Bula

Ao homem nascente, em meu nome, que lhe seja recomendado

Antes de tudo que a vida trama
Mas que não há o certo, tampouco o errado.

A família, a tenha por princípio
e a escola para o aprendizado
porém aos amores cuidado, são um perigo!
Haverá quem o ame por seus adjetivos
e quem o faça somente pelos seus predicados.
Que valorize, em tempo, os dias santos entre os de trabalho pois graças a igreja gozará
o seu descanso sempre aos feriados.
Mas se lhe falte a família
ou a escola não o deixe encantado
e se as mulheres não o quiserem por marido
ou para Deus você não reserve o sábado
não esqueça do começo
pois tentarão provar o contrário
e será sua meta ante o destino
provar que não reina a escuridão, tampouco tudo é claro.

Haverá só você, no fim de tudo

tão tranqüilo, mas desesperado.

Convicto que viveu certo, na dúvida se fez errado.

Spray, Sparta, Spyro Gyro

De dentro da cozinha vinha o grito:

⁃ MERDA!

Seguia-se um tapa na bancada. Isso significava que mais um pedido tinha saído errado. O cozinheiro ia à loucura. Tudo tem limite, ou deveria.

Ouvi um cara dizer que era iraniano, simpático às tampas. Cheguei mais perto, falei:

⁃ حال شما چطور است؟

Ele não entendeu. Fui mais perto da sua orelha e repeti:

⁃ حال شما چطور است؟

Ele estalou os olhos. Estendeu o braço e apertamos as mãos.

⁃ Você falou Farsi perfeitamente, sem sotaque. Como sabe a minha língua?

⁃ Ah, cara, eu já fui um negociador de tâmaras por aquelas bandas.

Entusiasmado, passou seu telefone e disse que em duas semanas estaria em Teerã e queria que eu me hospedasse na casa de sua família. Em duas semanas eu completo 35 voltas em torno do sol. A data tão temida. Eu poderia ter explicado que aprendi três frases em Farsi com aquele simpático grupo de iranianos que buscou um avião na TAM em São Carlos, no longínquo ano de 2007. Acontece que eu sempre quis negociar tâmaras. Sucesso garantido.

Duas mesas para a direita e uma moça parecia deslocada. Quando tomei conhecimento da sua história, senti uma pontada no baixo ventre. Exatamente um ano atrás, seu marido a aguardava na sala de estar para que fossem às ruas para uma noite de lazer. Enquanto esperava, decidiu limpar sua arma. Por acidente, ela disparou e ele se foi. Exatos 365 dias atrás. Eles iriam para o mesmo bar. Isso não é triste, meu chapa, é entristecedor. E há grande diferença entre as coisas. É necessário dominar a língua para traduzir a melancolia.

Procurei meu celular e enviei algumas mensagens de amor aos entes queridos. A gente nunca sabe.

Na América o verão é desejado, mas se mantém desdenhoso. Ele sempre passa. Por isso há tanta vida nas calçadas, nos pátios, nos parques. As pessoas aproveitam porque sabem que acaba. O oposto do que costumam fazer nos relacionamentos. Pensam que é para sempre. E já dizia a Cássia Eller…

Carrego uma lista de expressões para brindar em diferentes línguas.

Nazdrave, em búlgaro. Nazdarovia, em russo. Parecido, mas não vá cometer e lambança de dizer que é tudo igual. Ofensa na hora de encher a cara pode resultar em um dente quebrado. Ou abandono. Zivelji em croata. Aí você deve estar se perguntando porque tantas expressões vindas do leste europeu. Deixa isso pra lá, come on!

Bebendo rum puro com a Larissa na Tailândia em uma sarjeta de Bangkok, fomos abordados por duas garotas.

⁃ Oh, vocês bebem muito!

⁃ Err, obrigado?

⁃ Não estamos acostumadas a ver uma garota beber assim com tanta liberdade. Temos até uma expressão para isso. Lumyong, significa moça bonita que bebe whisky.

Hoje é sábado, amanhã é domingo, nada como o dia para passar. Saravá, Vinicius. Como não sou uma árvore e não crio raizes – só razões – posso sempre me levantar e caminhar. E mudar, de cor, de opinião, de amigos e de motivos. Cobra que não muda de pele morre.

