Polegadas

Maria foi uma boa esposa durante uma das quatro estações do ano. Casou-se com Alfredo apesar do nome em desuso. Ela imaginava como foi a adolescência de um garoto chamado Alfredo e ele elucubrava como teria sido a infância dela sem pai. Cada um nos seus pensamentos particulares, porque eram ofensivos demais para servir à mesa. Maria não andava bem e esquecia a tampa do vaso levantada. Maria dormia com a boca aberta e roncava, mas Alfredo achava aquilo fofo. Fofo, mas insuportável, por isso ele a cutucava com o cotovelo. Casaram-se no outono, quando as folhas caíam. O caminho era poético, na antessala do renascer florido. No inverno, Maria não aguentava. Suspeitava do marido e roía as unhas que já eram curtas. Feria as cutículas e então tomava vinho. Alfredo a encontrava bêbada, desacordada, reclamando do vizinho. Ela sequer conhecia o vizinho. Moravam distante da família e não havia corrida para colo nenhum que resolvesse. Eram os dois, um para o outro, não importa o que acontecesse. Alfredo a amava e o amor é aquilo que o aquecedor faz nas noites mais frias, mesmo que o motor, toda a engenhoca que faz a coisa ficar quente, permaneça no lado de fora da casa sob um rigoroso frio. Maria era doce, uma menina, tinha os pezinhos tortos e os dedos compridos. Nasceu para ser menino, mas Deus quis diferente. Ainda bem, porque Maria era linda com cabelos que pareciam fios de linho. Alfredo se sentia completo, mesmo com as neuroses de Maria. Neuroses são essenciais ao negócio humano, dizem os psicanalistas. Opiniões, como cachos de banana, crescendo a torto e a direito como se o mundo fosse adubado por inteiro. Maria passou a suspeitar que Alfredo estava tendo um caso com alguém do escritório. Ele era funcionário público, batedor de carimbo, um daqueles de futuro, mas com todo o tédio do mundo. Saía cedo e levava a comidinha que seu amor preparava, mas então, com o diabo a lhe sussurrar diabruras, Maria parou. Simplesmente parou e escolheu a TV. O marido notou e reclamou, mas Maria alegou tontura. Disse que o alho queimava as mãos, que não suportava mais o cheiro de fritura. Alfredo, resignado, saía de mãos vazias. Trabalhava feito um condenado para que o dinheiro rendesse uma casa própria. Maria assistia ao televisor com a mente suspensa. A televisão não exige pré-requisitos, não exige sequer inteligência, a televisão só necessita ser ligada e Maria sabia bem apertar o botão vermelho. Maria poderia trabalhar em uma usina nuclear para deflagrar o alarme de desastre. Oh, Maria. Em uma manhã, ela acordou e se sentou em frente ao aparelho. Desligado, era como um negro espelho. Assistia a uma programação idiota, típica de geração vazia. Assustou-se com o estampido de uma música trágica que comunicava o impossível. “Interrompemos a programação para um anúncio especial” disse o âncora. “Devido a forte nevasca, os bombeiros têm dificuldade em acessar o prédio central da administração pública onde um incêndio sem precedentes derrete as colunas seculares”. O mundo de Maria naufragava, mas havia um âncora. Ela levantou e, nervosa, só pensava em fogo, no Alfredo, nos cigarros que ela tanto gostava. Maria subiu as escadas e bateu na porta do quarto onde o marido dormia. Ele caíra doente e dormia em um quarto separado para poupar a esposa da tosse renitente. Bateu com o polegar, como se surrasse um pandeiro. Maria não batia bem. Não houve resposta. Desceu as escadas e grudou no telefone. Ligava insistentemente para o escritório onde o marido trabalhava. Ninguém atendia, deviam estar todos mortos com a fumaça, ou pior, queimados. Maria enfiava os dedos nos cabelos e não sabia o que fazer. Conferiu a garagem e se espantou, pois o carro dele continuava lá. Tornou a subir as escadas, a bater com o polegar direito na porta branca e a chamar por Alfredo, Alfredo. Oh, a constatação! Se Alfredo não estava ali nem no serviço, só poderia estar com a amante. Nem a

neve poderia esfriar sua espinha mais que aquele pensamento. Maria entreteve a ideia e não viu saída. Fugiu de casa, usando o carro do marido. Maria aprendera a dirigir recentemente, mas a ira a guiava. Foi a um bar e pediu bebida. Serviram. Bufava e tremia. Não demorou até que um sujeito se aproximasse e procurasse ouvi-la. Existem mais homens bondosos, nessas horas, do que há certezas nesta vida. Maria vomitava o carrossel de mágoas e o cara, com a cabeça, assentia. Maria não parava, falava mais do que devia. Aos poucos, mesmo o sujeito da malícia, o garçom e os outros homens que ali bebiam se afastaram. Mas era um bar velho, sujo, daqueles que têm buracos na parede. E em um desses buracos tinha quem a ouvia. Uma barata e um rato, imóveis como se paralisados pela estricnina. Maria notou e não se intimidou, discursou para a baixa prole dos seus desejos de patifaria. Bebeu e praguejou e se levantou bastante zonza. Ninguém ajudou, eles queriam que ela se fosse. Maria entrou no carro e deu a partida, mas não conseguia ver. Havia neve sobre o pára-brisa e ela então ativou o limpador. Aguardou que a brancura se dissipasse e julgou, a inocente, que via plenamente com capacidade de uma águia careca. O carro patinou no gelo liso mas Maria, embriagada, julgou que tudo ocorria bem, da mesma forma que saiu de casa. O automóvel replicava as pernas da esposa desastrada. Na casa, enquanto isso, Alfredo destrancou a porta e pisou na sala. Não havia barulho, não havia nada. Apenas a TV ligada e um noticiário mudo. Ele mirou o quintal branco e a beleza da invernada. Torceu para ver uma raposa, um veado, um feixe de Sol naquela manhã castigada. Fez café e deu falta de Maria, mas pensou que a amada estivesse no quarto lendo ou coisa que o valha. Alfredo, segurando uma caneca azul, sentou-se no sofá e aumentou o volume do televisor que mostrava imagens de um fogo imenso, mas que não conseguia distinguir onde se passava. Foi interrompido por um anúncio urgente dentro da programação urgente que retratava uma outra emergência. “Interrompemos a programação especial para outro anúncio especial”. Alfredo recostou-se para acompanhar. “Uma caminhonete, placa RDC-8240, chocou-se contra o prédio em chamas da administração pública. Os bombeiros informam que não há sobreviventes, embora não tenham certeza de quantas pessoas estavam no automóvel”. O prédio era onde ele trabalhava. A placa era a do carro dele. Aflito, Alfredo levantou-se num salto e derramou café quente. Ele pensava sobre aquilo e não sabia o que fazer. Ele queria saber se alguém estava no carro com Maria. Alfredo estremeceu. Polegadas de neve impediam a saída e ele arrefeceu. Aquele era um sábado, ele não entendia como o incêndio começou, por que tudo acabou em fogo e por que ela o trairia.

