Apanágio do homem

Um estrondo de proporções dantescas anunciou, ao mais puro estilo trágico, a interrupção do fornecimento de energia para a vizinhança. Primeiro, uma grande luminosidade clareou o céu anegrado e então se pôde ouvir, em decibéis guturais, a reação impiedosa da corrente elétrica que atingira um indefeso poste de eletricidade. Em seguida, faíscas saltitantes criaram a chuva incandescente que fluiu do gerador carbonizado. Bela, porém arriscada, a cena era magnética aos olhos de todos os que se encontravam na varanda do casarão encartalhado. A luz abundante, nas controvérsias da natureza, criara a escuridão.

O breu incutido de modo espontâneo costuma confirmar a previsibilidade humana: apagam-se as luzes e o que se ouve e sente são gritos de exclamação, uivos histéricos e mãos que tateiam os seres mais próximos, como náufragos que tentam alcançar destroços que lhes garantam a sensação de segurança na procela. Ali estavam Gerônimo, proprietário da residência, Amarilda a esposa e co-proprietária, Carlos Honesto, o filho daquele casal, e João e Maria, amigos que formavam a mais insossa união matrimonial, a começar pelos nomes de fábula e os trajes que cobriam-lhe as carnes; João vestia bermuda cáqui, camisa pólo verde abotoada até o pescoço e sandálias de couro, enquanto Maria os pés calçava com modestas sapatilhas vermelhas ornadas com laço branco, vestido palha com uma faixa em volta da cintura e cabelos alisados penteados para o lado. Ambos já tinham fios grisalhos surgindo entre os demais, coisa que não os incomodava, afinal, não se tratavam de gente vaidosa. Tão logo as lâmpadas se apagaram e os estertores gerais agonizaram as trevas, a dupla de convidados atentou os presentes para a exuberância de um céu estrelado que agora se exibia em seu esplendor sem a interferência da luminosidade poluente das aglomerações urbanas. Silenciaram, todos, por alguns segundos. No céu, em tremenda coincidência, uma estrela cadente rasgou a imensidão. Os que pouco observam o firmamento tendem a crer que aquele fenômeno é raro quando, em verdade, rara é a quietude do contemplar. Espantaram-se e, em uníssono, sugeriram todos o depósito auspicioso de um desejo nos confins da mente. Levantaram-se os personagens do conto dos Grimm e anunciaram a partida:

— Queridos, o apagar das luzes recomenda o momento de recolhimento. Avançada hora nos lembra que temos de dar comida aos gatos.

Despediram-se e foram embora. O relógio cuco, independente à alimentação elétrica, marcava onze horas e onze minutos e o tique-taque dos ponteiros inclinava os presentes à reflexão. Fazia muito (senão nunca) a família não se reunia em silêncio, sem distrações modernas. Carlos Honesto já bocejava. O rapaz carregava como nome um adjetivo, o que lhe rendeu irreparável dever no desenrolar da vida. Afeito ao seu destino pronominal, deu-se de tal modo ao estilo parrésico de se expressar que foi por um punhado de vezes mal interpretado, como se se tratassem seus comentários de reles petulância. Gerônimo o indagou se gostaria de acompanhá-lo em uma taça de aguardente de cana envelhecida e enriquecida em barris de carvalho. “Por mim, tanto faz”, arguiu o jovem em tom lacônico. O semblante do filho único raramente se alterava de uma conformidade frustrada, dando a impressão de que algum tipo de percepção precoce sobre as limitações do seu arbítrio era irremediavelmente intransponível, tornando o exercício da vida um lamentável empurrar de rocha montanha acima, porém, sem a felicidade necessária que se deveria atribuir a tal absurdo. Brindaram, junto à senhora Amarilda, e sorveram dos cálices seguidas rodadas até que a garrafa secou. À penumbra que lhe dividia a face ao meio e deixava a boca semi visível, o unigênito comunicou a ida ao berço recomendando que os pais não se descuidassem, pois a friagem poderia lhes render uma dor de garganta. Beijou as bochechas dos genitores e recebeu a benção da mãe. Ofereceu-se a buscar um cachecol ou blusa de gola alta para os dois ao repetir que “álcool e sereno acabam por fazer dano às amígdalas’’, mas lhe foi garantido que não se preocupasse e dormisse bem.

