Spray, Sparta, Spyro Gyro

De dentro da cozinha vinha o grito:

⁃ MERDA!

Seguia-se um tapa na bancada. Isso significava que mais um pedido tinha saído errado. O cozinheiro ia à loucura. Tudo tem limite, ou deveria.

Ouvi um cara dizer que era iraniano, simpático às tampas. Cheguei mais perto, falei:

⁃ حال شما چطور است؟

Ele não entendeu. Fui mais perto da sua orelha e repeti:

⁃ حال شما چطور است؟

Ele estalou os olhos. Estendeu o braço e apertamos as mãos.

⁃ Você falou Farsi perfeitamente, sem sotaque. Como sabe a minha língua?

⁃ Ah, cara, eu já fui um negociador de tâmaras por aquelas bandas.

Entusiasmado, passou seu telefone e disse que em duas semanas estaria em Teerã e queria que eu me hospedasse na casa de sua família. Em duas semanas eu completo 35 voltas em torno do sol. A data tão temida. Eu poderia ter explicado que aprendi três frases em Farsi com aquele simpático grupo de iranianos que buscou um avião na TAM em São Carlos, no longínquo ano de 2007. Acontece que eu sempre quis negociar tâmaras. Sucesso garantido.

Duas mesas para a direita e uma moça parecia deslocada. Quando tomei conhecimento da sua história, senti uma pontada no baixo ventre. Exatamente um ano atrás, seu marido a aguardava na sala de estar para que fossem às ruas para uma noite de lazer. Enquanto esperava, decidiu limpar sua arma. Por acidente, ela disparou e ele se foi. Exatos 365 dias atrás. Eles iriam para o mesmo bar. Isso não é triste, meu chapa, é entristecedor. E há grande diferença entre as coisas. É necessário dominar a língua para traduzir a melancolia.

Procurei meu celular e enviei algumas mensagens de amor aos entes queridos. A gente nunca sabe.

Na América o verão é desejado, mas se mantém desdenhoso. Ele sempre passa. Por isso há tanta vida nas calçadas, nos pátios, nos parques. As pessoas aproveitam porque sabem que acaba. O oposto do que costumam fazer nos relacionamentos. Pensam que é para sempre. E já dizia a Cássia Eller…

Carrego uma lista de expressões para brindar em diferentes línguas.

Nazdrave, em búlgaro. Nazdarovia, em russo. Parecido, mas não vá cometer e lambança de dizer que é tudo igual. Ofensa na hora de encher a cara pode resultar em um dente quebrado. Ou abandono. Zivelji em croata. Aí você deve estar se perguntando porque tantas expressões vindas do leste europeu. Deixa isso pra lá, come on!

Bebendo rum puro com a Larissa na Tailândia em uma sarjeta de Bangkok, fomos abordados por duas garotas.

⁃ Oh, vocês bebem muito!

⁃ Err, obrigado?

⁃ Não estamos acostumadas a ver uma garota beber assim com tanta liberdade. Temos até uma expressão para isso. Lumyong, significa moça bonita que bebe whisky.

Hoje é sábado, amanhã é domingo, nada como o dia para passar. Saravá, Vinicius. Como não sou uma árvore e não crio raizes – só razões – posso sempre me levantar e caminhar. E mudar, de cor, de opinião, de amigos e de motivos. Cobra que não muda de pele morre.

Engajado

Essa é a América. Tudo é possível na América. Brasileiro se ofende, mas eu não sei o resto do continente: ouvir os Estados Unidos se auto-intitularem como América dá uma azedo no juízo. É ou não é? Ficar rico, comprar ou vender, capitalizar, isentar-se do princípio da boa fé nas relações comerciais. Só na América. Quando cai pro lado motivante da coisa, essa dimensão onde tudo é possível, uma terra do nunca, aí sim o nome combina. América é a terra da oportunidade, justa e democrática. América só não combina com discurso negativo.

Cerveja barata, carro barato, comida barata. Só as casas são caras por aqui e, bem, eu não acho que isso seja um problema. Você pode se embriagar e matar a fome, meu chapa!

