Zodículo

Saí de casa em direção à esquina. Nada de mais nem de menos, eu só queria ventilar ar puro para dentro dos pulmões. As más influências, a vizinha do primeiro andar e seus glúteos estonteantes, o barulho de furadeira do cara do segundo andar, o estado pandêmico, o cinzeiro de papel cheio de bitucas de cigarro e cinzas que se levantam com a brisa que entra pela janela da sala, a falta de álcool na geladeira, o excesso de álcool no sangue, o grito do sujeito que vende legumes na rua, as dores no corpo em virtude da ressaca impiedosa, os meus tênis com a sola furada, tudo aquilo me conduzia à estafa mental. Foda-se – pensei -, caminhar não pode piorar as coisas. Saí descalço, queria literalmente manter os pés no chão.

A massa operária mantinha as engrenagens nos trilhos e eu era apenas um homem branco comum, insatisfeito dentro da minha própria bolha reluzente com problemas de um universo privilegiado.

Meus olhos sofriam com a luz do Sol e alcei os óculos escuros. Lentes negras e máscara formam o disfarce perfeito neste início de século. São tempos de uma doença global que assusta não pela sua letalidade, mas pelos métodos de enfrentamento que desencadeou ao redor da Terra. Ao redor, ora ora, que ironia. Para ser inclusivo, incluindo estritamente os muito burros, hei de dizer que o termo correto é ao longo da Terra, pois há aqueles que acreditam ela ser plana. Tão rasa quanto suas reentrâncias encefálicas. Caminhei por um quarteirão e avistei a velha em seu lugar, como na canção. Geralmente sentada, permanece durante parte da manhã observando a rua. E ela começa cedo. Dia desses, eu saí de casa às quatro e meia e lá estava ela. Mas hoje, para a minha alegria, descobri que a velha ainda tem as pernas em operacionalidade.

Bom dia – eu disse. Tão imóvel quanto as grades do portão que a protege, a velha é quase invisível. Somente olhos demasiado humanos podem vê-la. Bom dia – ela respondeu naquela madrugada que precipitava as cores da alvorada.

Sem que a mosca lhe fizesse mal, a velha estava na calçada um pouco distante de sua casa. Estava de pé, com a sua máscara sobre o queixo e a boca ruminando algo que lhe escorria pelo canto da boca. Contraí as cordas vocais para direcionar as únicas palavras que nos cabem, aquelas de cumprimento cordial, mas ela se antecipou:

– Quer caju? – disse, empunhando uma porção de frescos cajus amarelos e vermelhos que carregava na mão esquerda.

– Muito obrigado, que a senhora tenha um bom dia – retruquei, bondoso, com um sorriso.

Ela não podia ver os meus dentes exibidos, porque a máscara sanitária os escondia. A feição carinhosa só não morreu nesta era porque, ao sorrir, contraímos inúmeros músculos da face e isso se pode perceber especialmente no canto dos olhos, ali onde se identificam os pés-de-galinha. Durante a pandemia, sorrimos com os olhos. Quando bebo e escrevo me sinto um gênio, mas não necessariamente quando bebo ou quando escrevo. Fiquei com dor na consciência por não ter aceito ao menos uma das frutas, mas fazer o quê, já não havia muitas coisas que a arcada dentária da velha suportava mastigar. Os cajus lhe fariam grande justiça nutricional. Ela os sugava e cuspia as fibras no chão.

