Seu Merda

Em honorável memória de Seu Merda, aquele que veio ao mundo em um distante outubro de 1998.

Seu Merda nasceu do conflito, é claro. A cada resposta concedida de forma contrária àquilo que a pergunta desejava obter, seu nome era invocado. “Então você não vai, Seu Merda?” Era melhor mesmo que não fosse, afinal, era um merdinha. O grande inquisidor das perguntas que concebiam a existência conceitual do monte de fezes era ninguém menos que ele, o ideal grego. Astuto e mordaz, o douto do sangue etílico. Existem tantas formas de se experimentar a tristeza na passagem terrena mas, talvez, a mais sádica delas seja a não propriamente declarada. Há algo formado por maior melancolia do que as palavras ácidas daquele que ataca a quem um dia já quis tão bem?

O ser humano tende a manter em mais alta estima aqueles que pensam igual a ele. Daí criam-se as bolhas, polarizam-se os microcosmos e, em consequência, dá-se à luz tantos bostas.

Seu Bosta e Seu Merda são gente como a gente, mas não são a mesma pessoa. Enquanto Seu Merda resgata notas de desprezo com retrogosto de vilania, Seu Bosta remete a desdém encorpado.

O tempo passa e os besouros continuam a rolar as suas.

É fazendo merda que se aduba o mundo, dizem. Por que o cocô de alguns animais servem como fertilizante mas o de outros não? Porque as fezes humanas são algo tão absolutamente asqueroso? Two girls, one cup – trauma profundo e eterno.

Seu Merda continua por aí, a preencher os cantos escuros da escatologia vital. Alguém disse que o vinho pode ser tinto, mas o cu tem que ser rosé. O fato é que, bronzeado ou branco de candura, sempre vai dar merda.

E por falar nele, ontem mais uma vez foi invocado. Cinco da manhã, um estacionamento público e o zunido renitente que perturba o ouvido interno dos embriagados.

– Seu Merda, Seu Merda, Seu Merda…

Gemada

Estou cego, com os olhos abertos nada posso enxergar! Doem-me as retinas ao contato com a luz inconveniente que insiste em brilhar mesmo aos fotofóbicos. As cortinas deste quarto mulambento são tão eficientes quanto o estado brasileiro na garantia do bem-estar social. A película negra que foi aplicada diretamente nas janelas está cheia de furos e não consegue manter a escuridão desejada. Feito eu mesmo na noite passada, ao implorar que aquela garota não me servisse mais doses de cachaça, as súplicas não valeram de nada como agora o papel adesivo não faz frente aos raios de sol. Minha cabeça dói e eu reflito se acaso algum outro animal sofre de dor de cabeça ou se é só o ser humano agraciado com esse dom. Cachaça é uma maneira muito polida de me referir àquela bebida que me foi imposta goela abaixo há menos de doze horas. Pinga, cana, mé, coisa de mendigo, mucuri ou meu caralho, tanto faz. Dada a dor que sinto no corpo, devo estar paralítico além de cego.

Sento-me na cama e sinto uma forte onda se formar no estômago, pronunciando esôfago acima um arroto tóxico que precede o vômito. Não me vejo inclinado a perder a batalha orgânica e me concentro de modo a não regurgitar. Botar para fora o que já não tenho seria um erro, fazendo-me, além de cego e paralítico, vítima de um colapso mental profundo. Bastava ela ter respeitado os meus nãos, penso comigo mesmo. Mas, a cada não, ela sorria jogando os cabelos para trás e forçava a rodada de bebida. Ela não era do tipo linda mas ostentava a bunda mais perfeita do bar e eu, bem, sou cafajeste, a verdade seja dita. Filha de uma puta, trepou e foi embora sem se preocupar com a minha ressaca! Algo me dói entre as nádegas mas eu prefiro não pensar sobre isso, afinal, cego e paralítico e atrasado mentalmente até que dá para aceitar mas, desculpem-me, desvirginado não. Ela deve ter apimentado as coisas e eu devo ter aceitado, ou não, não tenho memória disso.

Meia hora controlando os impulsos regurgitantes e já não os sinto mais. Já consigo enxergar a porta e mexer as pernas, mas parece que o dano neurológico foi permanente. Não que eu (nem ninguém) me considerasse normal antes da noite de ontem mas, ao que tudo indica, um buraco deve ter se formado no meio do cérebro após beber daquela aguardente radioativa. Vou ao banheiro e mijo talvez por uns vinte minutos. Graças a Deus não o fiz na cama, uma vergonha a menos. Será que ela pagou a conta? Será que eu paguei? Será que a lazarenta mexeu na minha carteira e levou meus módicos trocados? Confiro e está tudo lá. Maluca sim, mas com princípios. Quem dera eu pudesse lembrar do sexo, da corrida no uber, do maldito nome dela. Graziela, Mariela, Antonela? Ao pronunciar os fonemas me veio naturalmente, ironia do destino, uma vontade louca de matar a fome com galinha de cabidela. Ridículo! – pensei – necessito de gordura e não de sangue… Sangue! Ela estava menstruada – lembrei e corri de volta ao colchão para constatar que estava manchado com uma larga poça vermelha. Uau, minha cama havia se tornado a parede de uma caverna medieval com pintura rupestre crua. Valei-me. Só uma gemada e um café forte me salvariam.

Três gemas grandes de ovos vermelhos, três colheres de sopa bem cheias de açúcar refinado e mais três colheres iguais de leite em pó. Bater generosamente com a colher em uma caneca funda a fim de se conseguir um creme viscoso e amarelo. Ao sabor do freguês, uma dose de vinho do porto é conveniente adicionar. Que coisa maravilhosa. Doce, gordurosa, calórica e digna dos monges beneditinos mais exigentes. O café restabelece minhas pupilas dilatadas e o açúcar esquenta as orelhas.

Meus ovos vicejam e há a perspectiva de um domingo, porque hoje é sábado.