Um doido, recentemente, quis fazer a América formidável outra vez. Ha ha. Que belo golpe de marketing. Quando foi que ela deixou de ser formidável? Alguém consegue responder? Patifes.

Entrei no trem ontem e um homem negro, vestindo uniforme hospitalar, prontificou-se a ajudar este distinto turista com comportamento desencontrado. Você está indo para onde? – Pompano Beach. Você sabe chegar lá? – Acho que sim, tenho que ir para o Norte, não? Bom, você tem que saltar em Opa-Locka e daí esperar, deixe-me ver, por uns 90 minutos antes de pegar o próximo trem.

Ele prescreveu esse plano de ação enquanto observava o relógio e batia os pés como que criando cadência para um pensamento envolto em ritmo e poesia. Gostei da cena. Acontece que acabei olhando para o seu relógio e descobri que aquela história era digna de se contestar a sanidade. Não havia um único ponteiro ali. A tela branca, os números dispostos em um círculo de 1 a 12 e no meio, escuro como o infinito, um buraco indicava onde deveriam ser alocados os ponteiros que indicassem a exata localização temporal do seu dono (e a minha também, no caso).

Caramba, convenhamos! Quais são as chances? A América quer você.

A cervejaria mais antiga na América se chama Yuengling. Se você contar isso a dez brasileiros, onze dirão: e tem nome chinês?

Não é fácil impressionar quando se é um hóspede na América. Lavar pratos? Eles têm máquinas de lavar louça. Há drones, carros autônomos fazendo entregas, cada vez menos gente andando nas ruas. Uma revolução em curso. Na América, destino ou não, somos menos julgados pelos outros. Aqui dá pra ser qualquer coisa, até o Batman. Não que eu queira, deus me livre. Seria mais uma responsabilidade. Gostoso é não ter nenhuma. Daqui da sacada eu vejo a piscina e imagino os compromissos. Não há santa consciência que escolha responsabilidades a uma piscina aquecida à noite. Ora, ora.

Você quer perfurar uns campos de petróleo comigo e fazer 90 mil dólares ao ano? Meu camarada, que pergunta! Quem não quer? Essa é a América que te faz propostas tentadoras no balcão de um bar em uma noite qualquer. Não ando à sua frente nem atrás de você, mas ando ao seu lado. Sou o Doug, conte comigo. Caceta. Nunca mais falei com o infeliz, mas o apelo foi forte. Senti que poderia planejar uma caminhada de três meses pelas trilhas Apalache com ele, quatro quem sabe? Doug, cabelo loiro e camisa xadrez. No seu chaveiro dava para ler Proud to be American.

A América precisa de você. De mim? Músculos e disposição e jovialidade e vontade e disponibilidade e, mais do que tudo, paixão pelo status-quo. Ha ha, que obra de arte. Preciso de um eufemismo para desespero. Que tal engajamento?

Constância

Iogurte fresco da fazenda, banho de água fria, 50 abdominais e 50 flexões de braço. Mamãozinho picado para abrir os trabalhos. Chorinho no rádio, chororô no corredores do prédio. As cigarras estridulam e os cigarros jazem à meia-vida no cinzeiro mal higienizado. Não confundir o substantivo feminino com o masculino, um vem da terra e o outro te manda para baixo dela. Meu nome é Astolfo das Cruzes, sou o maior vendedor de ilusões da paróquia. Meu vizinho, o Asdrúbal, é quem pesca. Bom, era. Seus joelhos começaram a doer e ele resolveu dar um tempo.

Eu, não. Não paro, não dou um tempo, não alivio. Um chopinho, bora marcar. As coisas vão melhorar, o dólar vai sim baixar. É só tirar quem está lá. E quem é que está lá? Tanto faz, é só a gente tirar. Daí, tudo muda. Ou não. Mas temos que continuar tirando. Pedrada no ônibus, protesto na avenida Brasil. Palavras de ordem. Pátria, progresso, cachaça pura e o bicho de pé. Meu nome é Astolfo das Cruzes, o maior vendedor de ilusões destes rincões. Tenho um nome – e sobrenome – a zelar. O segredo é a paixão. Sou vidrado no lucro e olha que não estou falando de dinheiro. Posso vender peças usadas para o dono da loja de roupas. Eu só não consigo vender consciência de classe, mas posso vender até a ideia de que eu presto. Ser da família das Cruzes ajuda. Background religioso, você sabe, dá um certo apelo de confiabilidade.

