Crônica irreversível do dia em que pedi a mão dela em casamento

A minha cabeça se afastava da conversa e eu mantinha os olhos fixos nela, nos movimentos rítmicos dos lábios que se afastavam em sons agudos e se atraíam para emitir os graves. Gesticulava, socava a língua entre os dentes para produzir os sons de “th” como deve ser. A língua inglesa, tão objetiva. Seus pés se encontravam aos meus, sob a mesa. Meu raciocínio se embaralhava e eu percebia um lapso de vinte segundos da narrativa que voava da boca dela. As palavras trotavam como uma égua puro sangue e as frases terminavam com a gargalhada de tom feminino. As chamas lhe pareciam incendiar as ideias e, ao contrário do que preconizam as leis físicas, corriam corpo abaixo tomando o colo branco e incendiando o ventre liso até aterrar em seus delicados e pequeninos dedos espremidos em um sapato de salto. Eu me sentia aterrorizado por um constante dejavu, antecedendo coisas cujas consequências eu já poderia imaginar. Um filme cujo roteiro é escrito por mim, dirigido por minha pessoa e protagonizado pelo meu eu lírico, eis a vida.

As luzes da casa tremeram e à distância rugiu o trovão. Corremos para o chuveiro. No cubículo úmido por vapores valsamos sem música e evitamos o sabão que poderia limpar-nos a indecência que brotava dos poros. Imundos de tudo o que é pecaminoso aos olhos do mundo, deixamos que escorresse as lascívias justificadas. Pela janela os olhos avistavam galhos rompidos que despencavam das alturas. O vento sacudia as folhas verdejantes como assim o fazíamos com nossas ancas. As luzes tornaram a piscar, mas o aquecimento é movido a gás, e nosso gás parecia infinito. Os sopros intensificados passaram a arremessar tudo pelos ares. Algo grande se pronunciava na natureza enquanto eu ouvia uma orquestra de câmara a excitar-me.

Os ouvidos. Os olvidos. Lembro-me de muito pouco do antes de ontem. Sei que existe uma mulher à minha frente e outra dentro de mim. Fêmeas que se cheiram. Às vezes não se bicam. Eu vou ao quintal e grito por ela. Uma chuva fina cai e tropeça em mim. A minha dama vem porque eu gritei por ela e também bati à janela. Eu digo que há algo de errado com o chão. Ela pergunta o que é. Eu digo que é o meu joelho. Como assim? Eu me ajoelho, devoto, saco do bolso a pequena caixa da esperança. Pergunto o que preciso saber. Ela diz sim. Mãos à boca e corpo curvado. Levanto e a beijo. Vamos para um restaurante. Peço drinks e ela pede que eu fale. Tudo tão rápido como nossa fábula de paixão e necessidade. O copo dela contém sal de lava negra vulcânica. No meu, aperitivo. Rimos e percebemos que os coquetéis não conseguem se manter bons até o fim, assim como a maioria dos casamentos. O desafio é arredondar núpcias e batidinhas que conservem o frescor antes de se tornarem aguadas.

Outro bar, agora com o triplo de pessoas do local anterior. Chamam-me pelo nome e notam a aliança no dedo dela. As luzes e as bênçãos e as energias derramam-se por ela. Pedimos as gotas mágicas. TCHAC TCHAC! A bartender agita as coqueteleiras com o vigor do Atlântico Norte. TCHAC TCHAC! Há cachaça no dela, há rabo de galo no meu. TCHAC TCHAC! Que os céus sejam moderados com os rabos de saia, porque eu só quero os de galo, os de galo! TCHAC TCHAC! Violentos agitos dos tubos prateados com gelo e álcool e especiarias. TCHAC TCHAC! Ela esparrama a bebida da minha noiva em uma taça circular com a borda cravejada por açúcar. No meu copo há uma bola de gelo do tamanho das de sinuca. Brindamos em nome de nós, cegos. Estamos apaixonados e não podemos ver nada como é. Há um creme brulée e agora os beijos estão ainda mais doces. Seria um desperdício não petiscar tanto quanto o apetite pede. Arriscamos viver em cativeiro um dia, alguém consegue se lembrar?

Agora há uma mesa entre nós e o garçom tem cabelos longos e loiros, cacheados e serpenteantes. Ele faz gracinhas que nos deixa à vontade. Sinto vontade de ficar de cuecas e abraçar a ele e ao chef, que manda pernas de rã fritas e ostras frescas no gelo. Bebo uma dose de não sei o quê. Serviram algo de envolvente, acho que foi camaradagem. Há brilho nos olhos dela, há um espelho d’água nos olhos meus. Acho que ela fez o impossível, não, não acho não.

Tudo continua como o planejado, eu sei. A história é minha, eu regulei a luz, ajustei o foco, gritei ação. Nada é encenado no palco da gente. Vou ao banheiro ansioso por voltar à mesa, onde em mim ela me tem. Na minha ausência, o garçom diz que ela é uma mulher de sorte. O dono do estabelecimento tem cabelos brancos e bigode branco. As curvas de seu bigode lhe conferem um título automático de lorde. Ele acena com a cabeça, elegante.

Eu retorno e a tomo pela mão. Voltamos para casa e a eletricidade continua ausente. As janelas agora estão abertas. Estendo o meu coração em uma delas, para quem quiser ver. Sou homem feito da carne humana, vim do pó e hei de voltar, amo porque a mim compete, do espírito me saltam verdades.

Há a escuridão e nossos troncos. Enterramo-nos. Um órgão que pulsa e um órgão que emite notas. No breu uma luz repentina. No céu, no peito, cá dentro. Adormeci nas costas dela e acordei nos céus suspenso.

