Choo Choo

O corpo oscilava. Quando o metrô parava, ela inclinava à direita e tirava um pezinho do chão para se equilibrar. As portas se abriam, uns tantos entravam e outros saíam na promiscuidade dos viajantes urbanos que cavalgam trilhos e mantêm o silêncio. Vagões cheios que se esvaziam e vagões vazios que dão medo. Na fricção das ferrovias emulam o clímax ao chegar lá, ou aqui, sempre em um constante diverso de onde embarcaram. Empresários, iniciantes, putas, mendigos, donas de casa e analistas de sistema. Telefones com dados e a sorte esquecida no travesseiro. Quando dormem, os cidadãos deixam de fazer e são feitos. São um, são dois, são cem. O submundo da cidade grande, o literal universo que existe sob o asfalto, é um terreno democrático porque custa três e uns trocados ou coisa que o valha. E há quem não pode pagar, mas mesmo assim está lá porque pular a catraca é um ato revolucionário. Santas panturrilhas.

O pescoço da garota, duro como os julgos morais que martelavam o pensamento inquieto de uma mente proletária, resistia aos sacolejos. Ela precisava de massagem na carne, mas tudo o que andava conseguindo era no ego. Ao partir, o trem a fazia tombar para a esquerda porque o progresso e o progressismo têm dessas coisas, um desarranjo aqui, um rompimento com o status quo ali, uma quebra da inércia que é mais fácil de sentir que de explicar, imagina de fazer. Sexo, casamento, tempo de vôo entre Nova Iorque e Los Angeles, salário mínimo, por que diabos o Wagner Moura aceitou fazer o tributo ao Legião Urbana? A moça alimentava pensamentos com uma tal liberdade que só a privacidade garante. Viu então uma outra mulher – ou homem, não estava claro e ninguém se importa – que tinha cabelos tão longos que alcançavam as costas do joelho. Quão difícil deve ser para que aquela pessoa use a privada? – pensou. Uma cabecinha paradisíaca como uma ilha, se pequena em diâmetro, larga em maravilhas. Em suas narinas entravam todos os cheiros do mundo, das fragrâncias de bergamota ao chorume das ratazanas da rede de esgoto. A garota batucava com os dedos contra o assento laranja e respirava fundo. Um dia aquilo tudo seria memória, lição de vida, ou quem sabe um arrependimento. Quantos casamentos ela já havia recusado, quantos rapazolas de cabelos longos haviam prometido os confortos de salas de estar bem decoradas? Não era daquelas que aceitam as submissões exigidas para o cargo, ainda que existam inúmeras plantas para decorar os apartamentos à beira-mar. Não era uma dama decorativa. Falo de uma mulher em plena posse de suas errâncias e independências, ao ponto da recusa aos tribunais e confiança nos amanhãs. Vai para a cama só ou acompanhada, nunca insegura.

Um cara em pé lia um livro qualquer na tela do celular e um senhor idoso, corcunda, pedia contribuições voluntárias para que ele não morresse de fome. Na sociedade dos excluídos, na linha temporal dos que sobrevivem ao preço das suas horas, tudo tem preço mas nada tem sentido. Os momentos contam como séculos.

A garota tinha olheiras como todos têm, mas ela não as escondia. Seu único rabo preso era o de cavalo. Na grande maçã todos dormem pouco e cospem muito. Cigarros, tragos, fluidos pegajosos. Os prazeres da vida parecem se resumir em coisas que não são permanentes. Ela pensava em quando começar a ter coragem. Aquele livro, o diário, a luta de espadas contra o dragão invisível da letargia. Uma sirene sempre soa ao fundo quando ela caminha pelas ruas cinzas da metrópole dos tumultos controlados. Há tanto barulho em sua mente que os trens e seus gritos de metal já não conseguem atrapalhar os processos internos. Falta uma buzina dentro de sua cabeça, um alarme, um som de alerta que a obrigue ao susto. Viver não com receio, mas em alerta de prontidão, sentinela para a ação voluntária. Há momentos em que ela se vê amarrada, imóvel, vendo a locomotiva se aproximar sobre si mesma. A garota então pisca e chacoalha a cabeça e volta a si. Não há muito espaço para divagações quando falta sete estações até o seu destino. Ela ainda não ama o que lhe acontece porque ninguém a ensinou a tanto. Reclama em breves arroubos de insatisfação, como foi acostumada. Não por menor paixão pelo otimismo, mas por hábito de despertar compaixão alheia ela lamenta à espera de esmolas afetivas. Nas megalópoles dos deuses financeiros ninguém se importa com nada além dos dígitos antes da vírgula.