Uma esquina a mais na minha caminhada plano-terrena e lá estavam os três amigos, mais D’Artagnan. Trata-se de três moradores de rua que, ocasionalmente, têm um convidado a mais a acompanhá-los. Grande prazer o deles, esse de ter o mundo como lar. Nós, civilizados e obedientes ao deus Capital, temos de adquirir propriedade privada para que possamos denominá-la casa. Eles não, toda calçada é sala de estar e todo o mar é banheira. Los tres amigos são idosos, bem que se diga. Nunca lhes dei bom dia, como faço com a velha. Acho que, no fundo, é inveja da minha parte. Quando vou trabalhar, pela manhã, encontro suas carcaças estiradas em posição fetal, mão sob a cabeça, sorrindo em um sono profundo. Sonham com algo que a realidade não pode cumprir, dormem profundamente em um coma induzido pelo álcool etílico, descansam enquanto os outros só fazem atingir a fadiga. Quando volto para casa ao meio-dia, eles estão de pé, dançando sem música e almoçando a cachaça pura. Dividem um carrinho de compras onde guardam seus valiosos pertences. Poderia dizer que ali está tudo o que têm, mas em verdade reflito que eles têm muito mais do que percebem. D’Artagnan eu chamo o quarto amigo que se junta a eles, um cara especial. O digníssimo hoje se superou. De alguma forma conseguiu uma caixa de som e, para a alegria de todos, o instrumento faz os homens cantarem e dançarem freneticamente. Estão todos acordados mais cedo do que o costume, talvez pelo êxtase da música. É uma festa open bar e não há seguranças para barrar a entrada de ninguém.

Não usam a máscara de proteção como todo o resto dos habitantes da terra brasilis. Não temem a morte, temem a falta da pinga. Eu os entendo, empatia que chama. Resolvi parar por um tempo para observá-los. Nomeei cada um, para o meu bel-prazer, segundo o instinto mordaz da filosofia. São, então, Platão e Sócrates e Diógenes e D’Artagnan, claro. Três mosqueteiros junto ao agregado.

Diógenes fica o tempo todo com a mão no saco, acariciando. Não o saco onde carrega as latinhas de alumínio que lhe rendem alguns trocados, mas o saco que acolhe as suas bolas. Ao se aproximar uma dama ele passa a se movimentar, as duas mãos ao vento, como em uma dança espiritual. Rodopia e sorri, absolutamente naufragado na bebida.

– Você quer dançar comigo? Procuro e não encontro alguém para dançar! – assim diz o galanteador, segurando uma dose de cachaça em uma mão e a bolsa escrotal na outra.

As mulheres desviam de Diógenes e seu perfume acre resultado da sereno ácido que o banha diariamente. Ele não desiste, parece um enorme predador, faminto por um tipo de carne que, sabe-se lá, já faz tempo que não degusta.

– Olá, que lindo dia, não? – Diógenes repete ao saltar em frente às mulheres que caminham por ali, agora com uma mão na barriga e outra no ar, ensaiando uma valsa.

Uma infância de negligência, pais que o trouxeram ao mundo e depois o abandonaram. Falta de um lar e de cuidados fizeram com que ele fosse morar nas ruas. Viveu entre sacos de lixo rasgados e cães imundos, acostumou-se a respirar fuligem e a comer migalhas. Apanhou sem motivo e sentiu as contrações da puberdade o empurrarem para o beco sem saída do desejo impossível de se consumar. Acordou de pau duro tantas vezes e nunca pôde usufruir daquela potência natural que Deus havia concedido, tão democraticamente, a todos os homens sobre a Terra, ricos ou pobres. Amargou talvez alguns abusos físicos por morar sobre os paralelepípedos. A confusão na fala sugere que também surfou sobre os paralelepípedos de crack. O dia e a noite nunca fizeram sentido, não havia um lençol para cobri-lo nem lábios para embalar o sono. O resultado é mais um miserável sem teto, produto do sistema atravessado que dá de ombros para os menos favorecidos. Essa teoria seria, geralmente, apresentada por um genérico analista social. Eu discordo.