Piedade de nós, desatados

O leite materno é uma das maravilhas da existência terrena e existe íntima relação entre o bom andamento da vida de uma pessoa e seu tempo de amamentação na primeira infância. Somos mamíferos por definição e, como tais, dominamos o planeta. Sugar da fonte de nutrição que nos é ofertada cria raízes imunológicas inabaláveis. Mamar nos liga ao ser que gerou e nos trouxe à luz da realidade. Mamei até os dois anos e dois meses, exatidão atestada por uma mãe orgulhosa - e cansada. Tentou de tudo, a coitada, para me fazer desapegar do peito. Babosa, adesivos de silicone, viagens sem despedida. Ao regressar de uma quinzena de dias, na distância dos confins da esquina leste do país, ouviu a demanda do pequeno rebento tão logo a porta se abriu: "quero mamar!". Mamar fortalece os ossos.
Escrevo com dificuldade, colidindo os dedos repetidamente contra o teclado. Não há o glamour de dizer que sento em frente à máquina de escrever como os escritores de antigamente mas, por outro lado, há a conveniência de poder registrar pensamentos em qualquer lugar e a qualquer momento. Meu bloco de notas cabe no bolso e não precisa de caneta, porém a duração da bateria é sempre um empecilho. Faz frio na manhã de hoje, tais quais em todas desde que cheguei a esta casa. O ar gelado é o mesmo da fatídica noite quando sofri o acidente, mas a companhia já não é a mesma. Naquela noite eu pensava ter alguém e hoje, sentado em um sofá de veludo, tenho a certeza da solidão. Escutei coiotes na noite de ontem e também uma coruja. A sinfonia da noite escura com seus animais sagazes lembra o comportamento das pessoas que agem na surdina. Continuo com a geladeira cheia, com as cervejas sobrando e o vinho, solícito, aguardando a vez de ser tomado. Santo remédio, o suco fermentado das uvas.
Eu fazia bico de segurança em um bar e as coisas eram para ser como sempre eram, artificiais e simples e tranquilas e nojentas, sim, porque limpar banheiro de festa após 200 jovens mijarem até no teto é aborrecedor. Eles e elas vomitam, cagam na borda do vaso, cheiram pó, levam garrafas clandestinas de bebida e as deixam vazias por todos os lados. As mais assanhadas apertavam minha bunda e eu olhava para trás para encontrar um mar de mocinhas loiras, esbeltas, com olhos azuis e sorrisos de simpatia. Elas queriam fazer amizade e davam o primeiro passo tocando os meus glúteos. Eu queria que elas fossem embora o quanto antes, eu pudesse pegar o meu cheque e voltar para o universo pragmático de trabalhar, comer, dormir e repetir o mesmo dia uma centena de vezes. Fazia cara de mal para que me respeitassem e isso sempre funcionou. Além do que, solteiro eu não era. Ponto para os registros biográficos do bom cidadão. Até que surgiu um tal filho pródigo de um pai rico, branco como deve ser todo rebelde sem causa. Bigode de motoqueiro enrustido e atitude de quem cresceu com o sucrilhos sempre à mesa. Alcoolizado, o rapaz foi escoltado por mim para fora do bar mas, durante o trajeto, agitando os braços de atleta amador, golpeou-me e, assim, perdi a consciência. Uma tragédia, se não de fato, mas pessoal. Fui alvejado e caíram sobre mim as desgraças. Dali direto para o hospital.
Aguardava a minha vez, a vez da entrevista de acolhimento. Da recepção para a triagem. No salão imperava a quietude mórbida do ambiente gélido onde a morte ronda arrastando seus grilhões. Falávamos inglês, mas um pequeno folheto garantia o direito de solicitar um intérprete para qualquer língua. Eu só falava merda naquela noite e duvido que alguém fosse fluente por ali.
- Nome completo?
- Aquiles Guedes Rapassi.

Ela era simpática, magra como a Olivia Palito do Popeye.

- Data de nascimento?
- 05/08/1986.
- Oito de maio de 86?
- Oh, não, me desculpe, Angélica. Esqueci que estou nos Estados Unidos. 08/05/1986. Sou de agosto, mês do cachorro louco.
- Cachorro louco? O senhor está bem?
- Deixa pra lá, acho que vocês não tem esse ditado por aqui.

Muita coisa ela não entenderia, mas o que é que me restava? Fazer cara de coitado para alguém que lida com coitados durante turnos de 24 horas?

- Fumante?
- Não. Digo, fumante do quê?
- O senhor fuma cigarro?
- Oh, não, Deus me livre.
- Álcool?
- Sim, por favor.

Ela riu. Ela aceitou minhas gracinhas. Em situação de miséria, o que se quer além de misericórdia?

- Sim, senhora. Bebo às vezes - eu disse.
- Peso e altura?
- 89 quilos, 1,90m de dia, 1,88m à noite exceto na balada. Nas festas eu tenho 2 metros de altura. Você sabe, a gente diminui durante o dia, mas cresce quando é preciso.
- Certo. Sofre algum tipo de violência em casa?
- Minha esposa às vezes não me espera com o jantar pronto.