Eis que uma outra mulher adentra a lata metroviária e se senta à frente da garota exausta. Era jovem como ela, usava uma blusa que cobria apenas o tronco e exibia seus braços embranquecidos. Tinha traços de ascendência nativa, talvez indígena ou cabocla ou o que fosse, mas a candura de sua pele denunciava uma vida em clausura de um escritório qualquer, acarpetado e frio onde telefones tocam e galões d’água borbulham. Cabelos cacheados e um semblante confuso, Mona Lisa que combinaria com um acordeon e danças circulares. Tinha os tênis desamarrados, ela queria tropeçar, talvez cair de boca. Elas se reparam muito além do que olhos viciados estão habituados a enxergar. Onde há cores elas compreendem dores e onde há oleosidade elas sabem que há verdade. As fêmeas de uma grande tribo urbana que não sabe uivar mas sabe ir à caça. Encaram-se com curiosidade de eras e ímpeto de poucos. Mulheres, milhares delas que nasceram, reproduziram-se e morreram. Cuidadoras, provedoras, resilientes lagartas que se tornam borboletas apesar dos pesares. Estavam reencontradas, após desconhecidos paradeiros temporais. Quiçá foram contemporâneas em um Egito Antigo ou operárias de alguma revolução industrial. A garota cansada ainda batucava com os dedos enquanto a mulher de braços de fora sacou um bloco de notas e passou a esboçar linhas sobre a sua semelhante. Um lápis amarelo e curto corria a folha também amarela que ela apoiava sobre a coxa esquerda. Um instante anêmico e trivial. Faltava maconha, faltava uma sala com tapetes para que elas pudessem deitar e divagar. Um pandeiro preguiçoso, chá de hortelã, arte sem preocupação. Não havia sorriso aparente, mas havia uma empatia radical. A garota cansada mexeu no próprio cabelo com a mão direita e o gesto despertou algum apetite na outra mulher. Lábios que mordiam, sugestões telepáticas, frestas úmidas que jamais seriam visitadas. Não era possível distinguir se a mulher escrevia ou desenhava, mas era certo que a descrevia em traços toscos. A ponta de carbono a desejava com a mesma velocidade que o trem desenvolvia pelos corredores escuros do labirinto subterrâneo da capital. Cada risco soava mais alto que o último e os bicos dos seios da garota cansada se enrijeciam como o lápis que sentia o suor dos dedos da mulher ousada. Contemplavam a arte alheia, estética ou literária ou plástica ou descabida. Habitam um universo fantasioso onde se ouve o xilofone e onde os rios têm a cor laranja e a chuva é espumante. Mimosas, moçoilas, Marias, maravilhosas, melódicas, meladas e milenares.

Ela poderia ser minha, ela poderia ser do meu amigo, ela poderia estar junto comigo e com o meu amigo. Nós poderíamos ser centenas em um espaço só – assim se justificava a simulação impetuosa da garota. Registraram fotografias uma da outra, na memória do celular também. Tudo o que havia de cretino no mundo as rodeava. Os sujeitos fugazes com roupas de marca cara, as donzelas desatentas que espetam o próximo com suas unhas quilométricas. O trem parou e alguns saltaram e elas ficaram sozinhas. A garota cansada sentiu que era hora e sorriu. A mulher então guardou seu bloco de notas, levantou-se e também partiu. Sozinha, a garota finalmente pôde aceitar o cansaço e a solidão e os minutos que restavam até a sua estação. Recostou a cabeça na janela, colocou os fones de ouvido e fechou os olhos. Tocava Lisa Stanfield – All around the world.

Um conto de Boston – parte 9

Uma constatação terrível me arranha o pensar. Talvez – veja lá a cautela – talvez o meu prodigioso escrevinhador sofra de melancolismo. Não sou nenhum especialista, mas as evidências borbulham a cada linha e esse papel parece gotejar o pranto de um amor claudicante. O homem que se esforça por condicionar os impulsos destrutivos consegue, além da melhora em seus relacionamentos interpessoais, fermentar um tal ácido mosto de coisa infeliz. Vê-se que o artista passa por uma alteração em estilo, tema e eloquência. Faz tempo? Não, foi resentment.

Oh, único encanto meu! Oh, tormento insuperável! Oh, jovem besta de presas indecorosas! Oh, espelho do céu!

Eis aqui o teu bardo. O monstro teu. O princípio e o fim das tuas noites de passos leves. O teu lugar comum, o teu professor maldito.