Diógenes só pode ser de gêmeos. Porra, mas é claro. Os geminianos sofrem da tal síndrome do donjuanismo, uma necessidade compulsiva de seduzir o tempo todo. Amam o envolvimento sexual, mas dificilmente as emoções caminham junto com o sexo. Preferível é aquela sedução difícil, que envolve pessoas inacessíveis, comprometidas, casadas. Por um instante chego a imaginar que eu sou de gêmeos também. Não sou. Mas que caralho? O Diógenes contemporâneo vive na rua, não tem vergonha dos instintos selvagens que lhe batem à porta e vive buscando uma mulher honesta, esse crápula. Fosse ele de sagitário, aposto que não estaria em situação tão lamentável. Tarado, sem escrúpulos. De repente, sai de cena e se cobre com papelão em um canto. Eu sei o que ele está fazendo, todo mundo sabe o que ele está fazendo. O papel marrom sobe e desce constantemente. Como poderia seu apelido não ser Diógenes, o cínico? Como geminiano, ele teria grande futuro na cafetinagem.

Platão continua sentado na sarjeta, uma mão no queixo e a outra na cintura. Balança a cabeça, fala com o vento. Acaricia a barba e a brisa bagunça os cabelos encaracolados. Parece inconformado, sua testa franzida revela o desmantelo que se expande no coração. Ora se levanta, ora senta com as mão esticadas para trás. O sapato esquerdo não é do seu tamanho, os dedos ficam para fora por um furo na dianteira. Gesticula com um poste de luz, parecendo dar uma lição aos espíritos que deve enxergar. Tudo o que sai de sua boca é em volume baixo, inaudível para mim que estou à distância. Então, subitamente, ele exclama em alto e bom som:

– OUÇAM! EU TRAGO A VERDADE E COM ELA PODEMOS ALCANÇAR A LIBERDADE!

Deve tragar outra coisa, o safado – pensei. Parece ter fugido de um hospital psiquiátrico, em plena madrugada pulando o muro. Não lhe interessa os carros que raspam o asfalto, não lhe interessa os pássaros sobre os fios de alta tensão, não lhe interessa o vírus tampouco suas variantes, não lhe interessa se há abrigo contra a chuva, não lhe interessa o preço da cesta básica. A ele interessa a salvação. Platão murmura e eu me achego. Estou curioso sobre as filosofias que o homem de feição ancestral tem a compartilhar.

– Ei, chegado, isso tudo aqui, a existência terrena como conhecemos, é passageira. Semeamos aqui, podemos até acabar colhendo uma ilusão ou outra, mas importante é a safra no outro plano. Bendito o mundo da paz e bonança que nos espera, os homens conscientes. Alguém realmente se importa com essa vida mundana? Ai de mim se não alimentar a boa fé. Devemos nos apegar a tudo o que ainda está por vir. Ei, chegado, sirva mais um pouco de bebida para mim? – assim filosofou o moralista.

Platão repetia à torto e à direito o que bem entendia e se dirigia ao tal “chegado” e pedia mais álcool. Fazia tudo isso olhando para o lado oposto de onde eu estava, ou seja, havia mais alguma alma por ali, uma alma hipotética para mim, mas romântica para o idealista. 

– Justiça, oh Senhor! – elevou as mãos aos céus, uma delas segurando o copo meio vazio, em clamor comovente – Não sou digno de ti!

Peça de museu aquele tipo. Se eu fosse ao manicômio municipal haveria de encontrar seu nome na lista de desertores. Ser maluco é uma vocação, alguns a alimentam com drogas ilícitas ou não, outros com a neurose abundante que parece permear insistentemente a sanidade. Será ele um desiludido que sofreu um mal súbito e disse adeus ao bom senso? Alguém o abandonou no altar? Alguém o chifrou? Sofreria ele de problemas de ereção? Qual é o grande porquê por trás daqueles fios de cabelo faciais? Um típico libriano, eis o quê. Ares de inocência ladeiam aquela cabeça confusa, eu sei. Equilibrado e idealista e justo, inverossímil. Romântico, dá a entender que seus ideais são os de que todos deveriam viver na rua e não o contrário. Está a um passo de se tornar pastor, porque em línguas ele já fala. Eu não sei se ele é de libra mesmo ou se é só teimoso. Desaguou na embriaguez da vida. Lógico, deram a opção dele ou estudar ou beber. Ficou em dúvida (coisa de libriano) e o trem passou. Restou os litrões. Refleti que os signos, essa beirada do senso comum, podem ser úteis para explicar a vida dos fracassados. É muito conveniente explicar o sucesso de um CEO porque ele é de áries. Quer poder, impõe autoridade e etc. Ousado é analisar, sob a ótica do zodíaco, o grande sofrimento do mundo. Danem-se os bem sucedidos, o que fascina é a tragédia!

