Choo Choo

O corpo oscilava. Quando o metrô parava, ela inclinava à direita e tirava um pezinho do chão para se equilibrar. As portas se abriam, uns tantos entravam e outros saíam na promiscuidade dos viajantes urbanos que cavalgam trilhos e mantêm o silêncio. Vagões cheios que se esvaziam e vagões vazios que dão medo. Na fricção das ferrovias emulam o clímax ao chegar lá, ou aqui, sempre em um constante diverso de onde embarcaram. Empresários, iniciantes, putas, mendigos, donas de casa e analistas de sistema. Telefones com dados e a sorte esquecida no travesseiro. Quando dormem, os cidadãos deixam de fazer e são feitos. São um, são dois, são cem. O submundo da cidade grande, o literal universo que existe sob o asfalto, é um terreno democrático porque custa três e uns trocados ou coisa que o valha. E há quem não pode pagar, mas mesmo assim está lá porque pular a catraca é um ato revolucionário. Santas panturrilhas.

O pescoço da garota, duro como os julgos morais que martelavam o pensamento inquieto de uma mente proletária, resistia aos sacolejos. Ela precisava de massagem na carne, mas tudo o que andava conseguindo era no ego. Ao partir, o trem a fazia tombar para a esquerda porque o progresso e o progressismo têm dessas coisas, um desarranjo aqui, um rompimento com o status quo ali, uma quebra da inércia que é mais fácil de sentir que de explicar, imagina de fazer. Sexo, casamento, tempo de vôo entre Nova Iorque e Los Angeles, salário mínimo, por que diabos o Wagner Moura aceitou fazer o tributo ao Legião Urbana? A moça alimentava pensamentos com uma tal liberdade que só a privacidade garante. Viu então uma outra mulher – ou homem, não estava claro e ninguém se importa – que tinha cabelos tão longos que alcançavam as costas do joelho. Quão difícil deve ser para que aquela pessoa use a privada? – pensou. Uma cabecinha paradisíaca como uma ilha, se pequena em diâmetro, larga em maravilhas. Em suas narinas entravam todos os cheiros do mundo, das fragrâncias de bergamota ao chorume das ratazanas da rede de esgoto. A garota batucava com os dedos contra o assento laranja e respirava fundo. Um dia aquilo tudo seria memória, lição de vida, ou quem sabe um arrependimento. Quantos casamentos ela já havia recusado, quantos rapazolas de cabelos longos haviam prometido os confortos de salas de estar bem decoradas? Não era daquelas que aceitam as submissões exigidas para o cargo, ainda que existam inúmeras plantas para decorar os apartamentos à beira-mar. Não era uma dama decorativa. Falo de uma mulher em plena posse de suas errâncias e independências, ao ponto da recusa aos tribunais e confiança nos amanhãs. Vai para a cama só ou acompanhada, nunca insegura.

Um cara em pé lia um livro qualquer na tela do celular e um senhor idoso, corcunda, pedia contribuições voluntárias para que ele não morresse de fome. Na sociedade dos excluídos, na linha temporal dos que sobrevivem ao preço das suas horas, tudo tem preço mas nada tem sentido. Os momentos contam como séculos.

A garota tinha olheiras como todos têm, mas ela não as escondia. Seu único rabo preso era o de cavalo. Na grande maçã todos dormem pouco e cospem muito. Cigarros, tragos, fluidos pegajosos. Os prazeres da vida parecem se resumir em coisas que não são permanentes. Ela pensava em quando começar a ter coragem. Aquele livro, o diário, a luta de espadas contra o dragão invisível da letargia. Uma sirene sempre soa ao fundo quando ela caminha pelas ruas cinzas da metrópole dos tumultos controlados. Há tanto barulho em sua mente que os trens e seus gritos de metal já não conseguem atrapalhar os processos internos. Falta uma buzina dentro de sua cabeça, um alarme, um som de alerta que a obrigue ao susto. Viver não com receio, mas em alerta de prontidão, sentinela para a ação voluntária. Há momentos em que ela se vê amarrada, imóvel, vendo a locomotiva se aproximar sobre si mesma. A garota então pisca e chacoalha a cabeça e volta a si. Não há muito espaço para divagações quando falta sete estações até o seu destino. Ela ainda não ama o que lhe acontece porque ninguém a ensinou a tanto. Reclama em breves arroubos de insatisfação, como foi acostumada. Não por menor paixão pelo otimismo, mas por hábito de despertar compaixão alheia ela lamenta à espera de esmolas afetivas. Nas megalópoles dos deuses financeiros ninguém se importa com nada além dos dígitos antes da vírgula.

