Meio e meandros

terracota – branco – pequenas listras azuis – verde mofo

Tenho a tarde para mim! Há quanto tempo eu não podia desfrutar o entardecer, o som das cigarras, o esbarrar lento e sonoro das folhas secas que desabam sobre a terra úmida. Ontem choveu, hoje o amanhecer se deu com uma neblina que me evoca papai. “Manhã de neblina é sinal de dia quente”. E como foi. Sensação térmica de 41ºC, sei lá quantos em Fahrenheit. Dizem os dados estatísticos que a umidade relativa do ar é de 85%, ou seja, digito estas palavras tecnicamente de dentro da água.

O vírus finalmente me teve. Quem dera fosse no passado. Ainda tem. Não posso distinguir os cheiros que emanam as flores da rua. As gardênias, exuberantes em meu caminho, jazem incólumes. Em vão me inclino e aspiro entre as pétalas. Nada. Estou cego do nariz.

Nietzsche recomendava muita coisa dura a quem por ele era de grande querença.

Uau, hein!? Pode parecer ranzinza, em princípio. Dá a impressão de um sujeito praguejando contra tudo e contra todos. Um dilúvio de impropérios que partem de uma alma amarga que rebate ao mundo os seus próprios desgostos. Está muitíssimo enganado aquele que vai por esse caminho.

Nietzsche era um admirador dos gregos clássicos. Seu ideal humano era agonista.

Agonista é aquele que se põe engajado em combate: físico ou intelectual. O agonista é vitorioso porque, justamente, obtém seus anseios através da batalha. Ganha, portanto, na vitória em si e, também, porque a alcança – a glória – após conflito desafiante.

nota esclarecedora

A coisa muda de figura. O desejo depositado de imensa infelicidade é em prol do nascimento do espírito elevado que tudo suporta, feito um camelo. Costas largas e endurecidas pelas intempéries protegem o coração da pessoa que resiste. Assim, antes de se erguer e rugir, como um leão, o indivíduo tem que experimentar o sabor da sola dos próprios sapatos.

Quanta gente você conhece que reclama em abundância? Reclamam sobre a fila do banco, sobre as opções culturais de lazer, reclamam sobre o apoio ao esporte, sobre o Sistema Único de Saúde, reclamam sobre os partidos políticos, reclamam sobre a vida alheia, sobre o transporte público. Pare por um segundo e analise, no clarear das ideias, quantas dessas pessoas reclamam com propriedade sobre aquilo que falam. Geralmente, é pouca familiaridade para as palavras de desprezo. O grande denominador comum da sociedade atual é que, em suma, o que se busca é o conforto. E esse conforto, através da paz, é tão fantasioso quanto sem valor.

Quantos dos seus amigos e amigas são herdeiros de alguma fortuna (ou prestígio) e quantos são gente comum, que bate ponto no trabalho e não se pode dar ao luxo de faltar em uma segunda feira mesmo de ressaca? Pois é. Existem aí dois tipos de reconhecimento de êxito. Aquele que passa por algumas – ou todas – desgraças sabe do que eu estou falando. Atualmente, aqui nos Estados Unidos, tenho experimentado a dureza de inúmeros infortúnios ao mesmo tempo. Perdi meu passaporte, contraí o COVID-19, comecei uma atividade laboral de extrema carga física que me era estranha, a alimentação saudável sumiu e os exercícios físicos já não são possíveis porque me falta tempo. Detesto quase todo o instante atual pelo qual me vejo trafegando. Há alguns que percebem essa tragédia particular e toma a liberdade de me perguntar o que há de errado. A conversa, a qual eu não concedo para ninguém exceto um ou outro, vai sempre igual:

– O que você tem?

– Cansaço.

– Você parece estranho, não é o mesmo que eu conheci.

– Pois tente trabalhar 10h em pé no meu lugar em frente a uma fonte de calor, mesmo doente, chegar em casa e ainda pensar no que comer, não ter mais tempo para o ócio produtivo de leitura, escrita e atividades físicas. Tente aceitar a condição de escravo com um sorriso no rosto, um sorriso néscio que desconserta toda a prévia formação intelectual de que o trabalho é sim parte do homem, mas do homem consciente que vê no trabalho a ferramenta propulsora de suas forças vitais e transformadoras e não somente mero instrumento do burguês empregador que se sustenta em uma pirâmide usurpadora de sobrecarga limitante cujo único intento é o lucro unilateral e progressivo.