Vejam Sócrates, por exemplo. O rosto inchado, vermelho, coalhado na manguaça. Dos olhos correm lágrimas e do canto da boca a baba escorrega solta.

– Ela me deixou, mas eu só tinha amor por ela! Todos me abandonaram! Minha família não me quis mais! – soluçava e repetia esse mantra abraçado a uma garrafa de aguardente 51. – Eu tinha um filho, dois filhos!

– O que houve, camarada? Morreram? – não me aguentei e dirigi a pergunta ao grande lamentador.

– Não materialmente. Afastaram os dois de mim, acusaram-me de corrompê-los. De corrompê-los! Logo eu, um pai amoroso que só queria lhes ensinar o valor do que é belo. Queria que conhecessem a si mesmos, queria que acreditassem.

– No quê, homem? – interessei-me pelo discurso.

– Nas virtudes! Na prática – ic! – das virtudes. Ações e não palavras. Agir! Porra, eu os levei para a zona… queria que experimentassem algumas coisinhas…

Que figura! Estava quase acreditando que deveria ser canonizado quando, entre um soluço e outro, ele soltou aquela pérola. O tom de sua voz era tão triste que comovia. Qual seria a grande virtude? Deve ter frequentado a escola, ter sido o primeiro da classe. Acho que acabou na rua por desgosto. Sabe usar as palavras, mas não duvidem: a verdade é uma só. Ai de confundirem-no com os sofistas, aqueles crápulas prolixos.

Sócrates, meu amigo, por que será que todos o deixaram? Terá sido a bebida o grande problema? Os maus hábitos de um adicto ou a flagrante falta de limites em ser um chorão desgraçado? Puteiro e canja de galinha, com parcimônia, nunca fez mal a ninguém. Acabei de inventar isso, mas quem se importa? Ninguém te aguenta, canceriano de uma figa! Reclamar é a sua segunda profissão, a primeira é galgar o grande trono de rei do drama. Acho que é por isso que o dono da venda dá garrafas de graça para ele, para simplesmente evitar o chororô. Enquanto conversávamos, o sr. Jair veio e entregou uma garrafa novinha em folha de conhaque de alcatrão.

– Esse daí tem história, viu? Parece que ele já esteve até na faculdade – disse o botequeiro.

Faculdade da vida, meu caro. Fácil de entrar e difícil de sair.

D’Artagnan não deve viver em tempo integral na rua. Está um pouco mais bem vestido que os demais e tem a barba feita. Serve uma dose de cachaça junto aos amigos em seu copo descartável e a bebe olhando para um pequeno espelho afixado na traseira do carrinho de compras que transporta os bens pessoais da trupe. Vaidoso, megalomaníaco com sua caixa de som colorida. Ele se acha o máximo, um líder natural. Os outros o acham um perfeito idiota. Leonino, é óbvio! Fala pouco, mas fica sorrindo. Sente que faz parte da bagunça só durante a farra, nunca se mantém sob o luar como os demais. Seu lugar é algum cômodo protegido dos temores trevosos das esquinas mal frequentadas. A prepotência é tão grande que se pode cogitar, sem medo de errar, que ele precisará de dois caixões quando morrer. Um para ele, outro para o ego. Seria um bom ditador, capaz de dar ordens as quais, claramente, não tem competência nenhuma para executar por si só. Pensando nisso lembrei: qual será o signo do presidente da república?

