Um Conto de Boston – parte 7

Quando cheguei ele já estava lá. Coçava o lóbulo da orelha esquerda, coçava o cotovelo direito, todos os dois com a mão esquerda, voltava a mão dentro do bolso da blusa e repetia a cena um tanto de vezes. Enquanto eu ficava do outro lado da plataforma, no sentido de quem ia, ele me parecia que já voltava. Um trem chegava e interrompia a visão. Outro trem e mais alguns minutos de vazio. Quando partiam, para o meu alívio, lá jazia meu escritor do mundo. Entre uma das interrupções do plano visual ele sacou o papel e o colocou ao seu lado. Uma mulher se sentou e ele sinalizou que tivesse cuidado, pois aquela carta ocupava ela mesma um espaço humano. As suas palavras, afinal, são o elo com o todo. Se simbolizam a fala confessional, também dão forma a um indivíduo, um cidadão, uma mente que parece precisar, entre humor e selvageria, pôr para fora. Somos dois anônimos com um trilho expresso entre nós, literalmente. Eu uso óculos escuros e, deste modo, posso monitorá-lo por mais tempo sem que ele saiba que sou eu, o seu João dos Prazeres. Ele, meu José Armando, sabe que alguém o segue, o observa, alguém simplesmente se alimenta em sua fonte. Seria eu? Ou o cara à minha direita? Ele nos corre os olhos tentando adivinhar. Podemos ser qualquer um e todos podem ser alguém. Zé empunhou o papel e o balançou. Era como uma isca presa ao anzol de seus dedos compridos. Zé queria mostrar que ali embaixo as leis eram diferentes. Ele queria contato pessoal, queria que eu fosse buscar o que era a mim destinado. E acabar com toda essa fantasia? Fui ao banheiro. Demorei. Depois, fui tomar um café. É primavera e o frio abrandou. A temperatura já não é negativa aqui na capital de Massachusetts. O café puxou a vontade de voltar ao banheiro. Demorei menos. Voltei às plataformas e ele tinha partido. A moça tinha a carta em suas mãos. Dia lindo, minha senhora. Senhorita. Senhorita, esse pergaminho pertence a mim. Tenha a bondade, obrigado. Até logo. Ah, antes que me esqueça: não fui eu que encontrei o poema.

“João dos Prazeres, meu amigo oculto, onde está você? Vim e não o encontrei. Também, pudera, como o faria? Não sei quem é, tampouco qual o timbre de sua voz. Deixei uns dos meus poemas malcriados, acredito que outro pegou. Sabe, cara, a vida é uma montanha russa da porra. Tem dias que você tá lá em cima, depois lá embaixo, a adrenalina arrebenta com as ideias, depois você se recupera e quando parece que vai sossegar a gente percebe que não sai nunca do carrinho. E começa tudo de novo. O cara da catraca não deixa ninguém sair, mas vira e mexe ele tira alguém. Tô fazendo uma parábola com a morte, cara. Pegou?

Eu falei que escrevi um poema. Olha, me dói dizer isso mas, honestidade à prova de tudo, a verdade há de ser dita. Nem o sol do meio-dia, nem o silêncio da madrugada. Não chego em primeiro lugar, tampouco sou o constrangimento do derradeiro. Os pesos maiores eu suporto, mas não os levanto. Há em mim uma vocação para um tudo ser meu ofício, porém com destreza sempre moderada. Sou medíocre. No esporte, nas artes, no amor, na caligrafia, em matemática, no preparo de receitas líquidas ou massas de pizza, na fotografia. Oh, pobre de mim. Pobre não, classe média de mim!

Aproveitando o gancho, meu distinto correspondente, comunico oficialmente que sou, desde há um mês, pizzaiolo. A massa tem que ser estirada, espetada, umedecida, coberta e aquecida. O restaurante é muito movimentado e, para além de apenas pizzas, ainda tem sanduíches, pastas e, pasme, sorvetes e outras sobremesas. Eu também faço as vezes no lado da grelha, coisa que é odiosamente desafiadora. Meia-boca que sou, cometo alguma lambança todos os dias. Mas, continuo firme e forte no aprimoramento das técnicas de produção rápida de refeições. Aí é que está. Trabalhar ali, à parte do ótimo salário, é um desgosto sem fim e eu posso explicar o porquê. Fere meus princípios ideológicos. Sou partidário do slow food, slow process, slow way of life. Gosto da falta de velocidade e da não necessidade de pressa. Se quero almoçar às 12h, tenho que dar início às preparações por volta das 10h. Comida combina com música, taça de vinho, danças intercaladas, pano de prato pendurado no ombro. Vira e mexe alguém vai em casa e se depara comigo ainda no descascar dos alhos. “Posso te ensinar um truque pra tirar a casca mais rápido?” NÃO! Que caralhos! Essa gente está sempre atrás de fazer as coisas com mais ansiedade, buscando os fins sem desfrutar dos meios para tais. Que imenso porre! Eu me pergunto, muito frequentemente, se esse pessoal faz sexo da mesma maneira atropelada. Um rebanho de fodas meia-bomba. A minha bebida matutina preferida, um estilo de café gelado, leva no mínimo 12 horas para ficar pronta. Eu encarno a minha filosofia.

