Óleo de peroba

arte da Melodie Perrault

Havia um garçom, nem alto nem baixo, nem magro nem gordo, nem careca totalmente, nem branco nem negro, com a barba por fazer e, acima de tudo, aquele garçom vestia um terno que não era feito para ele. Aquele cara representava a mediocridade. Veja bem, não há julgamento moral no que eu conto, a intenção é dizer que ele não era 8 nem 80. Aliás, havia outros garçons ali. Um era muito magro e já passava dos 50 anos de idade, e cada bandeja com taças e garrafas parecia pesar uma tonelada em seus braços magricelas. Apesar do semblante exausto e da compleição franzina, aquele senhor sorria efusivamente mesmo quando se protegendo dos convidados que se movimentavam de costas a levar perigo às bebidas que ele carregava na mão esquerda.

– OPA! – dizia, a cada minuto, ao se esquivar.

Uma garçonete, a única mulher a exercer a função, chamava a atenção por quatro razões. Era incrivelmente linda, mas linda mesmo, linda a ponto de alguns bêbados em fim de festa se ajoelharem e pedirem a sua mão em matrimônio. Usava batom vermelho e o formato de seus lábios era espetacular, entretanto, não sorria nem por ordens dos superiores. Sobre os olhos castanhos, havia uma monocelha grossa e intocada que mesmo que eu não queira criticar, era o toque de imperfeição naquela escultura. E o quarto detalhe, usava um avental tão amassado que parecia ter sido mastigado pela vaca de estimação da família, a Gertrudes, que vivia na fazenda. Os outros homens que vestiam camisa branca e gravata preta eram garçons comuns, sem nada de muito interessante. De tão ordinários, confundia-se com facilidade alguns convidados da festa e vice-versa. Gente na qual falta tanto sal como açúcar, gente que a gente não sabe se come ou faz fotossíntese.

As famílias exultavam. Dia de festa é dia em que ninguém discorda de ninguém. Ri-se, joga-se a cabeça para trás e então se emenda um gole generoso de champagne. Nada de ânimos exaltados. A mãe da noiva tinha o cabelo impecável, o pai do noivo gargalhava e irradiava aos convivas a sua própria luz, tão incandescente que punha os demais em brasa. E lá vinha o garçom magricela, que com o passar da noite já sustentava a bandeja com as duas mão e pedia, com delicadeza, para que os convidados retirassem autonomamente as bebidas desejadas. A cada copo que ia, ele sorria com timidez pela graça alcançada de carregar menos peso.

A festa acontecia na casa da família da noiva e os cachorros estavam presos. Nem latir eles não latiam. Finos, elegantes, dignos do sobrenome e tradição. Cães que engoliram uma pessoa uma vez, mas sem fazer barulho. A tal pessoa tentou roubar a casa mas o que ela conseguiu foi a atenção dos dois rottweilers. Coitado, nem boletim de ocorrência foi registrado. O caseiro entendeu que algo tinha acontecido alguns dias depois quando percebeu um punhado de terra anormal no jardim. A dupla enterrou os ossos como bons cãozinhos que eram. Os nomes? Ha, segura essa. Um era Vito e o outro Corleone. Segura essa!

A família do noivo era gigante, quatro irmãos e três irmãs, um sobrinho e uma sobrinha, pai, mãe e madrasta. Boadrasta, como quereria o próprio noivo e ninguém discorda. Foram de ônibus, metade de gente e metade cachaça. Festa é festa. E lá vinha o garçom meio-a-meio, com seu jeito que não dava para distinguir se estava contente ou conformado. Mantinha um semblante sério até ser elogiado, quando então abria um sorriso capaz de fazer sorrir até a Monalisa. Uma chuva leve caía como benção aos pombinhos. Sinal de bom agouro para o enlace, motivo de nervosismo para a mãe da noiva que havia planejado a cerimônia no jardim. A grama encharcada já não permitia a presença de ninguém sem botas de solado alto. Adivinhe? Não havia uma única alma de botina naquela festa, nem o padre. Para o padre, apenas a batina.