Polegadas

Maria foi uma boa esposa durante uma das quatro estações do ano. Casou-se com Alfredo apesar do nome em desuso. Ela imaginava como foi a adolescência de um garoto chamado Alfredo e ele elucubrava como teria sido a infância dela sem pai. Cada um nos seus pensamentos particulares, porque eram ofensivos demais para servir à mesa. Maria não andava bem e esquecia a tampa do vaso levantada. Maria dormia com a boca aberta e roncava, mas Alfredo achava aquilo fofo. Fofo, mas insuportável, por isso ele a cutucava com o cotovelo. Casaram-se no outono, quando as folhas caíam. O caminho era poético, na antessala do renascer florido. No inverno, Maria não aguentava. Suspeitava do marido e roía as unhas que já eram curtas. Feria as cutículas e então tomava vinho. Alfredo a encontrava bêbada, desacordada, reclamando do vizinho. Ela sequer conhecia o vizinho. Moravam distante da família e não havia corrida para colo nenhum que resolvesse. Eram os dois, um para o outro, não importa o que acontecesse. Alfredo a amava e o amor é aquilo que o aquecedor faz nas noites mais frias, mesmo que o motor, toda a engenhoca que faz a coisa ficar quente, permaneça no lado de fora da casa sob um rigoroso frio. Maria era doce, uma menina, tinha os pezinhos tortos e os dedos compridos. Nasceu para ser menino, mas Deus quis diferente. Ainda bem, porque Maria era linda com cabelos que pareciam fios de linho. Alfredo se sentia completo, mesmo com as neuroses de Maria. Neuroses são essenciais ao negócio humano, dizem os psicanalistas. Opiniões, como cachos de banana, crescendo a torto e a direito como se o mundo fosse adubado por inteiro. Maria passou a suspeitar que Alfredo estava tendo um caso com alguém do escritório. Ele era funcionário público, batedor de carimbo, um daqueles de futuro, mas com todo o tédio do mundo. Saía cedo e levava a comidinha que seu amor preparava, mas então, com o diabo a lhe sussurrar diabruras, Maria parou. Simplesmente parou e escolheu a TV. O marido notou e reclamou, mas Maria alegou tontura. Disse que o alho queimava as mãos, que não suportava mais o cheiro de fritura. Alfredo, resignado, saía de mãos vazias. Trabalhava feito um condenado para que o dinheiro rendesse uma casa própria. Maria assistia ao televisor com a mente suspensa. A televisão não exige pré-requisitos, não exige sequer inteligência, a televisão só necessita ser ligada e Maria sabia bem apertar o botão vermelho. Maria poderia trabalhar em uma usina nuclear para deflagrar o alarme de desastre. Oh, Maria. Em uma manhã, ela acordou e se sentou em frente ao aparelho. Desligado, era como um negro espelho. Assistia a uma programação idiota, típica de geração vazia. Assustou-se com o estampido de uma música trágica que comunicava o impossível. “Interrompemos a programação para um anúncio especial” disse o âncora. “Devido a forte nevasca, os bombeiros têm dificuldade em acessar o prédio central da administração pública onde um incêndio sem precedentes derrete as colunas seculares”. O mundo de Maria naufragava, mas havia um âncora. Ela levantou e, nervosa, só pensava em fogo, no Alfredo, nos cigarros que ela tanto gostava. Maria subiu as escadas e bateu na porta do quarto onde o marido dormia. Ele caíra doente e dormia em um quarto separado para poupar a esposa da tosse renitente. Bateu com o polegar, como se surrasse um pandeiro. Maria não batia bem. Não houve resposta. Desceu as escadas e grudou no telefone. Ligava insistentemente para o escritório onde o marido trabalhava. Ninguém atendia, deviam estar todos mortos com a fumaça, ou pior, queimados. Maria enfiava os dedos nos cabelos e não sabia o que fazer. Conferiu a garagem e se espantou, pois o carro dele continuava lá. Tornou a subir as escadas, a bater com o polegar direito na porta branca e a chamar por Alfredo, Alfredo. Oh, a constatação! Se Alfredo não estava ali nem no serviço, só poderia estar com a amante. Nem a

neve poderia esfriar sua espinha mais que aquele pensamento. Maria entreteve a ideia e não viu saída. Fugiu de casa, usando o carro do marido. Maria aprendera a dirigir recentemente, mas a ira a guiava. Foi a um bar e pediu bebida. Serviram. Bufava e tremia. Não demorou até que um sujeito se aproximasse e procurasse ouvi-la. Existem mais homens bondosos, nessas horas, do que há certezas nesta vida. Maria vomitava o carrossel de mágoas e o cara, com a cabeça, assentia. Maria não parava, falava mais do que devia. Aos poucos, mesmo o sujeito da malícia, o garçom e os outros homens que ali bebiam se afastaram. Mas era um bar velho, sujo, daqueles que têm buracos na parede. E em um desses buracos tinha quem a ouvia. Uma barata e um rato, imóveis como se paralisados pela estricnina. Maria notou e não se intimidou, discursou para a baixa prole dos seus desejos de patifaria. Bebeu e praguejou e se levantou bastante zonza. Ninguém ajudou, eles queriam que ela se fosse. Maria entrou no carro e deu a partida, mas não conseguia ver. Havia neve sobre o pára-brisa e ela então ativou o limpador. Aguardou que a brancura se dissipasse e julgou, a inocente, que via plenamente com capacidade de uma águia careca. O carro patinou no gelo liso mas Maria, embriagada, julgou que tudo ocorria bem, da mesma forma que saiu de casa. O automóvel replicava as pernas da esposa desastrada. Na casa, enquanto isso, Alfredo destrancou a porta e pisou na sala. Não havia barulho, não havia nada. Apenas a TV ligada e um noticiário mudo. Ele mirou o quintal branco e a beleza da invernada. Torceu para ver uma raposa, um veado, um feixe de Sol naquela manhã castigada. Fez café e deu falta de Maria, mas pensou que a amada estivesse no quarto lendo ou coisa que o valha. Alfredo, segurando uma caneca azul, sentou-se no sofá e aumentou o volume do televisor que mostrava imagens de um fogo imenso, mas que não conseguia distinguir onde se passava. Foi interrompido por um anúncio urgente dentro da programação urgente que retratava uma outra emergência. “Interrompemos a programação especial para outro anúncio especial”. Alfredo recostou-se para acompanhar. “Uma caminhonete, placa RDC-8240, chocou-se contra o prédio em chamas da administração pública. Os bombeiros informam que não há sobreviventes, embora não tenham certeza de quantas pessoas estavam no automóvel”. O prédio era onde ele trabalhava. A placa era a do carro dele. Aflito, Alfredo levantou-se num salto e derramou café quente. Ele pensava sobre aquilo e não sabia o que fazer. Ele queria saber se alguém estava no carro com Maria. Alfredo estremeceu. Polegadas de neve impediam a saída e ele arrefeceu. Aquele era um sábado, ele não entendia como o incêndio começou, por que tudo acabou em fogo e por que ela o trairia.

