Um conto de Boston

Era uma tarde de fevereiro, no dia 17 daquele mês, do ano da graça de 1989, quando encontrei o seguinte trecho apócrifo sobre um banco da estação de trem da cidade de Boston, estado de Massachusetts, nos Estados Unidos. O frio era intimidador e o curioso era que o texto se encontrava escrito em português. Logo em um país estrangeiro, achar uma mensagem na sua própria língua mãe é, no mínimo, instigante. O papel dobrado repousava sob uma pedra escura, cinza e pesada, que não permitia que o vento o levasse, embora as rajadas quase o partissem ao meio logo antes de eu resgatá-lo. Não tímida foi a minha surpresa ao abrir a folha e correr os olhos sobre o que ali estava narrado. A fim de que se mantenha a tradição da carta, escrevo esta carta para falar sobre aquela que ainda se remetia sobre uma outra. E, por bem do folclore e respeito aos ancestrais que se fortalecem na memória ativa que se preserva, hei de me submeter ao anonimato de igual forma. Parece coisa de louco? Dizem que de médico e louco todo mundo tem um pouco. Se os doutores tomam como objeto de estudo a saúde e a insânia, por sua parte, é caracterizada pela ausência das capacidades saudáveis de cognição, seriam só os insanos que necessitam de médicos? Ou os médicos precisam dos loucos?
Uma flecha me atingiu em cheio, bem no calcanhar. Deve ter sido muito agradável ao Raul Seixas ser uma metamorfose ambulante, não ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Agradável, não necessariamente fácil. Do dia do meu nascimento até a presente data, flutuando pelas fases mutáveis da infância à vida adulta, ainda me restando a velhice, já defendi diferentes pontos de vista com fervor, com ceticismo e, de igual modo, com a mais absoluta indiferença. Temi a blasfêmia de não ser temente, assim como pouco me confortava a idéia de defender a singularidade de uma figura que jaz na abstração de um coletivo obediente, casto e muito conformado. Existe… não existe… existe mas não sei dizer como… tanto faz. Se Deus não existe, não tenho como negá-lo. Questão de lógica. Existe, sim, e é por isso que a patranha é tão gostosa de ser denunciada. Gostosa, não é necessariamente fácil. Acabo de sair da terapia e as questões continuam cutucando por tempo prolongado, mesmo fora do consultório. Algumas perguntas vêm e este maldito que aqui escreve cai sempre, inegavelmente, na cilada de responder de prontidão. Opiniões em velocidade costumam vir acompanhadas de má construção gramatical, superficialidade teórica e emoção exacerbada na voz. Causam arrependimento, muito comumente. Cachaça com jambu deixa a mesma sensação na boca, um horror. Mas, dado a certas razões impalpáveis, a gente acaba bebendo outra vez. Valendo-me do confessionário anônimo, verdade seja dita: o álcool é o barômetro da alma. Ou da anima, que nos possui e atrai, formando emoções e desejos, motivadora de ambições e que confunde o raciocínio. Antecipei a definição pois, imediatamente ao ouvir a frase, o bendito haveria de indagar: você acredita em alma? Dia desses ele perguntou se eu acreditava em destino. Ora, só os tolos acreditam em destino. Dois dias depois, eu lhe disse que acreditava em destino. Percebi que seria anti-racional aceitar que a vida é uma caminhada sem rumo.
O pai de uma amiga morreu recentemente e ela ficou pouco arrasada do ponto de vista emocional. Trágico por natureza, liguei imaginando que a encontraria em soluços incontroláveis no outro lado da linha. Contou-me sobre a educação espírita e sua clarividência quanto à passagem e seus ritos imemoriais. Essas coisas de gente mais evoluída. Ela gargalhava ao me contar que, preparando o carro de seu pai para a venda, descobriu, escondido entre o banco de trás e o porta-malas, um saquinho. Ao abrir, a mágica constatação de que aquele respeitável homem de família era, por 50 anos a fio, um apreciador da erva proibida em total sigilo. Fumava o seu e estava sempre de bom humor. O sobrenome de um sujeito assim era caprichado pelo tal do destino: Valenti. Bravo, meu amigo! Descanse em paz, na de Jah de preferência. E que, onde esteja, não lhe falte brisa.
