Piedade de nós, desatados

O leite materno é uma das maravilhas da existência terrena e existe íntima relação entre o bom andamento da vida de uma pessoa e seu tempo de amamentação na primeira infância. Somos mamíferos por definição e, como tais, dominamos o planeta. Sugar da fonte de nutrição que nos é ofertada cria raízes imunológicas inabaláveis. Mamar nos liga ao ser que gerou e nos trouxe à luz da realidade. Mamei até os dois anos e dois meses, exatidão atestada por uma mãe orgulhosa - e cansada. Tentou de tudo, a coitada, para me fazer desapegar do peito. Babosa, adesivos de silicone, viagens sem despedida. Ao regressar de uma quinzena de dias, na distância dos confins da esquina leste do país, ouviu a demanda do pequeno rebento tão logo a porta se abriu: "quero mamar!". Mamar fortalece os ossos.
Escrevo com dificuldade, colidindo os dedos repetidamente contra o teclado. Não há o glamour de dizer que sento em frente à máquina de escrever como os escritores de antigamente mas, por outro lado, há a conveniência de poder registrar pensamentos em qualquer lugar e a qualquer momento. Meu bloco de notas cabe no bolso e não precisa de caneta, porém a duração da bateria é sempre um empecilho. Faz frio na manhã de hoje, tais quais em todas desde que cheguei a esta casa. O ar gelado é o mesmo da fatídica noite quando sofri o acidente, mas a companhia já não é a mesma. Naquela noite eu pensava ter alguém e hoje, sentado em um sofá de veludo, tenho a certeza da solidão. Escutei coiotes na noite de ontem e também uma coruja. A sinfonia da noite escura com seus animais sagazes lembra o comportamento das pessoas que agem na surdina. Continuo com a geladeira cheia, com as cervejas sobrando e o vinho, solícito, aguardando a vez de ser tomado. Santo remédio, o suco fermentado das uvas.
Eu fazia bico de segurança em um bar e as coisas eram para ser como sempre eram, artificiais e simples e tranquilas e nojentas, sim, porque limpar banheiro de festa após 200 jovens mijarem até no teto é aborrecedor. Eles e elas vomitam, cagam na borda do vaso, cheiram pó, levam garrafas clandestinas de bebida e as deixam vazias por todos os lados. As mais assanhadas apertavam minha bunda e eu olhava para trás para encontrar um mar de mocinhas loiras, esbeltas, com olhos azuis e sorrisos de simpatia. Elas queriam fazer amizade e davam o primeiro passo tocando os meus glúteos. Eu queria que elas fossem embora o quanto antes, eu pudesse pegar o meu cheque e voltar para o universo pragmático de trabalhar, comer, dormir e repetir o mesmo dia uma centena de vezes. Fazia cara de mal para que me respeitassem e isso sempre funcionou. Além do que, solteiro eu não era. Ponto para os registros biográficos do bom cidadão. Até que surgiu um tal filho pródigo de um pai rico, branco como deve ser todo rebelde sem causa. Bigode de motoqueiro enrustido e atitude de quem cresceu com o sucrilhos sempre à mesa. Alcoolizado, o rapaz foi escoltado por mim para fora do bar mas, durante o trajeto, agitando os braços de atleta amador, golpeou-me e, assim, perdi a consciência. Uma tragédia, se não de fato, mas pessoal. Fui alvejado e caíram sobre mim as desgraças. Dali direto para o hospital.
Aguardava a minha vez, a vez da entrevista de acolhimento. Da recepção para a triagem. No salão imperava a quietude mórbida do ambiente gélido onde a morte ronda arrastando seus grilhões. Falávamos inglês, mas um pequeno folheto garantia o direito de solicitar um intérprete para qualquer língua. Eu só falava merda naquela noite e duvido que alguém fosse fluente por ali.
- Nome completo?
- Aquiles Guedes Rapassi.

Ela era simpática, magra como a Olivia Palito do Popeye.