Dei um tempo no psiquiatra. Ou ele me deu um tempo. Fez pouco caso, nunca me buscou por telefone ou coisa que o valha. Puta derrota. Talvez eu não seja assim tão interessante como pensei. Ele era. Bom, aí é que o bicho pega. No meu dia a dia, ninguém preenche a lacuna de conversas interessantes e provocativas. As pessoas concordam, elogiam, dizem até que eu sou muito inteligente. Adulam, refrescam, parecem temer na mesma medida que admiram. Não passam de aduladores. Eu disse para um amigo que rasparia meu bigode e só deixaria a barba como no estilo de Abraham Lincoln. Ele disse que seria uma forma excelente de se manter imune a quaisquer gracejos de terceiros. Em suas palavras, ele quis dizer que eu ficaria muito feio. Não é esse o grande temor dessa gente? Tornarem-se pouco atraentes. Sim, eles temem a feiúra e desejam a velocidade para obter resultados. Ansiosos e angustiados. Eu não receio me embarangar nem anseio por mega eficiência. Talvez por isso eu seja medíocre.

Uma amiga que lê coisa ou outra que escrevo reclamou que sempre a narração é em primeira pessoa. Ora, fazer o quê? Tenho culpa de ter vivido tantas diferentes facetas deste dado meneante que cambaleia sobre o tabuleiro da vida? Recordo minhas histórias, rego minhas flores, edito meus parágrafos, protejo meus amores. Um beija-flor, um camelo, uma águia. Somos tantos, especialmente na imaginação.

Você, quem é?”

Um conto de Boston – parte 5

A tensão de ser quase descoberto me animou como há muito tempo não experimentava. Ao passo do fascínio por encontrar e ler as cartas do transeunte anônimo, escritas em português e cheias de lamúrias gloriosas, fui me tornando receoso de ser reconhecido. Mas, ainda assim, entre o dilema ético de querer saber mas não querer ser sabido, continuei minhas visitas semanais na mesma estação de trens, com olhar fixo naquele banco de madeira descascada. À uma distância segura de onde poderia monitorar o fluxo de cidadãos sem ser denunciado, permaneci semana após semana com um livro em mãos, abaixando-o frequentemente para poder examinar o meu alvo. O livro era O Mito de Sísifo, de Albert Camus. Minhas expectativas anímicas de ler sobre uma mente claramente tão perturbada, sua relação com o mundo e suas caminhadas limítrofes na beirada do abismo se agigantaram em meu peito. A vida valia a pena? O blablabla giratório tinha algum sentido? Havia algum sentido a se atribuir ao acaso? Bem, na visão de Camus, a vida é um fenômeno absurdo que se dá à revelia de um sentido pré-existente e absoluto. Você confere, com plenos poderes, o significado do seu próprio viver e essa liberdade é a quintessência daquilo que de mais valioso dispõe o ser humano: a capacidade de criar. Ideias, ideais, movimentos, contra-movimentos, oposições e situações. Criadores são todos aqueles que triunfaram. Ao mesmo tempo que descobria essas maravilhas do indivíduo afirmativo, também me preocupava com meu amigo sem identidade. Ele sumiu justamente quando mais se pôs a falar. Quando voltou…

“Ao meu digníssimo João dos Prazeres, homem de conduta ilibada.

Uma dor imensa me compele a escrever, outra dor me impede de me mexer as cadeiras. Não as da sala, senão mesmo as minhas.

As mães morrem. Perdoa o borrão sobre a palavra materna. Uma lágrima ousada saltou sobre o papel.

As folhas secam, as moscas duram alguns dias, a areia do deserto é em constante momento soprada para além, além do agora. Pudesse lhe dizer algumas coisas, seriam:

Levam a ti solitário grão

aos confins da distância

que a mim parecem irrisórios

mas não cansa o vento

em querer me confundir

quando se alevanta em profusão

e depois cessa peremptório

tornando a luta impossível

e a dor uma convicção.

Eu tô loco? Eu sou louco?

EU NÃO TÔ LOCO!

Mentira.

Nas últimas semanas atentei para o imenso prazer de sair de casa exatamente às cinco e quarenta e três da tarde. Sol já à sopé. Motivo? Parece ser concedida a efêmera liberdade a todos os gatos da vizinhança. Em cada entre quadra há um bichano em posição retraída, olhos semi cerrados, bigodes alongados e rabo serpeante. Há um todo branco, cujo nome (para mim) é Snowball. Um outro, que nasceu com bolas e pênis, chama Frida. Gênero fluido. Tem também o Kittler, que é o mais bonito de todos. Parece uma casca de sorvete meio pistache, meio baunilha, cinza com branco. Sim, porque o pistache autêntico é acinzentado. Em inglês, kitten é gatinho. O Kittler tem a área sob o focinho de cor negra, fazendo com que se pareça com o bigode do Adolph. Logo, Kittler. Ele é forte, olhos azuis, estrutura robusta. Raça pura. Costuma me deixar fazer 18 carinhos antes de me morder. Foda-se ele. Afago a todos, menos a Frida. Ouriçada, ela repele o carinho. Tudo bem, não é não.

Tive um breakdown num dia desses. Liguei para o meu terapeuta. Disse “olha aqui seu corno, eu acho que o suicídio é algo plausível para suportar uma noite mal dormida.” Ele, sábio, manteve a calma. É do tipo que chama à reflexão da etimologia da palavra corno e como ela se tornou termo pejorativo.