Ela riu de novo. Eu estava desesperado. Mal sabia eu que era sequer a primeira onda que me atingiria. Aquilo era uma simples marola. Sentia que descontrair com a enfermeira era a melhor saída. O cérebro humano se apega à chance de distração em face do sofrimento. Eu faço parte da regra. As enfermeiras, tais quais as aeromoças e strippers, compõem o grupo de profissões que todo homem julga ter chance de conseguir uma tal conquista relâmpago. Acontece mais frequentemente com as dançarinas. Poucos homens têm sucesso na empreitada.
Tomou a temperatura, a pressão arterial, anotou a frequência cardíaca e me mandou de volta à sala de espera. Apesar do galo enorme que surgiu no topo do crânio, a cabeça não doía. A nuca não doía. Nada doía, exceto as mãos. Meu instinto sabia o diagnóstico, mas a visita ao médico era obrigatória. Estava ali pelo respeito aos protocolos. Bem, não é assim tão simples. Quando a água bate na bunda, você pensa na família, nos parentes, naqueles que podem vir a sofrer com seus problemas. Você toma decisões baseadas em terceiros, tipo quando, mesmo a donzela dizendo que não está com fome, você compra mais comida porque sabe que ela vai sim querer.
Os sinais aferentes viajavam de neurônio em neurônio, via sinapses, e informavam meu cérebro que algo mais grave tinha ocorrido. Um formigamento interminável castigava os dedos e a pele passara a um estado hiper sensível. Tentei lavar a mão antes de vir ao hospital. A água fria da torneira queimava como ácido. Oh, céus, incendiava. Doía como dói a noção de que aqueles que amamos tramam contra a gente em plena madrugada. Enquanto o médico não me chamava, fiquei à deriva no salão oval, com pessoas que tossem, pessoas que gemem e pessoas que dormem. Um casal chegou e comunicou que fala apenas a língua espanhola. Ela está grávida e a barriga pende quase tocando o chão. O marido carrega a bolsa da maternidade preparada para o grande momento. Ambos não sorriem. Presságio?
Refaço as cenas que estão na memória. O instante em que senti o choque elétrico e a queda no solo. As pernas bambas, a incapacidade de me levantar. Nocauteado pelas costas, deficiente temporário. A humilhação de não conseguir me pôr em pé incomoda-me para sempre. Pobre desgraçado. A vista embaralhada. Enfim, consegui. Seguraram o agressor e a polícia veio. O filhinho quis colocar a polícia em contato com o papai. Eu assistia toda aquela cena desprezível com uma certa confusão mental. A pancada reiniciou meu cérebro e eu pude sentir isso. Ali estavam dois policiais a cercar o agressor, um moleque grande com queixo de três pessoas adultas somadas. Bêbado como elefantes da África, tentava se levantar e era posto sentado à força pelos homens da lei. Era apenas outro sujeito mimado, com bigode ilusório de uma maturidade inexistente. Ordinário, um bezerro que clamava pelo rebanho. Se ele merecia um corretivo, seria da parte do destino, porque algo de incomum tomava-me a consciência. A paz, a paz incomum que despontou no peito. Não me irritei, não senti o sangue ferver. Eu pensava em quebrar seu joelho direito com um pisão frontal, mas por defesa própria. Na verdade, só queria voltar para casa, deitar no sofá reclinável com um balde de frango frito e um refrigerante à mão. Eu queria ver filmes e tergiversar sobre a vida e os planos futuros, queria uma companhia leal naquele e em todos momentos. O que eu tinha eram tremores e desconfiança.

O médico chamou, mas a enfermeira não me deixou andar. Empurrou a minha carcaça em uma confortável cadeira de rodas. Oficialmente um inválido, ainda que momentaneamente, mas vergonhosamente subjugado. Doutor Cooper, nome de médico de seriado. Plantão médico. Gostei, me inspirou a contar a história. Dá charme ao texto. Doc Cooper, gente fina, andava com seu jaleco branco e um estetoscópio pendurado no pescoço. Gravata listrada, azul e vermelha. Um patriota, herói, com certeza tinha história para contar, algo do tipo ele ter salvado um batalhão inteiro na guerra com simples infusões de soro caseiro usando um canudo e bexigas de festa. Doc Cooper, cabelo alinhado com pomada de efeito matte e bebedor de chá ao invés de café. Eu conseguia sentir, era um homem de classe. Eu queria ser seu amigo porque, é claro, eu seria a maçã podre para desvirtuar. Se fôssemos camaradas ele deixaria de visitar a igreja batista nos domingos pela manhã.

Pediu exames, lamentou a situação e comunicou sua solidariedade. Ouviu meus palpites e achou plausível. Os resultados vieram e eu estava certo. Impacto no topo da cabeça, efeito chicote da musculatura que protege as vértebras cervicais e uma compressão anormal que leva ao pinçamento das raízes nervosas que irrigam os membros superiores. Por isso as dores, por isso a sensibilidade. Diagnóstico tranquilo. Edema esperado. Sem fraturas, nada de grave. Mas, com toda sua habilidade e sapiência, o Doc Cooper não poderia explicar minha calma. Aliás, desde o primeiro momento, todos os envolvidos elogiavam exaustivamente minha tranquilidade, como conduzi a situação. Tocavam a cabeça do leão e diziam "bom menino, bom menino". Insólito pássaro de asas cortadas.
O diabo em meu ombro direito assopra ideias de vingança, de ódio, de forma que eu possa encontrar fomentar a ira. O diabo do outro ombro enaltece o respeito à lei por não me rebaixar ao nível do agressor. São dois diabos, afinal. O que é que eu quero com isso? Já me basto a mim mesmo.

Agora tenho uma lista extensa de remédios para tomar, inclusive opióides. Continuo dócil e devo intensificar a doçura com as drogas prescritas. Concussão não é motivo para ficar em casa e o doutor Cooper me deu apenas um dia de licença médica, que piada. Não me vem nenhum lampejo negativo. O que é que há? Perdi o jeito?
Só me resta não deixar a mente vazia. A sensação de impotência bate à porta do raciocínio. Mais violência? Mais? Um ciclo infinito de guerra? E continuo sem vontade de me alterar. A porção anticristã que habita meu ser provoca com acidez:
- Levou porrada e ainda deu a outra face? Quer ser canonizado?
Um processo interno de julgamento e contestação quer se prolongar dentro da psique. Mas essa cabeça não é a oficina de nenhum capeta. Engulo as hidrocodonas e o remédio bate rápido. Que coisa maravilhosa, que leveza, que alívio. Em relação à dor que sinto nas mãos a droga tem pouco efeito, mas a chapação que causa é de se considerar. Já não me importa que perderei dias de trabalho, que mal consigo tomar banho ou limpar a própria bunda. Tenho ópio para compensar a falta de ódio. É isso aí. Leva oito horas pro efeito chegar ao fim. O corpo acostuma fácil. Que decepção. Fazia 13 graus naquele 13 de novembro. Não recebi cuidados, ninguém cozinhou uma canja e desejou melhoras. Eu me tornara, oficialmente, um ser abandonado. Os dedos continuavam a arder e me faziam ver estrelas.
Dois meses depois, tudo está de volta. As dores, o desânimo mas, acima de tudo, a indiferença alheia. Foi tudo em vão. Gostaria de ir ao hospital só para brincar com a enfermeira e fazê-la rir. Nenhuma indenização foi paga, ninguém se importou. Ainda bem que eu mamei muito e os ossos cresceram sadios, duros, grossos, a ponto de resistir às agressões. Quem dera o coração fosse nutrido pelo leite materno!

Nos ouvidos, a água causa dor

– Vai se matar?

– Tenho pai e mãe ainda vivos.

– Não foi essa a pergunta.

– Estudei o Mito de Sísifo.

– Pode ser mais claro?

– Sou obrigado.

– A me explicar o que quer dizer?

– A dizer que o melhor cookie do mundo é vegano, você acredita?

– O que isso tem a ver com a minha pergunta inicial?

– Hoje é dia noturno, não há sol que possa iluminar.

– Qual dor é essa?

– Daquelas que ardem sem se ver.

– Isso é Camões?