- Data de nascimento?
- 05/08/1986.
- Oito de maio de 86?
- Oh, não, me desculpe, Angélica. Esqueci que estou nos Estados Unidos. 08/05/1986. Sou de agosto, mês do cachorro louco.
- Cachorro louco? O senhor está bem?
- Deixa pra lá, acho que vocês não tem esse ditado por aqui.

Muita coisa ela não entenderia, mas o que é que me restava? Fazer cara de coitado para alguém que lida com coitados durante turnos de 24 horas?

- Fumante?
- Não. Digo, fumante do quê?
- O senhor fuma cigarro?
- Oh, não, Deus me livre.
- Álcool?
- Sim, por favor.

Ela riu. Ela aceitou minhas gracinhas. Em situação de miséria, o que se quer além de misericórdia?

- Sim, senhora. Bebo às vezes - eu disse.
- Peso e altura?
- 89 quilos, 1,90m de dia, 1,88m à noite exceto na balada. Nas festas eu tenho 2 metros de altura. Você sabe, a gente diminui durante o dia, mas cresce quando é preciso.
- Certo. Sofre algum tipo de violência em casa?
- Minha esposa às vezes não me espera com o jantar pronto.

Ela riu de novo. Eu estava desesperado. Mal sabia eu que era sequer a primeira onda que me atingiria. Aquilo era uma simples marola. Sentia que descontrair com a enfermeira era a melhor saída. O cérebro humano se apega à chance de distração em face do sofrimento. Eu faço parte da regra. As enfermeiras, tais quais as aeromoças e strippers, compõem o grupo de profissões que todo homem julga ter chance de conseguir uma tal conquista relâmpago. Acontece mais frequentemente com as dançarinas. Poucos homens têm sucesso na empreitada.
Tomou a temperatura, a pressão arterial, anotou a frequência cardíaca e me mandou de volta à sala de espera. Apesar do galo enorme que surgiu no topo do crânio, a cabeça não doía. A nuca não doía. Nada doía, exceto as mãos. Meu instinto sabia o diagnóstico, mas a visita ao médico era obrigatória. Estava ali pelo respeito aos protocolos. Bem, não é assim tão simples. Quando a água bate na bunda, você pensa na família, nos parentes, naqueles que podem vir a sofrer com seus problemas. Você toma decisões baseadas em terceiros, tipo quando, mesmo a donzela dizendo que não está com fome, você compra mais comida porque sabe que ela vai sim querer.
Os sinais aferentes viajavam de neurônio em neurônio, via sinapses, e informavam meu cérebro que algo mais grave tinha ocorrido. Um formigamento interminável castigava os dedos e a pele passara a um estado hiper sensível. Tentei lavar a mão antes de vir ao hospital. A água fria da torneira queimava como ácido. Oh, céus, incendiava. Doía como dói a noção de que aqueles que amamos tramam contra a gente em plena madrugada. Enquanto o médico não me chamava, fiquei à deriva no salão oval, com pessoas que tossem, pessoas que gemem e pessoas que dormem. Um casal chegou e comunicou que fala apenas a língua espanhola. Ela está grávida e a barriga pende quase tocando o chão. O marido carrega a bolsa da maternidade preparada para o grande momento. Ambos não sorriem. Presságio?
Refaço as cenas que estão na memória. O instante em que senti o choque elétrico e a queda no solo. As pernas bambas, a incapacidade de me levantar. Nocauteado pelas costas, deficiente temporário. A humilhação de não conseguir me pôr em pé incomoda-me para sempre. Pobre desgraçado. A vista embaralhada. Enfim, consegui. Seguraram o agressor e a polícia veio. O filhinho quis colocar a polícia em contato com o papai. Eu assistia toda aquela cena desprezível com uma certa confusão mental. A pancada reiniciou meu cérebro e eu pude sentir isso. Ali estavam dois policiais a cercar o agressor, um moleque grande com queixo de três pessoas adultas somadas. Bêbado como elefantes da África, tentava se levantar e era posto sentado à força pelos homens da lei. Era apenas outro sujeito mimado, com bigode ilusório de uma maturidade inexistente. Ordinário, um bezerro que clamava pelo rebanho. Se ele merecia um corretivo, seria da parte do destino, porque algo de incomum tomava-me a consciência. A paz, a paz incomum que despontou no peito. Não me irritei, não senti o sangue ferver. Eu pensava em quebrar seu joelho direito com um pisão frontal, mas por defesa própria. Na verdade, só queria voltar para casa, deitar no sofá reclinável com um balde de frango frito e um refrigerante à mão. Eu queria ver filmes e tergiversar sobre a vida e os planos futuros, queria uma companhia leal naquele e em todos momentos. O que eu tinha eram tremores e desconfiança.