Um conto de Boston – parte 4

Imenso desprazer tive ao, após a segunda semana, perceber que aquilo era uma realidade. Estava na mesma hora, no mesmo lugar, com a mesma ansiedade. Queria encontrar o manuscrito que revelava trivialidades e caprichos. Nada. Aquele alguém resolvera por estancar a fonte da minha distração obsequiosa. Inconformado, passei a esperar diariamente. Talvez o ilustre tivesse decidido por alterar o calendário de despojo de seus depoimentos. Sábado, domingo, segunda, terça. Quarta-feira não, pois é dia de jogo e eu me embriago. Quinta, sexta-feira de novo. Nada havia onde antes eu encontrava linhas rabiscadas, só as farpas lascadas do banco de madeira da estação central. Senti-me triste. Haveria o sujeito desistido da arte confessional? No vigésimo primeiro dia o frio era menelênico, no bom português, um frio de corno. Levei um cantil comigo, o qual tinha enchido com bourbon. À essa altura, eu sofria de jejum da intimidade alheia, eu era um voyeur em abstinência. Sentado à distância, percebi o aproximar de um rapaz alto, corpanzil de atleta, sorriso no rosto com ares de pândego. Sentou-se exatamente no lugar onde eu costumava encontrar as cartas enigmáticas. Que ousadia. Meteu as mãos nos bolsos laterais do casaco e ficou a observar as redondezas, como que por inclinação investigativa. Eu, do meu canto, entornava o uísque de milho. Usava uma boina verde xadrez, a qual puxei para baixo escondendo a face. O rapaz esperou por uns instantes. Sacou um maço de Lucky Strike, eu podia ver a logomarca. Fumou lentamente enquanto rastreava as cercanias. Seus olhos pareciam gozar de independência, cada um vigiava seu próprio flanco. Apagou o cigarro embaixo do banco, levantou-se e caminhou rumo ao portão oeste. Lá jazia, onde há pouco seu traseiro repousava, um envelope. Minha fixação. Dizia:

“Bom dia, boa tarde, boa noite – por enquanto. Meu nome é Armando, José Armando Passos. Estou em processo. Há quem diga que não há saída para a vida, senão a morte. Eu digo que não há destino para a morte, senão a vida. Um bando de filhos da puta são os meus vizinhos. Estou há dias tentando fazer amizades, bato-lhes à porta e peço um minuto de atenção; suas cabeças negam e a mim seus olhos repelem. Nunca pensei que abordar pessoas, de cueca, acerca das evidências fósseis incas sobre presença alienígena de crânios alongados seria algo tão, diga-se, chocante. Sigamos. Há algo de estranho nestas linhas, e eu sei o que é. Elas são lidas, e por isso agora me sinto um mestre de cerimônias. Minhas palavras são redigidas daí visualizadas, interpretadas, condicionadas, relacionadas, contestadas. Sou a antítese da minha síntese anônima. O que é que sou? De onde venho, para onde vou? Clichê, muito e pavoroso.

A quem quero e por quê? O que quero e por quê?

Eis as duas perguntas fundamentais: para que e para quem?

Percebi que há um qualquer. Todo qualquer é um ninguém, e ninguém é de ferro.

Existencialistas são perspectivistas de um presente contínuo, preceptores do eterno vir-a-ser. 

Eu vi você, João dos Prazeres, você que recolhe os meus ciscos. Você os encontra, dobra sem pudor. CUSTA MANTER EM SUA MÃO, UM PEDAÇO DE PAPEL? Dê o que merece de relevância a este manifesto que, até então, era apócrifo. Eu sou Zé Armando, você é o João dos Prazeres que colhe o rastro de pão dos meus pensamentos.

Desculpe a gritaria, mas putaqueopariu. Não precisa tratar a minha folha com falta de afeto. Vi você quando deixei a terceira carta. Estava de costas, catou o pergaminho e seguiu em frente. Seu casaco não me permite descrevê-lo. Boa leitura, eu lhe desejo. Será que você leu os prévios?

Sigamos.

Se temos uma lei no mundo, é a que diz: olho por olho, dente por dente. Código de Hamurabi. Pois bem, duvido que você possa perceber, caso esteja aí, o exato momento no qual abandono este comunicado.

