, de quebra, escrever na parede bem grande para que ela possa ver o dia todo. Eu te amo, eu te quero, eu te venero. Como é agradável se agradar.


Só uma coisa é mais importante que o dinheiro no bolso e essa coisa são as calorias que me mantém forte o bastante para trabalhar feito um camelo adulto e poder ganhar toda a grana do mundo. Não me importa mais nada. Calorias, meu irmão. Calorias do açúcar, da gordura, de proteína magra ou não. Ovos na manteiga. Shake hipercalórico, sobremesa e suspiro pós treino. Oh yes eu estou vivo, sinto que estou vivo, vivão e vivendo! Alguém me segure! Já perceberam que a ingesta hipercalórica causa um barato? O famoso doidão de açúcar, nunca conheceu um? Eles existem e eu sou um deles. Frango frito no café da manhã, waffles com mel e bacon. Quer mais? Adicione uma dose de uísque e outra de licor ao café e pronto, mais calorias sem que o álcool possa danificar o rendimento. Ciência, caceta! Aliás, muita água durante o dia. A única exceção do dia, em prol do bom funcionamento da máquina. Agora, hora da refeição é sagrada. Refrigerante, pelos carboidratos, pelo gelo (olha a água aí) e pelo gás. Uma arrotada e o volume de comida desce que é uma beleza. Pudim é sempre uma ótima combinação para depois. Tem leite, tem ovo e tem açúcar. Quer mais o quê? Almoço de meia hora e pau na máquina de novo. Carga nas costas, jornadas intermináveis. Não há desafios para o homem das calorias. Só eu, Hank, domino essa técnica. Em todo caso que envolver alimentos, a escolha deve ser baseada na tabela nutricional. É isso. Só não esqueça a água durante o dia, nos intervalos. Álcool, refrigerantes, sucos de fruta, macarrão com feijão, hambúrgueres monstruosos. Nada importa, só as calorias e crescer. Cresce o corpo, crescem os músculos, cresce o bolso. Au!


