Um conto de Boston – parte 8

Embasbacado, topei com o texto a seguir. Nada de introdução ou saudações e alegorias que o meu alter ego costuma aplicar na abertura de sua redação. Talvez eu já não seja mais seu interlocutor, talvez ele tenha se cansado de mim, ou da falta de mim. Dado o pragmatismo, danço a dança. Reproduzo-o, este manifesto de um homem atormentado e sem audiência, com muita alegria. Afinal, não parece ser por monotonia que um dia nos afastemos.

Atenção aos modos. Todas as frases dirigidas aos superiores hierárquicos, dentro ou fora do ambiente de trabalho, devem terminar com o devido pronome de tratamento. Senhor, senhora, madame. Dá para arriscar um “doutor” sem medo de consequências. Adiciona uns tantos pontos no relacionamento com a chefia mesmo que o sotaque entregue um mero “dotô”. Agora, cuidado. O filho do patrão não deve ser chamado de “dotôzinho”. “Ah, mas você sabe se ele tem doutorado?” Meu amigo, ele tem a sua carta de demissão pré assinada. Melhor não brincar com coisa séria. Aos inferiores hierárquicos cabe o nome ou sobrenome ou apelido. Bom dia, Farias! Como vai você, Tonho? Simone, dá aquela geral na minha mesa por favor? Ordem, mas com cordialidade. Sem conceder muita confiança, porque a cadeia de compartilhamento do medo é fundamental na estrutura das relações laborais. Temente a Deus e ao Bóris do RH, amém.

Empregado que se preza chega 10 minutos antes e sai meia hora depois. Qualquer menção à hora extra vai soar como arrogância. Esquece, cara. Sim, senhor. Antes do trabalho em si há o pré-trabalho, que prepara o trabalho a ser trabalhado. Dá um trabalhão, então meio que faz sentido, por óbvio, chegar mais cedo. Já encaminha aquilo que você mesmo terá que desdobrar daqui a pouco. É um favor que se faz a si mesmo, por isso a empresa não precisa pagar por aqueles minutos. E de lambuja vem o fato de que durante a hora extra o telefone não toca. O profissional esperto é aquele que entende que hora extra é paz. Se todos percebessem isso, dobrariam a jornada. Perspicácia, perspicácia.

“Trabalhadores do mundo, uni-vos”, disse Karl. Tá, e agora? Sindicato, Tribunal Regional do Trabalho, happy hour, amigo secreto. Unidos parece que já estamos, unidos pra cacete até. Lurdinha e o chefe que o digam. E daí? No Brasil, pelo menos, união demais acaba em samba. Se bobear, o segredo é unir menos. “Se a classe operária tudo produz, tudo a ela pertence”, disse também o barbudo do Marx. Bom, aí o caldo engrossa. Já vou facilitar a vida do Pereira do Financeiro e deixar aqui a bomba: a classe operária produz muita confusão. Por isso, a burguesia fica com essa indisposição com os subalternos. Compreensível, né? Se criassem só o produto e não dessem vida aos excessos da reflexão coletiva tudo ia na manteiga. Só que não, os bonitos ainda têm que bater de frente com quem manda. A cultura pop produz conteúdo que faz o cidadão querer se levantar em rebelião. Veja lá, querer não implica em ação. Um bom filme empolga, dá uma chacoalhada na cabeça mas acaba em conformismo. Santo conformismo! Não fosse ele, a gente estaria em constante revolução. Não haveria paz. A gente precisa descansar, de vez em quando. Não é fácil ser patrão num mundo assim.

Trabalhadores do mundo, cooperem! Tirem mais uma soneca!

Eu não deveria saber de nada disso. Tem muita argumentação neste texto, vão acabar me chamando de comunista. A terapeuta garantiu que eu não sou borderline. Impressionante, não é mesmo? A terapeuta. A. Muito trabalho e nenhuma diversão tornam Jack um cara chato. Acho que toda essa dialética aqui serve apenas para provar que não estou convencido de mim mesmo. Um abraço.