– Sim. E não haverá mais piadas com mamão.

– O que está acontecendo?

– Não adianta tentar explicar, Inês é morta. E isso também está em Camões. E, sabe, Camões está em nós.

– O que você tira disso tudo?

– Eu posso ouvir. Há o tique-taque incessante, mas não há relógio em vista. Só há o som, o inexorável. Galopa o cavalo do apocalipse sem sinal de cansaço. É o destino do universo a contração, a expansão, a criação e a destruição. Não há o que não acabe e não existe o que não estrague. Bom, menos o mel. A doçura única da natureza que não tem data de validade desde que não seja contaminado. Que coisa essa. É por isso que é tão sério escolher honey para chamar alguém de sua estima. Não usar o substantivo em vão, um dos mandamentos.

– Como você está se sentindo?

– Com vontade.

– De quê?

– De acabar com tudo, por um fim em tudo, deixar de ser tudo.

– Está bastante confuso.

– Basta bloquear ou ignorar. As similaridades com seus monstros são o que mais lhe compromete a convicção. Atacar é verbalizar as semelhanças. Tempos líquidos, amores líquidos.

– Supere!

– Mais alguma ordem ou sugestão?

– Não, só a mesma indagação. Você vai se matar?

– E o que resta para matar que já não esteja sem vida? Carne fria, decomposta, mente de lembranças pálidas. Se o coração bate é por involuntariedade. Os pés doem porque tem de suportar o peso. Olhos veem e enxergam, mãos procuram mas não encontram.

– Então, o quê?

– Citar Manuel Bandeira.

– Dizendo?

– A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Vista cansada

– 13 dólares e 85 centavos.

– Também um maço de Camel azul, por favor – eu disse.

– 19,05 o total.

Entreguei uma nota de 20.

– Fique com o troco e tenha um bom dia – disse ao sorrir, levantar a aba do meu chapéu e pegar a sacola com um burrito de carne, água com vitaminas e, é claro, o maço de cigarros.

Ela sorriu e olhou para baixo. Ela gosta de mim, só que ela tem 16 anos. Míseros dezesseis. Eu perguntei, seu nome é Hannah inclusive. Só uso o chapéu para ir à loja de conveniência e criar a imagem do cowboy fodão, coisa que eu não sou. Nem quero conquistar a Hannah, afinal ela é menor de idade e esse tipo de transgressão é nojenta. Mas, por que não deixar ela toda feliz por atender um destemido domador de cavalos? Coisa que eu não sou, mas ela pode imaginar à vontade. Camisa xadrez, botas, óculos escuros, jeans apertados e o bendito maço de cigarro sob a sombra de um chapéu de respeito. Cara, ela deve falar de mim para as amigas e imaginar que eu sou proprietário de terras e muito gado. Ela deve achar que eu fumo admirando as pradarias povoadas por equinos galopantes. Bem o cara do Marlboro.

Nem fumar eu fumo. Já são 12 maços acomodados no porta-luvas do carro desde que eu a conheci. E eu estaciono na parte de trás da loja. Se ela vir meu carro de duas portas ela desaba. Melhor manter a lenda viva.

Sou um cara normal. E, dada a normalidade, o barato é inventar meu mundo mágico sem fazer mal nenhum a ninguém.

Fui almoçar e pedi a carne do hambúrguer bem passada. Ela veio exatamente como pedi. Alface, tomate, cebola, picles, queijo cheddar. Uma crosta negra na superfície da proteína. Que coisa linda. Nada a acrescentar, não saiu nada errado. Eu às vezes queria ter o que contar como o meu irmão tem, uma linha do tempo fantástica onde tudo dá errado, daí volta a dar certo, aí então algo inesperado acontece mas ele maneja, o céu desaba em trovoadas, ele constrói uma canoa com uma lata de lixo enferrujada e põe o mundo todo em segurança. Nananina, comigo é tudo na manteiga. O café da manhã nunca sai do controle. Mamão, ovos, abacate e leite. Religiosamente. Outro dia fui visitar um amigo em um estado distante. Cheguei em cima da hora no aeroporto. O avião estava lá e a atendente foi graciosa. Embarquei. Minha bagagem nunca foi extraviada. Chega a incomodar.

Tá aí, sou um frustrado de frustração.

Sábado de manhã é dia de caminhar no parque com meu cachorro. Preparei a sacola para recolher suas necessidades, a garrafa d’água e a coleira. Ele saltou sobre o banco do passageiro e partimos. Parei para comprar chicletes com a Hannah. Ted, o cão, entrou comigo. Ela sorriu com um sorriso nervoso. Até que enfim algo saía do normal. Uma gota de suor escorria pelo flanco esquerdo do seu rosto pueril. O ar condicionado da loja era inacreditável de frio. O que fazia ela estar assim? Não fazia a menor ideia e ela não deu a mínima para o Ted. Estranho. Paguei e me virei. Virei de novo e voltei ao caixa. Foi quando vi o cano da arma. Por debaixo da máquina registradora alguém mantinha a pobre garota refém. Oh, cara, sejamos francos. Ovos, waffles, sol e borboletas são coisas que você espera de um sábado de manhã. Armas e crime não.

– E aí baby, como vai seu dia? – perguntei

– Ahn, normal eu acho…

– Seus olhos e seus olhares… você está com conjuntivite?

– Como assim? – ela se espantou.

Caceta. Foi o que me veio à cabeça. Eu sei lá por quê. Só queria manter a presença e salvar a minha amiga.

– Parecem meio avermelhados, você está doente? Sabe, não deve trabalhar nessas circunstâncias pois pode contaminar outras pessoas.

– Não, não, meus olhos estão perfeitos. Não se preocupe, obrigada.

– Você tem certeza? Parece meio cansada, com olheiras.

– É que a vida de uma adolescente que estuda e trabalha não é das mais fáceis. A escola dá um milhão de trabalhos para fazermos e sempre me falta tempo.

Debrucei-me sobre o balcão com os cotovelos. Agora era questão de honra salvar aquela pobre alma. Ted não deu um pio. Claro, ele não era um galo e sim um cachorro. Ted não latiu nem manifestou perceber que havia um ladrão por ali. Ted é um chihuahua, não vá se enganando que eu tenho um pitbull marrom de pelo lustroso e músculos avantajados. Um pequeno cãozinho que ganhei da tia Arminda, doce e frágil sim, mas uma besta apocalíptica quando se enfeza. Acontece que Ted não é um cão de guarda, não dá para colocar todo esse fardo nas costas dele. Até porque, coitado, com essas costinhas minúsculas…

– Você deveria tirar uma folga, baby. Será que essa virose que tem pegado todo mundo não te pegou também?

– Não, vai por mim, está tudo bem. Estou saudável.