Peço desculpas a quem encontrar este trecho todo borrado de marrom. Açúcar, leite integral desidratado, farinha de trigo, massa e manteiga de cacau e mais etceteras, disso é formado o chocolate KitKat. Derrubei um tanto sobre a folha. São 3h54 da tarde, a temperatura é de -1.1°C e eu, além de frio, tenho fome. Acho que uma coisa leva à outra. Mas o que caiu sobre o papel não foi um pedaço da barra e sim uma generosa gota de saliva. Minha mandíbula sofre com o gelo do ambiente e, talvez por isso, não funciona muito bem. Babei feio, mas ninguém viu. Fica aqui o registro do ridículo. Outro dia o terapeuta perguntou do que eu tinha medo. Deve ter sido frustrante ouvir: sapo. Mas, por outro lado, ele não se frustra porque foi treinado para não reagir aos comentários que ouve. Será? Gatilhos.
Assim que meu trem chegar, pelo visto, não embarcarei. Tenho que terminar estas divagações. Não é porque é meio maluco que deve ser mal acabado. Depois deste exercício literário vou me alimentar e ir à academia a fim de praticar outros exercícios físicos. Puxar pesos me faz bem porque a pouca sensibilidade à dor tanto me favorece nos ganhos de massa muscular como me protege a mente de agressões. Não se ofender, eis um dos mantras mais trabalhosos a se lapidar. Um paralelo a não se doer. Os dodóis não vão dominar o mundo.
Neste exato minuto alguém se exalta, uma mentira é contada, um beijo se dá entre noivos, um avião sobrevoa a minha cabeça e nada disso me faz a menor importância. O terapeuta me perguntou porque minha noiva era dez anos mais nova. Respondi que isso se dava pelo fato dela ter nascido dez anos depois de mim, mas ele se incomodou. Eu achava tão matematicamente simples, ele achava que eu pecava por ser simplório demais na resposta. Acusar-me de simplicidade é algo que me ofende. Ih, lá vou eu. Que desordem, não durou nem um parágrafo. E olha que, na verdade, o que eu queria dizer a ele quando veio com essas de saber os porquês de eu ter escolhido a minha noiva, a vontade mesmo, era falar: a bunda dela era a mais bonita! Que filho da puta! – ele pensaria. Não diria, mas elucubraria.
Se eu contasse em casa que ando por aí enaltecendo a bunda que me pertence, diriam que eu sou louco. Imagina só, fazer propaganda da própria mulher? Eu gosto de mulher mais do que gosto de mentir. E olha que mentir dá um tesão. Se ele lesse essa carta, não se aguentaria: você sente excitação sexual ao mentir? Previsível. Gosto tanto de mulher que não falo sobre. Tenho um amigo que não consegue desenvolver meia hora de papo sem cair em nuances que descambam para sexualidade. Que porre. Que profundo e tenebroso porre. Convencido eu, não procuro convencer ninguém. Eis outro mantra.
Não desejo ter filhos, transmitir essa herança genética de contestação, imoralidade, absurdismo. Ao passo que seria tão gostoso ensinar sobre crítica reflexiva, não conformidade à moral da maioria, os mitos modernos e toda a posição filosófica da qual se pode provar vivendo e não falando. Certa vez, recebi cartinha de um meu sobrinho e nela se lia: tio, você é o melhor tio do mundo. Outros cinco sobrinhos e sobrinhas disseram a mesma coisa. Logo, eis aqui o melhor tio do mundo. Provem-me o contrário. Nunca pude retribuir o elogio. Imagina se a Anninha começasse a se gabar sobre o título de sobrinha do ano para o Lolô? Eu estaria em maus lençóis.
A diferença entre o imaterial e o material é imaterial, não é mesmo? A diferença entre Deus e eu é a que eu existo. Pronto, já me desdisse. Parece não ter fim, essa repetição. E tome metalinguagem. Há quem considere que ser contraditório é algo pejorativo, indecoroso ou comprometedor em relação ao próprio arquétipo. Pobres! Procuram coerência numa experiência de opiniões emitida por tal órgão cinza que habita um corpo vivente sobre uma rocha rodopiante que descreve trajetória, em torno do sol, em movimentos helicoidais por entre o vazio absoluto e incomensurável de uma dada matéria negra chamada de cosmos. Puta madre que los parió! Comecei falando sobre o Raul e eis que… olha o trem!