– Muda de emprego, então!

– Quem aqui pediu a sua opinião ou conselho?

– GROSSO!

Pois é. A absoluta maioria ouve com intenção de responder, não de escutar. Imagine que eu vivo meus próprios dilemas em silêncio, dialogando com um dos meus eus abstratos que é politicamente engajado e rejeita a opressão a qual é submetida o proletariado. Ainda assim, meu lado agonista sabe que essa fase salobra é como uma vitamina que fortalecerá minha própria essência. Não vou pedir para sair, não vou me demitir, não vou negar fogo. Nós, os agonistas, endurecemos à medida que a tensão se eleva.

E agora vem a noitinha. Pude escrever todo este relato ao som do piano clássico de Schubert e pude, com absoluto lamento, atestar que não consigo sentir o cheiro dos eucaliptos que circundam meu quintal. Faltam-me sentidos, embora eu sinta muito.

Liberose

Honrai o sono e respeitai-o! É isso o principal. Fugi de todos os que dormem mal e que permanecem acordados à noite.

Não é pouco saber dormir; para isso é necessário preparar-se durante o dia.

Dez vezes ao dia você deve saber vencer-se a si mesmo; isto origina uma fadiga considerável, e esta é a dormideira da alma.

Dez vezes deve reconciliar-se consigo mesmo, porque é difícil vencermo-nos, e o que não estiver reconciliado dorme mal.

Dez verdades há de encontrar durante o dia; se assim não suceder, ainda procurará verdades durante a noite e a sua alma estará faminta.

Dez vezes ao dia precisa rir e estar alegre, se não incomodar-se-á de noite o estômago, esse pai da aflição.

E se tivessem as virtudes, seria necessário saber fazer uma coisa: adormecer ao mesmo tempo todas as virtudes.

  • Das cátedras da virtude (NIETZSCHE, F.)

O sono lhe faltava e à medida que as noites iam encurtando aumentavam os devaneios durante o dia. Sua mente se movera de um estado racional temperado com pitadas de fantasia para um vasto império de confabulações delimitado por pontuais intervenções terrenas dado os compromissos do escritório, agora, móvel. Tarcísio era um homem de negócios, muitos negócios, uns negócios, mas também nada daqueles negócios, se bem que tem uns negocinhos que ele não conhecia e, ao provar, se sentiu um tanto coisado. Negócio de louco? Negócio da China! Nada poderia prender mais a sua atenção do que as próprias simulações hipotéticas e maravilhosas que surgiam em sua cabeça, pensava um incauto qualquer ao selar promissora amizade com o jovem rapaz de camisas engomadas e sapato docksider. Que homem incrível, inteligente, bem educado e progressista. Dizem até que é o maior feminista vivo, seja lá o que uma definição como aquela pode significar para uma… mulher!

Tarcísio sofreu abusos na infância e resolveu que o negacionismo era o melhor dos antídotos da sofrência. Só que, medicado pela ciência do “muda de assunto que aqui não se fala disso” ele foi, aos poucos, sendo afetado pelos efeitos colaterais da despreocupação acentuada e da irrelevância aguda a tudo o que considera ser mais fácil deixar para os outros. Mudando a direção dos olhos conseguiu se esquivar das agulhas do passado e, positivamente mirando os altos cumes, construiu um império. Casa grande sem senzala, despensa cheia, adega farta, esposa retocada e filho obediente, tudo sob as próprias rédeas do controle patriarcal. Tarcísio é um homem de valores.

Os amigos estão sempre à volta; da mesa, do fogão, da piscina. Não existe silêncio onde ele está presente, pois silêncio impele a mente ao raciocínio recordativo, à reflexão dialética e estas coisas são como lavar louça para o mancebo. Tarcísio não lava louças. Na dúvida, na ausência de palavras ou idéias exalta a maior das suas características ao exclamar:

– Bora beber?