Nos ouvidos, a água causa dor

– Vai se matar?

– Tenho pai e mãe ainda vivos.

– Não foi essa a pergunta.

– Estudei o Mito de Sísifo.

– Pode ser mais claro?

– Sou obrigado.

– A me explicar o que quer dizer?

– A dizer que o melhor cookie do mundo é vegano, você acredita?

– O que isso tem a ver com a minha pergunta inicial?

– Hoje é dia noturno, não há sol que possa iluminar.

– Qual dor é essa?

– Daquelas que ardem sem se ver.

– Isso é Camões?

– Sim. E não haverá mais piadas com mamão.

– O que está acontecendo?

– Não adianta tentar explicar, Inês é morta. E isso também está em Camões. E, sabe, Camões está em nós.

– O que você tira disso tudo?

– Eu posso ouvir. Há o tique-taque incessante, mas não há relógio em vista. Só há o som, o inexorável. Galopa o cavalo do apocalipse sem sinal de cansaço. É o destino do universo a contração, a expansão, a criação e a destruição. Não há o que não acabe e não existe o que não estrague. Bom, menos o mel. A doçura única da natureza que não tem data de validade desde que não seja contaminado. Que coisa essa. É por isso que é tão sério escolher honey para chamar alguém de sua estima. Não usar o substantivo em vão, um dos mandamentos.

– Como você está se sentindo?

– Com vontade.

– De quê?

– De acabar com tudo, por um fim em tudo, deixar de ser tudo.

– Está bastante confuso.

– Basta bloquear ou ignorar. As similaridades com seus monstros são o que mais lhe compromete a convicção. Atacar é verbalizar as semelhanças. Tempos líquidos, amores líquidos.

– Supere!

– Mais alguma ordem ou sugestão?

– Não, só a mesma indagação. Você vai se matar?

– E o que resta para matar que já não esteja sem vida? Carne fria, decomposta, mente de lembranças pálidas. Se o coração bate é por involuntariedade. Os pés doem porque tem de suportar o peso. Olhos veem e enxergam, mãos procuram mas não encontram.

– Então, o quê?

– Citar Manuel Bandeira.

– Dizendo?

– A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Óleo de peroba

arte da Melodie Perrault

Havia um garçom, nem alto nem baixo, nem magro nem gordo, nem careca totalmente, nem branco nem negro, com a barba por fazer e, acima de tudo, aquele garçom vestia um terno que não era feito para ele. Aquele cara representava a mediocridade. Veja bem, não há julgamento moral no que eu conto, a intenção é dizer que ele não era 8 nem 80. Aliás, havia outros garçons ali. Um era muito magro e já passava dos 50 anos de idade, e cada bandeja com taças e garrafas parecia pesar uma tonelada em seus braços magricelas. Apesar do semblante exausto e da compleição franzina, aquele senhor sorria efusivamente mesmo quando se protegendo dos convidados que se movimentavam de costas a levar perigo às bebidas que ele carregava na mão esquerda.

– OPA! – dizia, a cada minuto, ao se esquivar.

Uma garçonete, a única mulher a exercer a função, chamava a atenção por quatro razões. Era incrivelmente linda, mas linda mesmo, linda a ponto de alguns bêbados em fim de festa se ajoelharem e pedirem a sua mão em matrimônio. Usava batom vermelho e o formato de seus lábios era espetacular, entretanto, não sorria nem por ordens dos superiores. Sobre os olhos castanhos, havia uma monocelha grossa e intocada que mesmo que eu não queira criticar, era o toque de imperfeição naquela escultura. E o quarto detalhe, usava um avental tão amassado que parecia ter sido mastigado pela vaca de estimação da família, a Gertrudes, que vivia na fazenda. Os outros homens que vestiam camisa branca e gravata preta eram garçons comuns, sem nada de muito interessante. De tão ordinários, confundia-se com facilidade alguns convidados da festa e vice-versa. Gente na qual falta tanto sal como açúcar, gente que a gente não sabe se come ou faz fotossíntese.

As famílias exultavam. Dia de festa é dia em que ninguém discorda de ninguém. Ri-se, joga-se a cabeça para trás e então se emenda um gole generoso de champagne. Nada de ânimos exaltados. A mãe da noiva tinha o cabelo impecável, o pai do noivo gargalhava e irradiava aos convivas a sua própria luz, tão incandescente que punha os demais em brasa. E lá vinha o garçom magricela, que com o passar da noite já sustentava a bandeja com as duas mão e pedia, com delicadeza, para que os convidados retirassem autonomamente as bebidas desejadas. A cada copo que ia, ele sorria com timidez pela graça alcançada de carregar menos peso.