Minha quimera és tu, o píncaro onde habitas é meu lar, no entanto parece que não posso outra coisa senão dormir aos pés do grande portão. Não sou bem vindo. Vives entre aqueles que me repudiam. Só em sonhos, só e em sonhos. Só. Eu, sozinho. Solitário em cenas abstratas que se projetam em um sono profundo. Tu me encontras em quinas de corredores longos e sempre há passos ao fundo. Alguém nos persegue. Olá, adeus. Flutuas e então somes. Só me resta correr. O abismo que persegue deseja meu sangue. Sei que o algoz deseja pintar as paredes com meu sangue e expôr minha cabeça como troféu. Oh, angústia de mim!

Mas, eu quem sou? O que me identifica, oh musa alcançada? Já me foge a tenra verdade. Vivi e cresci e me reproduzi, veja, apenas em ideias. Morri, meu amor, morri de dor mordível. Desencarnei a dentadas. Qual sorte fosse engolido, porém a sorte não passara de uma simples hóspede. Foi-se, fui-me, fomos. De fato, só a lamúria. Mastigaste e me cuspiste, mas não te enojes da palavra minha. Sei bem, sou intragável.

Este é o anúncio, grande anúncio, do fim do estado comatoso. É findo o silêncio de milênios. Oh, danação da consciência! Aquele que acorda é aquele que sofre. Impiedoso paradoxo da vida é este: condena-se à dor quem atreve o amor.

Quais palavras conseguem preencher o vão destes corpos que voam afastados?

Um, dois, três. Prole que te dá vida. Um, dois, três, mas é tu que dá à luz. Setembro é o teu mês. Mas, a gosto da luz, nasceste em um tal dezenove de março. Podem teus olhos ateus lembrar? Recorda a memória da pele tua? Que perdoe a mim o qual Deus, mas brotaste como é devido aos implumes deste mundo e hei de dizer: estavas nua. Navegamos, tu em margens e eu em corredeiras. Que absurdo, que grande absurdo.

No princípio, era dia.

No fim, era noite.

Sabes, benzinho. Não falo do tempo senão das nossas almas. Sobrevivemos ao crepúsculo e habitamos as sombras.

Oh, agonia de nós!

Diabos reinantes em inferno próprio. Que assim se conte sobre a fábula dos nefelibatas. Distraídos, pensam que ocupar as nuvens garante divindade.

Às vezes.

Quieta, tu! Escuta o silêncio. Todo o arrependimento.

Aprontávamos quando os ponteiros entardeciam. A mim parece que fiquei cego ao despertar. Na linha do tempo, deste espaço curto de tempo, vivemos horas de paixão não obstante os minutos de aridez. Deserto de euforia. Oásis, tu em esplendor. No sertão, mais que cansaço, o que derruba é a sede.

Nem os bares me curaram. Nem as mini saias, nem as praias, nem os porres.

Reverberam os rufos de uma alvorada. Na sarjeta, em alcova, nos ares ou nos mares, o Sol se alevanta também para todos.

Bendita seja a revoada das andorinhas. Várias delas, porque há de haver. Verão.

O transplante

– Meu filho, a pá está aí atrás de você encostada na parede – ele disse.

– É pequena, pai, mas dá pro gasto – eu disse.

– Vai precisar de mais alguma coisa?

– Que você traga uma dose de cachaça generosa enquanto eu faço o transplante.

– Essa é fácil!

Ausentou-se o meu pai do quintal de grama alta em busca da aguardente dourada. Fui de joelhos ao chão e medi com a mão as distâncias de raio do pequeno broto de goiabeira que brotava do solo em um canto que não lhe seria favorável no porvir. A vizinhança de grevilhas robustas dava, embora fonte segura de matéria-prima para bengalas, pouco espaço para o viço que se esperava da árvore que haveria de vingar. Meu pai voltou com a taça na mão, cheia e transbordando, a derramar sobre uma mão trêmula. O sol daquela manhã fazia jus ao título. Marquei o ponto aonde se destinaria a árvore da esperança de geléias melhores. Penetrei a terra úmida com estocadas firmes e únicas e paralelas até formar um círculo irregular. Folgazei o solo e vi o buraco nascer de uma só içada. A grama das cercanias recebeu o descarte.

– Aqui, meu filho, beba – disse ele.

