Um conto de Boston – parte 9

Uma constatação terrível me arranha o pensar. Talvez – veja lá a cautela – talvez o meu prodigioso escrevinhador sofra de melancolismo. Não sou nenhum especialista, mas as evidências borbulham a cada linha e esse papel parece gotejar o pranto de um amor claudicante. O homem que se esforça por condicionar os impulsos destrutivos consegue, além da melhora em seus relacionamentos interpessoais, fermentar um tal ácido mosto de coisa infeliz. Vê-se que o artista passa por uma alteração em estilo, tema e eloquência. Faz tempo? Não, foi resentment.

Oh, único encanto meu! Oh, tormento insuperável! Oh, jovem besta de presas indecorosas! Oh, espelho do céu!

Eis aqui o teu bardo. O monstro teu. O princípio e o fim das tuas noites de passos leves. O teu lugar comum, o teu professor maldito.

Minha quimera és tu, o píncaro onde habitas é meu lar, no entanto parece que não posso outra coisa senão dormir aos pés do grande portão. Não sou bem vindo. Vives entre aqueles que me repudiam. Só em sonhos, só e em sonhos. Só. Eu, sozinho. Solitário em cenas abstratas que se projetam em um sono profundo. Tu me encontras em quinas de corredores longos e sempre há passos ao fundo. Alguém nos persegue. Olá, adeus. Flutuas e então somes. Só me resta correr. O abismo que persegue deseja meu sangue. Sei que o algoz deseja pintar as paredes com meu sangue e expôr minha cabeça como troféu. Oh, angústia de mim!

Mas, eu quem sou? O que me identifica, oh musa alcançada? Já me foge a tenra verdade. Vivi e cresci e me reproduzi, veja, apenas em ideias. Morri, meu amor, morri de dor mordível. Desencarnei a dentadas. Qual sorte fosse engolido, porém a sorte não passara de uma simples hóspede. Foi-se, fui-me, fomos. De fato, só a lamúria. Mastigaste e me cuspiste, mas não te enojes da palavra minha. Sei bem, sou intragável.

Este é o anúncio, grande anúncio, do fim do estado comatoso. É findo o silêncio de milênios. Oh, danação da consciência! Aquele que acorda é aquele que sofre. Impiedoso paradoxo da vida é este: condena-se à dor quem atreve o amor.

Quais palavras conseguem preencher o vão destes corpos que voam afastados?

Um, dois, três. Prole que te dá vida. Um, dois, três, mas é tu que dá à luz. Setembro é o teu mês. Mas, a gosto da luz, nasceste em um tal dezenove de março. Podem teus olhos ateus lembrar? Recorda a memória da pele tua? Que perdoe a mim o qual Deus, mas brotaste como é devido aos implumes deste mundo e hei de dizer: estavas nua. Navegamos, tu em margens e eu em corredeiras. Que absurdo, que grande absurdo.

No princípio, era dia.

No fim, era noite.

Sabes, benzinho. Não falo do tempo senão das nossas almas. Sobrevivemos ao crepúsculo e habitamos as sombras.

Oh, agonia de nós!

Diabos reinantes em inferno próprio. Que assim se conte sobre a fábula dos nefelibatas. Distraídos, pensam que ocupar as nuvens garante divindade.

Às vezes.

Quieta, tu! Escuta o silêncio. Todo o arrependimento.

Aprontávamos quando os ponteiros entardeciam. A mim parece que fiquei cego ao despertar. Na linha do tempo, deste espaço curto de tempo, vivemos horas de paixão não obstante os minutos de aridez. Deserto de euforia. Oásis, tu em esplendor. No sertão, mais que cansaço, o que derruba é a sede.

Nem os bares me curaram. Nem as mini saias, nem as praias, nem os porres.

Reverberam os rufos de uma alvorada. Na sarjeta, em alcova, nos ares ou nos mares, o Sol se alevanta também para todos.

Bendita seja a revoada das andorinhas. Várias delas, porque há de haver. Verão.