A festa acontecia na casa da família da noiva e os cachorros estavam presos. Nem latir eles não latiam. Finos, elegantes, dignos do sobrenome e tradição. Cães que engoliram uma pessoa uma vez, mas sem fazer barulho. A tal pessoa tentou roubar a casa mas o que ela conseguiu foi a atenção dos dois rottweilers. Coitado, nem boletim de ocorrência foi registrado. O caseiro entendeu que algo tinha acontecido alguns dias depois quando percebeu um punhado de terra anormal no jardim. A dupla enterrou os ossos como bons cãozinhos que eram. Os nomes? Ha, segura essa. Um era Vito e o outro Corleone. Segura essa!

A família do noivo era gigante, quatro irmãos e três irmãs, um sobrinho e uma sobrinha, pai, mãe e madrasta. Boadrasta, como quereria o próprio noivo e ninguém discorda. Foram de ônibus, metade de gente e metade cachaça. Festa é festa. E lá vinha o garçom meio-a-meio, com seu jeito que não dava para distinguir se estava contente ou conformado. Mantinha um semblante sério até ser elogiado, quando então abria um sorriso capaz de fazer sorrir até a Monalisa. Uma chuva leve caía como benção aos pombinhos. Sinal de bom agouro para o enlace, motivo de nervosismo para a mãe da noiva que havia planejado a cerimônia no jardim. A grama encharcada já não permitia a presença de ninguém sem botas de solado alto. Adivinhe? Não havia uma única alma de botina naquela festa, nem o padre. Para o padre, apenas a batina.

Dentre tantos convivas, havia uma dupla que dividia a atenção entre duas, e apenas duas, coisas naquela noite. Ela, a sobrinha da noiva, catorze anos de pernas finas e longas, pele da cor do puro vime, cabelos negros e longos como os de Potira. Fisicamente, sua principal característica era a boca larga, de lábios finos. Era como se, estranhamente, sua boca tivesse atingido a maturidade antes do corpo. Ao bocejar, poderia engolir um pássaro por descuido. Um pássaro no ninho. Um pássaro no ninho com 5 ovinhos pré eclosão. Tô falando, era uma boca e tanto. E, como não poderia deixar de ser, aquela beleza juvenil atraiu os olhares sonhadores do sétimo irmão do noivo, então com 16 anos de uma perturbadora puberdade. Ele era boa gente, estava vestido com terno e gravata azul marinho de fino trato. Cabelos desengonçados e encaracolados para combinar com o jeitão destrambelhado de um adolescente. O acúmulo de hormônios havia transformado sua cara em um campo de guerra. Ninguém o achava interessante na escola. Mas a garota da bocarra gostava dele. E ele gostava muito dela. Além do casamento em si, os dois prestavam atenção reciprocamente. Sentaram-se em mesas separadas porque os pais dela sabiam que ela era levada. À distância, faziam mímicas e convites um ao outro através da leitura labial. Ela piscava com o olho direito que era aquele que só ele conseguia enxergar. Ele mandava beijinhos quando o garçom medíocre bloqueava a visão dos pais dela. Apesar de apenas 16 anos de idade, ele bebia moderadamente o espumante que se servia na festa. Bom, aquele era o casamento do seu irmão, naquela festa ele era padrinho do noivo e, acima de tudo, aquele país era o Brasil. Ninguém dá a mínima se você é maior de idade ou não.

Ela, a garota de pernas leves, sinalizou que ele a seguisse. Que os céus me punam se for mentira, mas a pequena ninfeta vestia um vestido vermelho. O rapazola aguardou por dois minutos e então se levantou, encostou a cadeira na mesa, pediu licença e adentrou o longo corredor central da propriedade. Deu no quarto do fundo, onde todos os jovens das famílias reuniam-se em volta da cama a jogar cartas. A conversa era barulhenta e ninguém se importava com o que os dois tramavam. Ela continuava a comunicação labial não sonora, com a performance nítida de sua boca continental.

– Espera aqui – disse ela sem emitir nenhum ruído.

Ele balançou a cabeça obedientemente. E, como em um passe de mágica, a garotada toda se levantou e voltou para a festa. O que era aquilo? Poderia ela controlar os elementos? O que mais um garoto desejaria além de um romance aventureiro? Uma garrafa de vidro com coca-cola, talvez. Ela o beijou levemente, apenas com o breve contato dos lábios, e disse:

– Vem comigo.

Desta vez, ela emitiu som. E o som tinha forma. Fluía da garganta, deslizava pela língua e se esquivava dos dentes antes de saltar pelo ar com perfume de rosas e eucalipto. Ah, o convite para o inferno vem fantasiado em veludo. Mal sabia ele. Ela à frente, ele logo atrás conduzido pela mão esquerda tal qual o vermelho cru comunista da garota que já entendia o beijo como uma propriedade pública. Eram jovens que curtiam a jovialidade, bestamente inconsequentes. Escolheram o banheiro para trocar uns amassos. Beijavam com sofreguidão e nada mais. As mãos não eram bobas, só os dois que eram. Trinta e cinco segundos de pegação foram interrompidos com violentos trovões do armagedon. A porta do banheiro agora tinha voz e essa voz, esganiçada e raivosa, invadia o ambiente refletindo nos azulejos azuis que recobriam as paredes.

– QUEM ESTÁ AÍ?? – ela berrava.

A porta tremia com as pancadas e as mãos do garoto acompanhavam o ritmo em desespero.

– QUEM ESTÁ AÍ??

Dos gritos, ele só entendia uma coisa e essa coisa ecoava nos ouvidos: Taís, Taís, Taís.

– Sou eu tia, não estou me sentindo bem. Deixe-me sozinha – ela disse.

– Menina, eu sei que você não está sozinha, abra essa porta agora!

– Tia, eu estou sozinha, pelo amor de deus, estou passando mal.