Não preciso fazer terapia, caramba, eu sou Astor para os mais chegados. O segredo é conversar com quem faz, daí fica uma baba: eles chamam a minha atenção com pitacos que ouvem de seus terapeutas e, magistralmente, transferem para o próximo indivíduo com quem interagem. Se me chamam prolixo, é porque ontem foram acusados de loquacidade. Ai ai, chega a dar um comichão, tamanha a ansiedade em ouvir suas análises projecionais. Sendo atacado eu conheço mais sobre eles. Quanto a mim? Pô, eu usou Astor, o perspicaz, o maior vendedor de ilusões do mundo inferior. Astor, me lembra um cachorro que tive. Dogue alemão, pernas longas e bochechão caído com a baba escorrida se esticando quase até o chão. Eu pareço o Astor quando ficava no cio. Que baixaria. É só eu não fumar que não uso os aplicativos de relacionamento. É só eu não beber que eu não fumo. É só eu não brigar com a minha vizinha, a Cleide, que eu não bebo. É só a Cleide não tocar Wilson Simonal que eu não brigo com ela. É só não ser sexta-feira de manhã que a Cleide não toca Wilson Simonal. Puta que me pariu, lá vou eu de novo. É sexta-feira, já posso ouvir meu limão, meu limoeiro.

Só um instante! Que blá-blá-blá sem fim. Dizia que era vendedor de ilusões. Posso vender o glamour de ser fora-da-lei, sim, esse Astolfo aqui, de pele fina e bom gosto quanto às marcas de alcachofra em conserva que há no supermercado. Com a minha cara de ilustre cidadão criado à base de sustagen, posso lhe convencer que não só sou um criminoso como que, também, o crime compensa. Não compensa para todo mundo, é claro. Somos brancos, nós que nos entendamos. Tapa na mesa! Pá! Pombas, que sacada! Sou o senhor das Cruzes segundo o Fabiano, o porteiro do condomínio. Um dos porteiros, porque tem ainda o Williams, o João e o Gasparzinho. Sobre esse último, o nome é em homenagem ao seu comportamento durante a guarda noturna. O lazarento nunca está em seu posto. Paciência, afinal, eu tenho. Astolfo das Cruzes, maior vendedor de ilusões do condomínio. Todos pensam que eu sou um estranho no ninho por ali. Tratam-me como uma espécie de subcelebridade, vai entender?

O segredo é iludir. Ducha, exercícios, café gelado, vitamina D, beringela com alecrim, suco de romã, amor ao próximo, cachorro-quente com carne moída, cerveja malzbier para lactantes, entrevistas consigo mesmo no espelho, meditação reversa, chocolate meio amargo, delitos e repentinos arrependimentos, saudade e asco, contradições justificáveis, caipisaquê de lima, hipocrisia sem açúcar, banana com mel, compaixão arrependida, aventuras de shopping center, brincos novos, socos na parede, ódio ao tabaco e overdose de Lucky Strike, massagem na penumbra, banquete com os leões, porres homéricos, dobradinha com farinha e pimenta, anarquia e obediência, grupal, convencional, monótono e desequilibrado, música lenta para acordar, gemidos para dormir, dinheiro na cueca e pau no, pássaro na gaiola, carne na gôndola do mercado, kombucha para o estômago, surdez para a sanidade, cor azul na parede da sala, criado mudo para a casa grande, esgoto ao mar e flúor nas torneiras, remédio para ema e vacina para todos. Sou Astolfo das Cruzes, o maior vendedor de ilusões desta página. O segredo é a constância.