Platão, Sócrates, Diógenes e D’Artagnan, quatro exemplares da justiça astrológica. Sofrem com a impiedosa dança dos astros. Pergunto aos céus: esses filósofos do asfalto assumiram em algum momento as consequências dos caminhos escolhidos ou se vitimizaram e apontaram diferentes culpados? Ignoraram a revisão e reflexão que era necessária. Entraram em rota de colisão com Saturno retrógrado e são a prova cabal de como os astros não destilam misericórdia. Devem continuar a catar latinhas, os três ou quatro, enquanto não analisarem seus quadrantes astrais. Horóscopo até que faz sentido agora. Pensei na velha e cheguei a conclusão de que ela deve ter feito seu mapa astral em algum momento da vida. Por isso tem casa, uma cadeira e cajus.

O sótão da alma

O silêncio impera durante o tempo que passo sentado nas escadarias do centro da cidade, um campo fértil para o concreto, para os passos compenetrados de transeuntes afoitos  e para todo o mármore gelado que abriga os prédios outrora glamurosos e que hoje exibem a decadência física que se equivale ao desmoronamento de valores éticos que contamina a nação. Tateio meu rosto e sinto a barba grande, oleosa. Ainda que não exerça fascínio quanto a sua beleza, os longos fios me servem como uma espécie de cachecol natural, evitando que resfriados inoportunos dificultem ainda mais a vida moribunda. Escuto o tilintar de moedas bem próximo a mim, rompendo o estado inerte da minha meditação forçada. Ao receber esmola, sempre retribuo com “muito obrigado, Deus o acompanhe”. Há uma parcela falsa na frase, ainda que doa admitir, pois, por mais que deseje o bem a quem o faça a mim, lá no fundo não recomendo a companhia do divino. Esse Deus de nós todos tem sido deveras permissivo com as durezas do mundo. Seja como for, os acontecimentos que permearam meu caminho e o culminar dessa existência combalida soterraram toda a fé e a chama que tive pela vontade de viver. Já fui uma árvore frondosa, de encantos ostensivos e perfume irrecusável, doadora de frutos polpudos e com as raízes alongadas às profundezas. Hoje sou mendigo, reles homem sem espírito e sem apetite pelo porvir, um renegado cujo coração bate por obrigação, condenado a coexistir agasalhado em paredes internas, sem a distração das imagens absorvidas pela íris e esmagado por uma onda caudalosa de memórias que flutuam em um cérebro potente. Vivo, dentro de mim, em uma gruta escura e sem eco, onde proclamo um amor perdido que jamais interrompeu a marcha da distância.

Sou cego dos olhos, desvairado de alma.

Logo pela manhã, sento-me nos degraus iniciais de uma escada que liga a calçada a não sei onde. Cheguei até ali graças aos companheiros de sarjeta. Também não me interessa. Posiciono meu chapéu puído entre as pernas e aguardo o roçar do níquel que inevitavelmente vem. Ficamos eu, Alfredo e João sentados um ao lado do outro, em vitrine aos transeuntes impassíveis aos nossos rostos desfigurados. João sempre traz o seu violão, que além de muito agradável é também um atrativo a mais para nos render uns vinténs. Causa-me grande alegria e uma pitada de tédio, vez ou outra. Dedilha notas clássicas com tanta destreza que fica evidente o passado erudito que carrega em suas mãos. No entanto, o Alzheimer faz com que o repertório se torne cada vez mais limitado, coitado. Antes, era um recital todo. Hoje, duas músicas no máximo. Éramos quatro, nós três mais o Mathias. Acontece que no último inverno o pulmão tuberculoso do velho companheiro sucumbiu de vez. Após mais uma longa sessão de risos com suas piadas, adormecemos. Ele era tão bom na arte do humor que se tornou algo compulsivo. Pregava peça na mãe, armava bagunça para a própria esposa e ria, ria como se nos estertores de um riso desesperado pudesse alcançar a salvação. Veio o divórcio e, então, a visita de um oficial de justiça o intimando para os trâmites processuais no fórum municipal. Mathias não só negou a identidade como recebeu o funcionário público em uma túnica de linho, afirmando ser Ali Para Baba, um mítico guru que embora não conhecesse aquele a quem o oficial se referia, prontificava-se a usar seus poderes para encontrá-lo. A patranha lhe rendeu uma acusação por falsidade ideológica e, desse modo, foi morar nas ruas para fugir das consequências. Na nossa útima noite juntos ele estava mais quieto, o fôlego não o permitia ser o centro das atenções. Na manhã seguinte, levantamo-nos para ir aos nossos postos. O Mathias não. Arquejou na reclusão de seus sonhos, no profundo sono que o seqüestrou de nosso convívio. Não nos despedimos como seria justo.