Com os cotovelos sobre a tampa do assento sanitário, ajoelhado na toalha de piso, ele rezava para um deus misericordioso que os poupasse do vexame. A garota falava com a porta, virava, puxava os cabelos do rapaz e o beijava. Aquela situação era como estar dançando com dor de barriga e sentir vontade de soltar uns gases. Você sabe que pode ajudar, mas vai acabar dando merda. Ela não estava nem aí. Beijava e falava com a tia, falava com a tia e beijava outra vez.

– Você tem que ser como eu, cara de pau. Passe óleo de peroba nessa cara! – ela disse sussurrando ao pé do ouvido.

– QUEM ESTÁ AÍ COM VOCÊ?? – a tia solteirona, a mais velha das tias, voltava a gritar no vão da porta.

– Tia, eu já falei. Ninguém está aqui comigo, só Deus! – disse e lascou outro beijo.

Não sei se era o mesmo deus com o qual ele se comunicava, mas caso fosse, que ele perdoasse aquela blasfêmia toda. Santa paciência. A tia era chata, solteirona, de meia idade mas, veja só a ironia, era conhecida justamente porque tinha aprontado livremente na mocidade. E agora cobrava a moral e bons costumes. Como a vida é uma caixinha de surpresas, não é mesmo?

– SE VOCÊ NÃO ABRIR, VOU CONTAR TUDO PARA O SEU PAI!

– Tia, eu tô piorando, por favor me deixe quieta aqui.

E tome beijo. E tome lição de moral em forma de sussurro.

– Tá vendo como eu sou cara de pau? Óleo de peroba nessa cara, você tem que fazer como eu faço – disse ela com aquela boca quilométrica.

O rapaz já estava perdido dentro de si. Sucessivamente, olhava para a janela do banheiro calculando se conseguiria fugir por ali. Acontece que era uma casa antiga, com paredes muito altas e o vitrô era fino, impossível de ser penetrado. A única maneira de sair seria pela porta, estivesse quem estivesse do lado de fora. De repente, a perturbação parou. Silêncio e paz. Os saltos da tia foram ouvidos sumindo pelo corredor. Era o momento certo para sair e o rapaz buscou a maçaneta da porta.

– Aonde você pensa que vai? Vem cá!

A garota pensava muito diferente do marmanjo. Ao invés de aproveitar o momento para a fuga, ela aproveitou para afundar os lábios nos dele, que não resistiu. Surge uma nova voz na porta marrom:

– Vamos, garota, abra a porta agora que eu protejo vocês dois.

Agora era a tia gente boa, da qual todos gostavam.

– Tia, eu tô sozinha aqui e tô passando mal – insistiu a jovem teimosa.

– Tá certo, e o estado é laico. Só eu posso ajudar vocês dois. Abra logo essa porta.

Abriu. E os dois saíram. A garota passou pela tia sem dizer uma palavra e em questão de segundos já estava no ambiente da festa novamente. O rapaz, branco feito um fantasma, parou e começou a se explicar para a tal da tia legal. Ela não quis saber e disse que ele voltasse normalmente ao salão. Ao chegar ali, ele examinou o local e viu a sua paixão sentada à mesa, no mesmo assento de antes. Um piano de Thelonious Monk tocava ao fundo. Ela piscou para ele. O garoto percebeu que o pai dela não estava inteirado dos fatos. Respirou aliviado, afinal uma surra ele não levaria. O moço então sentiu a mão do garçom medíocre em seu ombro.

– Precisa de uma bebida, rapaz?

– Preciso sim.

– É claro que precisa. Eu, no seu lugar, tomaria algo para relaxar – disse o garçom com um sorriso amistoso.

– Oh, é mesmo?

– Vamos, cara, peça qualquer coisa.

– Óleo de peroba, será que você tem óleo de peroba pra me arrumar?

Um conto de Boston – parte 6

José Armando me deixou em maus lençóis. Depois do primeiro encontro casual, houve uma certa sincronia e passei a garimpar suas cartas com grande êxito. Vez ou outra ele se atrasou, mas nada que fosse como agora. Mais de um mês separou a quinta missiva desta que agora reproduzo, a de número seis. Como fiel observador de testemunhos errantes, não me entreguei de mãos beijadas. Insisti, saboreei cafés e terminei grandes obras. Sempre sentado naquele mesmo banco frio da estação de trens de Boston. De um salto surgiu, desvencilhando-se da multidão formicular o Pero Vaz de Caminha do autoconhecimento. Sorria e já sabia o que fazer. Deixou o envelope, deu um giro com os pés feito o Michael Jackson e saiu andando sobre a lua.

Meu querido João dos Prazeres,

Eu me casei e o coração agora sinto diferente. Por isso, andei ausente. Desapareci da estação, andei faltando ao trabalho, perdi a hora em manhãs seguidas e deixei muita comida queimar. Ando meio avoado. Não sei quanto a você, mas eu dei uma desencontrada ainda que, na ótica de Vinicius, a vida seja a arte do encontro. Não sinto falta de nada que um indivíduo possa enumerar como fundamental para a plena felicidade:

Amor de Eros

Amor de Philos

(continuo com minhas extravagâncias existenciais quanto ao amor Ágape)

Renda

Adrenalina

Conflitos (né?)

Aeroportos

E aqui faço honras: que santa mulher me faz companhia. Ama-me como marido e como amante, despe minha alma tão bem quanto o faz com meu corpo. Faz do nada, do vazio, um retiro de paz imperturbável.

Mas, continuo perdidão. Muitas questões se levantaram nas últimas visitas ao terapeuta. Fico aqui pensando: como será que você reagiu aos meus escritos mais estrambólicos? E, dada a certeza em ter esse leitor cativo, o que faz com que você volte outra e mais uma vez?