Um conto de Boston – parte 3

Penso que deve haver algo de grandioso neste salutar exercício de dar seguimento aos registros apócrifos que encontro, há três semanas, no mesmo lugar e por volta do mesmo horário, na estação norte de trens de Boston. Estava distraído me despedindo de Margareth e quase passei do ponto. Recomendava que ela usasse arnica em seu joelho em alternativa aos fármacos convencionais quando me dei conta que já tinha dado uns dez passos além do cantinho onde costuma estar a carta dobrada, com as margens puídas e letra garranchosa, um baú de intimidades recalcitrantes e confidenciadas sem pudor ou padrão ético. Despedi-me bruscamente de Marge e enviei minhas saudações a Donald. Virei-me e driblei a tropa de cidadãos que marchava impiedosa. Lá estava o pergaminho.

As semanas têm passado mais rápido ou é impressão minha? – existe papo de elevador mais enfadonho que esse? Eu sorri quando a moça exibiu toda a sua genialidade atemporal na tentativa de interagir comigo. Não podia perder a oportunidade. Respirei fundo e falei “sim, tem razão. É um fenômeno observado primariamente na Suiça, por uma junta internacional de cientistas dedicados ao tempo e suas ranhuras. Chama-se inter-relatividade de camadas bósicas não discriminada em funções derivadas, vulgarmente conhecido por subjetividade quântico-temporal.” Silêncio. O elevador apitou – plim! – e eu cheguei ao andar do laboratório de análises clínicas. A cara da garota era impagável. Se fosse uma pizza, seria meia indignação, meia dúvida. Será que eu falava sério? Os outros ocupantes da máquina ascensora estavam todos, ao exemplo da minha interlocutora, com os lábios entreabertos em espanto. Um senhor olhava repetidamente seu relógio de pulso e dava umas pancadas. Continuei sorrindo e saí daquele microcosmos de frivolidade. Estava livre do papo morto, mas ainda tinha o exame para fazer. A lei de compensação divina poderia muito bem equilibrar aquela cretinice com um diagnóstico positivo. Tem coisa pior que aguardar para abrir o envelope com resultado de exames de sangue? Tem, ah se tem. Presunção de conteúdo por livre exercício do pensamento. Gente que fala sem saber, na linguagem popular.

Tenho um vizinho que é muito divertido. Gosta de beber bebidas baratas e ficar embriagado. Quando compro alguma bebida mais cara e abro para nós bebermos, ele não se impressiona. Sujeitinho engraçado. Gosta de tecer suas opiniões e eu sou o melhor dos ouvintes. Absolutamente tudo o que ele reporta como suas ideologias é o oposto de sua conduta. Se ele fala que não gosta de futebol, eu rio. Domingo à tarde, posso ouvir seus gritos apaixonados enquanto assiste a uma partida qualquer. A contradição me encanta. Ele se diz anti-capitalista, no entanto… recebe um salário mínimo. Acho que os paradoxos, esses caprichos de arquétipos não previsíveis, inconstantes e fronteiriços, nos unem de uma forma sutilmente comprometedora.

Ontem à noite levei muito tempo até conseguir adormecer. Alguém no prédio ouvia Madonna no último volume. Deve ter riscado o disco. Eu gosto da Madonna, ela tem garra. Antes de ficar famosa, posava nua para artistas. Fotografaram, pintaram as suas curvas e também aquela pinta que ela tem acima da boca. Que sorte a desses caras. Será que ela também realizava alguns favores íntimos em vista de uns trocados? Tem um cara muito bacana, polêmico (ao menos lá no Oregon hehe), uma espécie de guru indiano que manda bem nas colocações. Ele se chama Osho. E Osho disse que “toda vez que ele encontra uma prostituta, ela quer falar sobre Deus e sempre que se reúne a um homem religioso, ele quer falar sobre sexo.” Tudo o que nós negamos a nós mesmos se torna a nossa prisão mental. A renúncia aos desejos não é um caminho fácil para a felicidade. Tenho grande apreço pelas profissionais do sexo, conheci algumas. Já namorei uma. Gente que suporta humilhações, situações desagradáveis e extremos cotidianos em troca de dólares. Quase igual à maioria da sociedade trabalhadora, só que com a diferença de um genital a mais entre as pernas.