Eis que uma outra mulher adentra a lata metroviária e se senta à frente da garota exausta. Era jovem como ela, usava uma blusa que cobria apenas o tronco e exibia seus braços embranquecidos. Tinha traços de ascendência nativa, talvez indígena ou cabocla ou o que fosse, mas a candura de sua pele denunciava uma vida em clausura de um escritório qualquer, acarpetado e frio onde telefones tocam e galões d’água borbulham. Cabelos cacheados e um semblante confuso, Mona Lisa que combinaria com um acordeon e danças circulares. Tinha os tênis desamarrados, ela queria tropeçar, talvez cair de boca. Elas se reparam muito além do que olhos viciados estão habituados a enxergar. Onde há cores elas compreendem dores e onde há oleosidade elas sabem que há verdade. As fêmeas de uma grande tribo urbana que não sabe uivar mas sabe ir à caça. Encaram-se com curiosidade de eras e ímpeto de poucos. Mulheres, milhares delas que nasceram, reproduziram-se e morreram. Cuidadoras, provedoras, resilientes lagartas que se tornam borboletas apesar dos pesares. Estavam reencontradas, após desconhecidos paradeiros temporais. Quiçá foram contemporâneas em um Egito Antigo ou operárias de alguma revolução industrial. A garota cansada ainda batucava com os dedos enquanto a mulher de braços de fora sacou um bloco de notas e passou a esboçar linhas sobre a sua semelhante. Um lápis amarelo e curto corria a folha também amarela que ela apoiava sobre a coxa esquerda. Um instante anêmico e trivial. Faltava maconha, faltava uma sala com tapetes para que elas pudessem deitar e divagar. Um pandeiro preguiçoso, chá de hortelã, arte sem preocupação. Não havia sorriso aparente, mas havia uma empatia radical. A garota cansada mexeu no próprio cabelo com a mão direita e o gesto despertou algum apetite na outra mulher. Lábios que mordiam, sugestões telepáticas, frestas úmidas que jamais seriam visitadas. Não era possível distinguir se a mulher escrevia ou desenhava, mas era certo que a descrevia em traços toscos. A ponta de carbono a desejava com a mesma velocidade que o trem desenvolvia pelos corredores escuros do labirinto subterrâneo da capital. Cada risco soava mais alto que o último e os bicos dos seios da garota cansada se enrijeciam como o lápis que sentia o suor dos dedos da mulher ousada. Contemplavam a arte alheia, estética ou literária ou plástica ou descabida. Habitam um universo fantasioso onde se ouve o xilofone e onde os rios têm a cor laranja e a chuva é espumante. Mimosas, moçoilas, Marias, maravilhosas, melódicas, meladas e milenares.

Ela poderia ser minha, ela poderia ser do meu amigo, ela poderia estar junto comigo e com o meu amigo. Nós poderíamos ser centenas em um espaço só – assim se justificava a simulação impetuosa da garota. Registraram fotografias uma da outra, na memória do celular também. Tudo o que havia de cretino no mundo as rodeava. Os sujeitos fugazes com roupas de marca cara, as donzelas desatentas que espetam o próximo com suas unhas quilométricas. O trem parou e alguns saltaram e elas ficaram sozinhas. A garota cansada sentiu que era hora e sorriu. A mulher então guardou seu bloco de notas, levantou-se e também partiu. Sozinha, a garota finalmente pôde aceitar o cansaço e a solidão e os minutos que restavam até a sua estação. Recostou a cabeça na janela, colocou os fones de ouvido e fechou os olhos. Tocava Lisa Stanfield – All around the world.