A paixão tem me bagunçado a cabeça naquele sentido perfumado da coisa. Apaixonado, planejo o mundo e cortejo a eternidade. Tudo com medida e método.

O doutor me perguntou por que eu insisto em manter contato com algumas pessoas, por que eu consumo substâncias entorpecentes concomitante a profissão da saúde, por que eu ajo impulsivamente com a raiva e tão racionalmente com a placidez. O gajo me indagou, ao ouvir a minha reticência quanto a alcançar um parente, se aquilo era sobre mim ou sobre ele. Puta que me pariu, que cara abençoado. Mais do que falar, sabe como falar. Direto, com seu olhar penetrante e impassível e sem a menor misericórdia.

Como eu gosto dele. Fiz uma auto-análise e cheguei à conclusão de que eu faço de tudo para que ele não perceba essa minha admiração. A bem da verdade, eu bato. Bato muito, o coitado se transforma em Judas aos meus olhos. Judas na sexta feira da paixão. Em Jerusalém. Minha orelha chega a esquentar.

Êxtase. O mais alto regozijo sinto quando ouço a minha mulher desmontar as considerações alheias que vêm embebidas em mesquinharia. Discorria uma terceira pessoa sobre issos e aquilos de sua viagem ao Havaí. À parte da introdução elogiativa sobre as maravilhas naturais daquele paraíso, veio um maremoto de etcéteras depreciativas. Tudo é caro por lá, o trânsito sempre está engarrafado, a comida é ruim. Eis que a minha dama retruca:

  • E as pessoas, como são? Você fez amizades?

Ah, quanta sutileza! Por essas e outras… bom, hei de ser sincero. Também pela sua bunda. Que coisinha!

Aqui, relendo o que acabo de escrever, notei que nunca fui tão bem comportado. Deve ser a medicação. Ou a saciedade. Ando fazendo todas as minhas vontades e, quando não faço, alguém o faz por mim. Acho que estou empanturrado e, por isso, vou escrever mais. É o meu alívio.

O distinto deve me perdoar, eu espero. Muita coisa aconteceu. O rio já não é o mesmo e eu me mudei. De agora em diante, o céu deixa de ter cor e eu assumo a luz de todo o universo.

O grande Eu Sou.

Pombal

Ai, ai, ai, ui, ui / Loira ou morena / Tremendo mulherão / Sorria, pois você está na televisão / Quem quer dinheiro?

Assim ele sabia que seu final de semana havia, oficialmente, chegado ao fim quando o Silvio Santos começava a cantar nas noites de domingo em pleno palco do Topa tudo por dinheiro, programa pitoresco de humor liderado por um judeu, ex-camelô e simpático apoiador da política de direita. A maior constatação da velhice enraizada na mente humana é quando ela – a humanidade – passa a calibrar os horários do dia, as tarefas cotidianas, com a programação da televisão. Certa vez, logo após buscar os pães quentinhos da primeira fornada matinal, topou com um velho conhecido na porta da padaria.

– Senhor Bonifácio, gostaria de convidá-lo para um recital de violão que será realizado na próxima sexta-feira.

– Onde tomará forma tal apresentação?

– O teatro municipal será a casa das cordas melodiosas.

– Qual o horário do evento?

– Às 20h, meu amigo.

– E dura quanto tempo?

– A seresta mais a devida confraternização no boteco do Valdir, que fica em frente ao teatro, deve roubar três horas noturnas do ilustre cavalheiro. O mestre cervejeiro agora anda servindo um tal bolinho de feijoada, recheado com couve, feijão preto e paio. Dizem que é de cair o queixo.

– Infelizmente devo informar que não comparecerei, pois não posso perder o comentário político do jornal das 21h e também já aguardo ansioso o Globo Repórter sobre as belezas do rio Nilo que dar-se-á no mesmo intervalo de tempo do concerto. Agradeço o convite, até logo.

Direto nas opiniões e conservacionista da arte de observação à distância, pela janela, Bonifácio adora ter sua opinião ouvida. A bem da justiça, a dependência da TV só se dá em período noturno. Durante o dia, toma seu café preto e sem açúcar e, acompanhado por livros, senta-se em frente ao buraco na parede que é preenchido por vidro. Do alto da soberba e do nono andar, pensa a esmo recolhido ao silêncio da incompatibilidade com o mundo. Em frente ao prédio onde mora há a igreja matriz da cidade onde, nas bordas da abóbada central, concentram-se uns tantos pombos que entre arrulhos e voos também copulam. Ainda que não seja esteticamente feio, o pombo é o animal símbolo da doença, da sujeira, da vida ingrata pelas ruas. O rato de asas, como se costuma referir ao ente aviário, é agraciado com exceção quando está em unidade solitária e sua cor é branca. A pomba da paz, do espírito santo, da graça. E é exatamente uma pomba sozinha, branca como leite, que criou a  mais inusitada relação homem-animal com o velho Boni. Observando-a ciscando por entre os vãos do telhado ecumênico, com aquele jogo de pescoço vai-e-volta típico, assistiu ao impossível. A pomba parou o que estava fazendo e o fitou diretamente, da distância abismal que os separavam. Alçou voo direto com poucas batidas de asas e pousou na janela que servia como vitrine do mundo. Bonifácio, encantado com a proximidade do animal e seu olhar inquisidor, inclinou-se na cadeira de balanço e sorriu para a ave. Com olhos vermelhos, a pomba girava a cabeça a fim de que os dois globos laterais pudessem analisar a figura idosa que se projetava com curiosidade frente ao animalzinho. Um vento revolto batia e levantava insistentemente as penas de sua cabeça conferindo-lhe uma tal aparência patética. A pomba então bicou três vezes a região do trinco que travava a abertura da janela.

– Ora, que bichinho mais esperto! – disse Bonifácio em voz alta do lado de dentro do apartamento.