Borboletas voavam à noite, um vigilante tinha me pedido para não deixar ninguém sentar em meu colo, Natália dançava e os náufragos tropeçavam bêbados. Eu mesmo estava embriagado. Paciência, é o que eu sei fazer. Enlouquecer.

No encontro seguinte, a pergunta: “você tem histórico de esquizofrenia na família?”

SEU CU, FILHO DA PUTA.

  • pensei.

Uma namorada antiga dizia que eu poderia formar uma dupla musical. Chamaria Esquizo e Frênia. Não fazia sentido, argumentei. Ela insistiu.

Porra, o insulto era duplo, metalinguístico, sagaz. Eu, sozinho, era dois. Talvez até mais, a ponto de formar um grupo musical. Auto intitulado Esquizo e Frênia.

Nunca houve maior ofensa à minha honra. Apaixonei-me como um cão, um cão dos diabos.

O mesmo terapeuta, aquele degenerado, atentou que eu andava perambulando opostamente aos ensinamentos do velho Sócrates.

“Nenhum homem tem o direito de ser um amador em matéria de treinamento físico. É uma vergonha para o homem envelhecer sem admirar a beleza e força de que o corpo é capaz.”

O corninho. Só porque eu bebo, fumo e divago sobre aqueles que tiram a própria vida. Só que eu sou preparador físico. Dirão “ah, quanta hipocrisia”. O meu terapeuta usa o termo incoerência.

Recalque?

Education is important, but a big biceps is importanter – diz o anúncio sarcástico de uma academia aqui de Boston. Haha, touché old friend.

No meio da sessão ele movimentou o braço com premente dor. Perguntei o que foi, ele disse que era um mau jeito. Ofereci para ajudar, ele recusou. Tentou retomar a conversa. Eu queria mais é que tudo fosse pros ares. Levantei, cruzei sua mesa e realinhei a musculatura rombóide. Usei a ponta do cotovelo contra uma musculatura retraída. Tensão excessiva nas superfícies dos músculos, nas fáscias. A linguagem do corpo não mente, Wilhelm Reich que o diga. Importante atentar.

Até agora eu disse muito e não disse nada. Mas não é essa a essência do meu texto claudicante? A rábica existência que se opõe ao terapeuta e sua fleuma inabalável?

Ora, meu amigo, o que fica são essas impressões indeléveis.

Tenho mãos mágicas, mente perversa e muito falo.

Um conto de Boston – parte 4

Imenso desprazer tive ao, após a segunda semana, perceber que aquilo era uma realidade. Estava na mesma hora, no mesmo lugar, com a mesma ansiedade. Queria encontrar o manuscrito que revelava trivialidades e caprichos. Nada. Aquele alguém resolvera por estancar a fonte da minha distração obsequiosa. Inconformado, passei a esperar diariamente. Talvez o ilustre tivesse decidido por alterar o calendário de despojo de seus depoimentos. Sábado, domingo, segunda, terça. Quarta-feira não, pois é dia de jogo e eu me embriago. Quinta, sexta-feira de novo. Nada havia onde antes eu encontrava linhas rabiscadas, só as farpas lascadas do banco de madeira da estação central. Senti-me triste. Haveria o sujeito desistido da arte confessional? No vigésimo primeiro dia o frio era menelênico, no bom português, um frio de corno. Levei um cantil comigo, o qual tinha enchido com bourbon. À essa altura, eu sofria de jejum da intimidade alheia, eu era um voyeur em abstinência. Sentado à distância, percebi o aproximar de um rapaz alto, corpanzil de atleta, sorriso no rosto com ares de pândego. Sentou-se exatamente no lugar onde eu costumava encontrar as cartas enigmáticas. Que ousadia. Meteu as mãos nos bolsos laterais do casaco e ficou a observar as redondezas, como que por inclinação investigativa. Eu, do meu canto, entornava o uísque de milho. Usava uma boina verde xadrez, a qual puxei para baixo escondendo a face. O rapaz esperou por uns instantes. Sacou um maço de Lucky Strike, eu podia ver a logomarca. Fumou lentamente enquanto rastreava as cercanias. Seus olhos pareciam gozar de independência, cada um vigiava seu próprio flanco. Apagou o cigarro embaixo do banco, levantou-se e caminhou rumo ao portão oeste. Lá jazia, onde há pouco seu traseiro repousava, um envelope. Minha fixação. Dizia:

“Bom dia, boa tarde, boa noite – por enquanto. Meu nome é Armando, José Armando Passos. Estou em processo. Há quem diga que não há saída para a vida, senão a morte. Eu digo que não há destino para a morte, senão a vida. Um bando de filhos da puta são os meus vizinhos. Estou há dias tentando fazer amizades, bato-lhes à porta e peço um minuto de atenção; suas cabeças negam e a mim seus olhos repelem. Nunca pensei que abordar pessoas, de cueca, acerca das evidências fósseis incas sobre presença alienígena de crânios alongados seria algo tão, diga-se, chocante. Sigamos. Há algo de estranho nestas linhas, e eu sei o que é. Elas são lidas, e por isso agora me sinto um mestre de cerimônias. Minhas palavras são redigidas daí visualizadas, interpretadas, condicionadas, relacionadas, contestadas. Sou a antítese da minha síntese anônima. O que é que sou? De onde venho, para onde vou? Clichê, muito e pavoroso.

A quem quero e por quê? O que quero e por quê?

