Senta que lá vem story

Foi por acaso, mas nem por isso se pode fazer pouco caso. Que joguinho de palavras mais esdrúxulo. Em todo caso, vou continuar. Estar na América foi um acidente e o responsável pela façanha se chama Gustavo Prestes. O beco ficou sem saída na manhã de uma segunda-feira, no centro de uma cidade cujo nome remete ao aconchego humano: Puebla, que lembra povo, gente, acolhimento e fraternidade. Que diabo! Eu estava arrasado no país dos sombreros. México, do mezcal e dos tacos al pastor. Acordei de ressaca, boca seca e com espuma acumulada nos cantos. A língua branca com rachaduras. Misericórdia, o que foi que eu fiz? Cinco latas de cerveja Tecate estavam espalhadas em volta do colchão e uma garrafa pequena de tequila jazia tombada com a tampa aberta, esparramando o conteúdo sobre o piso de madeira. Eu não comprei tequila nenhuma, nunca! Bom, nunca é muito forte. Até onde eu me lembro, sinceramente, eu comprei pão e salame para fazer um sanduíche. As cervejas já estavam na geladeira, mas a tequila? Só pode ser coisa daqueles duendes que ora desaparecem com coisas e ora plantam novidades na sua casa. Aquela garrafa, uma pequena porção de vômito ao lado da porta, um punhado de guardanapos jogados sobre a mesa, tudo aquilo deveria ter uma explicação incrível, eu só não dispunha de meios para acessá-la.

Acabado fisicamente, notei que minha conta bancária sofria, também ela, de algum tipo de rebordosa financeira, com a diferença que eu poderia me recuperar com algumas Alka-Seltzer e paciência. Droga. Drogas. Lícitas e encorajadas. O álcool é o melhor amigo do homem até que o faz morder a própria mão. Tentei dobrar o corpo ao meio e ficar sentado, mas o rodopio interno me causava vertigens. Bebi porque estava puto, acordei arrependido por deixar as emoções me levarem àquele estágio. Uma mensagem chegou do meu amigo Prestes. Abri.

  • E aí, tudo certo pelo México?
  • Tudo arriba, abajo, al centro e adentro – eu disse, escondendo a tragédia particular.
  • Vai ficar por aí então?
  • Ou voltar para o Brasil, né?
  • Para a Bozolândia?

Era junho de 2019, o “governo” do Duce brasileiro tinha apenas seis meses e nós sofríamos, coletivamente, de um arrependimento atemporal. Tudo, qualquer coisa, menos ter que viver sob a bandeira do embuste. A República Federativa dos Bananas jaz em berço esplêndido e eu caí fora justamente com a intenção de não voltar tão cedo nem tão fácil. Mas, acontece que quando a corda aperta e a água bate na bunda o chicote estala. Meu apartamento era uma pocilga dentro das clássicas vilas mexicanas, no melhor estilo Chaves.

  • Se você voltar para o Brasil, vai fazer o que por lá? – ele perguntou
  • Ah, você sabe cara, o mesmo de sempre – respondi.
  • Bom, o negócio é o seguinte, se vier pra cá você arruma grana e o que fazer num instante.
  • Não é possível. Fácil assim?
  • Pode ficar em casa, tem um quarto sobrando. Se em uma semana você não arrumar um bico que seja, pago a minha língua.
  • Ok sabichão, é bom você estar certo nas suas previsões.

Esse negócio de premonição, poderes místicos, veia espiritual pode ser um barato. Na maioria das vezes, as pessoas não fazem mais do que falar o óbvio. Sempre tem quem supera as expectativas. Uma garota que eu conheço, que já se relacionou comigo, encontrou minha esposa certa vez no banheiro de uma festa. Entre apresentações e babadas de ovo, ela solta o papo sobre ter dons premonitórios graças a sua ancestralidade indígena. Até aí, mais do mesmo.

  • Deixa eu ler a sua mão? – pediu a cartomante.
  • Err, claro… – respondeu a minha dama enquanto estendia a mão.
  • Ah, que linha grande a da vida! Você vai ser muito feliz, ter dois filhos e dois casamentos – decretou a índia Potira.

A belezinha sabia de quem ela era esposa. Ela sabia de tudo e queria tirar algum tipo de vantagem. Achei aquilo curioso e liguei para ela.

  • Oi, fulana!
  • Oiii, tudo bem com você?
  • Tudo ótimo, mas isso você já deve saber. Quanto tempo, hein?! – eu disse
  • Sim, dia desses encontrei com a sua margarida por aqui. Que saudades de encontrar com você também.
  • Pois é…
  • Por onde você anda? – ela disse
  • Ué, por que você mesma não me diz já que sabe tanto?