O álcool e Tarcísio, Tarcísio e o álcool. Uma história de amor, de reciprocidade, de carinho e acalanto. Não há nada mais gostoso que se embriagar a ponto de… se desculpar por “possíveis” erros do passado. Possíveis, pois difícil é para Tarcísio assumir culpa quando sóbrio e, caso seja confrontado com a admissão da mesma quando em avançada situação de ebriedade, há de negar com um sutil convite evasivo de…

– Bora beber?

Os negócios de Tarcísio vão muito bem, obrigado! Sua fala pode transparecer uma gagueira besta, insistente, mas não passa da trepidação que tanto volume intelectual causa ao se precipitar sobre a língua. Livros? Ler, para Tarcísio, é essencial como praticar 30 minutos de exercício meditativo pelas manhãs. Ele não pratica. Surfando nas ondas de uma juventude alongada e de uma maturidade ainda distante, seu físico resiste incólume às agressões gratuitas de privação de sono e nutrientes. Talvez um dos mais graves sintomas da terceirização de responsabilidades tenha sido quando Tarcísio chegou à excepcional conclusão de que todos os alimentos, hoje, são processados. Se, por bem de uma verdade acolhedora, é definido como processado tudo aquilo que passa pelas mãos do homem e sua cadeia produtiva até chegar às mãos do consumidor, então… só fogem do rótulo as frutas que colhemos direto do pé. Aliás, frutas são para Tarcísio o que a igreja no domingo de manhã é para ele e sua família. Eles não a frequentam.

O sono começa tarde, acaba cedo e não é calibrado durante o dia para o nosso herói. Dizem que é durante o sono que o corpo humano secreta a maior dose de hormônio do crescimento. Tarcísio parou nos 1,67m. É mister risada para um bom sono? Olha que ele ri fartamente, o dia todo, todos os dias. De si mesmo, quando conta histórias que, não raro, sempre o colocam como uma espécie de azarão que tem tudo para dar errado, só que…

“- E lá estava eu, na frente daquele monte de gente no balcão do bar. Um bando de negão e o idiota aqui com a certeza que ia apanhar, né?”

Mas, as histórias sempre acabam incrivelmente bem. E ele ainda ri – e muito – dos outros. Motivo? Basta alguma confidência sobre algo que desagrade ou seja sensível para uma pessoa em questão. Aí é um desbunde, um bullying sem fim. Foi na performance das suas gracinhas graciosas com mulheres que Tarcísio se viu empossado como o grão mestre do… feminismo! Deus escreve por linhas tortas, há de se convir.

Tarcísio cometeu o maior dos absurdos recentemente quando, ao trocar ideias superficiais com uma nova amiga que é psicóloga, confidenciou que delegou aos seus funcionários a feitura das próprias tapiocas do café da manhã. Ao comentar sobre ter um desejo de se importar cada vez menos com as coisas, afinal, nas palavras dele, o mundo precisa de liberdade, sentenciou:

– Sabe, Bibi, tudo é passageiro. Eu não desejo controlar nada, quero que tudo seja livre. Mesmo as tapiocas, as super cápsula-blindas. Eu quero menos coisa sob meu controle, embora não possa abrir mão de controlar bens essenciais como a minha mulher. Sabe como é, sou um liberal…

– Não, meu amigo, você sofre de liberose ácida!

E foram transar.

5 de agosto

Dia desses, meu pai disse que só o deus cristão era Deus assim, em maiúscula. Mas, o meu mesmo pai – e eu só tenho um – me ensinou que regras e bolachas foram feitas para serem quebradas e eu cresci para dar muito orgulho a ele! Das festas, dos ciclos vitais, da insânia, do vinho e da intoxicação que funde o humano com a deidade, da porra louquice, por assim dizer. A ele dedico a primeira foto da retrospectiva que se abre. Evoé, Dioniso, oh Deus (!) daquilo que é caótico e foge à razão humana. E você achando que eu era ateu, né? Nesse dia perfeito em que tudo amadurece, caiu-me na vida um raio de sol: olhei para trás, olhei para frente, nunca vi tantas e tão boas coisas de uma vez. Não foi à toa que enterrei hoje meu trigésimo terceiro ano. Adaptado do bigodês de Frederico.

