Amanda e um copo d’água

Não posso esconder tosse ou amor
Que me desatina
Quero
Como querem os mais sábios
Sem posse

É tarde quando a encontro
Mas non troppo
Pois crianças não dormem
Emprestam o nome à noite
E meneiam à exaustão

Entre vapores e goles
Fricções e barulhos
Incontidos
Ela me engole
E eu lhe mastigo

Vantagens íntimas
Hesitações
Somos bichos da revolução
Injuriados, subversivos
Do pecado bons amigos

No prestígio há comédia
Uma antologia divina
Na carne fecunda
Na dama que dá sede
Na virtude que abunda

Amante de um momento breve
Nostalgia de um leve instante
Desejo com esmero
Desmaio
Ante a distância que é obstante

Sei mais do que vejo
E peço mais do que posso
Me encanta por ser livre
A dourada amante do ócio

Na cama digo que é dia
No poema juro que é chuva
Falo, lhe encaixo, repito
Por escrito confessa quem ama.

Flagelo

É por não poderes que me queres?
Menina, toma fiel pela mão
A indecência que te fere
Com um pobre amor temporão.
 
E quando envelheceres então
Navega imprevisível ao vento
Que te guia com paixão
Ao meu couro sedento
 
E nesta busca incrível
Para que sejas minha
Para que seja teu
 
Estaremos juntos, para nunca mais
Atrelados a um derradeiro cais
 
Em epígrafe:
Um homem, uma mulher – aqui jaz.