– É que essas olheiras…

– Escuta, você já falou três vezes das minhas olheiras. Eu durmo tarde e acordo cedo e não tenho tempo para maquiagem, okay? Só porque eu sou mulher não sou obrigada a estar sempre linda não, meu caro – militou.

– Perdoe a minha indiscrição. Só quero ajudar. Deixe-me ver sua temperatura.

Estiquei o braço balcão adentro rumo à testa pacífica da refém. Não havia nenhuma dobra nem sinal de que aquela testa pudesse, mesmo em face do maior desencanto, franzir. Um anjo sob as garras de um bandido. Ela recuou.

– Não quero sua ajuda. Não tenho febre – ela disse com desprezo.

– Vamos lá, deixe eu tomar sua temperatura, menina!

– Não sou uma menina. Já sou mulher!

– Seus olhos indicam alguma convalescença, calma.

– Outra vez meus olhos? Jesus, que obsessão! E não me mande ter calma.

Escutei então uma risada incontida e vi o cano da arma balançar. O safado estava se divertindo com minhas tentativas idiotas.

– Olha, Hannah, há esse vírus pelo ar, você vive em ambiente fechado, eu TENHO que tomar a sua temperatura. Por bem ou por mal.

– Se você tocar em mim eu grito. Chamo a polícia. Faço um escarcéu!

– Não é possível, venha cá – disse e a segurei pelo braço direito. Ela me mordeu.

– Aaaaaah! Caramba, ingrata!

– Eu avisei.

O filho da puta agora riu sem pudores. Levantou gargalhando e com o cano apontando para baixo. 

– Cara, como você é chato hahaha – disse ele.

Acertei-o com minha direita bem no queixo. Foi ao chão. Hannah gritou e se refugiou no canto da parede. A arma reluzia com sua superfície prateada. Tinha alguma ferrugem, mas era de verdade. O indivíduo estava atordoado porque foi à nocaute, mas ainda assim balbuciou um insulto:

– Chato pra caralho hahaha.

Dei a volta no balcão e alcancei o revólver. Segurei-o enquanto via a garotinha aterrorizada se contorcendo em vista do cenário da desgraça patética que se desenhava ante aos olhos.

– Sabe, docinho, agora quero que feche esses olhinhos cansados. Vamos, feche os olhos, baby.

Ela cerrou as pálpebras com tanta força que se formaram dobras volumosas na pele que cobria os globos oculares verdes como a grama do parque. Em pé, com o assaltante grogue aos meus pés e Hannah sob minha vista, descarreguei sete tiros fatais na carcaça moribunda. Hannah emudeceu mas não abriu os olhinhos. Soltei a arma sobre o corpo. Agora a cena era só uma desgraça, mas não era mais patética.

– Baby, mantenha os olhos fechados. Você sabe quem eu sou? Sabe quem somos?

– Não, não sei, só sei que…que…que você falou de novo dos meus…dos meus olhos cansados – disse a pobrezinha aos soluços.

– Sou, assim como você e como esse mal acabado sujeito, o meu próprio demônio. Este mundo é o nosso inferno. Agora vou ao parque.

– Posso abrir os olhos?

– Depende. Além de cansados, você os quer aterrorizados? Há vísceras e pedaços de cérebro por todo o lugar.

– MEUS OLHOS NÃO ESTÃO CANSADOS, PORRA!

Ted lambia o sangue que escorria do defunto. Tomei-o no colo e parti. Nunca mais soube dela.

