Polegadas

Maria foi uma boa esposa durante uma das quatro estações do ano. Casou-se com Alfredo apesar do nome em desuso. Ela imaginava como foi a adolescência de um garoto chamado Alfredo e ele elucubrava como teria sido a infância dela sem pai. Cada um nos seus pensamentos particulares, porque eram ofensivos demais para servir à mesa. Maria não andava bem e esquecia a tampa do vaso levantada. Maria dormia com a boca aberta e roncava, mas Alfredo achava aquilo fofo. Fofo, mas insuportável, por isso ele a cutucava com o cotovelo. Casaram-se no outono, quando as folhas caíam. O caminho era poético, na antessala do renascer florido. No inverno, Maria não aguentava. Suspeitava do marido e roía as unhas que já eram curtas. Feria as cutículas e então tomava vinho. Alfredo a encontrava bêbada, desacordada, reclamando do vizinho. Ela sequer conhecia o vizinho. Moravam distante da família e não havia corrida para colo nenhum que resolvesse. Eram os dois, um para o outro, não importa o que acontecesse. Alfredo a amava e o amor é aquilo que o aquecedor faz nas noites mais frias, mesmo que o motor, toda a engenhoca que faz a coisa ficar quente, permaneça no lado de fora da casa sob um rigoroso frio. Maria era doce, uma menina, tinha os pezinhos tortos e os dedos compridos. Nasceu para ser menino, mas Deus quis diferente. Ainda bem, porque Maria era linda com cabelos que pareciam fios de linho. Alfredo se sentia completo, mesmo com as neuroses de Maria. Neuroses são essenciais ao negócio humano, dizem os psicanalistas. Opiniões, como cachos de banana, crescendo a torto e a direito como se o mundo fosse adubado por inteiro. Maria passou a suspeitar que Alfredo estava tendo um caso com alguém do escritório. Ele era funcionário público, batedor de carimbo, um daqueles de futuro, mas com todo o tédio do mundo. Saía cedo e levava a comidinha que seu amor preparava, mas então, com o diabo a lhe sussurrar diabruras, Maria parou. Simplesmente parou e escolheu a TV. O marido notou e reclamou, mas Maria alegou tontura. Disse que o alho queimava as mãos, que não suportava mais o cheiro de fritura. Alfredo, resignado, saía de mãos vazias. Trabalhava feito um condenado para que o dinheiro rendesse uma casa própria. Maria assistia ao televisor com a mente suspensa. A televisão não exige pré-requisitos, não exige sequer inteligência, a televisão só necessita ser ligada e Maria sabia bem apertar o botão vermelho. Maria poderia trabalhar em uma usina nuclear para deflagrar o alarme de desastre. Oh, Maria. Em uma manhã, ela acordou e se sentou em frente ao aparelho. Desligado, era como um negro espelho. Assistia a uma programação idiota, típica de geração vazia. Assustou-se com o estampido de uma música trágica que comunicava o impossível. “Interrompemos a programação para um anúncio especial” disse o âncora. “Devido a forte nevasca, os bombeiros têm dificuldade em acessar o prédio central da administração pública onde um incêndio sem precedentes derrete as colunas seculares”. O mundo de Maria naufragava, mas havia um âncora. Ela levantou e, nervosa, só pensava em fogo, no Alfredo, nos cigarros que ela tanto gostava. Maria subiu as escadas e bateu na porta do quarto onde o marido dormia. Ele caíra doente e dormia em um quarto separado para poupar a esposa da tosse renitente. Bateu com o polegar, como se surrasse um pandeiro. Maria não batia bem. Não houve resposta. Desceu as escadas e grudou no telefone. Ligava insistentemente para o escritório onde o marido trabalhava. Ninguém atendia, deviam estar todos mortos com a fumaça, ou pior, queimados. Maria enfiava os dedos nos cabelos e não sabia o que fazer. Conferiu a garagem e se espantou, pois o carro dele continuava lá. Tornou a subir as escadas, a bater com o polegar direito na porta branca e a chamar por Alfredo, Alfredo. Oh, a constatação! Se Alfredo não estava ali nem no serviço, só poderia estar com a amante. Nem a