O médico chamou, mas a enfermeira não me deixou andar. Empurrou a minha carcaça em uma confortável cadeira de rodas. Oficialmente um inválido, ainda que momentaneamente, mas vergonhosamente subjugado. Doutor Cooper, nome de médico de seriado. Plantão médico. Gostei, me inspirou a contar a história. Dá charme ao texto. Doc Cooper, gente fina, andava com seu jaleco branco e um estetoscópio pendurado no pescoço. Gravata listrada, azul e vermelha. Um patriota, herói, com certeza tinha história para contar, algo do tipo ele ter salvado um batalhão inteiro na guerra com simples infusões de soro caseiro usando um canudo e bexigas de festa. Doc Cooper, cabelo alinhado com pomada de efeito matte e bebedor de chá ao invés de café. Eu conseguia sentir, era um homem de classe. Eu queria ser seu amigo porque, é claro, eu seria a maçã podre para desvirtuar. Se fôssemos camaradas ele deixaria de visitar a igreja batista nos domingos pela manhã.

Pediu exames, lamentou a situação e comunicou sua solidariedade. Ouviu meus palpites e achou plausível. Os resultados vieram e eu estava certo. Impacto no topo da cabeça, efeito chicote da musculatura que protege as vértebras cervicais e uma compressão anormal que leva ao pinçamento das raízes nervosas que irrigam os membros superiores. Por isso as dores, por isso a sensibilidade. Diagnóstico tranquilo. Edema esperado. Sem fraturas, nada de grave. Mas, com toda sua habilidade e sapiência, o Doc Cooper não poderia explicar minha calma. Aliás, desde o primeiro momento, todos os envolvidos elogiavam exaustivamente minha tranquilidade, como conduzi a situação. Tocavam a cabeça do leão e diziam "bom menino, bom menino". Insólito pássaro de asas cortadas.
O diabo em meu ombro direito assopra ideias de vingança, de ódio, de forma que eu possa encontrar fomentar a ira. O diabo do outro ombro enaltece o respeito à lei por não me rebaixar ao nível do agressor. São dois diabos, afinal. O que é que eu quero com isso? Já me basto a mim mesmo.

Agora tenho uma lista extensa de remédios para tomar, inclusive opióides. Continuo dócil e devo intensificar a doçura com as drogas prescritas. Concussão não é motivo para ficar em casa e o doutor Cooper me deu apenas um dia de licença médica, que piada. Não me vem nenhum lampejo negativo. O que é que há? Perdi o jeito?
Só me resta não deixar a mente vazia. A sensação de impotência bate à porta do raciocínio. Mais violência? Mais? Um ciclo infinito de guerra? E continuo sem vontade de me alterar. A porção anticristã que habita meu ser provoca com acidez:
- Levou porrada e ainda deu a outra face? Quer ser canonizado?
Um processo interno de julgamento e contestação quer se prolongar dentro da psique. Mas essa cabeça não é a oficina de nenhum capeta. Engulo as hidrocodonas e o remédio bate rápido. Que coisa maravilhosa, que leveza, que alívio. Em relação à dor que sinto nas mãos a droga tem pouco efeito, mas a chapação que causa é de se considerar. Já não me importa que perderei dias de trabalho, que mal consigo tomar banho ou limpar a própria bunda. Tenho ópio para compensar a falta de ódio. É isso aí. Leva oito horas pro efeito chegar ao fim. O corpo acostuma fácil. Que decepção. Fazia 13 graus naquele 13 de novembro. Não recebi cuidados, ninguém cozinhou uma canja e desejou melhoras. Eu me tornara, oficialmente, um ser abandonado. Os dedos continuavam a arder e me faziam ver estrelas.
Dois meses depois, tudo está de volta. As dores, o desânimo mas, acima de tudo, a indiferença alheia. Foi tudo em vão. Gostaria de ir ao hospital só para brincar com a enfermeira e fazê-la rir. Nenhuma indenização foi paga, ninguém se importou. Ainda bem que eu mamei muito e os ossos cresceram sadios, duros, grossos, a ponto de resistir às agressões. Quem dera o coração fosse nutrido pelo leite materno!