Um conto de Boston

Era uma tarde de fevereiro, no dia 17 daquele mês, do ano da graça de 1989, quando encontrei o seguinte trecho apócrifo sobre um banco da estação de trem da cidade de Boston, estado de Massachusetts, nos Estados Unidos. O frio era intimidador e o curioso era que o texto se encontrava escrito em português. Logo em um país estrangeiro, achar uma mensagem na sua própria língua mãe é, no mínimo, instigante. O papel dobrado repousava sob uma pedra escura, cinza e pesada, que não permitia que o vento o levasse, embora as rajadas quase o partissem ao meio logo antes de eu resgatá-lo. Não tímida foi a minha surpresa ao abrir a folha e correr os olhos sobre o que ali estava narrado. A fim de que se mantenha a tradição da carta, escrevo esta carta para falar sobre aquela que ainda se remetia sobre uma outra. E, por bem do folclore e respeito aos ancestrais que se fortalecem na memória ativa que se preserva, hei de me submeter ao anonimato de igual forma. Parece coisa de louco? Dizem que de médico e louco todo mundo tem um pouco. Se os doutores tomam como objeto de estudo a saúde e a insânia, por sua parte, é caracterizada pela ausência das capacidades saudáveis de cognição, seriam só os insanos que necessitam de médicos? Ou os médicos precisam dos loucos?
Uma flecha me atingiu em cheio, bem no calcanhar. Deve ter sido muito agradável ao Raul Seixas ser uma metamorfose ambulante, não ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Agradável, não necessariamente fácil. Do dia do meu nascimento até a presente data, flutuando pelas fases mutáveis da infância à vida adulta, ainda me restando a velhice, já defendi diferentes pontos de vista com fervor, com ceticismo e, de igual modo, com a mais absoluta indiferença. Temi a blasfêmia de não ser temente, assim como pouco me confortava a idéia de defender a singularidade de uma figura que jaz na abstração de um coletivo obediente, casto e muito conformado. Existe… não existe… existe mas não sei dizer como… tanto faz. Se Deus não existe, não tenho como negá-lo. Questão de lógica. Existe, sim, e é por isso que a patranha é tão gostosa de ser denunciada. Gostosa, não é necessariamente fácil. Acabo de sair da terapia e as questões continuam cutucando por tempo prolongado, mesmo fora do consultório. Algumas perguntas vêm e este maldito que aqui escreve cai sempre, inegavelmente, na cilada de responder de prontidão. Opiniões em velocidade costumam vir acompanhadas de má construção gramatical, superficialidade teórica e emoção exacerbada na voz. Causam arrependimento, muito comumente. Cachaça com jambu deixa a mesma sensação na boca, um horror. Mas, dado a certas razões impalpáveis, a gente acaba bebendo outra vez. Valendo-me do confessionário anônimo, verdade seja dita: o álcool é o barômetro da alma. Ou da anima, que nos possui e atrai, formando emoções e desejos, motivadora de ambições e que confunde o raciocínio. Antecipei a definição pois, imediatamente ao ouvir a frase, o bendito haveria de indagar: você acredita em alma? Dia desses ele perguntou se eu acreditava em destino. Ora, só os tolos acreditam em destino. Dois dias depois, eu lhe disse que acreditava em destino. Percebi que seria anti-racional aceitar que a vida é uma caminhada sem rumo.
O pai de uma amiga morreu recentemente e ela ficou pouco arrasada do ponto de vista emocional. Trágico por natureza, liguei imaginando que a encontraria em soluços incontroláveis no outro lado da linha. Contou-me sobre a educação espírita e sua clarividência quanto à passagem e seus ritos imemoriais. Essas coisas de gente mais evoluída. Ela gargalhava ao me contar que, preparando o carro de seu pai para a venda, descobriu, escondido entre o banco de trás e o porta-malas, um saquinho. Ao abrir, a mágica constatação de que aquele respeitável homem de família era, por 50 anos a fio, um apreciador da erva proibida em total sigilo. Fumava o seu e estava sempre de bom humor. O sobrenome de um sujeito assim era caprichado pelo tal do destino: Valenti. Bravo, meu amigo! Descanse em paz, na de Jah de preferência. E que, onde esteja, não lhe falte brisa.
Peço desculpas a quem encontrar este trecho todo borrado de marrom. Açúcar, leite integral desidratado, farinha de trigo, massa e manteiga de cacau e mais etceteras, disso é formado o chocolate KitKat. Derrubei um tanto sobre a folha. São 3h54 da tarde, a temperatura é de -1.1°C e eu, além de frio, tenho fome. Acho que uma coisa leva à outra. Mas o que caiu sobre o papel não foi um pedaço da barra e sim uma generosa gota de saliva. Minha mandíbula sofre com o gelo do ambiente e, talvez por isso, não funciona muito bem. Babei feio, mas ninguém viu. Fica aqui o registro do ridículo. Outro dia o terapeuta perguntou do que eu tinha medo. Deve ter sido frustrante ouvir: sapo. Mas, por outro lado, ele não se frustra porque foi treinado para não reagir aos comentários que ouve. Será? Gatilhos.
Assim que meu trem chegar, pelo visto, não embarcarei. Tenho que terminar estas divagações. Não é porque é meio maluco que deve ser mal acabado. Depois deste exercício literário vou me alimentar e ir à academia a fim de praticar outros exercícios físicos. Puxar pesos me faz bem porque a pouca sensibilidade à dor tanto me favorece nos ganhos de massa muscular como me protege a mente de agressões. Não se ofender, eis um dos mantras mais trabalhosos a se lapidar. Um paralelo a não se doer. Os dodóis não vão dominar o mundo.
Neste exato minuto alguém se exalta, uma mentira é contada, um beijo se dá entre noivos, um avião sobrevoa a minha cabeça e nada disso me faz a menor importância. O terapeuta me perguntou porque minha noiva era dez anos mais nova. Respondi que isso se dava pelo fato dela ter nascido dez anos depois de mim, mas ele se incomodou. Eu achava tão matematicamente simples, ele achava que eu pecava por ser simplório demais na resposta. Acusar-me de simplicidade é algo que me ofende. Ih, lá vou eu. Que desordem, não durou nem um parágrafo. E olha que, na verdade, o que eu queria dizer a ele quando veio com essas de saber os porquês de eu ter escolhido a minha noiva, a vontade mesmo, era falar: a bunda dela era a mais bonita! Que filho da puta! – ele pensaria. Não diria, mas elucubraria.
Se eu contasse em casa que ando por aí enaltecendo a bunda que me pertence, diriam que eu sou louco. Imagina só, fazer propaganda da própria mulher? Eu gosto de mulher mais do que gosto de mentir. E olha que mentir dá um tesão. Se ele lesse essa carta, não se aguentaria: você sente excitação sexual ao mentir? Previsível. Gosto tanto de mulher que não falo sobre. Tenho um amigo que não consegue desenvolver meia hora de papo sem cair em nuances que descambam para sexualidade. Que porre. Que profundo e tenebroso porre. Convencido eu, não procuro convencer ninguém. Eis outro mantra.
Não desejo ter filhos, transmitir essa herança genética de contestação, imoralidade, absurdismo. Ao passo que seria tão gostoso ensinar sobre crítica reflexiva, não conformidade à moral da maioria, os mitos modernos e toda a posição filosófica da qual se pode provar vivendo e não falando. Certa vez, recebi cartinha de um meu sobrinho e nela se lia: tio, você é o melhor tio do mundo. Outros cinco sobrinhos e sobrinhas disseram a mesma coisa. Logo, eis aqui o melhor tio do mundo. Provem-me o contrário. Nunca pude retribuir o elogio. Imagina se a Anninha começasse a se gabar sobre o título de sobrinha do ano para o Lolô? Eu estaria em maus lençóis.
A diferença entre o imaterial e o material é imaterial, não é mesmo? A diferença entre Deus e eu é a que eu existo. Pronto, já me desdisse. Parece não ter fim, essa repetição. E tome metalinguagem. Há quem considere que ser contraditório é algo pejorativo, indecoroso ou comprometedor em relação ao próprio arquétipo. Pobres! Procuram coerência numa experiência de opiniões emitida por tal órgão cinza que habita um corpo vivente sobre uma rocha rodopiante que descreve trajetória, em torno do sol, em movimentos helicoidais por entre o vazio absoluto e incomensurável de uma dada matéria negra chamada de cosmos. Puta madre que los parió! Comecei falando sobre o Raul e eis que… olha o trem!

Pombal

Ai, ai, ai, ui, ui / Loira ou morena / Tremendo mulherão / Sorria, pois você está na televisão / Quem quer dinheiro?

Assim ele sabia que seu final de semana havia, oficialmente, chegado ao fim quando o Silvio Santos começava a cantar nas noites de domingo em pleno palco do Topa tudo por dinheiro, programa pitoresco de humor liderado por um judeu, ex-camelô e simpático apoiador da política de direita. A maior constatação da velhice enraizada na mente humana é quando ela – a humanidade – passa a calibrar os horários do dia, as tarefas cotidianas, com a programação da televisão. Certa vez, logo após buscar os pães quentinhos da primeira fornada matinal, topou com um velho conhecido na porta da padaria.

– Senhor Bonifácio, gostaria de convidá-lo para um recital de violão que será realizado na próxima sexta-feira.

– Onde tomará forma tal apresentação?

– O teatro municipal será a casa das cordas melodiosas.

– Qual o horário do evento?

– Às 20h, meu amigo.

– E dura quanto tempo?

– A seresta mais a devida confraternização no boteco do Valdir, que fica em frente ao teatro, deve roubar três horas noturnas do ilustre cavalheiro. O mestre cervejeiro agora anda servindo um tal bolinho de feijoada, recheado com couve, feijão preto e paio. Dizem que é de cair o queixo.

– Infelizmente devo informar que não comparecerei, pois não posso perder o comentário político do jornal das 21h e também já aguardo ansioso o Globo Repórter sobre as belezas do rio Nilo que dar-se-á no mesmo intervalo de tempo do concerto. Agradeço o convite, até logo.