Moramos juntos, os três, em um barraco honesto: frio, úmido e malcheiroso, sem inspirar a ilusão de ser uma morada agradável. Essa família de amigos conheci quando perdi a visão, há oito anos, em um incêndio.

Encontrava-me, então, em uma favela. Deitei e me pus a observar pela janela o tom camaleônico das cores no céu abastado de estrelas. Na linha horizontal via um azul tenro, que escurecia verticalmente até o teto do mundo, formando um negro matiz que, penso eu, deve ser para esconder tantos mistérios na falta de luz. Peguei no sono com uma brisa pacífica que soprava e massageava o meu rosto. Horas depois, despertado por um grito horrível, abri os olhos e vi muita fumaça pelo ar. Antes que me levantasse e tomasse noção da realidade, o forro em brasa do meu palacete veio abaixo, e meus globos oculares queimaram, verteram suas últimas visões em um mar de fogo infernal, secular e doloroso. No incêndio, foi-se tudo o que tinha e mais um pouco.

Passado um tempo no hospital, saí sem rumo e agora com duas gazes nos olhos, única aquisição em tempos de perda total. Ao menos, não havia contraído dívida alguma com o tratamento hospitalar, uma vez que o sistema de saúde era gratuito, público e universal. Ali, vestidos de branco e por trás das máscaras, tratavam até de vagabundos sem custo nenhum, um colosso! Ao agradecer e despedir das enfermeiras, com passos lentos e cautelosos e sem a ajuda de nenhum braço amigo, pisei prédio afora e fui tomado por um lancinante suspiro de reflexão. Foi quando, somente dessa vez e nunca mais, coloquei-me a lembrar da vida que tive e a qual renunciei, uma vida infindável de conforto. Nascido, criado e bem amado no seio de uma família serena, com pai, mãe e nenhum irmão, minha companhia nesta época era a mais bela de todas as donzelas do mundo, a minha doce Catarina. Ela nos acompanhava em todos os momentos e meus pais já a consideravam, como sogros tradicionais que eram, uma segunda filha. Levávamos um relacionamento harmonioso, que se abalou pela morte de meu pai em um acidente automobilístico. Sofri um golpe forte com a separação do patriarca. Mamãe ainda agüentou alguns anos demonstrando controlar a dor incansável, mas não resistiu com mente forte. Padeceu na loucura e induziu a própria morte. Vi-me sozinho pela primeira vez.

Catarina, que me apoiara um tanto quando da perda paterna, começou a transparecer estranhos sinais de distanciamento, de falta de carinho. Ah, logo ela! Como pôde, minha querida, fenecer em você um amor desmedido, um bem querer tão sincero?

Catarina diminuiu aos poucos a atenção, um certo desmame de amor tal qual ao de um viciado em fármacos que necessita se livrar da droga. Restringe-se a dose gradativamente, até que o dependente se vê livre do consumo habitual. Comigo foi o inverso. Esquivando-se de minhas investidas e mostrando uma naturalidade trágica, ela me conduziu à areia movediça da paixão, que por completo me tragou e da qual jamais me salvarei, sendo o meu destino morrer afogado na lama. O meu bem se foi sem se despedir, assim como todas as outras perdas que margeiam minha trilha. Apenas mudou de cidade e não deixou rastro, sem dar-me o direito de explicação alguma. Vi-me, de novo, sozinho e abandonado.