Eis as duas perguntas fundamentais: para que e para quem?

Percebi que há um qualquer. Todo qualquer é um ninguém, e ninguém é de ferro.

Existencialistas são perspectivistas de um presente contínuo, preceptores do eterno vir-a-ser. 

Eu vi você, João dos Prazeres, você que recolhe os meus ciscos. Você os encontra, dobra sem pudor. CUSTA MANTER EM SUA MÃO, UM PEDAÇO DE PAPEL? Dê o que merece de relevância a este manifesto que, até então, era apócrifo. Eu sou Zé Armando, você é o João dos Prazeres que colhe o rastro de pão dos meus pensamentos.

Desculpe a gritaria, mas putaqueopariu. Não precisa tratar a minha folha com falta de afeto. Vi você quando deixei a terceira carta. Estava de costas, catou o pergaminho e seguiu em frente. Seu casaco não me permite descrevê-lo. Boa leitura, eu lhe desejo. Será que você leu os prévios?

Sigamos.

Se temos uma lei no mundo, é a que diz: olho por olho, dente por dente. Código de Hamurabi. Pois bem, duvido que você possa perceber, caso esteja aí, o exato momento no qual abandono este comunicado.

Alguns dizem: olho por olho e o mundo fica cego.

Meio cego, eu digo. Melhor meia visão que visão nenhuma e, é importante lembrar, luz demais cega. Faz muito frio novamente, escrever só se dá em ambientes fechados, onde se pode dispensar as luvas. Falar de luvas é tatear de máscara.

Somos vontade, libido no entendimento dEle. Penso, logo desejo, logo existo. Fruto do imperativo conquistador, ouço as trombetas de dentro de mim sem que me importe com os agentes reguladores de sempre. Avanço e expando meus domínios.

Diria que feito o meu pai não tenho interesse nenhum por mim e, como a minha mãe, às vezes dou-me muita atenção.

Foi tanta alegria, tanta euforia, tanto assanhamento estado de ser nas últimas semanas que eu nem sei mais para onde vou. Digo-lhe, ao bom amigo leitor, que somos agora dois fantasmas. Coexistimos em um espaço apertado, escuro e abarrotado de ovelhas escandalosas.

Só sei que se fico, eu não vou. Se fico ou vou, só sei que lá eu não fico se aqui eu estou.”

Não o vi deixar a carta, mas o bendito sabe de mim! Que dia!

Um conto de Boston – parte 3

Penso que deve haver algo de grandioso neste salutar exercício de dar seguimento aos registros apócrifos que encontro, há três semanas, no mesmo lugar e por volta do mesmo horário, na estação norte de trens de Boston. Estava distraído me despedindo de Margareth e quase passei do ponto. Recomendava que ela usasse arnica em seu joelho em alternativa aos fármacos convencionais quando me dei conta que já tinha dado uns dez passos além do cantinho onde costuma estar a carta dobrada, com as margens puídas e letra garranchosa, um baú de intimidades recalcitrantes e confidenciadas sem pudor ou padrão ético. Despedi-me bruscamente de Marge e enviei minhas saudações a Donald. Virei-me e driblei a tropa de cidadãos que marchava impiedosa. Lá estava o pergaminho.

As semanas têm passado mais rápido ou é impressão minha? – existe papo de elevador mais enfadonho que esse? Eu sorri quando a moça exibiu toda a sua genialidade atemporal na tentativa de interagir comigo. Não podia perder a oportunidade. Respirei fundo e falei “sim, tem razão. É um fenômeno observado primariamente na Suiça, por uma junta internacional de cientistas dedicados ao tempo e suas ranhuras. Chama-se inter-relatividade de camadas bósicas não discriminada em funções derivadas, vulgarmente conhecido por subjetividade quântico-temporal.” Silêncio. O elevador apitou – plim! – e eu cheguei ao andar do laboratório de análises clínicas. A cara da garota era impagável. Se fosse uma pizza, seria meia indignação, meia dúvida. Será que eu falava sério? Os outros ocupantes da máquina ascensora estavam todos, ao exemplo da minha interlocutora, com os lábios entreabertos em espanto. Um senhor olhava repetidamente seu relógio de pulso e dava umas pancadas. Continuei sorrindo e saí daquele microcosmos de frivolidade. Estava livre do papo morto, mas ainda tinha o exame para fazer. A lei de compensação divina poderia muito bem equilibrar aquela cretinice com um diagnóstico positivo. Tem coisa pior que aguardar para abrir o envelope com resultado de exames de sangue? Tem, ah se tem. Presunção de conteúdo por livre exercício do pensamento. Gente que fala sem saber, na linguagem popular.

Tenho um vizinho que é muito divertido. Gosta de beber bebidas baratas e ficar embriagado. Quando compro alguma bebida mais cara e abro para nós bebermos, ele não se impressiona. Sujeitinho engraçado. Gosta de tecer suas opiniões e eu sou o melhor dos ouvintes. Absolutamente tudo o que ele reporta como suas ideologias é o oposto de sua conduta. Se ele fala que não gosta de futebol, eu rio. Domingo à tarde, posso ouvir seus gritos apaixonados enquanto assiste a uma partida qualquer. A contradição me encanta. Ele se diz anti-capitalista, no entanto… recebe um salário mínimo. Acho que os paradoxos, esses caprichos de arquétipos não previsíveis, inconstantes e fronteiriços, nos unem de uma forma sutilmente comprometedora.