Um conto de Boston – parte 10

A última carta deixada pelo digníssimo foi desconcertante. Português rebuscado, texto sem direção e prosopopéias mirabolantes. Cogumelos mágicos ou o mais puro retrato de uma mente maníaca? José Armando Passos, eu quero falar com você. Fazer perguntas e duvidar sutilmente das suas respostas. Quero azedar suas verdades. Mas, como? Se tudo o que faço é observar à segurança do anonimato, como interagir com você para além da passividade? Zé, Zé, Zé. Que mato. Estou cheio. Aquele texto de amor tresloucado por uma Carlota Joaquina passou dos limites. O que você me deixou hoje foi estarrecedor. O que leva um homem a dizer tanto sem revelar nada? Por que o texto é mais fácil que a conversa face a face? O que é que compõe a tal coisa essencial de nós mesmos, aquilo que nos define em identidade? Nestas cartas que recebo vejo um tanto de ti, um tanto de mim, outro tanto de nós.

João, meu João dos Prazeres. Eu nasci dentro disso. Sou a própria matéria deste mundo selvagem no qual a regra dominante é a de que nada supera o lucro. Johnny, eu tô falando de capitalismo. Dinheiro, horas de trabalho, recibo do aluguel, café para nos tornar mais produtivos. A engrenagem do planeta Terra está apoiada no sistema financeiro. Arquimedes, nos dias de hoje, pediria uma alavanca, um ponto de apoio e uns trocados para executar o serviço de mover o mundo. Nada mais justo, mas eu faria de graça. Só pela onda de ver o globo sacudido e uma baita quantidade de peso morto sair voando pelos céus afora. Já imaginou como nos faz bem essas catástrofes que se passam de quando em quando? Sei não, mas parece que o controle populacional não é algo assim tão maligno. Pode me julgar.

Okay, ultimamente soo muito amargo, né? A saliva anda vermelha, dá pra fazer um negroni com o que escorre da minha boca. Eu casei, lembra? O casamento é um barato. O silêncio custa caro. A rotina de trabalho tem sido tão apertada que não me lembro de acontecimentos recentes dignos de serem compartilhados. Você sabe, o homem ocupado é pago e promovido. Sou um deles, bastante ocupado.

Queria saber tocar um instrumento que fosse. Gaita, por exemplo, parece fácil e talvez até seja. Nunca tentei. Fuófuófuó  fi fi fififi por aí, sentado em uma pedra mirando o horizonte. Romântico ou triste, depende de quem vê. Já faz alguns meses que não uso nada para, digamos, potencializar a minha mente. Nenhuma droga. Parece moleza? Bem, depende das circunstâncias. Porque se uma pessoa corta as substâncias e, ao mesmo tempo, goza de tempo livre o suficiente para ficar em casa assistindo a TV e se masturbando, ele não sente a pancada da abstinência. O cérebro humano – pera aí – o cérebro do humano acostumado ao modelo de vida social contemporânea, é altamente dependente dos estímulos que lhe causam sensação de bem-estar. Por isso, cortar a brisa da fumaça mas continuar a compensar a química do sangue com outras fontes de dependência dá no mesmo. Comigo não foi assim. Eu saí da realidade paz e amor para a do turno de trabalho, sono, trabalho, sono e, em alguns dias da semana, dois turnos nas mesmas 24h. Money talks, man.