A humanidade é um barato, completa voltas em torno do sol e vai à loucura, dá significado para a coisa, relaciona a posição dos astros e constelações, prediz o futuro e justifica o passado, tudo graças aos rodopios em torno de uma estrela. Uma onda. Cá estou após quatro meses de abstinência das redes sociais, a registrar o meu aniversário. Exaltar a mim mesmo e expressar “gratidão”? Não, obrigado. Recomendo mais semântica, saravá Gugu Tarô! Ai de mim se eu resolvesse contar ao mundo o quão decadente sou, um decadente par excellence para ser honesto. O texto ia soar pessimista justo na data do meu aniversário e teríamos uma tragédia. Recomendo aprender a cozinhar feijão e o salutar exercício de ser visita nos lares do mundo, tudo isso a fim de aprimorar a si próprio. As casas que abrigam exigem comprometimento com a disciplina, com a cordialidade e com a limpeza. Eis a minha receita para a excelência: aprender a ser hóspede! Na quarentena li uma penca de livros e escrevi dois. Logo os publicarei, tudo a seu tempo. Exercitemos a virtude da paciência. Alguém tem um real? Silenciei o mundo e passei a assistir os stories do cotidiano, ao vivo, a cores e sabores. Concluí que os livros continuam mais interessantes e, acima de tudo, mais profundos.

Vi os homens matando por cor. A negra, as do arco íris também. Uma lástima. E ainda tentam dizer que viemos do macaco, coitado, bichinho simpático para ter gerado uma herança tão abominável. Os assassinos do amanhã se arrepiam ao ouvir sobre entidades africanas ou sobre direitos dos quais são devedores. Eles, os puros sacerdotes. E eu assisti a tudo calado. Quanta dor no mundo! Eles são iguais até quando querem ser diferentes. Perdem o sono por seus investimentos financeiros e se descabelam por acumular ganhos polpudos e fáceis. Eu aqui, sem graça por me aproximar dos 40 sem saber nada de carpintaria. Desvairado feito a paulicéia. Aliás, quero registrar que tenho uma música especial para meu velório e ela é a Bachianinha nº1. Mas, exigência de defunto, quem há de tocá-la é Anerlindo Rodrigues, violonista clássico do interior do Brasil. Peço a vênia, meu amigo, mas terá que morrer depois de mim.

Não há nada como a constatação de um espírito amputado. Não há prótese para isso

Romantizam a elevação do espírito! Fotos em posição de lótus, com o mar e o pôr-do-sol ao fundo, as mãos espalmadas e na legenda: namastê. Valei-me, eu que meditei lavando louça, em horas de jejum lixando as paredes como operário da construção urbana, refinei o pensamento enquanto ardia sob o sol da jardinagem ou ao carregar caixas escadas acima. A filosofia ensina a agir e não a falar. O corpo é o grande pensador, movimento é expressão. Nunca houve verdade tão desafiadora. Comunicai-vos uns aos outros: ação é paz. Todos ensinam, alguns pelo o que não se deve fazer. Lapidei a vontade de me tornar um homem honrado, merecedor de distinção por, feito o mar, aceitar o desague de águas imundas sem comprometer o leito.

Perguntam-me o que quero de presente. Mais do que ter a companheira que me é fiel?   Sacia-me os desejos todos e me rouba a solidão sempre oferecendo real presença. Peça chave da minha fé Bundista, a prova viva da bem aventurança por parte das deusas dedicada a este Aquiles, um imoral por excelência. Obrigado, Larissinha. Aproveitando a deixa que já pedi a música do meu cortejo fúnebre, faço a homenagem a Noel Rosa que cantou “quando eu morrer não quero choro nem vela, quero uma fita amarela, gravada com o nome dela”. E chopp! Pelo amor de Zeus, muito chopp!