Salvei um cavalo no meu último aniversário, um cavalo da polícia montada. Chovia bastante, eu estava encostado no balcão de uma cafeteria. O rapaz que manuseava a máquina de espresso usava um avental de sarja, levava uma boina mostarda de couro de porco na cabeça e óculos sem armação pendurados em um nariz que fazia sombra ao bigode longo e redondo que lhe cobria os lábios. Ele tinha um pano de pratos branco no ombro direito que a toda hora usava para enxugar copos e xícaras. De repente, parou e desarmou a empunhadura de secagem. Ficou com os olhos bem abertos, como a sua boca, olhando para a rua exibida pela fachada de vidro da pequena lojinha. Estava de costas e me virei. Um grande, todo paramentado cavalo empinava as patas em plena avenida. Que cor linda, aquele negrume retinto que reluzia à luz dos relâmpagos que iluminavam o céu. Assustado, o animal relinchava, sacudia o corpo e ameaçava uma tragédia. Eu estava só, bebendo meu café em paz. Os carros buzinavam. Aproximei-me da porta, abri, vasculhei as redondezas e não vi ninguém vindo em socorro. Tirei minha roupa – calma lá, fiquei de calças – e caminhei até o bicho. Sei que não se deve encarar um equino direto nos olhos, mas eu queria sentir a dor dele. Queria decifrar seus pavores, o que havia levado àquele rompante histérico, àquele vexame público. Fui chegando e conversando com ele: “Hey Timothy, calma aí cara, tá tudo numa boa.” Ele gostou do nome. Tim relaxou, eu tomei suas rédeas e o conduzi à calçada. Fazia carinho nos seus pêlos úmidos e coçava seu pescoço. O público gritava, aplaudia. Eu tinha salvado o dia. Logo surgiu uma policial mulher, na sua farda azul escura decorada com a vergonha de uma falha tão monumental. Como ela havia se descuidado daquele bem tão precioso? O sorriso amarelo era o suficiente. Não precisava lhe dar nenhuma lição de moral, afinal, submeter outros ao ridículo é um pecado grave. Eis outro mantra. Sofri com o cavalo a dor de ficar exposto, desencontrado, ansioso. Vulnerável. Que história, não? Parece até mentira, mas não é. Voltei, ensopado, para o café. Não precisei pagar a conta. Sensibilizei-me com o bicho, sensibilizaram-se com o animal aqui.

Tive dores na semana passada, atrás da perna. Surgiram após uma noite de excessos. A investigação foi frustrante porque não podia indicar uma razão plausível para as pontadas que em dois dias passaram. Delírio? Ilusão? Negacionismo? Cerveja gelada. Bebi para passar. Funcionou. Pensar não é pop. Cerveja é pop. Para dores, pop culture.

Não fui ao encontro do terapeuta. Ele que veio até a mim, o desavergonhado. Se eu fosse uma casa com a maçaneta trancada, ele seria o pé de cabra. Aliás, justiça seja feita, ele não é terapeuta e sim médico. Médico psiquiatra. Eu achava que uma coisa levava à outra. Queria que ele me levasse a algumas drogas, hahaha. Gosto demais do sujeito, ele tem fome por provocação. Isso é tenebroso e audaz, uma arte que torna a conversa mais saborosa, instigante, espontânea. Falo vários idiomas, dentre os quais o anglo saxão. O doutor fala inglês, ora veja só. Percebi que não falamos a mesma língua. Dia desses ele se interessou por obras que eu ando lendo. Fez algumas perguntas e eu as respondi. Sabe aquelas impressões pessoais sobre algo que você tem contato? Pois então, são como um couvert de restaurante com azeitonas, pão e salaminho. Abrem o apetite mas, para matar a fome, tem que se pedir o prato principal. Eu dizia:

– Bukowski era um gênio da escrita simples e envolvente, aquele velho desgraçado.

– Curioso que, dentre tantos expoentes românticos e floreios realistas, você opte por se projetar naquela crueza porca. O que resta?

– Devagar…

– Exato, por que será que a fraqueza de se ver assemelhado a algo tão pouco nobre incomoda?

– Devagar…

– Posso divagar mais, muito mais.

– DEVAGAR!”