Pombal

Ai, ai, ai, ui, ui / Loira ou morena / Tremendo mulherão / Sorria, pois você está na televisão / Quem quer dinheiro?

Assim ele sabia que seu final de semana havia, oficialmente, chegado ao fim quando o Silvio Santos começava a cantar nas noites de domingo em pleno palco do Topa tudo por dinheiro, programa pitoresco de humor liderado por um judeu, ex-camelô e simpático apoiador da política de direita. A maior constatação da velhice enraizada na mente humana é quando ela – a humanidade – passa a calibrar os horários do dia, as tarefas cotidianas, com a programação da televisão. Certa vez, logo após buscar os pães quentinhos da primeira fornada matinal, topou com um velho conhecido na porta da padaria.

– Senhor Bonifácio, gostaria de convidá-lo para um recital de violão que será realizado na próxima sexta-feira.

– Onde tomará forma tal apresentação?

– O teatro municipal será a casa das cordas melodiosas.

– Qual o horário do evento?

– Às 20h, meu amigo.

– E dura quanto tempo?

– A seresta mais a devida confraternização no boteco do Valdir, que fica em frente ao teatro, deve roubar três horas noturnas do ilustre cavalheiro. O mestre cervejeiro agora anda servindo um tal bolinho de feijoada, recheado com couve, feijão preto e paio. Dizem que é de cair o queixo.

– Infelizmente devo informar que não comparecerei, pois não posso perder o comentário político do jornal das 21h e também já aguardo ansioso o Globo Repórter sobre as belezas do rio Nilo que dar-se-á no mesmo intervalo de tempo do concerto. Agradeço o convite, até logo.

Direto nas opiniões e conservacionista da arte de observação à distância, pela janela, Bonifácio adora ter sua opinião ouvida. A bem da justiça, a dependência da TV só se dá em período noturno. Durante o dia, toma seu café preto e sem açúcar e, acompanhado por livros, senta-se em frente ao buraco na parede que é preenchido por vidro. Do alto da soberba e do nono andar, pensa a esmo recolhido ao silêncio da incompatibilidade com o mundo. Em frente ao prédio onde mora há a igreja matriz da cidade onde, nas bordas da abóbada central, concentram-se uns tantos pombos que entre arrulhos e voos também copulam. Ainda que não seja esteticamente feio, o pombo é o animal símbolo da doença, da sujeira, da vida ingrata pelas ruas. O rato de asas, como se costuma referir ao ente aviário, é agraciado com exceção quando está em unidade solitária e sua cor é branca. A pomba da paz, do espírito santo, da graça. E é exatamente uma pomba sozinha, branca como leite, que criou a  mais inusitada relação homem-animal com o velho Boni. Observando-a ciscando por entre os vãos do telhado ecumênico, com aquele jogo de pescoço vai-e-volta típico, assistiu ao impossível. A pomba parou o que estava fazendo e o fitou diretamente, da distância abismal que os separavam. Alçou voo direto com poucas batidas de asas e pousou na janela que servia como vitrine do mundo. Bonifácio, encantado com a proximidade do animal e seu olhar inquisidor, inclinou-se na cadeira de balanço e sorriu para a ave. Com olhos vermelhos, a pomba girava a cabeça a fim de que os dois globos laterais pudessem analisar a figura idosa que se projetava com curiosidade frente ao animalzinho. Um vento revolto batia e levantava insistentemente as penas de sua cabeça conferindo-lhe uma tal aparência patética. A pomba então bicou três vezes a região do trinco que travava a abertura da janela.