Alguns dizem: olho por olho e o mundo fica cego.

Meio cego, eu digo. Melhor meia visão que visão nenhuma e, é importante lembrar, luz demais cega. Faz muito frio novamente, escrever só se dá em ambientes fechados, onde se pode dispensar as luvas. Falar de luvas é tatear de máscara.

Somos vontade, libido no entendimento dEle. Penso, logo desejo, logo existo. Fruto do imperativo conquistador, ouço as trombetas de dentro de mim sem que me importe com os agentes reguladores de sempre. Avanço e expando meus domínios.

Diria que feito o meu pai não tenho interesse nenhum por mim e, como a minha mãe, às vezes dou-me muita atenção.

Foi tanta alegria, tanta euforia, tanto assanhamento estado de ser nas últimas semanas que eu nem sei mais para onde vou. Digo-lhe, ao bom amigo leitor, que somos agora dois fantasmas. Coexistimos em um espaço apertado, escuro e abarrotado de ovelhas escandalosas.

Só sei que se fico, eu não vou. Se fico ou vou, só sei que lá eu não fico se aqui eu estou.”

Não o vi deixar a carta, mas o bendito sabe de mim! Que dia!

Zodículo

Saí de casa em direção à esquina. Nada de mais nem de menos, eu só queria ventilar ar puro para dentro dos pulmões. As más influências, a vizinha do primeiro andar e seus glúteos estonteantes, o barulho de furadeira do cara do segundo andar, o estado pandêmico, o cinzeiro de papel cheio de bitucas de cigarro e cinzas que se levantam com a brisa que entra pela janela da sala, a falta de álcool na geladeira, o excesso de álcool no sangue, o grito do sujeito que vende legumes na rua, as dores no corpo em virtude da ressaca impiedosa, os meus tênis com a sola furada, tudo aquilo me conduzia à estafa mental. Foda-se – pensei -, caminhar não pode piorar as coisas. Saí descalço, queria literalmente manter os pés no chão.

A massa operária mantinha as engrenagens nos trilhos e eu era apenas um homem branco comum, insatisfeito dentro da minha própria bolha reluzente com problemas de um universo privilegiado.

Meus olhos sofriam com a luz do Sol e alcei os óculos escuros. Lentes negras e máscara formam o disfarce perfeito neste início de século. São tempos de uma doença global que assusta não pela sua letalidade, mas pelos métodos de enfrentamento que desencadeou ao redor da Terra. Ao redor, ora ora, que ironia. Para ser inclusivo, incluindo estritamente os muito burros, hei de dizer que o termo correto é ao longo da Terra, pois há aqueles que acreditam ela ser plana. Tão rasa quanto suas reentrâncias encefálicas. Caminhei por um quarteirão e avistei a velha em seu lugar, como na canção. Geralmente sentada, permanece durante parte da manhã observando a rua. E ela começa cedo. Dia desses, eu saí de casa às quatro e meia e lá estava ela. Mas hoje, para a minha alegria, descobri que a velha ainda tem as pernas em operacionalidade.

Bom dia – eu disse. Tão imóvel quanto as grades do portão que a protege, a velha é quase invisível. Somente olhos demasiado humanos podem vê-la. Bom dia – ela respondeu naquela madrugada que precipitava as cores da alvorada.

Sem que a mosca lhe fizesse mal, a velha estava na calçada um pouco distante de sua casa. Estava de pé, com a sua máscara sobre o queixo e a boca ruminando algo que lhe escorria pelo canto da boca. Contraí as cordas vocais para direcionar as únicas palavras que nos cabem, aquelas de cumprimento cordial, mas ela se antecipou:

– Quer caju? – disse, empunhando uma porção de frescos cajus amarelos e vermelhos que carregava na mão esquerda.

– Muito obrigado, que a senhora tenha um bom dia – retruquei, bondoso, com um sorriso.