Fui despertado por essa estranha sensação de não ser mais o mesmo que eu era há alguns anos. Meu corpo mudou em virtude das barganhas na alimentação, indulgências na conduta física e, não dá para negar, alguns revezes sentimentais. Uma bola de neve que virou avalanche. Olhei no espelho e me encontrei com mais gordura corporal que costumava ter. Ok, ainda consigo ver os gomos do meu abdômen, mas, convenhamos, não está igual. Significa que isso me diminui em algum aspecto? De jeito maneira. Não me resumo à minha identidade física, claro que não. Sou muito mais que simples músculos amontoados sob a pele, acontece que a gente tem que cuidar da imagem, né? Faz parte do sucesso ter também uma apresentação de sucesso e, no geral, um corpo bem definido e treinado passa a ideia de compromisso e disciplina. E fome hahaha. Não dá pra comer de tudo e muito menos comer porcaria. O corpo é um templo. Amém. Minha companheira, pobrezinha, nunca experimentou uma dieta rigorosa e chega a dar pena. Os fracos não sobrevivem. Nós temos que seguir o plano. Calorias baixas e valor nutritivo alto. Quem não ama um sanduíche? Todo mundo é louco por pão, mas agora a história mudou e o barco virou e o capitão sou eu. Legumes cozidos no vapor, carne magra e muito chá entre as refeições para estimular o corpo a se manter em funcionamento. Vem aí a mudança física do ano! É só temperar tudo certinho que ninguém sente falta de excessos gordurosos ou farináceos. Ao despertar, ingiro só líquidos. Suco natural, vitamina ou leite puro alimentam e tem esvaziamento gástrico rápido. Em poucos minutos estou apto a treinar. Uma caminhada até a academia como aquecimento, ritmo acelerado. Música tranquila durante o trajeto para preparar o espírito. Os ouvidos ainda estão despertando, não há a necessidade de pular etapas. Na esquina da academia a coisa muda de figura. Punk rock, eletrônica ou heavy metal. Sobem as batidas, aumenta-se a frequência e o sangue afina. Tudo flui. Bom dia aos funcionários da recepção do ginásio. Não adianta ser good vibes e não cumprimentar a galera. Levanto o primeiro halter e o coração acelera. Vasodilatação faz os olhos brilharem ao se auto observar. Pode existir uma academia sem espelhos? Uau, enquanto descanso no intervalo da super série, um pensamento me invade a cachola. O que seria da humanidade se os espelhos nunca tivessem sido inventados? Isso daria uma tese de conclusão de residência em psiquiatria na UNICAMP. Alguém chame uma ambulância, mas não para mim. Tenho que erguer essa carga monstruosa e deixar a mente silenciada. Modo avião para reflexões nesse momento. Só se permite flexões, as de braço.Cada um tenta resumir o caráter através da compleição física. Nada de errado, mas eu não faço parte dessa galera. Treino porque faz bem e porque a idade vai chegando, tenho que manter o mínimo de condicionamento. Nem ligo tanto assim para a imagem, caramba, mas não posso deixar meu nome afundar. O meu nome é Erasmo e eu vou confessar aqui que já ouvi as más línguas me chamando de Era. Era o escambau! Ainda sou, seus mal acabados. Só creatina, whey e mel de suplementação enquanto vocês se acabam nos esteróides anabólicos. Não que eu me importe com essa supervalorização do corpo e seus atributos estéticos, longe disso, mas o que é do homem o bicho não come. A César o que é de César. Tem um pessoal, pessoal não, a maioria dos frequentadores do ambiente de treino, que se autointitula guerreiro. Guerreiros, atletas. Motivo para tal título? Puxarem ferro para cima e para baixo, para frente e para trás. Um pouco excessivo, certo? Eu acho. É a pitada de bom senso que falta nessa multidão perdida. Dia desses o cara que vende pamonha na rua perguntou onde que eu treino. Quero começar a masculação, ele disse. Masculação, caramba! Errando ele imortalizou todo um conceito. Mais que treinar os músculos, parece que toda uma geração exercita a masculinização. Querem ser mais viris, mais tenazes, mais agressivos, mais fortes, essas coisas que se atribui ao gênero masculino. Provavelmente irão se frustrar, filosófico ou materialmente. De um jeito ou de outro. Eu só quero perder a minha gordura.