O que vivi até aqui? Ah, meu amigo, eu vou contar com um orgulho desmedido:

Até aqui vivi na flauta, ainda que não faça ideia de como tocá-la. Viajei muito, por lugares físicos e instantes de pensamento. Morei em diversas localidades, convivi com culturas, dialetos, cores, gêneros e orientações distintas. Nunca me faltou boa comida e uma cama confortável. Aspirei ao cume dos esportes e o alcancei sendo atleta amador universitário com muitas medalhas de ouro. De igual modo, quis escrever e, ainda que não me considere maduro, obtive meus méritos. Desejei as moças desde sempre e o único empecilho foi a adolescência e a minha cara feia. Finda a feiúra, deslanchei. Não houve amor profundo que não tenha conquistado ou corpo raso onde não tenha me encostado. Bons salários, boas companhias, lazeres voluptuosos. Confesso que só passei a me vestir bem depois que um amigo gay me deu uns toques sobre estilo, isso já bem grandinho. Antes eu era um meninão vestido como meninão. O passado nos condena em certos aspectos. Descobri que havia em mim uma grande propensão em coexistir com o perigo. Quanto maior a ameaça, melhor eu me sentia. Notei, de início, que meus animais favoritos eram a cobra, o tubarão e o leão. Uma parte da minha infância foi no cerrado e lá trombei com cobras aos montes. É uma sensação extrema, você querer ver de perto, mas morre de medo de levar uma mordida. A bicha lá, toda encolhida pronta para dar o bote, com sua língua bifurcada a ler o ambiente em lambidas no ar. Mais velho, tive a oportunidade de nadar com tubarões. O ápice da excitação, porque diferente da serpente, o tubarão vem até você e investiga, chega perto, se bobear tenta uma mordida. Quanto maior o perigo, maior a noção da vida, soa até clichê, mas é verdade. Já pulei de paraquedas, inclusive. Sabia que não senti medo? Esse nosso cérebro é um trem mesmo. Em um parque de diversões, a cada elevação do barco viking você se borra de medo, sente aquele frio na barriga e o gelo se alonga por todos os nervos do corpo. Agora, a quilômetros distante do chão, em plena queda livre, a sensação é absolutamente outra. Você sequer sente que está descendo. O limite, a terra firme, está tão longe que não assusta. O medo vem da visualização do fim. Em pleno voo essa noção é zero. Bem que o doutor me perguntou um dia ‘em vista do abismo, você tem medo ou vontade de se jogar?’ e a resposta estava na ponta da língua ‘vontade de me jogar, caramba!!’. Loucura, não? A terapeuta agora diria ‘nós não usamos essa palavra aqui, sr. José’.

Tantas aventuras haveriam de culminar com a ousadia suprema. Dei por gostar do envolvimento com mulheres casadas. Oh, cara, isso já faz tempo. Eu era solteiro e começou por um acaso. Coisa fina. Daí a coisa embolou. O bolo virou rolo. Vixe, só não acabou em tragédia porque o cara é a frouxidão em pessoa. Um amigo meu cravou o termo: Prego é o que ele é, com P maiúsculo. Coitado, nunca tive a menor intenção de fazer troça do cara. Nem pra senhora sua esposa eu fazia qualquer tipo de brincadeira com o nome dele. Daí, vou negar? Viciei. Outra e outra e outra. Casadas, com o mesmo perfil familiar, porém uma absolutamente distinta da outra. Iguais em desgraça. E eu, quando comecei a sofrer por elas, descobri que o desgraçado era eu. Quantas noites, quantos porres, quantos quase. Vivo por uma sequência feliz de acasos.

Serviu de lição? Lamento dizer que não. Meu instinto selvagem desejava mais perigo. E aí entrei pro crime. É, cara, isso mesmo que você está lendo, crime organizado. Drogas, armas, mortes e o escambau. O lobo em pele de cordeiro. Eu transitava invisível entre aqueles que perseguiam um certo alguém. Mal sabiam, eu na verdade era ninguém.

Cansei de tudo, cansei de todos. Mesmo em face do maior dos riscos, a invencibilidade traz monotonia. E aí, o que fiz? Resolvi ser um bundão.

José Armando Passos, 35, garçom e pizzaiolo, homem de família, monogâmico, reza antes da refeição e bebe apenas aos domingos. Trabalha 7 dias na semana em prol da casa própria. Não possui carro e depende de caronas, no momento. É amado e envia dinheiro à família. Resignado pai de maus frutos, esperançoso conquistador da redenção.