Meio e meandros

terracota – branco – pequenas listras azuis – verde mofo

Tenho a tarde para mim! Há quanto tempo eu não podia desfrutar o entardecer, o som das cigarras, o esbarrar lento e sonoro das folhas secas que desabam sobre a terra úmida. Ontem choveu, hoje o amanhecer se deu com uma neblina que me evoca papai. “Manhã de neblina é sinal de dia quente”. E como foi. Sensação térmica de 41ºC, sei lá quantos em Fahrenheit. Dizem os dados estatísticos que a umidade relativa do ar é de 85%, ou seja, digito estas palavras tecnicamente de dentro da água.

O vírus finalmente me teve. Quem dera fosse no passado. Ainda tem. Não posso distinguir os cheiros que emanam as flores da rua. As gardênias, exuberantes em meu caminho, jazem incólumes. Em vão me inclino e aspiro entre as pétalas. Nada. Estou cego do nariz.

Nietzsche recomendava muita coisa dura a quem por ele era de grande querença.

Uau, hein!? Pode parecer ranzinza, em princípio. Dá a impressão de um sujeito praguejando contra tudo e contra todos. Um dilúvio de impropérios que partem de uma alma amarga que rebate ao mundo os seus próprios desgostos. Está muitíssimo enganado aquele que vai por esse caminho.

Nietzsche era um admirador dos gregos clássicos. Seu ideal humano era agonista.

Agonista é aquele que se põe engajado em combate: físico ou intelectual. O agonista é vitorioso porque, justamente, obtém seus anseios através da batalha. Ganha, portanto, na vitória em si e, também, porque a alcança – a glória – após conflito desafiante.

nota esclarecedora

A coisa muda de figura. O desejo depositado de imensa infelicidade é em prol do nascimento do espírito elevado que tudo suporta, feito um camelo. Costas largas e endurecidas pelas intempéries protegem o coração da pessoa que resiste. Assim, antes de se erguer e rugir, como um leão, o indivíduo tem que experimentar o sabor da sola dos próprios sapatos.

Quanta gente você conhece que reclama em abundância? Reclamam sobre a fila do banco, sobre as opções culturais de lazer, reclamam sobre o apoio ao esporte, sobre o Sistema Único de Saúde, reclamam sobre os partidos políticos, reclamam sobre a vida alheia, sobre o transporte público. Pare por um segundo e analise, no clarear das ideias, quantas dessas pessoas reclamam com propriedade sobre aquilo que falam. Geralmente, é pouca familiaridade para as palavras de desprezo. O grande denominador comum da sociedade atual é que, em suma, o que se busca é o conforto. E esse conforto, através da paz, é tão fantasioso quanto sem valor.

Quantos dos seus amigos e amigas são herdeiros de alguma fortuna (ou prestígio) e quantos são gente comum, que bate ponto no trabalho e não se pode dar ao luxo de faltar em uma segunda feira mesmo de ressaca? Pois é. Existem aí dois tipos de reconhecimento de êxito. Aquele que passa por algumas – ou todas – desgraças sabe do que eu estou falando. Atualmente, aqui nos Estados Unidos, tenho experimentado a dureza de inúmeros infortúnios ao mesmo tempo. Perdi meu passaporte, contraí o COVID-19, comecei uma atividade laboral de extrema carga física que me era estranha, a alimentação saudável sumiu e os exercícios físicos já não são possíveis porque me falta tempo. Detesto quase todo o instante atual pelo qual me vejo trafegando. Há alguns que percebem essa tragédia particular e toma a liberdade de me perguntar o que há de errado. A conversa, a qual eu não concedo para ninguém exceto um ou outro, vai sempre igual:

– O que você tem?