Sejam bem vindxs a este antro, esta casa de perdição e vícios, ao lúgubre e ao mesmo tempo plácido ambiente das mil faces. Uma dor a mais, um excesso, um amor, uma abstinência. Tem de tudo, tem para todxs. Eu sempre estive aqui, desde o início, assim como estou em todo o mundo, para ser franca. Meu nome é Marlene, a essência feminina da alma, o abrigo e também a austeridade, a missiva com as direções cardinais e o ponto de encontro. Sim, todo indivíduo me tem ainda que inconscientemente. Assim é. Em mim reside as razões de um que agride, de outro que ama, de um que usa, de outro que teme. Mulheres, milhares, melhores. Evoé, Deusa! Chorar é obrigatório. Se você não chorar ficará perdido na própria tristeza. Assim eu digo, assim dizem os séculos. E também os analistas. Mas, cuidado, alguns desses analistas estão presos em um século passado. O mundo gira e o vacilão roda, diriam as quebradas. Pura sabedoria. Não é tarefa pequena coexistir com identidades masculinas. Ainda que sejam múltiplas, desordenadas e conflituosas, tudo bem, vá lá, a gente conduz da melhor maneira possível. Mas, não bastasse todo o privilégio histórico e enorme vantagem que gozam, ainda se valem de um tratamento muito mimado por parte da sociedade. Já passou da hora de uns safanões. Ok, esqueça essa parte dos safanões, se não vão associar a violência e é justamente esse um dos problemas. São muitos eus, muitos nós, muitos meus, muitas minhas, muitas nozes. Aquelx que cresce com uma mãe há de criar a concepção das mulheres que encontrará pela vida a partir dessa mãe. Como ela era? Como eram seus hábitos? Como se tratavam? Como os outros homens da família a tratavam? Como ainda se tratam atualmente? Já buscaram tratamento? Quais foram suas conclusões de vida, seus interesses, seus prazeres, suas frustrações, seus planos, suas exceções, as permissões e privações? Quem a amou? Tudinho que é processado pelo núcleo algorítmico do cérebro humano é projetado ante os olhos. Assim se forma o espectro consciente da figura feminina para o observador. Por isso, uns isso e outros aquilo com as fêmeas. Em muitos casos, será lamentável conhecer o passado do sujeito analisado. Em outros, será inspirador. O negócio gira em torno de entender que dá pra mudar o que reside dentro de nós, ainda que sejam inúmeras manifestações de personalidades metamórficas e desafiadoras. Quanto aos outros – ah, que tragédia lhes informar isso! Esperem, sentadx de preferência. As pessoas tendem a pensar que podem mudar os outros ao passo que são imutáveis elas mesmas, grandes poços de água parada e inalcançável. É o contrário. Sobre nós reside todo o poder e, quanto aos demais, tão somente a contemplação. Sobre os outrxs, ao menos, podemos atribuir o inferno. Ha ha ha, uma pitada de sarcasmo sem perder a compostura. O inferno são os outrxs; Deus está mortx; ótimos exemplos de como a leitura pode resultar em interpretações tacanhas da filosofia. Não bastam frases, mas obras completas. Não há de nos satisfazer apenas os genitais alheios e sim, como um grande fluxo, toda a energia que flui dos pés à cabeça. Amemo-nos, pois, primeiro a nós mesmxs e daí, numa justa consequência do amor que busca amar mais, amaremos ao próximx. E tenho dito!

Um conto de Boston – parte 4

Imenso desprazer tive ao, após a segunda semana, perceber que aquilo era uma realidade. Estava na mesma hora, no mesmo lugar, com a mesma ansiedade. Queria encontrar o manuscrito que revelava trivialidades e caprichos. Nada. Aquele alguém resolvera por estancar a fonte da minha distração obsequiosa. Inconformado, passei a esperar diariamente. Talvez o ilustre tivesse decidido por alterar o calendário de despojo de seus depoimentos. Sábado, domingo, segunda, terça. Quarta-feira não, pois é dia de jogo e eu me embriago. Quinta, sexta-feira de novo. Nada havia onde antes eu encontrava linhas rabiscadas, só as farpas lascadas do banco de madeira da estação central. Senti-me triste. Haveria o sujeito desistido da arte confessional? No vigésimo primeiro dia o frio era menelênico, no bom português, um frio de corno. Levei um cantil comigo, o qual tinha enchido com bourbon. À essa altura, eu sofria de jejum da intimidade alheia, eu era um voyeur em abstinência. Sentado à distância, percebi o aproximar de um rapaz alto, corpanzil de atleta, sorriso no rosto com ares de pândego. Sentou-se exatamente no lugar onde eu costumava encontrar as cartas enigmáticas. Que ousadia. Meteu as mãos nos bolsos laterais do casaco e ficou a observar as redondezas, como que por inclinação investigativa. Eu, do meu canto, entornava o uísque de milho. Usava uma boina verde xadrez, a qual puxei para baixo escondendo a face. O rapaz esperou por uns instantes. Sacou um maço de Lucky Strike, eu podia ver a logomarca. Fumou lentamente enquanto rastreava as cercanias. Seus olhos pareciam gozar de independência, cada um vigiava seu próprio flanco. Apagou o cigarro embaixo do banco, levantou-se e caminhou rumo ao portão oeste. Lá jazia, onde há pouco seu traseiro repousava, um envelope. Minha fixação. Dizia:

“Bom dia, boa tarde, boa noite – por enquanto. Meu nome é Armando, José Armando Passos. Estou em processo. Há quem diga que não há saída para a vida, senão a morte. Eu digo que não há destino para a morte, senão a vida. Um bando de filhos da puta são os meus vizinhos. Estou há dias tentando fazer amizades, bato-lhes à porta e peço um minuto de atenção; suas cabeças negam e a mim seus olhos repelem. Nunca pensei que abordar pessoas, de cueca, acerca das evidências fósseis incas sobre presença alienígena de crânios alongados seria algo tão, diga-se, chocante. Sigamos. Há algo de estranho nestas linhas, e eu sei o que é. Elas são lidas, e por isso agora me sinto um mestre de cerimônias. Minhas palavras são redigidas daí visualizadas, interpretadas, condicionadas, relacionadas, contestadas. Sou a antítese da minha síntese anônima. O que é que sou? De onde venho, para onde vou? Clichê, muito e pavoroso.

A quem quero e por quê? O que quero e por quê?

Eis as duas perguntas fundamentais: para que e para quem?

Percebi que há um qualquer. Todo qualquer é um ninguém, e ninguém é de ferro.

Existencialistas são perspectivistas de um presente contínuo, preceptores do eterno vir-a-ser. 

Eu vi você, João dos Prazeres, você que recolhe os meus ciscos. Você os encontra, dobra sem pudor. CUSTA MANTER EM SUA MÃO, UM PEDAÇO DE PAPEL? Dê o que merece de relevância a este manifesto que, até então, era apócrifo. Eu sou Zé Armando, você é o João dos Prazeres que colhe o rastro de pão dos meus pensamentos.

Desculpe a gritaria, mas putaqueopariu. Não precisa tratar a minha folha com falta de afeto. Vi você quando deixei a terceira carta. Estava de costas, catou o pergaminho e seguiu em frente. Seu casaco não me permite descrevê-lo. Boa leitura, eu lhe desejo. Será que você leu os prévios?

Sigamos.

Se temos uma lei no mundo, é a que diz: olho por olho, dente por dente. Código de Hamurabi. Pois bem, duvido que você possa perceber, caso esteja aí, o exato momento no qual abandono este comunicado.

Alguns dizem: olho por olho e o mundo fica cego.

Meio cego, eu digo. Melhor meia visão que visão nenhuma e, é importante lembrar, luz demais cega. Faz muito frio novamente, escrever só se dá em ambientes fechados, onde se pode dispensar as luvas. Falar de luvas é tatear de máscara.

Somos vontade, libido no entendimento dEle. Penso, logo desejo, logo existo. Fruto do imperativo conquistador, ouço as trombetas de dentro de mim sem que me importe com os agentes reguladores de sempre. Avanço e expando meus domínios.

Diria que feito o meu pai não tenho interesse nenhum por mim e, como a minha mãe, às vezes dou-me muita atenção.

Foi tanta alegria, tanta euforia, tanto assanhamento estado de ser nas últimas semanas que eu nem sei mais para onde vou. Digo-lhe, ao bom amigo leitor, que somos agora dois fantasmas. Coexistimos em um espaço apertado, escuro e abarrotado de ovelhas escandalosas.

Só sei que se fico, eu não vou. Se fico ou vou, só sei que lá eu não fico se aqui eu estou.”

Não o vi deixar a carta, mas o bendito sabe de mim! Que dia!

Um conto de Boston – parte 3

Penso que deve haver algo de grandioso neste salutar exercício de dar seguimento aos registros apócrifos que encontro, há três semanas, no mesmo lugar e por volta do mesmo horário, na estação norte de trens de Boston. Estava distraído me despedindo de Margareth e quase passei do ponto. Recomendava que ela usasse arnica em seu joelho em alternativa aos fármacos convencionais quando me dei conta que já tinha dado uns dez passos além do cantinho onde costuma estar a carta dobrada, com as margens puídas e letra garranchosa, um baú de intimidades recalcitrantes e confidenciadas sem pudor ou padrão ético. Despedi-me bruscamente de Marge e enviei minhas saudações a Donald. Virei-me e driblei a tropa de cidadãos que marchava impiedosa. Lá estava o pergaminho.