neve poderia esfriar sua espinha mais que aquele pensamento. Maria entreteve a ideia e não viu saída. Fugiu de casa, usando o carro do marido. Maria aprendera a dirigir recentemente, mas a ira a guiava. Foi a um bar e pediu bebida. Serviram. Bufava e tremia. Não demorou até que um sujeito se aproximasse e procurasse ouvi-la. Existem mais homens bondosos, nessas horas, do que há certezas nesta vida. Maria vomitava o carrossel de mágoas e o cara, com a cabeça, assentia. Maria não parava, falava mais do que devia. Aos poucos, mesmo o sujeito da malícia, o garçom e os outros homens que ali bebiam se afastaram. Mas era um bar velho, sujo, daqueles que têm buracos na parede. E em um desses buracos tinha quem a ouvia. Uma barata e um rato, imóveis como se paralisados pela estricnina. Maria notou e não se intimidou, discursou para a baixa prole dos seus desejos de patifaria. Bebeu e praguejou e se levantou bastante zonza. Ninguém ajudou, eles queriam que ela se fosse. Maria entrou no carro e deu a partida, mas não conseguia ver. Havia neve sobre o pára-brisa e ela então ativou o limpador. Aguardou que a brancura se dissipasse e julgou, a inocente, que via plenamente com capacidade de uma águia careca. O carro patinou no gelo liso mas Maria, embriagada, julgou que tudo ocorria bem, da mesma forma que saiu de casa. O automóvel replicava as pernas da esposa desastrada. Na casa, enquanto isso, Alfredo destrancou a porta e pisou na sala. Não havia barulho, não havia nada. Apenas a TV ligada e um noticiário mudo. Ele mirou o quintal branco e a beleza da invernada. Torceu para ver uma raposa, um veado, um feixe de Sol naquela manhã castigada. Fez café e deu falta de Maria, mas pensou que a amada estivesse no quarto lendo ou coisa que o valha. Alfredo, segurando uma caneca azul, sentou-se no sofá e aumentou o volume do televisor que mostrava imagens de um fogo imenso, mas que não conseguia distinguir onde se passava. Foi interrompido por um anúncio urgente dentro da programação urgente que retratava uma outra emergência. “Interrompemos a programação especial para outro anúncio especial”. Alfredo recostou-se para acompanhar. “Uma caminhonete, placa RDC-8240, chocou-se contra o prédio em chamas da administração pública. Os bombeiros informam que não há sobreviventes, embora não tenham certeza de quantas pessoas estavam no automóvel”. O prédio era onde ele trabalhava. A placa era a do carro dele. Aflito, Alfredo levantou-se num salto e derramou café quente. Ele pensava sobre aquilo e não sabia o que fazer. Ele queria saber se alguém estava no carro com Maria. Alfredo estremeceu. Polegadas de neve impediam a saída e ele arrefeceu. Aquele era um sábado, ele não entendia como o incêndio começou, por que tudo acabou em fogo e por que ela o trairia.

Liberose

Honrai o sono e respeitai-o! É isso o principal. Fugi de todos os que dormem mal e que permanecem acordados à noite.

Não é pouco saber dormir; para isso é necessário preparar-se durante o dia.

Dez vezes ao dia você deve saber vencer-se a si mesmo; isto origina uma fadiga considerável, e esta é a dormideira da alma.

Dez vezes deve reconciliar-se consigo mesmo, porque é difícil vencermo-nos, e o que não estiver reconciliado dorme mal.

Dez verdades há de encontrar durante o dia; se assim não suceder, ainda procurará verdades durante a noite e a sua alma estará faminta.

Dez vezes ao dia precisa rir e estar alegre, se não incomodar-se-á de noite o estômago, esse pai da aflição.

E se tivessem as virtudes, seria necessário saber fazer uma coisa: adormecer ao mesmo tempo todas as virtudes.

  • Das cátedras da virtude (NIETZSCHE, F.)

O sono lhe faltava e à medida que as noites iam encurtando aumentavam os devaneios durante o dia. Sua mente se movera de um estado racional temperado com pitadas de fantasia para um vasto império de confabulações delimitado por pontuais intervenções terrenas dado os compromissos do escritório, agora, móvel. Tarcísio era um homem de negócios, muitos negócios, uns negócios, mas também nada daqueles negócios, se bem que tem uns negocinhos que ele não conhecia e, ao provar, se sentiu um tanto coisado. Negócio de louco? Negócio da China! Nada poderia prender mais a sua atenção do que as próprias simulações hipotéticas e maravilhosas que surgiam em sua cabeça, pensava um incauto qualquer ao selar promissora amizade com o jovem rapaz de camisas engomadas e sapato docksider. Que homem incrível, inteligente, bem educado e progressista. Dizem até que é o maior feminista vivo, seja lá o que uma definição como aquela pode significar para uma… mulher!

Tarcísio sofreu abusos na infância e resolveu que o negacionismo era o melhor dos antídotos da sofrência. Só que, medicado pela ciência do “muda de assunto que aqui não se fala disso” ele foi, aos poucos, sendo afetado pelos efeitos colaterais da despreocupação acentuada e da irrelevância aguda a tudo o que considera ser mais fácil deixar para os outros. Mudando a direção dos olhos conseguiu se esquivar das agulhas do passado e, positivamente mirando os altos cumes, construiu um império. Casa grande sem senzala, despensa cheia, adega farta, esposa retocada e filho obediente, tudo sob as próprias rédeas do controle patriarcal. Tarcísio é um homem de valores.