Ela não podia ver os meus dentes exibidos, porque a máscara sanitária os escondia. A feição carinhosa só não morreu nesta era porque, ao sorrir, contraímos inúmeros músculos da face e isso se pode perceber especialmente no canto dos olhos, ali onde se identificam os pés-de-galinha. Durante a pandemia, sorrimos com os olhos. Quando bebo e escrevo me sinto um gênio, mas não necessariamente quando bebo ou quando escrevo. Fiquei com dor na consciência por não ter aceito ao menos uma das frutas, mas fazer o quê, já não havia muitas coisas que a arcada dentária da velha suportava mastigar. Os cajus lhe fariam grande justiça nutricional. Ela os sugava e cuspia as fibras no chão.

Uma esquina a mais na minha caminhada plano-terrena e lá estavam os três amigos, mais D’Artagnan. Trata-se de três moradores de rua que, ocasionalmente, têm um convidado a mais a acompanhá-los. Grande prazer o deles, esse de ter o mundo como lar. Nós, civilizados e obedientes ao deus Capital, temos de adquirir propriedade privada para que possamos denominá-la casa. Eles não, toda calçada é sala de estar e todo o mar é banheira. Los tres amigos são idosos, bem que se diga. Nunca lhes dei bom dia, como faço com a velha. Acho que, no fundo, é inveja da minha parte. Quando vou trabalhar, pela manhã, encontro suas carcaças estiradas em posição fetal, mão sob a cabeça, sorrindo em um sono profundo. Sonham com algo que a realidade não pode cumprir, dormem profundamente em um coma induzido pelo álcool etílico, descansam enquanto os outros só fazem atingir a fadiga. Quando volto para casa ao meio-dia, eles estão de pé, dançando sem música e almoçando a cachaça pura. Dividem um carrinho de compras onde guardam seus valiosos pertences. Poderia dizer que ali está tudo o que têm, mas em verdade reflito que eles têm muito mais do que percebem. D’Artagnan eu chamo o quarto amigo que se junta a eles, um cara especial. O digníssimo hoje se superou. De alguma forma conseguiu uma caixa de som e, para a alegria de todos, o instrumento faz os homens cantarem e dançarem freneticamente. Estão todos acordados mais cedo do que o costume, talvez pelo êxtase da música. É uma festa open bar e não há seguranças para barrar a entrada de ninguém.

Não usam a máscara de proteção como todo o resto dos habitantes da terra brasilis. Não temem a morte, temem a falta da pinga. Eu os entendo, empatia que chama. Resolvi parar por um tempo para observá-los. Nomeei cada um, para o meu bel-prazer, segundo o instinto mordaz da filosofia. São, então, Platão e Sócrates e Diógenes e D’Artagnan, claro. Três mosqueteiros junto ao agregado.

Diógenes fica o tempo todo com a mão no saco, acariciando. Não o saco onde carrega as latinhas de alumínio que lhe rendem alguns trocados, mas o saco que acolhe as suas bolas. Ao se aproximar uma dama ele passa a se movimentar, as duas mãos ao vento, como em uma dança espiritual. Rodopia e sorri, absolutamente naufragado na bebida.

– Você quer dançar comigo? Procuro e não encontro alguém para dançar! – assim diz o galanteador, segurando uma dose de cachaça em uma mão e a bolsa escrotal na outra.

As mulheres desviam de Diógenes e seu perfume acre resultado da sereno ácido que o banha diariamente. Ele não desiste, parece um enorme predador, faminto por um tipo de carne que, sabe-se lá, já faz tempo que não degusta.

– Olá, que lindo dia, não? – Diógenes repete ao saltar em frente às mulheres que caminham por ali, agora com uma mão na barriga e outra no ar, ensaiando uma valsa.

Uma infância de negligência, pais que o trouxeram ao mundo e depois o abandonaram. Falta de um lar e de cuidados fizeram com que ele fosse morar nas ruas. Viveu entre sacos de lixo rasgados e cães imundos, acostumou-se a respirar fuligem e a comer migalhas. Apanhou sem motivo e sentiu as contrações da puberdade o empurrarem para o beco sem saída do desejo impossível de se consumar. Acordou de pau duro tantas vezes e nunca pôde usufruir daquela potência natural que Deus havia concedido, tão democraticamente, a todos os homens sobre a Terra, ricos ou pobres. Amargou talvez alguns abusos físicos por morar sobre os paralelepípedos. A confusão na fala sugere que também surfou sobre os paralelepípedos de crack. O dia e a noite nunca fizeram sentido, não havia um lençol para cobri-lo nem lábios para embalar o sono. O resultado é mais um miserável sem teto, produto do sistema atravessado que dá de ombros para os menos favorecidos. Essa teoria seria, geralmente, apresentada por um genérico analista social. Eu discordo.