Desde o início da pandemia o que mais fiz foi viajar. Condenável, eu sei, mas fez-se necessário quando tantos convites povoaram os ouvidos. Pude conviver entre sobrinhos e irmãos, levar a comida ao fogo e celebrar à mesa. Há tanto amor nisso tudo, como diz o sertanejo: o coração fica aflito, bate uma e a outra falha. Cito o meu próprio pai, uma outra vez: “Aquiles começou a formar a sua família, uma legião de amigos e irmãos: vieram os cachorros órfãos, o irmão Sol, a irmã Lua…”.

Já se vão cinco anos sem pegar uma reles gripe. Aí sim, ostento com orgulho alguma posse: a minha saúde! Foi muita vitamina C que eu chupei pelos anos, por isso a invulnerabilidade. Sarcasmo refinado. Para reclamações sobre o comportamento, favor chamar o número 190. Finalmente, dois anos de carência permitiram que a minha digníssima autorizasse. “Posta aquela foto sua com o flamingo. É hoje ou jamais”, disse Lari. Bom, antes à tarde do que nunca.

Apolínea

Os que aqui passaram muito viram, algo levaram

.

Vê a tez caiada que repousa em meu braço, uma dama jaz em mim

Tem dois olhos sobre o naso, logo próximo a dois dos lábios

Que me encantam, outrossim

.

Os membros tombam ao acalanto, quão leve esta donzela!

O coração vibra em carícias e lapida sem cautela

Adormecida, suspira a vida

Murmura aquilo que é mais belo

O seu nome balbucia, ronrona um evangelho

.

Oh céus da primavera, esta mulher não sei quem é!

Nas esquinas ela é Lou

Na alcova é Salomé

.

Chicote pede ensejo como tal, pois se trata da mulher

Além da mulher, überfrau

.

Dinamite!

Na língua há pólvora e das ancas faíscam cheiros!

Nasce a flama

O fogo me queima por inteiro

Mas sangra a coisa humana e recusa ao que vicejo

A língua está no cio, blasfema carmim desejo

Vejo, mas não desfruto

Só me resta o uivo agudo, o ganir do mineteiro

.

Sossega o amor sobre o lençol com cantigas da pátria amada

Serena mas desvairada, com a voz doce em bemol

.

Oh, o tórax!

Primeiro infla, então expira, incandescente se esvai

A cama toda se acende, o dorso se contrai

Feito tigre se arrepia, como serpente silva o ar

.

Tenho olhos que agonizam a tragédia premente – ela notou

.

Como céu rosa-poente, a mão orquestra o fenecer

Uma sinfonia média, a nós ilude a eternidade

Posto que agrade, tende a desaparecer

Ao diluir na foz a vontade, sua vontade de poder

°

Ferem-nos as horas

Canhões na madrugada em sincronia ao miocárdio

.

À ironia do destino soa um piano em descompasso

Em marchar soturno, ecoa sobre a neve a bota do soldado

.

A alvorada se anuncia em cores

E no som das revoadas

.

É mister coragem para colher tal selvagem flor no cume

Venusta e pacata, tão quente que cintila

Corteja com perfume e destila galhardia

No coração há revolta

No seio há ardume

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Já retorna o meio-dia! O grande meio-dia!

Alinha-se o Sol ao som do quebra-nozes

.

Lá fora derrete o gelo

Cá dentro a paixão comove

Dancemos o balé das fadas, o romantismo de Tchaikovsky

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Ó tempo que deriva, flecha de Páris, o prenúncio do breu

Aves em coro no ocaso de mim

Fantasia efêmera, qual lúgubre crepúsculo! 

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Vaticínio, assombro, tormenta! Afoguei-me em saliva benta na antessala do declínio

Encostei-a em meu ombro e suspirei verbo latino

Difficile est longum subito deponere amorem

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Pois que na tarde derradeira, viu-se flagrante dor do adeus

Soluçando um amante, à soleira de um coche

Com galope elegante um cavalo me levou aonde não queria eu

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Pode ser a noite mansa, mas não a minha sina

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Sob o plenilúnio, um homem e sua cruz

Condenado à poesia por paixão ao uterino

Pois que sofrendo em declive

Pelos séculos busca a fonte

– Que emana –

Não a morte, rumo de quem vive

Mas a sorte, roleta russa de quem ama.

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