Dentre tantos convivas, havia uma dupla que dividia a atenção entre duas, e apenas duas, coisas naquela noite. Ela, a sobrinha da noiva, catorze anos de pernas finas e longas, pele da cor do puro vime, cabelos negros e longos como os de Potira. Fisicamente, sua principal característica era a boca larga, de lábios finos. Era como se, estranhamente, sua boca tivesse atingido a maturidade antes do corpo. Ao bocejar, poderia engolir um pássaro por descuido. Um pássaro no ninho. Um pássaro no ninho com 5 ovinhos pré eclosão. Tô falando, era uma boca e tanto. E, como não poderia deixar de ser, aquela beleza juvenil atraiu os olhares sonhadores do sétimo irmão do noivo, então com 16 anos de uma perturbadora puberdade. Ele era boa gente, estava vestido com terno e gravata azul marinho de fino trato. Cabelos desengonçados e encaracolados para combinar com o jeitão destrambelhado de um adolescente. O acúmulo de hormônios havia transformado sua cara em um campo de guerra. Ninguém o achava interessante na escola. Mas a garota da bocarra gostava dele. E ele gostava muito dela. Além do casamento em si, os dois prestavam atenção reciprocamente. Sentaram-se em mesas separadas porque os pais dela sabiam que ela era levada. À distância, faziam mímicas e convites um ao outro através da leitura labial. Ela piscava com o olho direito que era aquele que só ele conseguia enxergar. Ele mandava beijinhos quando o garçom medíocre bloqueava a visão dos pais dela. Apesar de apenas 16 anos de idade, ele bebia moderadamente o espumante que se servia na festa. Bom, aquele era o casamento do seu irmão, naquela festa ele era padrinho do noivo e, acima de tudo, aquele país era o Brasil. Ninguém dá a mínima se você é maior de idade ou não.

Ela, a garota de pernas leves, sinalizou que ele a seguisse. Que os céus me punam se for mentira, mas a pequena ninfeta vestia um vestido vermelho. O rapazola aguardou por dois minutos e então se levantou, encostou a cadeira na mesa, pediu licença e adentrou o longo corredor central da propriedade. Deu no quarto do fundo, onde todos os jovens das famílias reuniam-se em volta da cama a jogar cartas. A conversa era barulhenta e ninguém se importava com o que os dois tramavam. Ela continuava a comunicação labial não sonora, com a performance nítida de sua boca continental.

– Espera aqui – disse ela sem emitir nenhum ruído.

Ele balançou a cabeça obedientemente. E, como em um passe de mágica, a garotada toda se levantou e voltou para a festa. O que era aquilo? Poderia ela controlar os elementos? O que mais um garoto desejaria além de um romance aventureiro? Uma garrafa de vidro com coca-cola, talvez. Ela o beijou levemente, apenas com o breve contato dos lábios, e disse:

– Vem comigo.

Desta vez, ela emitiu som. E o som tinha forma. Fluía da garganta, deslizava pela língua e se esquivava dos dentes antes de saltar pelo ar com perfume de rosas e eucalipto. Ah, o convite para o inferno vem fantasiado em veludo. Mal sabia ele. Ela à frente, ele logo atrás conduzido pela mão esquerda tal qual o vermelho cru comunista da garota que já entendia o beijo como uma propriedade pública. Eram jovens que curtiam a jovialidade, bestamente inconsequentes. Escolheram o banheiro para trocar uns amassos. Beijavam com sofreguidão e nada mais. As mãos não eram bobas, só os dois que eram. Trinta e cinco segundos de pegação foram interrompidos com violentos trovões do armagedon. A porta do banheiro agora tinha voz e essa voz, esganiçada e raivosa, invadia o ambiente refletindo nos azulejos azuis que recobriam as paredes.

– QUEM ESTÁ AÍ?? – ela berrava.

A porta tremia com as pancadas e as mãos do garoto acompanhavam o ritmo em desespero.

– QUEM ESTÁ AÍ??

Dos gritos, ele só entendia uma coisa e essa coisa ecoava nos ouvidos: Taís, Taís, Taís.

