5 de agosto

Dia desses, meu pai disse que só o deus cristão era Deus assim, em maiúscula. Mas, o meu mesmo pai – e eu só tenho um – me ensinou que regras e bolachas foram feitas para serem quebradas e eu cresci para dar muito orgulho a ele! Das festas, dos ciclos vitais, da insânia, do vinho e da intoxicação que funde o humano com a deidade, da porra louquice, por assim dizer. A ele dedico a primeira foto da retrospectiva que se abre. Evoé, Dioniso, oh Deus (!) daquilo que é caótico e foge à razão humana. E você achando que eu era ateu, né? Nesse dia perfeito em que tudo amadurece, caiu-me na vida um raio de sol: olhei para trás, olhei para frente, nunca vi tantas e tão boas coisas de uma vez. Não foi à toa que enterrei hoje meu trigésimo terceiro ano. Adaptado do bigodês de Frederico.

A humanidade é um barato, completa voltas em torno do sol e vai à loucura, dá significado para a coisa, relaciona a posição dos astros e constelações, prediz o futuro e justifica o passado, tudo graças aos rodopios em torno de uma estrela. Uma onda. Cá estou após quatro meses de abstinência das redes sociais, a registrar o meu aniversário. Exaltar a mim mesmo e expressar “gratidão”? Não, obrigado. Recomendo mais semântica, saravá Gugu Tarô! Ai de mim se eu resolvesse contar ao mundo o quão decadente sou, um decadente par excellence para ser honesto. O texto ia soar pessimista justo na data do meu aniversário e teríamos uma tragédia. Recomendo aprender a cozinhar feijão e o salutar exercício de ser visita nos lares do mundo, tudo isso a fim de aprimorar a si próprio. As casas que abrigam exigem comprometimento com a disciplina, com a cordialidade e com a limpeza. Eis a minha receita para a excelência: aprender a ser hóspede! Na quarentena li uma penca de livros e escrevi dois. Logo os publicarei, tudo a seu tempo. Exercitemos a virtude da paciência. Alguém tem um real? Silenciei o mundo e passei a assistir os stories do cotidiano, ao vivo, a cores e sabores. Concluí que os livros continuam mais interessantes e, acima de tudo, mais profundos.

Vi os homens matando por cor. A negra, as do arco íris também. Uma lástima. E ainda tentam dizer que viemos do macaco, coitado, bichinho simpático para ter gerado uma herança tão abominável. Os assassinos do amanhã se arrepiam ao ouvir sobre entidades africanas ou sobre direitos dos quais são devedores. Eles, os puros sacerdotes. E eu assisti a tudo calado. Quanta dor no mundo! Eles são iguais até quando querem ser diferentes. Perdem o sono por seus investimentos financeiros e se descabelam por acumular ganhos polpudos e fáceis. Eu aqui, sem graça por me aproximar dos 40 sem saber nada de carpintaria. Desvairado feito a paulicéia. Aliás, quero registrar que tenho uma música especial para meu velório e ela é a Bachianinha nº1. Mas, exigência de defunto, quem há de tocá-la é Anerlindo Rodrigues, violonista clássico do interior do Brasil. Peço a vênia, meu amigo, mas terá que morrer depois de mim.

Não há nada como a constatação de um espírito amputado. Não há prótese para isso

Romantizam a elevação do espírito! Fotos em posição de lótus, com o mar e o pôr-do-sol ao fundo, as mãos espalmadas e na legenda: namastê. Valei-me, eu que meditei lavando louça, em horas de jejum lixando as paredes como operário da construção urbana, refinei o pensamento enquanto ardia sob o sol da jardinagem ou ao carregar caixas escadas acima. A filosofia ensina a agir e não a falar. O corpo é o grande pensador, movimento é expressão. Nunca houve verdade tão desafiadora. Comunicai-vos uns aos outros: ação é paz. Todos ensinam, alguns pelo o que não se deve fazer. Lapidei a vontade de me tornar um homem honrado, merecedor de distinção por, feito o mar, aceitar o desague de águas imundas sem comprometer o leito.

Perguntam-me o que quero de presente. Mais do que ter a companheira que me é fiel?   Sacia-me os desejos todos e me rouba a solidão sempre oferecendo real presença. Peça chave da minha fé Bundista, a prova viva da bem aventurança por parte das deusas dedicada a este Aquiles, um imoral por excelência. Obrigado, Larissinha. Aproveitando a deixa que já pedi a música do meu cortejo fúnebre, faço a homenagem a Noel Rosa que cantou “quando eu morrer não quero choro nem vela, quero uma fita amarela, gravada com o nome dela”. E chopp! Pelo amor de Zeus, muito chopp!

Desde o início da pandemia o que mais fiz foi viajar. Condenável, eu sei, mas fez-se necessário quando tantos convites povoaram os ouvidos. Pude conviver entre sobrinhos e irmãos, levar a comida ao fogo e celebrar à mesa. Há tanto amor nisso tudo, como diz o sertanejo: o coração fica aflito, bate uma e a outra falha. Cito o meu próprio pai, uma outra vez: “Aquiles começou a formar a sua família, uma legião de amigos e irmãos: vieram os cachorros órfãos, o irmão Sol, a irmã Lua…”.

Já se vão cinco anos sem pegar uma reles gripe. Aí sim, ostento com orgulho alguma posse: a minha saúde! Foi muita vitamina C que eu chupei pelos anos, por isso a invulnerabilidade. Sarcasmo refinado. Para reclamações sobre o comportamento, favor chamar o número 190. Finalmente, dois anos de carência permitiram que a minha digníssima autorizasse. “Posta aquela foto sua com o flamingo. É hoje ou jamais”, disse Lari. Bom, antes à tarde do que nunca.