Amarilda não desgrudava da companhia do esposo, por quem alimentava receosa admiração como o faz um soldado pelo valente general. Com as pernas cruzadas e uma manta de tricô a cobri-las, aguardou os passos lentos e cambaleantes dele irem ao encontro de mais uma garrafa. Gerônimo sacou a rolha de cortiça, serviu pequena dose nas duas taças de cristal de Blumenau e os dois as ergueram à altura dos olhos.

— Ao santo! – dedicou ele ao derramarem, os dois, o líquido perfumado no canteiro de flores que se situava às costas.

Os dois eram bastante supersticiosos e aquela oferta cumpria as boas práticas de convivência com as coisas que não podem a nossa vã filosofia explicar. Encheram novamente os recipientes e entornaram o néctar como de costume, matando a sede que os consumia desde os minutos iniciais daquela noite de convidados. João e Maria não bebiam e, castos como transpareciam, o ato de consumir derivados do álcool causava constrangimento na presença deles. Acontece que Maria, em um passado intocável, passara por problemas relacionados ao abuso da substância e, por tal motivo, a diplomacia recomendava abstinência quando em sua companhia. Por este motivo, o da compaixão ao sofrimento alheio, os anfitriões condescendiam ao jejum etílico apesar de que, ansiosos, torciam para a brevidade da permanência dos visitantes a fim de que pudessem se agarrar aos galhos daquela árvore da salvação inebriante. Bêbada, Amarilda comentou como os dois eram feito o sutiã, “oferecendo grande suporte e toleráveis por um tempo, mas delirante em prazer ao se livrar deles”. Riram à beça com a comparação esdrúxula aprendendo, assim, a amar seus inimigos. Na mulher existia uma certa vontade mórbida por conversa, entretanto o assunto que lhe palpitava o coração era o próprio marido e suas improbidades, o que, por submissa justaposição matrimonial e financeira, a impedia de avançar no uso da palavra. Amarilda tomava o fôlego, interrompia a respiração e cerrava os lábios quando, na sinapse de advertência, percebia a impossibilidade da opinião quase comunicada. Seguidas vezes, entre um trago e outro, abortou a fala. Era uma mulher de muitos conceitos, especialmente em relação ao seu companheiro, coisa que muito compartilhava com quem naquela casa não morasse.

As luzes se acenderam por dez segundos e voltaram a apagar, fruto da reparação que se desenrolava pelos técnicos da companhia estatal. Nesse lapso de claridade, Gerônimo percebeu a figura de seu cachorro a observá-lo, por detrás da grade que o enclausurava, sentado pacientemente a zelar pela silhueta do ser humano que, por tradição milenar, deveria dar alimento, abrigo e carinho ao fiel companheiro. Já rompia, ao calar da noite mais escura, as três horas da madrugada e, no afã de instintos confusos, o homem decidiu por libertar o cão.

Levantou-se e recostou a garrafa e taça ao lado da cadeira. Caminhou até o quintal assobiando uma canção de Ennio Morricone, a Infância e Idade Adulta. Ao se ver livre do cercadinho solitário, o bicho era pura alegria, perceptível no fôlego acelerado e nos saltos incontidos que dava no ar. O êxtase supremo do caninus fidelis, a farmácia afetiva da alma, aquela cena se assemelhava ao explodir de fogos de artifício na celebração pagã de um dia qualquer, o grito último do júbilo latido. Ao saltar para cima de seu dono, o cão levou uma joelhada desencorajadora. Arqueou as patas e preparou novo salto que foi reprimido, com traumática violência, por um chute de bico no peito do pobre galgo.

— Não! – pôde-se ouvir o grito de Carlos Honesto, que a tudo assistia da janela do seu quarto.

O canino, ao segundo ato agressor, rosnou e foi, pela mão forte e repetidora, agarrado pela coleira e reconduzido à sua cela emitindo grunhidos agonizantes. A grama, as plantas, as árvores eram testemunhas de que naquele momento fora libertada outra fera, a besta normalizadora. Em processos angustiantes, ela estava aprendendo não só a amar seus inimigos como, também, a odiar seus amigos.

Ao amanhecer, o Sol aqueceu a relva e levantou a neblina que dormiu no orvalho. Tanto Amarilda como Gerônimo sofriam com uma descomunal dor de garganta.