– Cansaço.

– Você parece estranho, não é o mesmo que eu conheci.

– Pois tente trabalhar 10h em pé no meu lugar em frente a uma fonte de calor, mesmo doente, chegar em casa e ainda pensar no que comer, não ter mais tempo para o ócio produtivo de leitura, escrita e atividades físicas. Tente aceitar a condição de escravo com um sorriso no rosto, um sorriso néscio que desconserta toda a prévia formação intelectual de que o trabalho é sim parte do homem, mas do homem consciente que vê no trabalho a ferramenta propulsora de suas forças vitais e transformadoras e não somente mero instrumento do burguês empregador que se sustenta em uma pirâmide usurpadora de sobrecarga limitante cujo único intento é o lucro unilateral e progressivo.

– Muda de emprego, então!

– Quem aqui pediu a sua opinião ou conselho?

– GROSSO!

Pois é. A absoluta maioria ouve com intenção de responder, não de escutar. Imagine que eu vivo meus próprios dilemas em silêncio, dialogando com um dos meus eus abstratos que é politicamente engajado e rejeita a opressão a qual é submetida o proletariado. Ainda assim, meu lado agonista sabe que essa fase salobra é como uma vitamina que fortalecerá minha própria essência. Não vou pedir para sair, não vou me demitir, não vou negar fogo. Nós, os agonistas, endurecemos à medida que a tensão se eleva.

E agora vem a noitinha. Pude escrever todo este relato ao som do piano clássico de Schubert e pude, com absoluto lamento, atestar que não consigo sentir o cheiro dos eucaliptos que circundam meu quintal. Faltam-me sentidos, embora eu sinta muito.

Senta que lá vem story

Foi por acaso, mas nem por isso se pode fazer pouco caso. Que joguinho de palavras mais esdrúxulo. Em todo caso, vou continuar. Estar na América foi um acidente e o responsável pela façanha se chama Gustavo Prestes. O beco ficou sem saída na manhã de uma segunda-feira, no centro de uma cidade cujo nome remete ao aconchego humano: Puebla, que lembra povo, gente, acolhimento e fraternidade. Que diabo! Eu estava arrasado no país dos sombreros. México, do mezcal e dos tacos al pastor. Acordei de ressaca, boca seca e com espuma acumulada nos cantos. A língua branca com rachaduras. Misericórdia, o que foi que eu fiz? Cinco latas de cerveja Tecate estavam espalhadas em volta do colchão e uma garrafa pequena de tequila jazia tombada com a tampa aberta, esparramando o conteúdo sobre o piso de madeira. Eu não comprei tequila nenhuma, nunca! Bom, nunca é muito forte. Até onde eu me lembro, sinceramente, eu comprei pão e salame para fazer um sanduíche. As cervejas já estavam na geladeira, mas a tequila? Só pode ser coisa daqueles duendes que ora desaparecem com coisas e ora plantam novidades na sua casa. Aquela garrafa, uma pequena porção de vômito ao lado da porta, um punhado de guardanapos jogados sobre a mesa, tudo aquilo deveria ter uma explicação incrível, eu só não dispunha de meios para acessá-la.

Acabado fisicamente, notei que minha conta bancária sofria, também ela, de algum tipo de rebordosa financeira, com a diferença que eu poderia me recuperar com algumas Alka-Seltzer e paciência. Droga. Drogas. Lícitas e encorajadas. O álcool é o melhor amigo do homem até que o faz morder a própria mão. Tentei dobrar o corpo ao meio e ficar sentado, mas o rodopio interno me causava vertigens. Bebi porque estava puto, acordei arrependido por deixar as emoções me levarem àquele estágio. Uma mensagem chegou do meu amigo Prestes. Abri.