Diógenes só pode ser de gêmeos. Porra, mas é claro. Os geminianos sofrem da tal síndrome do donjuanismo, uma necessidade compulsiva de seduzir o tempo todo. Amam o envolvimento sexual, mas dificilmente as emoções caminham junto com o sexo. Preferível é aquela sedução difícil, que envolve pessoas inacessíveis, comprometidas, casadas. Por um instante chego a imaginar que eu sou de gêmeos também. Não sou. Mas que caralho? O Diógenes contemporâneo vive na rua, não tem vergonha dos instintos selvagens que lhe batem à porta e vive buscando uma mulher honesta, esse crápula. Fosse ele de sagitário, aposto que não estaria em situação tão lamentável. Tarado, sem escrúpulos. De repente, sai de cena e se cobre com papelão em um canto. Eu sei o que ele está fazendo, todo mundo sabe o que ele está fazendo. O papel marrom sobe e desce constantemente. Como poderia seu apelido não ser Diógenes, o cínico? Como geminiano, ele teria grande futuro na cafetinagem.

Platão continua sentado na sarjeta, uma mão no queixo e a outra na cintura. Balança a cabeça, fala com o vento. Acaricia a barba e a brisa bagunça os cabelos encaracolados. Parece inconformado, sua testa franzida revela o desmantelo que se expande no coração. Ora se levanta, ora senta com as mão esticadas para trás. O sapato esquerdo não é do seu tamanho, os dedos ficam para fora por um furo na dianteira. Gesticula com um poste de luz, parecendo dar uma lição aos espíritos que deve enxergar. Tudo o que sai de sua boca é em volume baixo, inaudível para mim que estou à distância. Então, subitamente, ele exclama em alto e bom som:

– OUÇAM! EU TRAGO A VERDADE E COM ELA PODEMOS ALCANÇAR A LIBERDADE!

Deve tragar outra coisa, o safado – pensei. Parece ter fugido de um hospital psiquiátrico, em plena madrugada pulando o muro. Não lhe interessa os carros que raspam o asfalto, não lhe interessa os pássaros sobre os fios de alta tensão, não lhe interessa o vírus tampouco suas variantes, não lhe interessa se há abrigo contra a chuva, não lhe interessa o preço da cesta básica. A ele interessa a salvação. Platão murmura e eu me achego. Estou curioso sobre as filosofias que o homem de feição ancestral tem a compartilhar.

– Ei, chegado, isso tudo aqui, a existência terrena como conhecemos, é passageira. Semeamos aqui, podemos até acabar colhendo uma ilusão ou outra, mas importante é a safra no outro plano. Bendito o mundo da paz e bonança que nos espera, os homens conscientes. Alguém realmente se importa com essa vida mundana? Ai de mim se não alimentar a boa fé. Devemos nos apegar a tudo o que ainda está por vir. Ei, chegado, sirva mais um pouco de bebida para mim? – assim filosofou o moralista.

Platão repetia à torto e à direito o que bem entendia e se dirigia ao tal “chegado” e pedia mais álcool. Fazia tudo isso olhando para o lado oposto de onde eu estava, ou seja, havia mais alguma alma por ali, uma alma hipotética para mim, mas romântica para o idealista. 

– Justiça, oh Senhor! – elevou as mãos aos céus, uma delas segurando o copo meio vazio, em clamor comovente – Não sou digno de ti!