– O que disse, Marinho? – indagou sua funcionária doméstica que o chamava pelo sobrenome.

– Nada, não é contigo, Railúcia. Fia-te às tuas obrigações. – disse um ríspido Boni que não é dos mais afáveis patrões e, sabe-se lá o porquê, expressa-se quase sempre na segunda pessoa do singular.

A pomba então voltou a bater o bico outras três vezes contra o vidro e a girar a cabeça em sinal de ansiedade. O velho puxou a cadeira para mais perto da janela e, puxando uma trava, permitiu que o fluxo de ar entrasse sala adentro. Com um salto simples, a ave se assentou na borda da basculante. Bonifácio estava maravilhado com aquele encontro, tão inusitado quanto pouco crível. Empolgado, exclamou em voz alta:

– Tu estás com fome ou sede, ó amiguinha? Vou buscar algumas sementes e água!

Ao insinuar o movimento de pernas e braços para se erguer da poltrona de balanço, eis que a parte fantástica da história entrou em cena. Com uma voz aveludada e do gênero feminino, com dicção pausada e clara, a pomba se apresentou:

– Meu bom senhor, fique bem aí onde está. Meu nome é Clarice e eu não tenho fome, senão a por conhecimento. Já fui planta e já fui gente, essa gente comum do dia-a-dia, já fui felina e até mesmo uma nuvem, veja só! Certa vez tomei a forma de pernilongo e percebi que chupar o sangue de humanos não era tão distinto de lhes trair a confiança sendo eu outra humana. Ao tentar puxar papo na forma do mosquito indesejado, não percebi que minha voz saía muito baixinha e que o que chegava aos ouvidos dos homens era apenas o zumbido irritante que caracteriza a classe. Acabei em um tapa violento, esmagada entre as palmas gigantescas de um Zé qualquer. Tenho apetite pela conversa boa e franca, ademais não poderia me alimentar das sementes suas pois sou ave ralé, daquelas que ciscam o resto do resto, que resta de um todo. Diga-me, o senhor não se cansa?

O pobre Bonifácio beirava o colapso nervoso ao presenciar um animal que falava, articulava com maestria e ainda indagava com petulância.

– Meu Deus, o que é isso? Estaria eu sob efeitos alucinógenos? Uma pomba que fala! Como és tão bonita, lustrosas as tuas penas e tua voz tão agradável! Sou Bonifácio Marinho, teu criado. Agora, confuso me encontro com tal pergunta. Cansado de quê?

– Ora, meu bom homem, cansado de tanto olhar, olhar, olhar e não interagir. Há semanas que perambulo pelas redondezas e o vejo sempre aí, na distância do olhar comedido que muito vê, porém pouco compartilha. Creio que há muito o que sair destas cordas vocais suas. Já sente o peso da idade? Encontra-se cansado daquilo que é humano, demasiado humano? Permita-me, preciso conhecê-lo melhor, aquele é um Picasso?

A safada da pomba reconhecera um quadro pendurado às costas do sexagenário.

– Sim, é um Picasso. Mas é uma cópia, não posso arcar com os custos de um original. Que coincidência feliz, uma criança acolhendo uma pomba!

– Que diferença faz o original? Este lar não é um museu, pouco importa outra coisa senão a imagem em si. Quanta ternura. Sim, mas retomando, quais são as suas queixas?

– Ora, minha amiga, sou um homem que muito já viveu. Alegrias, desilusões, ilusões  de esperança. No meu tempo que era bom, nós conversávamos com propriedade sobre assuntos diversos e a cordialidade ditava a melodia do diálogo. No meu tempo tudo  aquilo que fosse chulo era rejeitado, no meu tempo…-  os tempos agora são outros e eu prefiro me recolher ao seguro refúgio da minha própria sala de estar.

– É por isso que tem preferido assistir ao Silvio Santos a encontrar com os seus?

– E como sabes disso, ó pombinha enxerida?

– Ora, tenho asas e posso voar aonde bem entender, pois por vontades sou guiada. Às vezes encontro-me quieta a observar e a escutar, sobre as cabeças daqueles que só tendem a olhar para o chão. Estando no alto, posso olhar ainda mais para cima, com os ouvidos porém atentos a tudo o que vem de abaixo.

– O que queres dizer?

– Você precisa subir, Boni! Ou talvez navegar, fazendo jus ao sobrenome. Diga-me, já não é hora de deixar a cadeira e passar a, então, balançar o mundo?

Ao melhor estilo mestra dos magos, tão logo pronunciou a frase enigmática abriu as asas e despencou ao sabor da gravidade. O velho deu um salto e acompanhou a queda livre da ave por alguns andares até que, em vigorosas agitações aladas, ela recuperasse o controle do plano de voo. Sumiu em curvas por entre os prédios da vizinhança. Bonifácio ficou entusiasmado com a intervenção sofrida naquela manhã fatídica e decidiu reunir os amigos no mesmo boteco do Valdir rejeitado previamente. Lá se encontraram, conversaram e, claro, degustaram os bolinhos de feijoada, uma iguaria que correspondia à expectativa. Os convivas, que já desde há muito só encontravam Bonifácio ao acaso da fila do pão ou da lotérica quando iam pagar contas, perceberam no companheiro um homem alterado como em um passe de mágica. Falante, com a voz impostada e desejoso por debates clássicos de mesa de bar. Argüiram sobre política, religião, futebol, tudo aquilo que a cartilha de bons modos reza por não se discutir. Sobre damas formosas e os efeitos entorpecentes de seus atributos físicos, comuns em outrora, também relembraram. As garrafas de cerveja secavam, vinham outras e mais amendoim, bolinhos de bacalhau, guardanapos baratos que desmanchavam ao contato com a gordura sobressalente. Ao se despedir, recebeu afetuosos abraços e a alegria geral era tanta que não o deixaram sequer pagar a conta. Havia reconquistado a plena admiração do grupo. Voltou para casa sorridente e ansioso. Gostaria de conversar mais com Clarice. Deitou-se e deixou as janelas abertas. Pelo corredor de vento entravam também os sons da rua e os arrulhos noturnos dos ninhos urbanos das centenas de pombos que habitavam a região. Na manhã seguinte, enquanto se servia de café fresco, escutou a batida tri-executada a quebrar a monotonia da alvorada. Tec-tec-tec…

– Bom dia, Clarice! Que felicidade em rever-te, ó voz das boas novas! O que trazes hoje em teu seio da sabedoria?