Ontem à noite levei muito tempo até conseguir adormecer. Alguém no prédio ouvia Madonna no último volume. Deve ter riscado o disco. Eu gosto da Madonna, ela tem garra. Antes de ficar famosa, posava nua para artistas. Fotografaram, pintaram as suas curvas e também aquela pinta que ela tem acima da boca. Que sorte a desses caras. Será que ela também realizava alguns favores íntimos em vista de uns trocados? Tem um cara muito bacana, polêmico (ao menos lá no Oregon hehe), uma espécie de guru indiano que manda bem nas colocações. Ele se chama Osho. E Osho disse que “toda vez que ele encontra uma prostituta, ela quer falar sobre Deus e sempre que se reúne a um homem religioso, ele quer falar sobre sexo.” Tudo o que nós negamos a nós mesmos se torna a nossa prisão mental. A renúncia aos desejos não é um caminho fácil para a felicidade. Tenho grande apreço pelas profissionais do sexo, conheci algumas. Já namorei uma. Gente que suporta humilhações, situações desagradáveis e extremos cotidianos em troca de dólares. Quase igual à maioria da sociedade trabalhadora, só que com a diferença de um genital a mais entre as pernas.

Salvei um cavalo no meu último aniversário, um cavalo da polícia montada. Chovia bastante, eu estava encostado no balcão de uma cafeteria. O rapaz que manuseava a máquina de espresso usava um avental de sarja, levava uma boina mostarda de couro de porco na cabeça e óculos sem armação pendurados em um nariz que fazia sombra ao bigode longo e redondo que lhe cobria os lábios. Ele tinha um pano de pratos branco no ombro direito que a toda hora usava para enxugar copos e xícaras. De repente, parou e desarmou a empunhadura de secagem. Ficou com os olhos bem abertos, como a sua boca, olhando para a rua exibida pela fachada de vidro da pequena lojinha. Estava de costas e me virei. Um grande, todo paramentado cavalo empinava as patas em plena avenida. Que cor linda, aquele negrume retinto que reluzia à luz dos relâmpagos que iluminavam o céu. Assustado, o animal relinchava, sacudia o corpo e ameaçava uma tragédia. Eu estava só, bebendo meu café em paz. Os carros buzinavam. Aproximei-me da porta, abri, vasculhei as redondezas e não vi ninguém vindo em socorro. Tirei minha roupa – calma lá, fiquei de calças – e caminhei até o bicho. Sei que não se deve encarar um equino direto nos olhos, mas eu queria sentir a dor dele. Queria decifrar seus pavores, o que havia levado àquele rompante histérico, àquele vexame público. Fui chegando e conversando com ele: “Hey Timothy, calma aí cara, tá tudo numa boa.” Ele gostou do nome. Tim relaxou, eu tomei suas rédeas e o conduzi à calçada. Fazia carinho nos seus pêlos úmidos e coçava seu pescoço. O público gritava, aplaudia. Eu tinha salvado o dia. Logo surgiu uma policial mulher, na sua farda azul escura decorada com a vergonha de uma falha tão monumental. Como ela havia se descuidado daquele bem tão precioso? O sorriso amarelo era o suficiente. Não precisava lhe dar nenhuma lição de moral, afinal, submeter outros ao ridículo é um pecado grave. Eis outro mantra. Sofri com o cavalo a dor de ficar exposto, desencontrado, ansioso. Vulnerável. Que história, não? Parece até mentira, mas não é. Voltei, ensopado, para o café. Não precisei pagar a conta. Sensibilizei-me com o bicho, sensibilizaram-se com o animal aqui.

Tive dores na semana passada, atrás da perna. Surgiram após uma noite de excessos. A investigação foi frustrante porque não podia indicar uma razão plausível para as pontadas que em dois dias passaram. Delírio? Ilusão? Negacionismo? Cerveja gelada. Bebi para passar. Funcionou. Pensar não é pop. Cerveja é pop. Para dores, pop culture.

Não fui ao encontro do terapeuta. Ele que veio até a mim, o desavergonhado. Se eu fosse uma casa com a maçaneta trancada, ele seria o pé de cabra. Aliás, justiça seja feita, ele não é terapeuta e sim médico. Médico psiquiatra. Eu achava que uma coisa levava à outra. Queria que ele me levasse a algumas drogas, hahaha. Gosto demais do sujeito, ele tem fome por provocação. Isso é tenebroso e audaz, uma arte que torna a conversa mais saborosa, instigante, espontânea. Falo vários idiomas, dentre os quais o anglo saxão. O doutor fala inglês, ora veja só. Percebi que não falamos a mesma língua. Dia desses ele se interessou por obras que eu ando lendo. Fez algumas perguntas e eu as respondi. Sabe aquelas impressões pessoais sobre algo que você tem contato? Pois então, são como um couvert de restaurante com azeitonas, pão e salaminho. Abrem o apetite mas, para matar a fome, tem que se pedir o prato principal. Eu dizia:

– Bukowski era um gênio da escrita simples e envolvente, aquele velho desgraçado.

– Curioso que, dentre tantos expoentes românticos e floreios realistas, você opte por se projetar naquela crueza porca. O que resta?

– Devagar…

– Exato, por que será que a fraqueza de se ver assemelhado a algo tão pouco nobre incomoda?

– Devagar…

– Posso divagar mais, muito mais.