  • E aí, tudo certo pelo México?
  • Tudo arriba, abajo, al centro e adentro – eu disse, escondendo a tragédia particular.
  • Vai ficar por aí então?
  • Ou voltar para o Brasil, né?
  • Para a Bozolândia?

Era junho de 2019, o “governo” do Duce brasileiro tinha apenas seis meses e nós sofríamos, coletivamente, de um arrependimento atemporal. Tudo, qualquer coisa, menos ter que viver sob a bandeira do embuste. A República Federativa dos Bananas jaz em berço esplêndido e eu caí fora justamente com a intenção de não voltar tão cedo nem tão fácil. Mas, acontece que quando a corda aperta e a água bate na bunda o chicote estala. Meu apartamento era uma pocilga dentro das clássicas vilas mexicanas, no melhor estilo Chaves.

  • Se você voltar para o Brasil, vai fazer o que por lá? – ele perguntou
  • Ah, você sabe cara, o mesmo de sempre – respondi.
  • Bom, o negócio é o seguinte, se vier pra cá você arruma grana e o que fazer num instante.
  • Não é possível. Fácil assim?
  • Pode ficar em casa, tem um quarto sobrando. Se em uma semana você não arrumar um bico que seja, pago a minha língua.
  • Ok sabichão, é bom você estar certo nas suas previsões.

Esse negócio de premonição, poderes místicos, veia espiritual pode ser um barato. Na maioria das vezes, as pessoas não fazem mais do que falar o óbvio. Sempre tem quem supera as expectativas. Uma garota que eu conheço, que já se relacionou comigo, encontrou minha esposa certa vez no banheiro de uma festa. Entre apresentações e babadas de ovo, ela solta o papo sobre ter dons premonitórios graças a sua ancestralidade indígena. Até aí, mais do mesmo.

  • Deixa eu ler a sua mão? – pediu a cartomante.
  • Err, claro… – respondeu a minha dama enquanto estendia a mão.
  • Ah, que linha grande a da vida! Você vai ser muito feliz, ter dois filhos e dois casamentos – decretou a índia Potira.

A belezinha sabia de quem ela era esposa. Ela sabia de tudo e queria tirar algum tipo de vantagem. Achei aquilo curioso e liguei para ela.

  • Oi, fulana!
  • Oiii, tudo bem com você?
  • Tudo ótimo, mas isso você já deve saber. Quanto tempo, hein?! – eu disse
  • Sim, dia desses encontrei com a sua margarida por aqui. Que saudades de encontrar com você também.
  • Pois é…
  • Por onde você anda? – ela disse
  • Ué, por que você mesma não me diz já que sabe tanto?

Oras, bolas. Voltando ao assunto…

Aeroporto da Cidade do México, junho de 2019. Não havia comprado passagem de volta dos EUA e a primeira prova de fogo seria no check-in. Deixariam que eu embarcasse para a terra dos dólares sem uma prova de saída daquele país? Obrigariam a compra? Chamariam a polícia? Fariam com que eu comesse os famigerados chilaquiles logo às sete e meia da manhã? Tensão, suor, mandíbula com bruxismo. Nada, absolutamente nada se passou. A atendente devolveu o cartão de embarque sorrindo e ainda piscou para mim. Ah, se eu fosse solteiro! Ou se gostasse de mexicanas. Ou se tivesse dinheiro. Ou as três coisas juntas, deus me livre! Aterrissei em solo americano e, na imigração, nada mais que sonoras boas vindas. Muito bem vestido e com chapéu de mafioso. Eu mesmo me sentia impressionado por mim. Um fantástico movimento narcisístico não perverso.