Peça de museu aquele tipo. Se eu fosse ao manicômio municipal haveria de encontrar seu nome na lista de desertores. Ser maluco é uma vocação, alguns a alimentam com drogas ilícitas ou não, outros com a neurose abundante que parece permear insistentemente a sanidade. Será ele um desiludido que sofreu um mal súbito e disse adeus ao bom senso? Alguém o abandonou no altar? Alguém o chifrou? Sofreria ele de problemas de ereção? Qual é o grande porquê por trás daqueles fios de cabelo faciais? Um típico libriano, eis o quê. Ares de inocência ladeiam aquela cabeça confusa, eu sei. Equilibrado e idealista e justo, inverossímil. Romântico, dá a entender que seus ideais são os de que todos deveriam viver na rua e não o contrário. Está a um passo de se tornar pastor, porque em línguas ele já fala. Eu não sei se ele é de libra mesmo ou se é só teimoso. Desaguou na embriaguez da vida. Lógico, deram a opção dele ou estudar ou beber. Ficou em dúvida (coisa de libriano) e o trem passou. Restou os litrões. Refleti que os signos, essa beirada do senso comum, podem ser úteis para explicar a vida dos fracassados. É muito conveniente explicar o sucesso de um CEO porque ele é de áries. Quer poder, impõe autoridade e etc. Ousado é analisar, sob a ótica do zodíaco, o grande sofrimento do mundo. Danem-se os bem sucedidos, o que fascina é a tragédia!

Vejam Sócrates, por exemplo. O rosto inchado, vermelho, coalhado na manguaça. Dos olhos correm lágrimas e do canto da boca a baba escorrega solta.

– Ela me deixou, mas eu só tinha amor por ela! Todos me abandonaram! Minha família não me quis mais! – soluçava e repetia esse mantra abraçado a uma garrafa de aguardente 51. – Eu tinha um filho, dois filhos!

– O que houve, camarada? Morreram? – não me aguentei e dirigi a pergunta ao grande lamentador.

– Não materialmente. Afastaram os dois de mim, acusaram-me de corrompê-los. De corrompê-los! Logo eu, um pai amoroso que só queria lhes ensinar o valor do que é belo. Queria que conhecessem a si mesmos, queria que acreditassem.

– No quê, homem? – interessei-me pelo discurso.

– Nas virtudes! Na prática – ic! – das virtudes. Ações e não palavras. Agir! Porra, eu os levei para a zona… queria que experimentassem algumas coisinhas…

Que figura! Estava quase acreditando que deveria ser canonizado quando, entre um soluço e outro, ele soltou aquela pérola. O tom de sua voz era tão triste que comovia. Qual seria a grande virtude? Deve ter frequentado a escola, ter sido o primeiro da classe. Acho que acabou na rua por desgosto. Sabe usar as palavras, mas não duvidem: a verdade é uma só. Ai de confundirem-no com os sofistas, aqueles crápulas prolixos.

Sócrates, meu amigo, por que será que todos o deixaram? Terá sido a bebida o grande problema? Os maus hábitos de um adicto ou a flagrante falta de limites em ser um chorão desgraçado? Puteiro e canja de galinha, com parcimônia, nunca fez mal a ninguém. Acabei de inventar isso, mas quem se importa? Ninguém te aguenta, canceriano de uma figa! Reclamar é a sua segunda profissão, a primeira é galgar o grande trono de rei do drama. Acho que é por isso que o dono da venda dá garrafas de graça para ele, para simplesmente evitar o chororô. Enquanto conversávamos, o sr. Jair veio e entregou uma garrafa novinha em folha de conhaque de alcatrão.

– Esse daí tem história, viu? Parece que ele já esteve até na faculdade – disse o botequeiro.

Faculdade da vida, meu caro. Fácil de entrar e difícil de sair.

D’Artagnan não deve viver em tempo integral na rua. Está um pouco mais bem vestido que os demais e tem a barba feita. Serve uma dose de cachaça junto aos amigos em seu copo descartável e a bebe olhando para um pequeno espelho afixado na traseira do carrinho de compras que transporta os bens pessoais da trupe. Vaidoso, megalomaníaco com sua caixa de som colorida. Ele se acha o máximo, um líder natural. Os outros o acham um perfeito idiota. Leonino, é óbvio! Fala pouco, mas fica sorrindo. Sente que faz parte da bagunça só durante a farra, nunca se mantém sob o luar como os demais. Seu lugar é algum cômodo protegido dos temores trevosos das esquinas mal frequentadas. A prepotência é tão grande que se pode cogitar, sem medo de errar, que ele precisará de dois caixões quando morrer. Um para ele, outro para o ego. Seria um bom ditador, capaz de dar ordens as quais, claramente, não tem competência nenhuma para executar por si só. Pensando nisso lembrei: qual será o signo do presidente da república?