– DEVAGAR!”

Um conto de Boston – parte 2

Parece que há grande prazer no jogo das migalhas jogadas ao léu. Passou-se uma semana, a sexta-feira chegou, e havia mais um papel dobrado sobre o banco que dá para os trilhos da estação ferroviária norte de Boston. O local era o mesmo, a minha surpresa foi a mesma. Outro recibo semanal, um resumo da jornada de um alguém que eu sequer sei se me observa à distância. Não posso manter para mim estas palavras que seguem. Se guardasse ou jogasse fora, daria no mesmo, mataria a história por omissão. Algo me sussurra a necessidade de compartilhar a voz alheia. O antes despretensioso papel dobrado agora tinha apresentação:

“A quem interessar possa…

Começo me redimindo da deselegância. Garanto que não derrubarei comida nenhuma sobre esta folha. Quando era mais novo, meu irmão me ensinou um truque para conferir mais idade a uma carta. Você derrama chá mate sobre a página e depois queima levemente as bordas a fim de conferir um aspecto ancestral ao papel. O chá dá um tom amarelado de coisa antiga. Meu pai é já um senhor de idade, mas não é pela cor que entrega a idade. É antigo, mas não é amarelo, é branquinho. Não cora as bochechas nem quando mente ou quando fala umas sem-vergonhices. Senhor do bem, velhinho dos bons. Se tem um fato que me dá uma ardente alegria, esse é o do meu genitor não se conformar com a minha escrita. Onde ele procura romance e rimas fesceninas tem encontrado relatos crus do dia-a-dia. Daí ele me presenteou antes de ontem. Disse que o tripé por onde se equilibra o meu pensamento é formado por mordacidade, ironia e cinismo! Pater Deo, meu pai que é deus!

Faz um frio danado hoje. Semana passada o termômetro marcava -1,1°C, hoje está em -4,4°C. Será que dá sorte esses números repetidos? Sorte para o cara que vende luvas na entrada da estação, sem sombra de dúvida. Eu contei para o terapeuta que tinha ganhado tais elogios do meu pai e ele provocou se ironia e cinismo não eram a mesma coisa. Respondi verbalmente que não, balançando a cabeça de cima a baixo demonstrando “sim”. Cinismo é a doutrina filosófica grega que estabelece as vantagens de uma vida simples e natural, cujos valores principais eram buscados no desapego às normas sociais, bens e riquezas, sendo efetivada através do autocontrole. Cínico, portanto, é quem demonstra desprezo pelas normas sociais ou pela moral estabelecida; atrevimento, descaramento, despudor.

Reparei há pouco que duas verdades hão de se perpetuar ad eternum: o açúcar é uma coisa que deixa o café muito amargo quando nele não é posto e que a situação no Brasil é grave, mas não é séria.

A vida aqui nos Estados Unidos é tranquila com pitadas de alerta, mas os perigos são outros. Na terra do tio Sam há os assassinos em série, uma gente que sofre de patologias da psique e que põe em prática atos violentos contra outros humanos ou animais. Mês passado executaram um tal de Ted Bundy, o cara era um facínora. Fritaram o cara na cadeira elétrica. No Brasil a gente não sofre desses medos, mas, por outro lado, parece que às vezes somos comandados por psicopatas referendados pelo próprio povo. É cada uma. A vida não é de brincadeira, embora possa ser muito divertida. O que confunde é que costumamos levar farra a sério e o que é importante na piada. No último sábado, resolvi mimetizar os grandes escritores da sarjeta e tomei um porre com requintes de romance. Bebi todo vinho que comprei, três litros, e fumei dois maços de cigarro na companhia de duas atraentes damas. Uma delas era loira e de baixa estatura, a outra de longos cabelos negros e quase da minha altura. Eu tenho um metro e noventa centímetros, ela 1,85. A baixinha era um pedaço de mau caminho, a outra era o caminho inteiro. Encontrei-as na mesa ao lado e levantei a minha taça em um brinde simpático. Sentamos juntos e não nos apresentamos. Tombo as palavras sobre este papel sem poder dar-lhes nome ainda que as tenha carregado em lembranças vívidas sobre o tecido vermelho que me recobre os lábios. Ao me dirigir à mesa vizinha, afastei a terceira e vazia cadeira e estendi minha mão dizendo boa noite. Sem que se levantassem, cada uma me puxou e me beijou na boca. Fiquei entusiasmado. Elas tinham um sotaque diferente, mas a embriaguez compromete a lembrança da nacionalidade. Devem ser russas, eles beijam na boca por lá ao se cumprimentarem, eu acho. Não faço ideia, tampouco importa, não tenho planos de visitar o leste europeu tão cedo. Uma pena. Conheci uma russa uma vez, eu amava conversar com ela. Ouvia, ouvia e ouvia. Ávida por beber do meu conhecimento, modéstia à parte, que nutro com longos goles nas fontes imortais dos gregos aos contemporâneos. Até que um dia lhe perguntei sobre um assunto tal: “o que você acha disso?” Ela respondeu “até que enfim você quer saber a minha opinião sobre algo”. Aquilo foi um banho de sabedoria, não a opinião em questão sobre um determinado assunto, mas a lição de que eu a deveria ouvir também. Desci do meu degrau de orador intocável e aprendi mais com ela, que tinha extenso tesouro intelectual guardado dentro da mente. Já no sábado, bêbados e tresloucados, a conversa foi outra. Em dado momento, uma delas passou a querer divagar sobre assuntos que ela não conhecia, mas eu sim. Calei. Era um suplício e eu estava fumando cigarros. Eu não fumo cigarros. Quis impressionar. Já se foram seis dias desde aquele encontro e eu continuo a tossir feito cachorro. Será que os cães satirizam uns aos outros dizendo que estão com tosse de humano? A necessidade de expressão da moça era tanto que não aguentei, remanejei o tema. Ela insistia. Recusei a réplica, ela se ofendeu. Bebi o último trago, saudei as donzelas e parti. Contei para o terapeuta e ele fez o que faz de melhor, desnudar as minhas inconsistências prático-teóricas. Que grande filho da puta. Eu ou ele? Os dois. Fiquei vulnerável, logo eu. Todo tolo gosta de ouvir que é importante. Eu prefiro os insultos, são mais palpáveis.