Ainda sofria com a rouquidão que atinge as cordas vocais quando a bebedeira é severa quando saí do aeroporto. Meu nobre amigo aguardava com o seu imponente Mustang conversível. O sonho americano mal começara e já tinha forma. American muscle car, coca-cola de um litro e hamburguer. Tudo logo de cara. Levei dois dias para arrumar emprego. Pagamento ao final de cada noite. Cacete, isso sim que é vida. Dólares, cerveja na torneira, piscina aos fins de semana, festivais de Jerry Garcia. Viagens de avião, amigos que excedem família e churrascos à beira do lago. Carolinas, Colorados e Califórnias.

Essa é a vida real ou só uma fantasia?

Engajado

Essa é a América. Tudo é possível na América. Brasileiro se ofende, mas eu não sei o resto do continente: ouvir os Estados Unidos se auto-intitularem como América dá uma azedo no juízo. É ou não é? Ficar rico, comprar ou vender, capitalizar, isentar-se do princípio da boa fé nas relações comerciais. Só na América. Quando cai pro lado motivante da coisa, essa dimensão onde tudo é possível, uma terra do nunca, aí sim o nome combina. América é a terra da oportunidade, justa e democrática. América só não combina com discurso negativo.

Cerveja barata, carro barato, comida barata. Só as casas são caras por aqui e, bem, eu não acho que isso seja um problema. Você pode se embriagar e matar a fome, meu chapa!

Um doido, recentemente, quis fazer a América formidável outra vez. Ha ha. Que belo golpe de marketing. Quando foi que ela deixou de ser formidável? Alguém consegue responder? Patifes.

Entrei no trem ontem e um homem negro, vestindo uniforme hospitalar, prontificou-se a ajudar este distinto turista com comportamento desencontrado. Você está indo para onde? – Pompano Beach. Você sabe chegar lá? – Acho que sim, tenho que ir para o Norte, não? Bom, você tem que saltar em Opa-Locka e daí esperar, deixe-me ver, por uns 90 minutos antes de pegar o próximo trem.

Ele prescreveu esse plano de ação enquanto observava o relógio e batia os pés como que criando cadência para um pensamento envolto em ritmo e poesia. Gostei da cena. Acontece que acabei olhando para o seu relógio e descobri que aquela história era digna de se contestar a sanidade. Não havia um único ponteiro ali. A tela branca, os números dispostos em um círculo de 1 a 12 e no meio, escuro como o infinito, um buraco indicava onde deveriam ser alocados os ponteiros que indicassem a exata localização temporal do seu dono (e a minha também, no caso).

Caramba, convenhamos! Quais são as chances? A América quer você.

A cervejaria mais antiga na América se chama Yuengling. Se você contar isso a dez brasileiros, onze dirão: e tem nome chinês?

Não é fácil impressionar quando se é um hóspede na América. Lavar pratos? Eles têm máquinas de lavar louça. Há drones, carros autônomos fazendo entregas, cada vez menos gente andando nas ruas. Uma revolução em curso. Na América, destino ou não, somos menos julgados pelos outros. Aqui dá pra ser qualquer coisa, até o Batman. Não que eu queira, deus me livre. Seria mais uma responsabilidade. Gostoso é não ter nenhuma. Daqui da sacada eu vejo a piscina e imagino os compromissos. Não há santa consciência que escolha responsabilidades a uma piscina aquecida à noite. Ora, ora.

Você quer perfurar uns campos de petróleo comigo e fazer 90 mil dólares ao ano? Meu camarada, que pergunta! Quem não quer? Essa é a América que te faz propostas tentadoras no balcão de um bar em uma noite qualquer. Não ando à sua frente nem atrás de você, mas ando ao seu lado. Sou o Doug, conte comigo. Caceta. Nunca mais falei com o infeliz, mas o apelo foi forte. Senti que poderia planejar uma caminhada de três meses pelas trilhas Apalache com ele, quatro quem sabe? Doug, cabelo loiro e camisa xadrez. No seu chaveiro dava para ler Proud to be American.

A América precisa de você. De mim? Músculos e disposição e jovialidade e vontade e disponibilidade e, mais do que tudo, paixão pelo status-quo. Ha ha, que obra de arte. Preciso de um eufemismo para desespero. Que tal engajamento?