Fitei-o nos olhos sob a aba do chapéu panamá que lhe protegia a testa alva. Ele sorria ao me entregar o cálice. Sorvi o líquido com satisfação. Enxuguei a testa com o dorso da mão direita que já se encontrava enlameada. Assim ficou a minha fronte, ornada pelo vermelho terroso.

– À sombra dos galhos da jurubeba? Assim está bem para a goiabeira, pai?

– Sim, vou podar os galhos em breve, inclusive.

– Tem jurubeba em conserva para um franguinho? – perguntei.

– Ô, mas é claro! – entusiasmou-se.

Engatinhei até a pequenina árvore. Repeti o procedimento de afundar a ponta da ferramenta em volta da planta, porém desta vez com ainda maior alcance das profundezas. Não podia deixar a raiz ser maculada.

– É agora, já posso executar a cirurgia – anunciei, de costas, ao único espectador.

– Calma, tome outro gole.

Tomei. Sujei as paredes da pequena taça bojuda. Do lado de fora, terra; dentro, as lágrimas persistentes da bebida de oleosidade equilibrada. Levantei o punhado de chão sustentando-o, atento, pela face côncava da pá enferrujada. Ele se sacudiu em celebração. Assistiu ao movimento destro com o pescoço espichado. Num só volteio assentei o vegetal.

– Bravo! – disse ao bater a palma da mão contra o antebraço oposto, uma vez que tinha um copo na mão.

Suturei a área e fechei o buraco vazio com o que sobrara das raspagens e virei o resto da cachaça. Estava coberto de suor e o barro ensaboava as mãos.

– Agora você vai ver, vou regá-la diariamente e vamos ter muita goiaba para comer daqui a um ano. Vou fazer doce de goiaba, vai ser aquela farra. Janeiro de 2022 promete!

De fato, ele mantém o zelo de um sultão por todo o jardim e cuida da goiabeira como se fosse uma de suas esposas. Na última ligação, contou-me que a arvorezinha cresceu e já bate no umbigo.

Saí feliz porque adoro goiabada cascão e adoro passar férias na casa dele e – por que negar? – sabia que ele não alimentava a fé nas minhas habilidades de jardineiro.

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Há formigas por todos os lados e elas parecem não conhecer nada além do mantra “a rainha tem fome, a rainha guia a colônia”. Nunca tinham me perturbado as operárias, até semana passada. Há uma evolução carbo-hidratada que se dá em mim e parece que estou virando mocinha. Antes, só vivia da fotossíntese e da contemplação dos pássaros que pousam hora ou outra por aqui. O limoeiro à minha esquerda sempre foi o rei do quintal. O tempo todo lhe assaltam os galhos e levam os frutos com uma leve torcida no pedúnculo. Quantos não vi serem fatiados, esmagados, soterrados em açúcar e depois afogados em um tal líquido transparente? Inúmeros. Só sei que, após ingerir essa bebida, todos ficam alegres. Dançam e riem. Nunca ninguém despejou nada do tipo em mim, mas de vez em quando algum desavisado alivia a água do joelho por aqui. Um horror.

Desde há pouco, as minhas estruturas entraram em mutação e meus ramos se alongaram ao passo que senti maior volume a percorrer as vias aferentes. O Sol é generoso, muito embora as noites esfriem quando o céu se faz em negrume estável e duradouro. Fui transferida de posição aqui no quintal quando ainda era pequenina, pelo filho do senhor que me rega todos os dias. Ele despeja água só quando o sol já não arde em brasa, para não me queimar as folhas. Velhinho sabido. Quando houve o ataque impiedoso de uma praga na folhagem ele logo reagiu. Despejou um preparado qualquer de coisas, dentre as quais tabaco. Reconheci porque já fui fumante em alguma vida passada. Tossi e senti prazer pelo fumo. Só que não deu conta dos pulgões e ele teve que usar veneno. Não tenho opinião formada sobre o assunto, afinal, sou uma planta agora.

No dia que me transplantou, seu filho cuidou com todo esmero do meu corpo e o fez com paciência. Guardei a imagem de seu pai, ao fundo, sorrindo durante todo o tempo com orgulho do feito. Acredito que alimenta grande admiração pelo rapaz. Antes de ir embora, naquela tarde ainda, o rapaz voltou e me beijou nas folhas e na base. Balbuciou com a voz embargada “cresça forte, goiabeirinha, para fazer companhia ao meu pai”.

Não que tenha outra opção, mas tomei por bem levar aquilo a sério. Em franco desenvolvimento, sinto que vou na pujança de dias melhores inspirada pelo futuro que me aguarda. Alimentarei a família, as aves que aqui gorjeiam e a própria terra que me cerca, no fertilizar contínuo que as goiabas caídas hão de promover com suas sementes expostas ao solo hirsuto que hoje me sustenta. Locupletemo-nos.