Os amigos estão sempre à volta; da mesa, do fogão, da piscina. Não existe silêncio onde ele está presente, pois silêncio impele a mente ao raciocínio recordativo, à reflexão dialética e estas coisas são como lavar louça para o mancebo. Tarcísio não lava louças. Na dúvida, na ausência de palavras ou idéias exalta a maior das suas características ao exclamar:

– Bora beber?

O álcool e Tarcísio, Tarcísio e o álcool. Uma história de amor, de reciprocidade, de carinho e acalanto. Não há nada mais gostoso que se embriagar a ponto de… se desculpar por “possíveis” erros do passado. Possíveis, pois difícil é para Tarcísio assumir culpa quando sóbrio e, caso seja confrontado com a admissão da mesma quando em avançada situação de ebriedade, há de negar com um sutil convite evasivo de…

– Bora beber?

Os negócios de Tarcísio vão muito bem, obrigado! Sua fala pode transparecer uma gagueira besta, insistente, mas não passa da trepidação que tanto volume intelectual causa ao se precipitar sobre a língua. Livros? Ler, para Tarcísio, é essencial como praticar 30 minutos de exercício meditativo pelas manhãs. Ele não pratica. Surfando nas ondas de uma juventude alongada e de uma maturidade ainda distante, seu físico resiste incólume às agressões gratuitas de privação de sono e nutrientes. Talvez um dos mais graves sintomas da terceirização de responsabilidades tenha sido quando Tarcísio chegou à excepcional conclusão de que todos os alimentos, hoje, são processados. Se, por bem de uma verdade acolhedora, é definido como processado tudo aquilo que passa pelas mãos do homem e sua cadeia produtiva até chegar às mãos do consumidor, então… só fogem do rótulo as frutas que colhemos direto do pé. Aliás, frutas são para Tarcísio o que a igreja no domingo de manhã é para ele e sua família. Eles não a frequentam.

O sono começa tarde, acaba cedo e não é calibrado durante o dia para o nosso herói. Dizem que é durante o sono que o corpo humano secreta a maior dose de hormônio do crescimento. Tarcísio parou nos 1,67m. É mister risada para um bom sono? Olha que ele ri fartamente, o dia todo, todos os dias. De si mesmo, quando conta histórias que, não raro, sempre o colocam como uma espécie de azarão que tem tudo para dar errado, só que…

“- E lá estava eu, na frente daquele monte de gente no balcão do bar. Um bando de negão e o idiota aqui com a certeza que ia apanhar, né?”

Mas, as histórias sempre acabam incrivelmente bem. E ele ainda ri – e muito – dos outros. Motivo? Basta alguma confidência sobre algo que desagrade ou seja sensível para uma pessoa em questão. Aí é um desbunde, um bullying sem fim. Foi na performance das suas gracinhas graciosas com mulheres que Tarcísio se viu empossado como o grão mestre do… feminismo! Deus escreve por linhas tortas, há de se convir.

Tarcísio cometeu o maior dos absurdos recentemente quando, ao trocar ideias superficiais com uma nova amiga que é psicóloga, confidenciou que delegou aos seus funcionários a feitura das próprias tapiocas do café da manhã. Ao comentar sobre ter um desejo de se importar cada vez menos com as coisas, afinal, nas palavras dele, o mundo precisa de liberdade, sentenciou:

– Sabe, Bibi, tudo é passageiro. Eu não desejo controlar nada, quero que tudo seja livre. Mesmo as tapiocas, as super cápsula-blindas. Eu quero menos coisa sob meu controle, embora não possa abrir mão de controlar bens essenciais como a minha mulher. Sabe como é, sou um liberal…

– Não, meu amigo, você sofre de liberose ácida!

E foram transar.

5 de agosto

Dia desses, meu pai disse que só o deus cristão era Deus assim, em maiúscula. Mas, o meu mesmo pai – e eu só tenho um – me ensinou que regras e bolachas foram feitas para serem quebradas e eu cresci para dar muito orgulho a ele! Das festas, dos ciclos vitais, da insânia, do vinho e da intoxicação que funde o humano com a deidade, da porra louquice, por assim dizer. A ele dedico a primeira foto da retrospectiva que se abre. Evoé, Dioniso, oh Deus (!) daquilo que é caótico e foge à razão humana. E você achando que eu era ateu, né? Nesse dia perfeito em que tudo amadurece, caiu-me na vida um raio de sol: olhei para trás, olhei para frente, nunca vi tantas e tão boas coisas de uma vez. Não foi à toa que enterrei hoje meu trigésimo terceiro ano. Adaptado do bigodês de Frederico.