Direto nas opiniões e conservacionista da arte de observação à distância, pela janela, Bonifácio adora ter sua opinião ouvida. A bem da justiça, a dependência da TV só se dá em período noturno. Durante o dia, toma seu café preto e sem açúcar e, acompanhado por livros, senta-se em frente ao buraco na parede que é preenchido por vidro. Do alto da soberba e do nono andar, pensa a esmo recolhido ao silêncio da incompatibilidade com o mundo. Em frente ao prédio onde mora há a igreja matriz da cidade onde, nas bordas da abóbada central, concentram-se uns tantos pombos que entre arrulhos e voos também copulam. Ainda que não seja esteticamente feio, o pombo é o animal símbolo da doença, da sujeira, da vida ingrata pelas ruas. O rato de asas, como se costuma referir ao ente aviário, é agraciado com exceção quando está em unidade solitária e sua cor é branca. A pomba da paz, do espírito santo, da graça. E é exatamente uma pomba sozinha, branca como leite, que criou a  mais inusitada relação homem-animal com o velho Boni. Observando-a ciscando por entre os vãos do telhado ecumênico, com aquele jogo de pescoço vai-e-volta típico, assistiu ao impossível. A pomba parou o que estava fazendo e o fitou diretamente, da distância abismal que os separavam. Alçou voo direto com poucas batidas de asas e pousou na janela que servia como vitrine do mundo. Bonifácio, encantado com a proximidade do animal e seu olhar inquisidor, inclinou-se na cadeira de balanço e sorriu para a ave. Com olhos vermelhos, a pomba girava a cabeça a fim de que os dois globos laterais pudessem analisar a figura idosa que se projetava com curiosidade frente ao animalzinho. Um vento revolto batia e levantava insistentemente as penas de sua cabeça conferindo-lhe uma tal aparência patética. A pomba então bicou três vezes a região do trinco que travava a abertura da janela.

– Ora, que bichinho mais esperto! – disse Bonifácio em voz alta do lado de dentro do apartamento.

– O que disse, Marinho? – indagou sua funcionária doméstica que o chamava pelo sobrenome.

– Nada, não é contigo, Railúcia. Fia-te às tuas obrigações. – disse um ríspido Boni que não é dos mais afáveis patrões e, sabe-se lá o porquê, expressa-se quase sempre na segunda pessoa do singular.

A pomba então voltou a bater o bico outras três vezes contra o vidro e a girar a cabeça em sinal de ansiedade. O velho puxou a cadeira para mais perto da janela e, puxando uma trava, permitiu que o fluxo de ar entrasse sala adentro. Com um salto simples, a ave se assentou na borda da basculante. Bonifácio estava maravilhado com aquele encontro, tão inusitado quanto pouco crível. Empolgado, exclamou em voz alta:

– Tu estás com fome ou sede, ó amiguinha? Vou buscar algumas sementes e água!

Ao insinuar o movimento de pernas e braços para se erguer da poltrona de balanço, eis que a parte fantástica da história entrou em cena. Com uma voz aveludada e do gênero feminino, com dicção pausada e clara, a pomba se apresentou:

– Meu bom senhor, fique bem aí onde está. Meu nome é Clarice e eu não tenho fome, senão a por conhecimento. Já fui planta e já fui gente, essa gente comum do dia-a-dia, já fui felina e até mesmo uma nuvem, veja só! Certa vez tomei a forma de pernilongo e percebi que chupar o sangue de humanos não era tão distinto de lhes trair a confiança sendo eu outra humana. Ao tentar puxar papo na forma do mosquito indesejado, não percebi que minha voz saía muito baixinha e que o que chegava aos ouvidos dos homens era apenas o zumbido irritante que caracteriza a classe. Acabei em um tapa violento, esmagada entre as palmas gigantescas de um Zé qualquer. Tenho apetite pela conversa boa e franca, ademais não poderia me alimentar das sementes suas pois sou ave ralé, daquelas que ciscam o resto do resto, que resta de um todo. Diga-me, o senhor não se cansa?

O pobre Bonifácio beirava o colapso nervoso ao presenciar um animal que falava, articulava com maestria e ainda indagava com petulância.

– Meu Deus, o que é isso? Estaria eu sob efeitos alucinógenos? Uma pomba que fala! Como és tão bonita, lustrosas as tuas penas e tua voz tão agradável! Sou Bonifácio Marinho, teu criado. Agora, confuso me encontro com tal pergunta. Cansado de quê?

– Ora, meu bom homem, cansado de tanto olhar, olhar, olhar e não interagir. Há semanas que perambulo pelas redondezas e o vejo sempre aí, na distância do olhar comedido que muito vê, porém pouco compartilha. Creio que há muito o que sair destas cordas vocais suas. Já sente o peso da idade? Encontra-se cansado daquilo que é humano, demasiado humano? Permita-me, preciso conhecê-lo melhor, aquele é um Picasso?

A safada da pomba reconhecera um quadro pendurado às costas do sexagenário.

– Sim, é um Picasso. Mas é uma cópia, não posso arcar com os custos de um original. Que coincidência feliz, uma criança acolhendo uma pomba!

– Que diferença faz o original? Este lar não é um museu, pouco importa outra coisa senão a imagem em si. Quanta ternura. Sim, mas retomando, quais são as suas queixas?

– Ora, minha amiga, sou um homem que muito já viveu. Alegrias, desilusões, ilusões  de esperança. No meu tempo que era bom, nós conversávamos com propriedade sobre assuntos diversos e a cordialidade ditava a melodia do diálogo. No meu tempo tudo  aquilo que fosse chulo era rejeitado, no meu tempo…-  os tempos agora são outros e eu prefiro me recolher ao seguro refúgio da minha própria sala de estar.

– É por isso que tem preferido assistir ao Silvio Santos a encontrar com os seus?

– E como sabes disso, ó pombinha enxerida?

– Ora, tenho asas e posso voar aonde bem entender, pois por vontades sou guiada. Às vezes encontro-me quieta a observar e a escutar, sobre as cabeças daqueles que só tendem a olhar para o chão. Estando no alto, posso olhar ainda mais para cima, com os ouvidos porém atentos a tudo o que vem de abaixo.

– O que queres dizer?

– Você precisa subir, Boni! Ou talvez navegar, fazendo jus ao sobrenome. Diga-me, já não é hora de deixar a cadeira e passar a, então, balançar o mundo?