Platão, Sócrates, Diógenes e D’Artagnan, quatro exemplares da justiça astrológica. Sofrem com a impiedosa dança dos astros. Pergunto aos céus: esses filósofos do asfalto assumiram em algum momento as consequências dos caminhos escolhidos ou se vitimizaram e apontaram diferentes culpados? Ignoraram a revisão e reflexão que era necessária. Entraram em rota de colisão com Saturno retrógrado e são a prova cabal de como os astros não destilam misericórdia. Devem continuar a catar latinhas, os três ou quatro, enquanto não analisarem seus quadrantes astrais. Horóscopo até que faz sentido agora. Pensei na velha e cheguei a conclusão de que ela deve ter feito seu mapa astral em algum momento da vida. Por isso tem casa, uma cadeira e cajus.

Um conto de Boston – parte 2

Parece que há grande prazer no jogo das migalhas jogadas ao léu. Passou-se uma semana, a sexta-feira chegou, e havia mais um papel dobrado sobre o banco que dá para os trilhos da estação ferroviária norte de Boston. O local era o mesmo, a minha surpresa foi a mesma. Outro recibo semanal, um resumo da jornada de um alguém que eu sequer sei se me observa à distância. Não posso manter para mim estas palavras que seguem. Se guardasse ou jogasse fora, daria no mesmo, mataria a história por omissão. Algo me sussurra a necessidade de compartilhar a voz alheia. O antes despretensioso papel dobrado agora tinha apresentação:

“A quem interessar possa…

Começo me redimindo da deselegância. Garanto que não derrubarei comida nenhuma sobre esta folha. Quando era mais novo, meu irmão me ensinou um truque para conferir mais idade a uma carta. Você derrama chá mate sobre a página e depois queima levemente as bordas a fim de conferir um aspecto ancestral ao papel. O chá dá um tom amarelado de coisa antiga. Meu pai é já um senhor de idade, mas não é pela cor que entrega a idade. É antigo, mas não é amarelo, é branquinho. Não cora as bochechas nem quando mente ou quando fala umas sem-vergonhices. Senhor do bem, velhinho dos bons. Se tem um fato que me dá uma ardente alegria, esse é o do meu genitor não se conformar com a minha escrita. Onde ele procura romance e rimas fesceninas tem encontrado relatos crus do dia-a-dia. Daí ele me presenteou antes de ontem. Disse que o tripé por onde se equilibra o meu pensamento é formado por mordacidade, ironia e cinismo! Pater Deo, meu pai que é deus!

Faz um frio danado hoje. Semana passada o termômetro marcava -1,1°C, hoje está em -4,4°C. Será que dá sorte esses números repetidos? Sorte para o cara que vende luvas na entrada da estação, sem sombra de dúvida. Eu contei para o terapeuta que tinha ganhado tais elogios do meu pai e ele provocou se ironia e cinismo não eram a mesma coisa. Respondi verbalmente que não, balançando a cabeça de cima a baixo demonstrando “sim”. Cinismo é a doutrina filosófica grega que estabelece as vantagens de uma vida simples e natural, cujos valores principais eram buscados no desapego às normas sociais, bens e riquezas, sendo efetivada através do autocontrole. Cínico, portanto, é quem demonstra desprezo pelas normas sociais ou pela moral estabelecida; atrevimento, descaramento, despudor.

Reparei há pouco que duas verdades hão de se perpetuar ad eternum: o açúcar é uma coisa que deixa o café muito amargo quando nele não é posto e que a situação no Brasil é grave, mas não é séria.