Oras, bolas. Voltando ao assunto…

Aeroporto da Cidade do México, junho de 2019. Não havia comprado passagem de volta dos EUA e a primeira prova de fogo seria no check-in. Deixariam que eu embarcasse para a terra dos dólares sem uma prova de saída daquele país? Obrigariam a compra? Chamariam a polícia? Fariam com que eu comesse os famigerados chilaquiles logo às sete e meia da manhã? Tensão, suor, mandíbula com bruxismo. Nada, absolutamente nada se passou. A atendente devolveu o cartão de embarque sorrindo e ainda piscou para mim. Ah, se eu fosse solteiro! Ou se gostasse de mexicanas. Ou se tivesse dinheiro. Ou as três coisas juntas, deus me livre! Aterrissei em solo americano e, na imigração, nada mais que sonoras boas vindas. Muito bem vestido e com chapéu de mafioso. Eu mesmo me sentia impressionado por mim. Um fantástico movimento narcisístico não perverso.

Ainda sofria com a rouquidão que atinge as cordas vocais quando a bebedeira é severa quando saí do aeroporto. Meu nobre amigo aguardava com o seu imponente Mustang conversível. O sonho americano mal começara e já tinha forma. American muscle car, coca-cola de um litro e hamburguer. Tudo logo de cara. Levei dois dias para arrumar emprego. Pagamento ao final de cada noite. Cacete, isso sim que é vida. Dólares, cerveja na torneira, piscina aos fins de semana, festivais de Jerry Garcia. Viagens de avião, amigos que excedem família e churrascos à beira do lago. Carolinas, Colorados e Califórnias.

Essa é a vida real ou só uma fantasia?

Engajado

Essa é a América. Tudo é possível na América. Brasileiro se ofende, mas eu não sei o resto do continente: ouvir os Estados Unidos se auto-intitularem como América dá uma azedo no juízo. É ou não é? Ficar rico, comprar ou vender, capitalizar, isentar-se do princípio da boa fé nas relações comerciais. Só na América. Quando cai pro lado motivante da coisa, essa dimensão onde tudo é possível, uma terra do nunca, aí sim o nome combina. América é a terra da oportunidade, justa e democrática. América só não combina com discurso negativo.

Cerveja barata, carro barato, comida barata. Só as casas são caras por aqui e, bem, eu não acho que isso seja um problema. Você pode se embriagar e matar a fome, meu chapa!

Um doido, recentemente, quis fazer a América formidável outra vez. Ha ha. Que belo golpe de marketing. Quando foi que ela deixou de ser formidável? Alguém consegue responder? Patifes.

Entrei no trem ontem e um homem negro, vestindo uniforme hospitalar, prontificou-se a ajudar este distinto turista com comportamento desencontrado. Você está indo para onde? – Pompano Beach. Você sabe chegar lá? – Acho que sim, tenho que ir para o Norte, não? Bom, você tem que saltar em Opa-Locka e daí esperar, deixe-me ver, por uns 90 minutos antes de pegar o próximo trem.

Ele prescreveu esse plano de ação enquanto observava o relógio e batia os pés como que criando cadência para um pensamento envolto em ritmo e poesia. Gostei da cena. Acontece que acabei olhando para o seu relógio e descobri que aquela história era digna de se contestar a sanidade. Não havia um único ponteiro ali. A tela branca, os números dispostos em um círculo de 1 a 12 e no meio, escuro como o infinito, um buraco indicava onde deveriam ser alocados os ponteiros que indicassem a exata localização temporal do seu dono (e a minha também, no caso).

Caramba, convenhamos! Quais são as chances? A América quer você.

A cervejaria mais antiga na América se chama Yuengling. Se você contar isso a dez brasileiros, onze dirão: e tem nome chinês?

Não é fácil impressionar quando se é um hóspede na América. Lavar pratos? Eles têm máquinas de lavar louça. Há drones, carros autônomos fazendo entregas, cada vez menos gente andando nas ruas. Uma revolução em curso. Na América, destino ou não, somos menos julgados pelos outros. Aqui dá pra ser qualquer coisa, até o Batman. Não que eu queira, deus me livre. Seria mais uma responsabilidade. Gostoso é não ter nenhuma. Daqui da sacada eu vejo a piscina e imagino os compromissos. Não há santa consciência que escolha responsabilidades a uma piscina aquecida à noite. Ora, ora.

Você quer perfurar uns campos de petróleo comigo e fazer 90 mil dólares ao ano? Meu camarada, que pergunta! Quem não quer? Essa é a América que te faz propostas tentadoras no balcão de um bar em uma noite qualquer. Não ando à sua frente nem atrás de você, mas ando ao seu lado. Sou o Doug, conte comigo. Caceta. Nunca mais falei com o infeliz, mas o apelo foi forte. Senti que poderia planejar uma caminhada de três meses pelas trilhas Apalache com ele, quatro quem sabe? Doug, cabelo loiro e camisa xadrez. No seu chaveiro dava para ler Proud to be American.

A América precisa de você. De mim? Músculos e disposição e jovialidade e vontade e disponibilidade e, mais do que tudo, paixão pelo status-quo. Ha ha, que obra de arte. Preciso de um eufemismo para desespero. Que tal engajamento?