Será que alguém encontrou a carta que deixei aqui, neste mesmo banco, há sete dias? Será que foi parar no lixo? Observo os transeuntes e eles parecem muito distantes. Não como os meus parentes que estão separados por milhares de quilômetros geográficos, mas afastados em presença. Alguns parentes são ótimos justamente à distância, mas um fracasso na convivência próxima. Os usuários do trem olham com estranheza o chumaço de papel e a garrafa de café que levo a tiracolo. Desde que li um tal filósofo indagar “devo tomar café ou me matar?”, agarrei-me ao filtrado. Talvez soe inocente, mas é científico: há de se estar vivo para beber café. Puta sacada. Ainda assim, escrevo a eles, com eles, por eles. Quiçá sou lido, com certeza preterido. Bukowski tem me matado, por fora. Por dentro, enche de ganas para registrar acontecimentos. Externamente, faz com que eu sinta glamour no álcool e no cigarro. Preciso de um xarope – ah! Que saudade da água de coco do Brasil! O café acabou e o nariz começou a escorrer. Finalizo com efusivas saudações ao primeiro que percorrer estas linhas, mesmo que sejam os micróbios que habitam os latões de despejo reciclável. Escrevo para todos e para ninguém.”

Um conto de Boston

Era uma tarde de fevereiro, no dia 17 daquele mês, do ano da graça de 1989, quando encontrei o seguinte trecho apócrifo sobre um banco da estação de trem da cidade de Boston, estado de Massachusetts, nos Estados Unidos. O frio era intimidador e o curioso era que o texto se encontrava escrito em português. Logo em um país estrangeiro, achar uma mensagem na sua própria língua mãe é, no mínimo, instigante. O papel dobrado repousava sob uma pedra escura, cinza e pesada, que não permitia que o vento o levasse, embora as rajadas quase o partissem ao meio logo antes de eu resgatá-lo. Não tímida foi a minha surpresa ao abrir a folha e correr os olhos sobre o que ali estava narrado. A fim de que se mantenha a tradição da carta, escrevo esta carta para falar sobre aquela que ainda se remetia sobre uma outra. E, por bem do folclore e respeito aos ancestrais que se fortalecem na memória ativa que se preserva, hei de me submeter ao anonimato de igual forma. Parece coisa de louco? Dizem que de médico e louco todo mundo tem um pouco. Se os doutores tomam como objeto de estudo a saúde e a insânia, por sua parte, é caracterizada pela ausência das capacidades saudáveis de cognição, seriam só os insanos que necessitam de médicos? Ou os médicos precisam dos loucos?
Uma flecha me atingiu em cheio, bem no calcanhar. Deve ter sido muito agradável ao Raul Seixas ser uma metamorfose ambulante, não ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Agradável, não necessariamente fácil. Do dia do meu nascimento até a presente data, flutuando pelas fases mutáveis da infância à vida adulta, ainda me restando a velhice, já defendi diferentes pontos de vista com fervor, com ceticismo e, de igual modo, com a mais absoluta indiferença. Temi a blasfêmia de não ser temente, assim como pouco me confortava a idéia de defender a singularidade de uma figura que jaz na abstração de um coletivo obediente, casto e muito conformado. Existe… não existe… existe mas não sei dizer como… tanto faz. Se Deus não existe, não tenho como negá-lo. Questão de lógica. Existe, sim, e é por isso que a patranha é tão gostosa de ser denunciada. Gostosa, não é necessariamente fácil. Acabo de sair da terapia e as questões continuam cutucando por tempo prolongado, mesmo fora do consultório. Algumas perguntas vêm e este maldito que aqui escreve cai sempre, inegavelmente, na cilada de responder de prontidão. Opiniões em velocidade costumam vir acompanhadas de má construção gramatical, superficialidade teórica e emoção exacerbada na voz. Causam arrependimento, muito comumente. Cachaça com jambu deixa a mesma sensação na boca, um horror. Mas, dado a certas razões impalpáveis, a gente acaba bebendo outra vez. Valendo-me do confessionário anônimo, verdade seja dita: o álcool é o barômetro da alma. Ou da anima, que nos possui e atrai, formando emoções e desejos, motivadora de ambições e que confunde o raciocínio. Antecipei a definição pois, imediatamente ao ouvir a frase, o bendito haveria de indagar: você acredita em alma? Dia desses ele perguntou se eu acreditava em destino. Ora, só os tolos acreditam em destino. Dois dias depois, eu lhe disse que acreditava em destino. Percebi que seria anti-racional aceitar que a vida é uma caminhada sem rumo.