Quando da morte de meus pais, cri passar pelo purgatório. Agora não me restava dúvida, tinha descido ao reino da maldita discordância, onde colocariam meu dorso a arder em chibata de fogo a fim de tornar-me inóspito, um reduto físico triste e amaldiçoado. Essa descida ao submundo do sofrimento destituiu o pouco que restava dos meus domínios cognitivos. Não resisti o bastante e lancei-me a viver nas ruas, com um pouco do dinheiro no bolso e muito desorientado após grande ingestão de calmantes. Droguei-me e desejei a morte. Não bastavam as pílulas sintéticas, pois o que introduzia a angústia eram as memórias, e essas galopavam no amargor de minha boca, incessantemente.

Vaguei pelo vale seco do drama urbano, com seus becos agressivos e sujos, repletos de homens abreviados e rastejantes. Definia-me bem como a própria peçonha social, o vulgar rompimento da miséria que se comporta como bactéria inata em qualquer ambiente propício à vida. Tornei-me um náufrago à deriva, não podia orientar a minha direção no oceano do destino, apenas aguardava o guiar da maré. Alimentava-me de alguns tragos e ardia o meu pensar em noites infinitas, sempre querendo Catarina. Sonhava (ou delirava em ilusões visuais) recorrentemente com uma garotinha loira de bochechas rosadas, trajando um vestido azul celeste e que vinha em minha direção saltitando pelas ruas, acompanhando os meus passos cambaleantes. Quanto mais eu andava, mais ela se aproximava cantarolando com sua voz angelical. Ofegante pela fuga da figura pueril, encostava o corpo praguejado na pilastra renascentista de um prédio qualquer e então ela me alcançava. Tomava-me pelas mãos e dizia para segui-la, puxando firmemente os meus dedos. Inundava-me então um pavor extenso e repentino, que me limitava a respiração e, arfante, livrava-me do sono. Olhava ao meu redor e só via os mesmos cantos escuros de sempre, os mesmos uivos e a mesma solidão. A menininha tão linda jamais conseguira me levar aonde desejava.

De quando comecei a arquitetar minha própria decadência até o dia em que perdi a visão os anos passaram por mim famintos, alimentando-se de minhas virtudes e roubando um tempo precioso que não volta mais. Hoje tenho restrições reais quanto a minha funcionalidade, por não enxergar. Porém, antes do fato terrível, cruzei décadas sem, em momento algum, render graças por olhos sadios e que não desistiam de mostrar o belo. A última visão que tenho do mundo é a do céu negro e suas constelações fúlgidas, um céu que se exibia a mim e que certamente também o fazia a Catarina, um ser sublime, embora de ímpeto tão cruel.

A jornada que levo junto aos meus parceiros sentado em escadarias do centro da cidade é, na mais absoluta certeza, torturante e monótona. Agacho-me nos quadris e, sem proferir nenhuma palavra, apenas segurando o chapéu entre as pernas, ergo a cabeça em direção ao horizonte e ali permaneço até a hora em que nos dirigimos aos nossos barracos. Imóvel, com os lábios pressionando uns aos outros, tento em vão silenciar também as minhas reflexões. Perto de onde nos estabelecemos há alguma igreja. Ouço cânticos e melodia sacra vagando pelo ar. Pode ser, aliás, que a escadaria onde me aconchego leva até os bastiões e portões nobres de uma basílica católica e, dali, emane a música que me agrada. Estabeleço a partir daí um conflito bárbaro em meus pensamentos. Divago sobre a morte que me aguarda, sobre a memória de meus queridos pais, a saudade, a Catarina. E ao passo de pensamentos tão depressivos, eleva-me o ânimo a sonoridade que provém do templo próximo. Quão bons são os anjos que devem habitar este mundo e proteger as almas esquecidas. E talvez ainda eu não esteja tão esquecido para merecer a proteção de um deles. Deus deve ter uma predileção especial pelos miseráveis, fez vários deles. “Hei de sofrer”, pensava eu. E estava certo.