A humanidade é um barato, completa voltas em torno do sol e vai à loucura, dá significado para a coisa, relaciona a posição dos astros e constelações, prediz o futuro e justifica o passado, tudo graças aos rodopios em torno de uma estrela. Uma onda. Cá estou após quatro meses de abstinência das redes sociais, a registrar o meu aniversário. Exaltar a mim mesmo e expressar “gratidão”? Não, obrigado. Recomendo mais semântica, saravá Gugu Tarô! Ai de mim se eu resolvesse contar ao mundo o quão decadente sou, um decadente par excellence para ser honesto. O texto ia soar pessimista justo na data do meu aniversário e teríamos uma tragédia. Recomendo aprender a cozinhar feijão e o salutar exercício de ser visita nos lares do mundo, tudo isso a fim de aprimorar a si próprio. As casas que abrigam exigem comprometimento com a disciplina, com a cordialidade e com a limpeza. Eis a minha receita para a excelência: aprender a ser hóspede! Na quarentena li uma penca de livros e escrevi dois. Logo os publicarei, tudo a seu tempo. Exercitemos a virtude da paciência. Alguém tem um real? Silenciei o mundo e passei a assistir os stories do cotidiano, ao vivo, a cores e sabores. Concluí que os livros continuam mais interessantes e, acima de tudo, mais profundos.

Vi os homens matando por cor. A negra, as do arco íris também. Uma lástima. E ainda tentam dizer que viemos do macaco, coitado, bichinho simpático para ter gerado uma herança tão abominável. Os assassinos do amanhã se arrepiam ao ouvir sobre entidades africanas ou sobre direitos dos quais são devedores. Eles, os puros sacerdotes. E eu assisti a tudo calado. Quanta dor no mundo! Eles são iguais até quando querem ser diferentes. Perdem o sono por seus investimentos financeiros e se descabelam por acumular ganhos polpudos e fáceis. Eu aqui, sem graça por me aproximar dos 40 sem saber nada de carpintaria. Desvairado feito a paulicéia. Aliás, quero registrar que tenho uma música especial para meu velório e ela é a Bachianinha nº1. Mas, exigência de defunto, quem há de tocá-la é Anerlindo Rodrigues, violonista clássico do interior do Brasil. Peço a vênia, meu amigo, mas terá que morrer depois de mim.

Não há nada como a constatação de um espírito amputado. Não há prótese para isso

Romantizam a elevação do espírito! Fotos em posição de lótus, com o mar e o pôr-do-sol ao fundo, as mãos espalmadas e na legenda: namastê. Valei-me, eu que meditei lavando louça, em horas de jejum lixando as paredes como operário da construção urbana, refinei o pensamento enquanto ardia sob o sol da jardinagem ou ao carregar caixas escadas acima. A filosofia ensina a agir e não a falar. O corpo é o grande pensador, movimento é expressão. Nunca houve verdade tão desafiadora. Comunicai-vos uns aos outros: ação é paz. Todos ensinam, alguns pelo o que não se deve fazer. Lapidei a vontade de me tornar um homem honrado, merecedor de distinção por, feito o mar, aceitar o desague de águas imundas sem comprometer o leito.

Perguntam-me o que quero de presente. Mais do que ter a companheira que me é fiel?   Sacia-me os desejos todos e me rouba a solidão sempre oferecendo real presença. Peça chave da minha fé Bundista, a prova viva da bem aventurança por parte das deusas dedicada a este Aquiles, um imoral por excelência. Obrigado, Larissinha. Aproveitando a deixa que já pedi a música do meu cortejo fúnebre, faço a homenagem a Noel Rosa que cantou “quando eu morrer não quero choro nem vela, quero uma fita amarela, gravada com o nome dela”. E chopp! Pelo amor de Zeus, muito chopp!

Desde o início da pandemia o que mais fiz foi viajar. Condenável, eu sei, mas fez-se necessário quando tantos convites povoaram os ouvidos. Pude conviver entre sobrinhos e irmãos, levar a comida ao fogo e celebrar à mesa. Há tanto amor nisso tudo, como diz o sertanejo: o coração fica aflito, bate uma e a outra falha. Cito o meu próprio pai, uma outra vez: “Aquiles começou a formar a sua família, uma legião de amigos e irmãos: vieram os cachorros órfãos, o irmão Sol, a irmã Lua…”.

Já se vão cinco anos sem pegar uma reles gripe. Aí sim, ostento com orgulho alguma posse: a minha saúde! Foi muita vitamina C que eu chupei pelos anos, por isso a invulnerabilidade. Sarcasmo refinado. Para reclamações sobre o comportamento, favor chamar o número 190. Finalmente, dois anos de carência permitiram que a minha digníssima autorizasse. “Posta aquela foto sua com o flamingo. É hoje ou jamais”, disse Lari. Bom, antes à tarde do que nunca.