O pai de uma amiga morreu recentemente e ela ficou pouco arrasada do ponto de vista emocional. Trágico por natureza, liguei imaginando que a encontraria em soluços incontroláveis no outro lado da linha. Contou-me sobre a educação espírita e sua clarividência quanto à passagem e seus ritos imemoriais. Essas coisas de gente mais evoluída. Ela gargalhava ao me contar que, preparando o carro de seu pai para a venda, descobriu, escondido entre o banco de trás e o porta-malas, um saquinho. Ao abrir, a mágica constatação de que aquele respeitável homem de família era, por 50 anos a fio, um apreciador da erva proibida em total sigilo. Fumava o seu e estava sempre de bom humor. O sobrenome de um sujeito assim era caprichado pelo tal do destino: Valenti. Bravo, meu amigo! Descanse em paz, na de Jah de preferência. E que, onde esteja, não lhe falte brisa.
Peço desculpas a quem encontrar este trecho todo borrado de marrom. Açúcar, leite integral desidratado, farinha de trigo, massa e manteiga de cacau e mais etceteras, disso é formado o chocolate KitKat. Derrubei um tanto sobre a folha. São 3h54 da tarde, a temperatura é de -1.1°C e eu, além de frio, tenho fome. Acho que uma coisa leva à outra. Mas o que caiu sobre o papel não foi um pedaço da barra e sim uma generosa gota de saliva. Minha mandíbula sofre com o gelo do ambiente e, talvez por isso, não funciona muito bem. Babei feio, mas ninguém viu. Fica aqui o registro do ridículo. Outro dia o terapeuta perguntou do que eu tinha medo. Deve ter sido frustrante ouvir: sapo. Mas, por outro lado, ele não se frustra porque foi treinado para não reagir aos comentários que ouve. Será? Gatilhos.
Assim que meu trem chegar, pelo visto, não embarcarei. Tenho que terminar estas divagações. Não é porque é meio maluco que deve ser mal acabado. Depois deste exercício literário vou me alimentar e ir à academia a fim de praticar outros exercícios físicos. Puxar pesos me faz bem porque a pouca sensibilidade à dor tanto me favorece nos ganhos de massa muscular como me protege a mente de agressões. Não se ofender, eis um dos mantras mais trabalhosos a se lapidar. Um paralelo a não se doer. Os dodóis não vão dominar o mundo.
Neste exato minuto alguém se exalta, uma mentira é contada, um beijo se dá entre noivos, um avião sobrevoa a minha cabeça e nada disso me faz a menor importância. O terapeuta me perguntou porque minha noiva era dez anos mais nova. Respondi que isso se dava pelo fato dela ter nascido dez anos depois de mim, mas ele se incomodou. Eu achava tão matematicamente simples, ele achava que eu pecava por ser simplório demais na resposta. Acusar-me de simplicidade é algo que me ofende. Ih, lá vou eu. Que desordem, não durou nem um parágrafo. E olha que, na verdade, o que eu queria dizer a ele quando veio com essas de saber os porquês de eu ter escolhido a minha noiva, a vontade mesmo, era falar: a bunda dela era a mais bonita! Que filho da puta! – ele pensaria. Não diria, mas elucubraria.
Se eu contasse em casa que ando por aí enaltecendo a bunda que me pertence, diriam que eu sou louco. Imagina só, fazer propaganda da própria mulher? Eu gosto de mulher mais do que gosto de mentir. E olha que mentir dá um tesão. Se ele lesse essa carta, não se aguentaria: você sente excitação sexual ao mentir? Previsível. Gosto tanto de mulher que não falo sobre. Tenho um amigo que não consegue desenvolver meia hora de papo sem cair em nuances que descambam para sexualidade. Que porre. Que profundo e tenebroso porre. Convencido eu, não procuro convencer ninguém. Eis outro mantra.
Não desejo ter filhos, transmitir essa herança genética de contestação, imoralidade, absurdismo. Ao passo que seria tão gostoso ensinar sobre crítica reflexiva, não conformidade à moral da maioria, os mitos modernos e toda a posição filosófica da qual se pode provar vivendo e não falando. Certa vez, recebi cartinha de um meu sobrinho e nela se lia: tio, você é o melhor tio do mundo. Outros cinco sobrinhos e sobrinhas disseram a mesma coisa. Logo, eis aqui o melhor tio do mundo. Provem-me o contrário. Nunca pude retribuir o elogio. Imagina se a Anninha começasse a se gabar sobre o título de sobrinha do ano para o Lolô? Eu estaria em maus lençóis.
A diferença entre o imaterial e o material é imaterial, não é mesmo? A diferença entre Deus e eu é a que eu existo. Pronto, já me desdisse. Parece não ter fim, essa repetição. E tome metalinguagem. Há quem considere que ser contraditório é algo pejorativo, indecoroso ou comprometedor em relação ao próprio arquétipo. Pobres! Procuram coerência numa experiência de opiniões emitida por tal órgão cinza que habita um corpo vivente sobre uma rocha rodopiante que descreve trajetória, em torno do sol, em movimentos helicoidais por entre o vazio absoluto e incomensurável de uma dada matéria negra chamada de cosmos. Puta madre que los parió! Comecei falando sobre o Raul e eis que… olha o trem!