– Você não perdeu tempo, hein!? Diga-me, o que estava mais gostoso, os petiscos ou o banquete de idéias?

– Ora, os acepipes estavam perfeitos, por mais simples que fossem. Mas, admito, relacionar-me com os amigos e misturar as opiniões foi fantástico. Ontem, é bom que eu diga, deixei de assistir a toda a faixa noturna da programação televisiva para confraternizar. Nem de longe me arrependo, pelo contrário, sinto-me mais jovem até! Claro que alguns alimentam achismos e considerações supérfluas sobre as coisas e..

– Deixe disso, homem! O que é dialogar se não suportar e ser suportado? – interveio uma pomba eloquente.

– Tens razão.

– Quem sabe agora tome coragem para aquilo que já é hora de acontecer.

– E a que te referes? A metafísica? Os diálogos com Deus e o significado da vida? Devemos discorrer sobre a grande saúde a qual o homem almeja?

– Rai.

– Rai? Engoliste uma sílaba, ó passarinha? Raios de sol?

– Sim, engoli. Railúcia, seu grande amor.

Aquela frase aterrorizou o velho Boni, que num tropeço derramou o café sobre as coxas.

– Qual absurdo proferes! De onde tiraste tal sandice?

– Sandice é desejar uma mulher tão bonita e dedicada como a Rai e não ter a coragem de se declarar, pela simples relação hierárquica patrão-empregada. O amor tem razões que a própria razão desconhece, meu bom homem. Dispense esse trololó e case-se enquanto há tempo. E o tempo urge, enquanto o leão, ainda, ruge! – decretou, simbolicamente, ao se auto-defenestrar.

– Railúcia! Venha já aqui! – gritou um Bonifácio espavorido.

– Sim, meu patrão, o que houve?

– Andaste a falar coisas por aí? Tens algo a me dizer?

– Não compreendo, Marinho. Sobre o que, meu senhor, sobre o que especificamente se refere com essa pergunta?

– Deixa para lá, acho que estou meio maluco. Queres casar comigo? – propôs um absolutamente nada romântico Bonifácio Marinho com a voz embargada.

– Oxalá, meu pai! Tenha pena de nós, tenha dó! Quero sim!

À parte a exaltação afro-religiosa, Boni considerava-se pleno. Pudera! Em dois dias estavam no cartório de registro civil para oficializar a união. Marido e mulher, rumaram ao apartamento para uma recepção modesta com os mais chegados. Na hora de cortar o bolo, Clarice voou pelo recinto e pousou no ombro esquerdo do noivo. Os convidados se derreteram com a imagem dos pombinhos agraciados pela pomba branca da santa Trindade. A foto ficou uma beleza. Clarice cochichou em seu ouvido:

– Meio maluco você é, não acha? Dando corda a uma pomba! – e se foi voando janela afora.

Boni celebrou com entusiasmo. No dia seguinte, deu falta da visita de sua amiga. Lamentou por toda a manhã a ausência de fiel confidente. Estava doido para contar sobre a noite nupcial e sua performance inacreditavelmente soberana sob os lençóis. Sua agora esposa Railúcia Marinho sorria à toa. Disse que tinha uma surpresa para o almoço. Serviu os pratos e pôs à mesa um assado.

– O que é que preparaste para nós neste dia primeiro do resto de nossas vidas, meu benzinho?

– Pomba, meu amor! De um criador que conheço. Há de adorar o sabor e a maciez de sua carne tenra.

Bonifácio bem que tentou mas não pôde evitar a dúvida. Seria, por vias da mais selvagem coincidência do mundo, ser aquela pomba a sua querida amiguinha? Sua sábia conselheira havia se tornado a sua refeição? Depois de alimentar-se da fonte abundante de perspicácia, haveria de ingerir também sua matéria? Seria tudo aquilo um sonho? Estaria ele variando das bolas, coisa de velho? Olhou insistentemente para a janela na esperança que Clarice surgisse a cutucar o vidro com o bico afiado. Nada. Sorriu com lábios desesperados para sua esposa que, sem perceber nada, ainda apresentou mais um complemento para o prato:

– E essa é a cabidela, um molho feito com o sangue da pomba, uma iguaria!

A essa altura do campeonato Boni suava frio, tentando disfarçar a reação e não deixar com que sua amada percebesse o nervosismo. Como Jesus Cristo, comeria sua carne e beberia seu sangue, como que em ato memorial? As cortinas todas do apartamento estavam abertas e ele percebia, paranóia ou não, uma revoada de pombos. Estariam todos possuídos por um espírito vingativo? Railúcia saboreava e expressava o prazer a cada garfada:

– Mmmmm que delícia! Não tem fome alguma, meu bem?

– Ainda estou nutrido do amor que me serviste sobre o leito, ó rainha de fogo.

– Ah, como você é perfeito!

A recém casada dona de casa devorava as asas e o peito branco da pomba enquanto balançava a cabeça. Na vitrola tocava um disco de Frank Sinatra e na ponta da mesa continuava o senhor Bonifácio a resistir ao primeiro toque no prato que fora servido. Bastava que uma pomba branca pousasse em sua janela e o alívio seria imediato. Mas ele não poderia começar, a pomba continuava sumida.