As semanas têm passado mais rápido ou é impressão minha? – existe papo de elevador mais enfadonho que esse? Eu sorri quando a moça exibiu toda a sua genialidade atemporal na tentativa de interagir comigo. Não podia perder a oportunidade. Respirei fundo e falei “sim, tem razão. É um fenômeno observado primariamente na Suiça, por uma junta internacional de cientistas dedicados ao tempo e suas ranhuras. Chama-se inter-relatividade de camadas bósicas não discriminada em funções derivadas, vulgarmente conhecido por subjetividade quântico-temporal.” Silêncio. O elevador apitou – plim! – e eu cheguei ao andar do laboratório de análises clínicas. A cara da garota era impagável. Se fosse uma pizza, seria meia indignação, meia dúvida. Será que eu falava sério? Os outros ocupantes da máquina ascensora estavam todos, ao exemplo da minha interlocutora, com os lábios entreabertos em espanto. Um senhor olhava repetidamente seu relógio de pulso e dava umas pancadas. Continuei sorrindo e saí daquele microcosmos de frivolidade. Estava livre do papo morto, mas ainda tinha o exame para fazer. A lei de compensação divina poderia muito bem equilibrar aquela cretinice com um diagnóstico positivo. Tem coisa pior que aguardar para abrir o envelope com resultado de exames de sangue? Tem, ah se tem. Presunção de conteúdo por livre exercício do pensamento. Gente que fala sem saber, na linguagem popular.

Tenho um vizinho que é muito divertido. Gosta de beber bebidas baratas e ficar embriagado. Quando compro alguma bebida mais cara e abro para nós bebermos, ele não se impressiona. Sujeitinho engraçado. Gosta de tecer suas opiniões e eu sou o melhor dos ouvintes. Absolutamente tudo o que ele reporta como suas ideologias é o oposto de sua conduta. Se ele fala que não gosta de futebol, eu rio. Domingo à tarde, posso ouvir seus gritos apaixonados enquanto assiste a uma partida qualquer. A contradição me encanta. Ele se diz anti-capitalista, no entanto… recebe um salário mínimo. Acho que os paradoxos, esses caprichos de arquétipos não previsíveis, inconstantes e fronteiriços, nos unem de uma forma sutilmente comprometedora.

Ontem à noite levei muito tempo até conseguir adormecer. Alguém no prédio ouvia Madonna no último volume. Deve ter riscado o disco. Eu gosto da Madonna, ela tem garra. Antes de ficar famosa, posava nua para artistas. Fotografaram, pintaram as suas curvas e também aquela pinta que ela tem acima da boca. Que sorte a desses caras. Será que ela também realizava alguns favores íntimos em vista de uns trocados? Tem um cara muito bacana, polêmico (ao menos lá no Oregon hehe), uma espécie de guru indiano que manda bem nas colocações. Ele se chama Osho. E Osho disse que “toda vez que ele encontra uma prostituta, ela quer falar sobre Deus e sempre que se reúne a um homem religioso, ele quer falar sobre sexo.” Tudo o que nós negamos a nós mesmos se torna a nossa prisão mental. A renúncia aos desejos não é um caminho fácil para a felicidade. Tenho grande apreço pelas profissionais do sexo, conheci algumas. Já namorei uma. Gente que suporta humilhações, situações desagradáveis e extremos cotidianos em troca de dólares. Quase igual à maioria da sociedade trabalhadora, só que com a diferença de um genital a mais entre as pernas.