Repetindo o trivial, encontrava-me recostado em pedras geladas com meu chapéu em punho. O Sol já tinha abaixado e, creio, eram quatro horas da tarde. Ouvia João e Alfredo conversarem ao meu lado algo sobre futebol, para variar. Os dois, saudosistas como todo homem velho, relembram os antigos jogadores e os comparam com os atuais. Não há necessidade de comentar o massacre verbal que se desenrola. São daquele tipo que gosta de resgatar os tempos antigos e afirmar que “no meu tempo que era bom…”. Mas, alheio aos diálogos fanáticos dos dois, percebi a aproximação de uma pessoa. Momentos antes, pude escutar um carro estacionar calmamente em minha frente. Desferiu alguns passos até se aproximar e me disse, com tom sereno, “uma ajuda, senhor” ao depositar uma quantia no meu chapéu. Como já contei antes, respondi muito obrigado, Deus a acompanhe. Ouvi mais alguns toques da passada elegante da mulher bondosa, que certamente se equilibrava sobre um salto fino. Elegância é uma qualidade que se enxerga mesmo sem se ver. A voz aveludada era ornada por um perfume capaz de fazer os jasmins fecharem suas pétalas em sinal de timidez. Ao partir, escutei o arrancar parcimonioso do carro. Meus dois companheiros aproximaram-se. Falaram-me, e eu sequer me abalei, que ela deixara uma quantia que valeria por uma semana de arrecadação. Fossem meus olhos vivos, brilhariam com a notícia. Senti-me feliz de uma maneira reservada. Seria aquela mulher Catarina? Teria ela me encontrado e tentado se redimir? Voltaria e cuidaria de mim? Será que ela, num rompante de caridade, chegaria ao ponto de me levar para morar em sua casa? Estaria solteira até hoje? Será que nunca me esqueceu? Oh, mulher bondosa, quantos mistérios em seu frescor, quantas lendas inspirou em minha mente doída!

Uma euforia toda se apoderou do grupo e sentíamos um exultante sucesso com aquela esmola generosa. Incontrolavelmente tateava o bolso à altura do peito onde guardei as cédulas de dinheiro limpo. Não quis saber qual era o montante, mas no intervalo de minutos tornava a apalpar o que seria o meu tesouro. A felicidade era tamanha que cheguei a balbuciar músicas que fluíam de uma boca costumeiramente silenciosa. Comprei pão com mortadela para nós todos e voltei ao barracão. Estranhamente meus companheiros se converteram em um silêncio, ainda que a minha alegria fosse esfuziante. Qual absurdo sucedeu que eu deveria tanto me espantar? Adormeci sem dar maior atenção ao clima de pesar que pairou naquela morada.

O dia amanheceu e, ao buscar minha fortuna, notei que o bolso estava vazio. Roubaram-me! No ar fétido da pocilga humana, sentia os olores de vinho barato e frango assado. Os bandidos removeram meu dinheiro, chafurdaram em sua própria ganância e gozaram dos prazeres proibidos. Ao esbravejar contra aquele atentado, uma voz feminina resmungou pedindo silêncio. Além do banquete e da bebedeira, contrataram também uma prostituta. A orgia se fez, aos moldes de Baco. Os rapazes haviam ido longe demais. Seguindo a tradição mitológica do bacanal, resolvi dar cabo ao componente romano daquela tragédia. Aproveitando a embriaguez e estado indefeso, como Nero ateei fogo nas madeiras. Homens simples, puros em espírito e de ambições também simplórias. Eu, um ressentido irascível.Sentei-me na calçada do outro lado da rua. Ardiam e gritavam ao passo que a vizinhança esperava a chegada do corpo de bombeiros. Era impossível conter aquele fogaréu. Por ser cego, suspeita nenhuma caiu sobre mim.
Metade do dia já havia se prolongado e me contive a esperar que tudo se acalmasse.