Ao melhor estilo mestra dos magos, tão logo pronunciou a frase enigmática abriu as asas e despencou ao sabor da gravidade. O velho deu um salto e acompanhou a queda livre da ave por alguns andares até que, em vigorosas agitações aladas, ela recuperasse o controle do plano de voo. Sumiu em curvas por entre os prédios da vizinhança. Bonifácio ficou entusiasmado com a intervenção sofrida naquela manhã fatídica e decidiu reunir os amigos no mesmo boteco do Valdir rejeitado previamente. Lá se encontraram, conversaram e, claro, degustaram os bolinhos de feijoada, uma iguaria que correspondia à expectativa. Os convivas, que já desde há muito só encontravam Bonifácio ao acaso da fila do pão ou da lotérica quando iam pagar contas, perceberam no companheiro um homem alterado como em um passe de mágica. Falante, com a voz impostada e desejoso por debates clássicos de mesa de bar. Argüiram sobre política, religião, futebol, tudo aquilo que a cartilha de bons modos reza por não se discutir. Sobre damas formosas e os efeitos entorpecentes de seus atributos físicos, comuns em outrora, também relembraram. As garrafas de cerveja secavam, vinham outras e mais amendoim, bolinhos de bacalhau, guardanapos baratos que desmanchavam ao contato com a gordura sobressalente. Ao se despedir, recebeu afetuosos abraços e a alegria geral era tanta que não o deixaram sequer pagar a conta. Havia reconquistado a plena admiração do grupo. Voltou para casa sorridente e ansioso. Gostaria de conversar mais com Clarice. Deitou-se e deixou as janelas abertas. Pelo corredor de vento entravam também os sons da rua e os arrulhos noturnos dos ninhos urbanos das centenas de pombos que habitavam a região. Na manhã seguinte, enquanto se servia de café fresco, escutou a batida tri-executada a quebrar a monotonia da alvorada. Tec-tec-tec…

– Bom dia, Clarice! Que felicidade em rever-te, ó voz das boas novas! O que trazes hoje em teu seio da sabedoria?

– Você não perdeu tempo, hein!? Diga-me, o que estava mais gostoso, os petiscos ou o banquete de idéias?

– Ora, os acepipes estavam perfeitos, por mais simples que fossem. Mas, admito, relacionar-me com os amigos e misturar as opiniões foi fantástico. Ontem, é bom que eu diga, deixei de assistir a toda a faixa noturna da programação televisiva para confraternizar. Nem de longe me arrependo, pelo contrário, sinto-me mais jovem até! Claro que alguns alimentam achismos e considerações supérfluas sobre as coisas e..

– Deixe disso, homem! O que é dialogar se não suportar e ser suportado? – interveio uma pomba eloquente.

– Tens razão.

– Quem sabe agora tome coragem para aquilo que já é hora de acontecer.

– E a que te referes? A metafísica? Os diálogos com Deus e o significado da vida? Devemos discorrer sobre a grande saúde a qual o homem almeja?

– Rai.

– Rai? Engoliste uma sílaba, ó passarinha? Raios de sol?

– Sim, engoli. Railúcia, seu grande amor.

Aquela frase aterrorizou o velho Boni, que num tropeço derramou o café sobre as coxas.

– Qual absurdo proferes! De onde tiraste tal sandice?

– Sandice é desejar uma mulher tão bonita e dedicada como a Rai e não ter a coragem de se declarar, pela simples relação hierárquica patrão-empregada. O amor tem razões que a própria razão desconhece, meu bom homem. Dispense esse trololó e case-se enquanto há tempo. E o tempo urge, enquanto o leão, ainda, ruge! – decretou, simbolicamente, ao se auto-defenestrar.

– Railúcia! Venha já aqui! – gritou um Bonifácio espavorido.

– Sim, meu patrão, o que houve?

– Andaste a falar coisas por aí? Tens algo a me dizer?

– Não compreendo, Marinho. Sobre o que, meu senhor, sobre o que especificamente se refere com essa pergunta?

– Deixa para lá, acho que estou meio maluco. Queres casar comigo? – propôs um absolutamente nada romântico Bonifácio Marinho com a voz embargada.

– Oxalá, meu pai! Tenha pena de nós, tenha dó! Quero sim!

À parte a exaltação afro-religiosa, Boni considerava-se pleno. Pudera! Em dois dias estavam no cartório de registro civil para oficializar a união. Marido e mulher, rumaram ao apartamento para uma recepção modesta com os mais chegados. Na hora de cortar o bolo, Clarice voou pelo recinto e pousou no ombro esquerdo do noivo. Os convidados se derreteram com a imagem dos pombinhos agraciados pela pomba branca da santa Trindade. A foto ficou uma beleza. Clarice cochichou em seu ouvido:

– Meio maluco você é, não acha? Dando corda a uma pomba! – e se foi voando janela afora.

Boni celebrou com entusiasmo. No dia seguinte, deu falta da visita de sua amiga. Lamentou por toda a manhã a ausência de fiel confidente. Estava doido para contar sobre a noite nupcial e sua performance inacreditavelmente soberana sob os lençóis. Sua agora esposa Railúcia Marinho sorria à toa. Disse que tinha uma surpresa para o almoço. Serviu os pratos e pôs à mesa um assado.

– O que é que preparaste para nós neste dia primeiro do resto de nossas vidas, meu benzinho?

– Pomba, meu amor! De um criador que conheço. Há de adorar o sabor e a maciez de sua carne tenra.

Bonifácio bem que tentou mas não pôde evitar a dúvida. Seria, por vias da mais selvagem coincidência do mundo, ser aquela pomba a sua querida amiguinha? Sua sábia conselheira havia se tornado a sua refeição? Depois de alimentar-se da fonte abundante de perspicácia, haveria de ingerir também sua matéria? Seria tudo aquilo um sonho? Estaria ele variando das bolas, coisa de velho? Olhou insistentemente para a janela na esperança que Clarice surgisse a cutucar o vidro com o bico afiado. Nada. Sorriu com lábios desesperados para sua esposa que, sem perceber nada, ainda apresentou mais um complemento para o prato:

– E essa é a cabidela, um molho feito com o sangue da pomba, uma iguaria!

A essa altura do campeonato Boni suava frio, tentando disfarçar a reação e não deixar com que sua amada percebesse o nervosismo. Como Jesus Cristo, comeria sua carne e beberia seu sangue, como que em ato memorial? As cortinas todas do apartamento estavam abertas e ele percebia, paranóia ou não, uma revoada de pombos. Estariam todos possuídos por um espírito vingativo? Railúcia saboreava e expressava o prazer a cada garfada:

– Mmmmm que delícia! Não tem fome alguma, meu bem?

– Ainda estou nutrido do amor que me serviste sobre o leito, ó rainha de fogo.

– Ah, como você é perfeito!

A recém casada dona de casa devorava as asas e o peito branco da pomba enquanto balançava a cabeça. Na vitrola tocava um disco de Frank Sinatra e na ponta da mesa continuava o senhor Bonifácio a resistir ao primeiro toque no prato que fora servido. Bastava que uma pomba branca pousasse em sua janela e o alívio seria imediato. Mas ele não poderia começar, a pomba continuava sumida.