– Sou eu tia, não estou me sentindo bem. Deixe-me sozinha – ela disse.

– Menina, eu sei que você não está sozinha, abra essa porta agora!

– Tia, eu estou sozinha, pelo amor de deus, estou passando mal.

Com os cotovelos sobre a tampa do assento sanitário, ajoelhado na toalha de piso, ele rezava para um deus misericordioso que os poupasse do vexame. A garota falava com a porta, virava, puxava os cabelos do rapaz e o beijava. Aquela situação era como estar dançando com dor de barriga e sentir vontade de soltar uns gases. Você sabe que pode ajudar, mas vai acabar dando merda. Ela não estava nem aí. Beijava e falava com a tia, falava com a tia e beijava outra vez.

– Você tem que ser como eu, cara de pau. Passe óleo de peroba nessa cara! – ela disse sussurrando ao pé do ouvido.

– QUEM ESTÁ AÍ COM VOCÊ?? – a tia solteirona, a mais velha das tias, voltava a gritar no vão da porta.

– Tia, eu já falei. Ninguém está aqui comigo, só Deus! – disse e lascou outro beijo.

Não sei se era o mesmo deus com o qual ele se comunicava, mas caso fosse, que ele perdoasse aquela blasfêmia toda. Santa paciência. A tia era chata, solteirona, de meia idade mas, veja só a ironia, era conhecida justamente porque tinha aprontado livremente na mocidade. E agora cobrava a moral e bons costumes. Como a vida é uma caixinha de surpresas, não é mesmo?

– SE VOCÊ NÃO ABRIR, VOU CONTAR TUDO PARA O SEU PAI!

– Tia, eu tô piorando, por favor me deixe quieta aqui.

E tome beijo. E tome lição de moral em forma de sussurro.

– Tá vendo como eu sou cara de pau? Óleo de peroba nessa cara, você tem que fazer como eu faço – disse ela com aquela boca quilométrica.

O rapaz já estava perdido dentro de si. Sucessivamente, olhava para a janela do banheiro calculando se conseguiria fugir por ali. Acontece que era uma casa antiga, com paredes muito altas e o vitrô era fino, impossível de ser penetrado. A única maneira de sair seria pela porta, estivesse quem estivesse do lado de fora. De repente, a perturbação parou. Silêncio e paz. Os saltos da tia foram ouvidos sumindo pelo corredor. Era o momento certo para sair e o rapaz buscou a maçaneta da porta.

– Aonde você pensa que vai? Vem cá!

A garota pensava muito diferente do marmanjo. Ao invés de aproveitar o momento para a fuga, ela aproveitou para afundar os lábios nos dele, que não resistiu. Surge uma nova voz na porta marrom:

– Vamos, garota, abra a porta agora que eu protejo vocês dois.

Agora era a tia gente boa, da qual todos gostavam.

– Tia, eu tô sozinha aqui e tô passando mal – insistiu a jovem teimosa.

– Tá certo, e o estado é laico. Só eu posso ajudar vocês dois. Abra logo essa porta.

Abriu. E os dois saíram. A garota passou pela tia sem dizer uma palavra e em questão de segundos já estava no ambiente da festa novamente. O rapaz, branco feito um fantasma, parou e começou a se explicar para a tal da tia legal. Ela não quis saber e disse que ele voltasse normalmente ao salão. Ao chegar ali, ele examinou o local e viu a sua paixão sentada à mesa, no mesmo assento de antes. Um piano de Thelonious Monk tocava ao fundo. Ela piscou para ele. O garoto percebeu que o pai dela não estava inteirado dos fatos. Respirou aliviado, afinal uma surra ele não levaria. O moço então sentiu a mão do garçom medíocre em seu ombro.

– Precisa de uma bebida, rapaz?

– Preciso sim.

– É claro que precisa. Eu, no seu lugar, tomaria algo para relaxar – disse o garçom com um sorriso amistoso.

– Oh, é mesmo?

– Vamos, cara, peça qualquer coisa.

– Óleo de peroba, será que você tem óleo de peroba pra me arrumar?