– Ora, que bichinho mais esperto! – disse Bonifácio em voz alta do lado de dentro do apartamento.

– O que disse, Marinho? – indagou sua funcionária doméstica que o chamava pelo sobrenome.

– Nada, não é contigo, Railúcia. Fia-te às tuas obrigações. – disse um ríspido Boni que não é dos mais afáveis patrões e, sabe-se lá o porquê, expressa-se quase sempre na segunda pessoa do singular.

A pomba então voltou a bater o bico outras três vezes contra o vidro e a girar a cabeça em sinal de ansiedade. O velho puxou a cadeira para mais perto da janela e, puxando uma trava, permitiu que o fluxo de ar entrasse sala adentro. Com um salto simples, a ave se assentou na borda da basculante. Bonifácio estava maravilhado com aquele encontro, tão inusitado quanto pouco crível. Empolgado, exclamou em voz alta:

– Tu estás com fome ou sede, ó amiguinha? Vou buscar algumas sementes e água!

Ao insinuar o movimento de pernas e braços para se erguer da poltrona de balanço, eis que a parte fantástica da história entrou em cena. Com uma voz aveludada e do gênero feminino, com dicção pausada e clara, a pomba se apresentou:

– Meu bom senhor, fique bem aí onde está. Meu nome é Clarice e eu não tenho fome, senão a por conhecimento. Já fui planta e já fui gente, essa gente comum do dia-a-dia, já fui felina e até mesmo uma nuvem, veja só! Certa vez tomei a forma de pernilongo e percebi que chupar o sangue de humanos não era tão distinto de lhes trair a confiança sendo eu outra humana. Ao tentar puxar papo na forma do mosquito indesejado, não percebi que minha voz saía muito baixinha e que o que chegava aos ouvidos dos homens era apenas o zumbido irritante que caracteriza a classe. Acabei em um tapa violento, esmagada entre as palmas gigantescas de um Zé qualquer. Tenho apetite pela conversa boa e franca, ademais não poderia me alimentar das sementes suas pois sou ave ralé, daquelas que ciscam o resto do resto, que resta de um todo. Diga-me, o senhor não se cansa?

O pobre Bonifácio beirava o colapso nervoso ao presenciar um animal que falava, articulava com maestria e ainda indagava com petulância.

– Meu Deus, o que é isso? Estaria eu sob efeitos alucinógenos? Uma pomba que fala! Como és tão bonita, lustrosas as tuas penas e tua voz tão agradável! Sou Bonifácio Marinho, teu criado. Agora, confuso me encontro com tal pergunta. Cansado de quê?

– Ora, meu bom homem, cansado de tanto olhar, olhar, olhar e não interagir. Há semanas que perambulo pelas redondezas e o vejo sempre aí, na distância do olhar comedido que muito vê, porém pouco compartilha. Creio que há muito o que sair destas cordas vocais suas. Já sente o peso da idade? Encontra-se cansado daquilo que é humano, demasiado humano? Permita-me, preciso conhecê-lo melhor, aquele é um Picasso?

A safada da pomba reconhecera um quadro pendurado às costas do sexagenário.

– Sim, é um Picasso. Mas é uma cópia, não posso arcar com os custos de um original. Que coincidência feliz, uma criança acolhendo uma pomba!

– Que diferença faz o original? Este lar não é um museu, pouco importa outra coisa senão a imagem em si. Quanta ternura. Sim, mas retomando, quais são as suas queixas?

– Ora, minha amiga, sou um homem que muito já viveu. Alegrias, desilusões, ilusões  de esperança. No meu tempo que era bom, nós conversávamos com propriedade sobre assuntos diversos e a cordialidade ditava a melodia do diálogo. No meu tempo tudo  aquilo que fosse chulo era rejeitado, no meu tempo…-  os tempos agora são outros e eu prefiro me recolher ao seguro refúgio da minha própria sala de estar.