Desobediência servil

Tem coisas que não se conta para ninguém, mas se descreve em detalhes.

O ambiente de trabalho e suas paredes de confinamento silencioso, as correntes da escravidão financeira, as alterações hormonais que se dão espontaneamente, a confissão anônima da proletária que digladia com as horas esparsas por um salário apequenado. 

Era uma outra tarde inexpressiva, sob a luz artificial do shopping center que recebia as madames de sempre e os príncipes de nunca. O ar condicionado a resfriar-lhe a cútis e o tédio a afugentar a esperança. Rompiam quatorze horas do dia e a hora de saída, da almejada troca de turno, parecia uma famigerada utopia. Passavam as mães de mãos dadas com os filhos e homens desatentos a tropeçar enquanto usavam seus smartphones.

No balcão dela ninguém se debruçava e o telefone sobre ele havia tocado, a última vez, lá pelas 10 da manhã.

Era um retumbante abismo de desinteresse. O colosso do enfado ocupacional.

A atendente, além do trabalho de meio período, ainda ajudava nas tarefas domésticas. O que mais ela poderia fazer? O que mais ela poderia querer? Pais conservadores, resignados na palavra do santíssimo. Às vezes, ela suspeitava que seu pai escapava da estrada do matrimônio. E era uma derrapada de ré. Do que mais ela poderia duvidar? Com o tique-taque insistente, ela planejava o que seria da noite. Seria sopa outra vez? Após a refeição, lavava os pratos e saía para andar com o cachorro, esse era o truque para se encontrar com aquele sujeito estranho que veio de algum lugar que não se recorda mais. A amnésia repentina é uma grande aliada para uma vida feliz. Ela não dava grande importância, afinal, ele não a tratava como deveria. O rapaz tinha a mão pesada para aplicar tapas na sua bunda, mas uma língua débil que não lhe garantia prazer. Voltava com as nádegas vermelhas quase a sangrar e com um vazio no peito do clímax não alcançado. Não era amor, tampouco paixão. Ela tão somente satisfazia a carne com um homem postiço que, por ora (e como é de praxe no universo masculino), não lhe negava fogo.

O último encontro havia sido decepcionante e só de lembrar já lhe ocorria uma sensação angustiante de dúvida: será que seria assim de novo? Será que continuaria a ver navios enquanto o seu permaneceria encalhado? 

Acontece que os homens, a maioria, tendem a, quando já acostumados ao terreno, minimizar suas potências no campo de batalha.

Antes, o repertório completo era:

O sujeito a fazia gozar. Gozava depois. Tinha repeteco. Ficavam abraçados e de chamego.

Mas, com o passar do tempo, o macho começa a se acomodar. Preguiça ou falta de vontade? Enquanto isso, afundam-se as mulheres na areia movediça do desamparo.

E ela era uma mulher comum. Todas são. Os homens todos são comuns também. Ninguém é especial e nem um pouco não-especial. As pessoas são um grande conjunto de organismos iguais que necessitam de ar para respirar e comida para gerar energia e água para equilibrar e orgasmos para viver. Somos idênticos no pressuposto do êxtase fundamental, acontece que alguns passam por doutrinação negacionista e daí…

Franzina, a donzela de pernas finas entrega a devassidão nos trejeitos safados que se camuflam em brincadeiras. Está sempre a provocar com sutileza, está sempre a um passo de se embebedar nos pecados. Seus braços finos foram um dia comparados, por ela mesma, com um membro viril e duro.

Será que o seu é da mesma grossura que o meu?

Embriagada ela se veste da sua melhor versão. O corpo todo reluz em tom acetinado, meio caminho entre o branco das nuvens e o bege do trigo virgem. Fosse uma bebida, seria a cerveja Weiss, refrescante e com sabor de cravo, envolvente, com uma cor amarela intensa e nada translúcida, é claro. O corpo da bebida esconde seus mistérios. A mais pura idealização da castidade, essa mulher esconde um imenso apetite sexual que a persegue durante o horário de serviço. Basta vestir o uniforme, observar os visitantes do centro comercial e pronto. Sua mente viaja sem amarras, visita os campos proibidos que ela tanto sonha em conhecer e as coisas das quais fora privada durante toda uma vida. Quer se lambuzar, algum dia, se assim o destino lhe permitir. É aquele tipo de par perfeito que obriga o colchão a ser virado após horas sobre ele, a fim de que seque o suor da selvageria.