A vida aqui nos Estados Unidos é tranquila com pitadas de alerta, mas os perigos são outros. Na terra do tio Sam há os assassinos em série, uma gente que sofre de patologias da psique e que põe em prática atos violentos contra outros humanos ou animais. Mês passado executaram um tal de Ted Bundy, o cara era um facínora. Fritaram o cara na cadeira elétrica. No Brasil a gente não sofre desses medos, mas, por outro lado, parece que às vezes somos comandados por psicopatas referendados pelo próprio povo. É cada uma. A vida não é de brincadeira, embora possa ser muito divertida. O que confunde é que costumamos levar farra a sério e o que é importante na piada. No último sábado, resolvi mimetizar os grandes escritores da sarjeta e tomei um porre com requintes de romance. Bebi todo vinho que comprei, três litros, e fumei dois maços de cigarro na companhia de duas atraentes damas. Uma delas era loira e de baixa estatura, a outra de longos cabelos negros e quase da minha altura. Eu tenho um metro e noventa centímetros, ela 1,85. A baixinha era um pedaço de mau caminho, a outra era o caminho inteiro. Encontrei-as na mesa ao lado e levantei a minha taça em um brinde simpático. Sentamos juntos e não nos apresentamos. Tombo as palavras sobre este papel sem poder dar-lhes nome ainda que as tenha carregado em lembranças vívidas sobre o tecido vermelho que me recobre os lábios. Ao me dirigir à mesa vizinha, afastei a terceira e vazia cadeira e estendi minha mão dizendo boa noite. Sem que se levantassem, cada uma me puxou e me beijou na boca. Fiquei entusiasmado. Elas tinham um sotaque diferente, mas a embriaguez compromete a lembrança da nacionalidade. Devem ser russas, eles beijam na boca por lá ao se cumprimentarem, eu acho. Não faço ideia, tampouco importa, não tenho planos de visitar o leste europeu tão cedo. Uma pena. Conheci uma russa uma vez, eu amava conversar com ela. Ouvia, ouvia e ouvia. Ávida por beber do meu conhecimento, modéstia à parte, que nutro com longos goles nas fontes imortais dos gregos aos contemporâneos. Até que um dia lhe perguntei sobre um assunto tal: “o que você acha disso?” Ela respondeu “até que enfim você quer saber a minha opinião sobre algo”. Aquilo foi um banho de sabedoria, não a opinião em questão sobre um determinado assunto, mas a lição de que eu a deveria ouvir também. Desci do meu degrau de orador intocável e aprendi mais com ela, que tinha extenso tesouro intelectual guardado dentro da mente. Já no sábado, bêbados e tresloucados, a conversa foi outra. Em dado momento, uma delas passou a querer divagar sobre assuntos que ela não conhecia, mas eu sim. Calei. Era um suplício e eu estava fumando cigarros. Eu não fumo cigarros. Quis impressionar. Já se foram seis dias desde aquele encontro e eu continuo a tossir feito cachorro. Será que os cães satirizam uns aos outros dizendo que estão com tosse de humano? A necessidade de expressão da moça era tanto que não aguentei, remanejei o tema. Ela insistia. Recusei a réplica, ela se ofendeu. Bebi o último trago, saudei as donzelas e parti. Contei para o terapeuta e ele fez o que faz de melhor, desnudar as minhas inconsistências prático-teóricas. Que grande filho da puta. Eu ou ele? Os dois. Fiquei vulnerável, logo eu. Todo tolo gosta de ouvir que é importante. Eu prefiro os insultos, são mais palpáveis.

Será que alguém encontrou a carta que deixei aqui, neste mesmo banco, há sete dias? Será que foi parar no lixo? Observo os transeuntes e eles parecem muito distantes. Não como os meus parentes que estão separados por milhares de quilômetros geográficos, mas afastados em presença. Alguns parentes são ótimos justamente à distância, mas um fracasso na convivência próxima. Os usuários do trem olham com estranheza o chumaço de papel e a garrafa de café que levo a tiracolo. Desde que li um tal filósofo indagar “devo tomar café ou me matar?”, agarrei-me ao filtrado. Talvez soe inocente, mas é científico: há de se estar vivo para beber café. Puta sacada. Ainda assim, escrevo a eles, com eles, por eles. Quiçá sou lido, com certeza preterido. Bukowski tem me matado, por fora. Por dentro, enche de ganas para registrar acontecimentos. Externamente, faz com que eu sinta glamour no álcool e no cigarro. Preciso de um xarope – ah! Que saudade da água de coco do Brasil! O café acabou e o nariz começou a escorrer. Finalizo com efusivas saudações ao primeiro que percorrer estas linhas, mesmo que sejam os micróbios que habitam os latões de despejo reciclável. Escrevo para todos e para ninguém.”