– É por isso que tem preferido assistir ao Silvio Santos a encontrar com os seus?

– E como sabes disso, ó pombinha enxerida?

– Ora, tenho asas e posso voar aonde bem entender, pois por vontades sou guiada. Às vezes encontro-me quieta a observar e a escutar, sobre as cabeças daqueles que só tendem a olhar para o chão. Estando no alto, posso olhar ainda mais para cima, com os ouvidos porém atentos a tudo o que vem de abaixo.

– O que queres dizer?

– Você precisa subir, Boni! Ou talvez navegar, fazendo jus ao sobrenome. Diga-me, já não é hora de deixar a cadeira e passar a, então, balançar o mundo?

Ao melhor estilo mestra dos magos, tão logo pronunciou a frase enigmática abriu as asas e despencou ao sabor da gravidade. O velho deu um salto e acompanhou a queda livre da ave por alguns andares até que, em vigorosas agitações aladas, ela recuperasse o controle do plano de voo. Sumiu em curvas por entre os prédios da vizinhança. Bonifácio ficou entusiasmado com a intervenção sofrida naquela manhã fatídica e decidiu reunir os amigos no mesmo boteco do Valdir rejeitado previamente. Lá se encontraram, conversaram e, claro, degustaram os bolinhos de feijoada, uma iguaria que correspondia à expectativa. Os convivas, que já desde há muito só encontravam Bonifácio ao acaso da fila do pão ou da lotérica quando iam pagar contas, perceberam no companheiro um homem alterado como em um passe de mágica. Falante, com a voz impostada e desejoso por debates clássicos de mesa de bar. Argüiram sobre política, religião, futebol, tudo aquilo que a cartilha de bons modos reza por não se discutir. Sobre damas formosas e os efeitos entorpecentes de seus atributos físicos, comuns em outrora, também relembraram. As garrafas de cerveja secavam, vinham outras e mais amendoim, bolinhos de bacalhau, guardanapos baratos que desmanchavam ao contato com a gordura sobressalente. Ao se despedir, recebeu afetuosos abraços e a alegria geral era tanta que não o deixaram sequer pagar a conta. Havia reconquistado a plena admiração do grupo. Voltou para casa sorridente e ansioso. Gostaria de conversar mais com Clarice. Deitou-se e deixou as janelas abertas. Pelo corredor de vento entravam também os sons da rua e os arrulhos noturnos dos ninhos urbanos das centenas de pombos que habitavam a região. Na manhã seguinte, enquanto se servia de café fresco, escutou a batida tri-executada a quebrar a monotonia da alvorada. Tec-tec-tec…

– Bom dia, Clarice! Que felicidade em rever-te, ó voz das boas novas! O que trazes hoje em teu seio da sabedoria?

– Você não perdeu tempo, hein!? Diga-me, o que estava mais gostoso, os petiscos ou o banquete de idéias?

– Ora, os acepipes estavam perfeitos, por mais simples que fossem. Mas, admito, relacionar-me com os amigos e misturar as opiniões foi fantástico. Ontem, é bom que eu diga, deixei de assistir a toda a faixa noturna da programação televisiva para confraternizar. Nem de longe me arrependo, pelo contrário, sinto-me mais jovem até! Claro que alguns alimentam achismos e considerações supérfluas sobre as coisas e..

– Deixe disso, homem! O que é dialogar se não suportar e ser suportado? – interveio uma pomba eloquente.

– Tens razão.

– Quem sabe agora tome coragem para aquilo que já é hora de acontecer.

– E a que te referes? A metafísica? Os diálogos com Deus e o significado da vida? Devemos discorrer sobre a grande saúde a qual o homem almeja?

– Rai.

– Rai? Engoliste uma sílaba, ó passarinha? Raios de sol?

– Sim, engoli. Railúcia, seu grande amor.

Aquela frase aterrorizou o velho Boni, que num tropeço derramou o café sobre as coxas.

– Qual absurdo proferes! De onde tiraste tal sandice?