A frustração da última noite medíocre lhe causava um quê de má vontade em relação a encontrá-lo novamente. Suspirava em desmantelo. Era melhor não pensar muito nisso, tinha eventuais clientes a atender e não queria ser obrigada a disfarçar um sorriso amarelo.

A garota tem os dentes da frente separados e, segundo uma ancestral filosofia, é esse o indicativo da mais avassaladora tormenta sexual em uma mulher.

Ela, tomada pelo calor de um gozo represado e ansiosa por entreter-se, conformou o cotovelo sobre o balcão e os quadris no desconforto de um banco alto. Segurava o queixo com a mão direita.

O tempo indelével trouxe uma jovem mulher, loira e de coxas firmes, quadris estreitos e bunda empinada, a desfilar em sua frente. A beldade estava acompanhada.

A solitária vendedora, de pronto se acendeu em rebolados. Pôs-se a cobiçar o dorso de dois corpos que se colocavam entre uma dada vitrine e ela que, por sua vez, continuava encarcerada no quiosque de vendas. Aquela ilha onde habitava uma náufraga da luxúria.

O casal não sabia, mas conseguira fazer sua mente desocupada começar a trabalhar. Um milagre. Se faltavam consumidores, por outro lado uma chama a consumia pelo estômago e fazia a virilha esquentar e o vão entre-coxas umedecer.

Seus pensamentos foram rapidamente multiplicando:

Como será que eles transam? O que será que ele faz nela? Ela tem cara de quem goza regularmente. Será que eles realizam fantasias? Será que eu devo realizar as minhas enquanto há tempo? Será que eu quero ser um casal ou ficar solteira?

Inundada pelo furor de um sentimento despudorado, a vontade lhe perturbou o juízo. Pôs-se a imaginar a carne rude daquele homem a penetrar o talho rosado da sua mulher. Involuntariamente, todo o caminhar era fascinante. O balanço dos glúteos alheios sequestrava o que havia de restante autocontrole na heroína trabalhadora.

Passeavam com seus músculos apertados contra o tecido da roupa chamativa. As silhuetas revelavam a proeminência dos seios, o volume do caralho. Contornos iluminados que serviam de inspiração para uma comum atendente. Não se conteve. A operária dera vazão à sua libido, desabotoara a calça jeans e deslizara alguns dedos dentro da calcinha. Tocava-se e introduzia o dedo médio para averiguar o seu estado corrente. Escondia-se sem preocupação, ninguém poderia imaginar aquilo. Às suas costas a escada rolante continuava a rolar, cheia de homens gordos com sorvete na mão e os olhares fixos nos espelhos do teto. A distração do mundo ignorava os instintos da voyeur exibicionista.

Sua mente figurava o tamanho do membro dele, o estilo de depilação dela. Como será que eles ficavam quando nus? Vermelhos, pálidos?

Pensou em pedir aos dois que concedessem a dádiva de assistir a uma foda bem dada. Ali, na sua frente, ao vivo, enquanto se masturbaria em honra aos gritos terceirizados.

– Oi, posso ver vocês transarem?

A cabeça lhe permitia ousar e em seu sonho desperto ela, inclusive, se colocou entre eles, revezando entre ser lambida, ser penetrada, usar a boca entre sexos.

Entorpecida pelo tesão, continuou a girar os dedos contra o clitóris inchado. Sua calcinha não pôde segurar o néctar e nas coxas já podia sentir o escorrer do maná. Os dentes rangiam e os lábios tremiam. Queria gritar, mas se segurava em sussurros fugidios. Os olhos perdiam o rumo e, descontrolados, viraram ao cerrar das pálpebras. A outra mão, sobre o balcão, contraía a tal ponto que rachou o lápis que se prendia entre os dedos. As penas dobraram com força e pressionaram as hastes da cadeira. Os lábios poderiam sangrar com os dentes que se lhes cravaram.

Com seguidas contrações abdominais, veio um furioso orgasmo.

Sacudindo a cadeira, de dentro do seu cubículo profissional ela entregou ao universo uma cachoeira de júbilo sensual.

Ousada. Absoluta. Quase desacordada, deitou a testa sobre o escuro mogno do balcão, afastando o teclado do computador.

Recuperou o fôlego, fechou o zíper, arrumou os cabelos para trás e levantou a cabeça.

Olhou firme ao horizonte e sorriu. Sorriu como nunca antes.

Ela já não era mais a mesma.