Salvei um cavalo no meu último aniversário, um cavalo da polícia montada. Chovia bastante, eu estava encostado no balcão de uma cafeteria. O rapaz que manuseava a máquina de espresso usava um avental de sarja, levava uma boina mostarda de couro de porco na cabeça e óculos sem armação pendurados em um nariz que fazia sombra ao bigode longo e redondo que lhe cobria os lábios. Ele tinha um pano de pratos branco no ombro direito que a toda hora usava para enxugar copos e xícaras. De repente, parou e desarmou a empunhadura de secagem. Ficou com os olhos bem abertos, como a sua boca, olhando para a rua exibida pela fachada de vidro da pequena lojinha. Estava de costas e me virei. Um grande, todo paramentado cavalo empinava as patas em plena avenida. Que cor linda, aquele negrume retinto que reluzia à luz dos relâmpagos que iluminavam o céu. Assustado, o animal relinchava, sacudia o corpo e ameaçava uma tragédia. Eu estava só, bebendo meu café em paz. Os carros buzinavam. Aproximei-me da porta, abri, vasculhei as redondezas e não vi ninguém vindo em socorro. Tirei minha roupa – calma lá, fiquei de calças – e caminhei até o bicho. Sei que não se deve encarar um equino direto nos olhos, mas eu queria sentir a dor dele. Queria decifrar seus pavores, o que havia levado àquele rompante histérico, àquele vexame público. Fui chegando e conversando com ele: “Hey Timothy, calma aí cara, tá tudo numa boa.” Ele gostou do nome. Tim relaxou, eu tomei suas rédeas e o conduzi à calçada. Fazia carinho nos seus pêlos úmidos e coçava seu pescoço. O público gritava, aplaudia. Eu tinha salvado o dia. Logo surgiu uma policial mulher, na sua farda azul escura decorada com a vergonha de uma falha tão monumental. Como ela havia se descuidado daquele bem tão precioso? O sorriso amarelo era o suficiente. Não precisava lhe dar nenhuma lição de moral, afinal, submeter outros ao ridículo é um pecado grave. Eis outro mantra. Sofri com o cavalo a dor de ficar exposto, desencontrado, ansioso. Vulnerável. Que história, não? Parece até mentira, mas não é. Voltei, ensopado, para o café. Não precisei pagar a conta. Sensibilizei-me com o bicho, sensibilizaram-se com o animal aqui.

Tive dores na semana passada, atrás da perna. Surgiram após uma noite de excessos. A investigação foi frustrante porque não podia indicar uma razão plausível para as pontadas que em dois dias passaram. Delírio? Ilusão? Negacionismo? Cerveja gelada. Bebi para passar. Funcionou. Pensar não é pop. Cerveja é pop. Para dores, pop culture.

Não fui ao encontro do terapeuta. Ele que veio até a mim, o desavergonhado. Se eu fosse uma casa com a maçaneta trancada, ele seria o pé de cabra. Aliás, justiça seja feita, ele não é terapeuta e sim médico. Médico psiquiatra. Eu achava que uma coisa levava à outra. Queria que ele me levasse a algumas drogas, hahaha. Gosto demais do sujeito, ele tem fome por provocação. Isso é tenebroso e audaz, uma arte que torna a conversa mais saborosa, instigante, espontânea. Falo vários idiomas, dentre os quais o anglo saxão. O doutor fala inglês, ora veja só. Percebi que não falamos a mesma língua. Dia desses ele se interessou por obras que eu ando lendo. Fez algumas perguntas e eu as respondi. Sabe aquelas impressões pessoais sobre algo que você tem contato? Pois então, são como um couvert de restaurante com azeitonas, pão e salaminho. Abrem o apetite mas, para matar a fome, tem que se pedir o prato principal. Eu dizia:

– Bukowski era um gênio da escrita simples e envolvente, aquele velho desgraçado.

– Curioso que, dentre tantos expoentes românticos e floreios realistas, você opte por se projetar naquela crueza porca. O que resta?

– Devagar…

– Exato, por que será que a fraqueza de se ver assemelhado a algo tão pouco nobre incomoda?

– Devagar…

– Posso divagar mais, muito mais.

– DEVAGAR!”