– Sandice é desejar uma mulher tão bonita e dedicada como a Rai e não ter a coragem de se declarar, pela simples relação hierárquica patrão-empregada. O amor tem razões que a própria razão desconhece, meu bom homem. Dispense esse trololó e case-se enquanto há tempo. E o tempo urge, enquanto o leão, ainda, ruge! – decretou, simbolicamente, ao se auto-defenestrar.

– Railúcia! Venha já aqui! – gritou um Bonifácio espavorido.

– Sim, meu patrão, o que houve?

– Andaste a falar coisas por aí? Tens algo a me dizer?

– Não compreendo, Marinho. Sobre o que, meu senhor, sobre o que especificamente se refere com essa pergunta?

– Deixa para lá, acho que estou meio maluco. Queres casar comigo? – propôs um absolutamente nada romântico Bonifácio Marinho com a voz embargada.

– Oxalá, meu pai! Tenha pena de nós, tenha dó! Quero sim!

À parte a exaltação afro-religiosa, Boni considerava-se pleno. Pudera! Em dois dias estavam no cartório de registro civil para oficializar a união. Marido e mulher, rumaram ao apartamento para uma recepção modesta com os mais chegados. Na hora de cortar o bolo, Clarice voou pelo recinto e pousou no ombro esquerdo do noivo. Os convidados se derreteram com a imagem dos pombinhos agraciados pela pomba branca da santa Trindade. A foto ficou uma beleza. Clarice cochichou em seu ouvido:

– Meio maluco você é, não acha? Dando corda a uma pomba! – e se foi voando janela afora.

Boni celebrou com entusiasmo. No dia seguinte, deu falta da visita de sua amiga. Lamentou por toda a manhã a ausência de fiel confidente. Estava doido para contar sobre a noite nupcial e sua performance inacreditavelmente soberana sob os lençóis. Sua agora esposa Railúcia Marinho sorria à toa. Disse que tinha uma surpresa para o almoço. Serviu os pratos e pôs à mesa um assado.

– O que é que preparaste para nós neste dia primeiro do resto de nossas vidas, meu benzinho?

– Pomba, meu amor! De um criador que conheço. Há de adorar o sabor e a maciez de sua carne tenra.

Bonifácio bem que tentou mas não pôde evitar a dúvida. Seria, por vias da mais selvagem coincidência do mundo, ser aquela pomba a sua querida amiguinha? Sua sábia conselheira havia se tornado a sua refeição? Depois de alimentar-se da fonte abundante de perspicácia, haveria de ingerir também sua matéria? Seria tudo aquilo um sonho? Estaria ele variando das bolas, coisa de velho? Olhou insistentemente para a janela na esperança que Clarice surgisse a cutucar o vidro com o bico afiado. Nada. Sorriu com lábios desesperados para sua esposa que, sem perceber nada, ainda apresentou mais um complemento para o prato:

– E essa é a cabidela, um molho feito com o sangue da pomba, uma iguaria!

A essa altura do campeonato Boni suava frio, tentando disfarçar a reação e não deixar com que sua amada percebesse o nervosismo. Como Jesus Cristo, comeria sua carne e beberia seu sangue, como que em ato memorial? As cortinas todas do apartamento estavam abertas e ele percebia, paranóia ou não, uma revoada de pombos. Estariam todos possuídos por um espírito vingativo? Railúcia saboreava e expressava o prazer a cada garfada:

– Mmmmm que delícia! Não tem fome alguma, meu bem?

– Ainda estou nutrido do amor que me serviste sobre o leito, ó rainha de fogo.

– Ah, como você é perfeito!

A recém casada dona de casa devorava as asas e o peito branco da pomba enquanto balançava a cabeça. Na vitrola tocava um disco de Frank Sinatra e na ponta da mesa continuava o senhor Bonifácio a resistir ao primeiro toque no prato que fora servido. Bastava que uma pomba branca pousasse em sua janela e o alívio seria imediato. Mas ele não poderia começar, a pomba continuava sumida.