Lá menor

– Vou tocar algo que dominei recentemente a execução, quero que escute.

– Um clássico?

– Sim, de Tárrega. Acredito que já o conheça.

– O compositor?

– Os dois. Autor e canção.

– Ora, pois vá em frente. – disse e ergui o copo de cachaça em direção à boca do violão.

Meu amigo gostava muito da aguardente feita de cana de açúcar, embora mantivesse, por ideologia sine qua non da sua existência, um viés político ao consumi-la. Haveria de ser pinga barata, daquelas que os mendigos bebiam.

– É uma peça lenta de música, traz uma sensação triste, obscura…- disse ao iniciar os acordes.

O fantástico dos sentidos sensoriais é a memória mais intrínseca a eles ligada. O senhor Maggio era um velho italiano cheio de classe, vivia com um lenço amarrado em volta do pescoço e tinha os seus óculos escuros sempre sobre os olhos, com hastes marrons e lentes aviadoras no melhor estilo velha guarda. Dominava o violão com astúcia e era pouco chegado aos papos mais sentimentais sobre a psique humana. Mas, como eu dizia, os estímulos sensoriais, nas pessoas dotadas de lirismo inato, causam um alçar de lembranças. Minha irmã se lembrava do meu pai ao sentir o cheiro de hortelã e ela também costumava dizer que aroma de café torrado é o sentimento de meio dia e, por isso, de fome. Vai entender, já quereria Shakespeare que há mais coisas entre o céu e a terra…; as cordas prosseguiram o exalar de tons.

– Repare como a seção seguinte já pula dos efeitos melancólicos para os ornamentos que florescem em beleza. – sr. Maggio descrevia sua filha recém nascida sem interromper o carinho que dedilhava com maestria. A cachaça, retirada fria do balde de gelo, suava pelas paredes sextavadas do seu copo americano. Causava-lhe grande prazer aquilo que fosse o mais barato, a marca da bebida, por exemplo, era Caranguejo. Ardia levemente na garganta ainda que fosse adoçada, tinha seus 40% de álcool e levava o consumidor brevemente ao caminho ébrio dos delírios.

Tudo o que se percebe com clareza parece ficar ainda mais claro quando sob efeito – inicial – das substâncias entorpecentes. A transição da sobriedade para a embriaguez, logo na sua fronteira limítrofe, é um dos momentos mais felizes, misericordiosos, generosos, fiéis e esperançosos que a alma humana conhece. É quando o indivíduo vai ao toalete e se pega a encarar o espelho, sorriso aberto, pálpebras a meio-mastro e boca a pronunciar “você é foda”. Não há um noveau bourré que possa inspirar outra coisa senão otimismo.

– Sr. Maggio, qual o nome da música? A reconheço pela melodia mas não faço ideia do título.

– Esta é Marieta, camarada.

Camarada, detalhe sutil de uma personalidade ímpar. Existem os que usam o substantivo por costume, como os cariocas, e aqueles que o fazem por questões ideológicas. O sr. Maggio era comunista. Enquanto tocava, sua boca ficava aberta e eu tinha medo que uma mosca entrasse ou uma gota de saliva escorresse. Seria embaraçoso. Executava a peça artística e seus olhos não se moviam, vitrificados em um ponto qualquer do horizonte para baixo, fato que eu podia constatar pois seus óculos escorregavam, insistentemente, à metade do nariz.

– Perceba agora como a música evolui para um trecho nitidamente feliz, eufórico como que por anunciar a chegada de um rei.

– Um rei… o que o senhor acha dos monarcas?

– Uns filhos da puta, eles são. Cagam sobre nossas cabeças em tronos de ouro e ainda pagamos pelo papel com o que limpam as suas bundas reais.

Já percebia que ele terminava a partitura e a iniciava novamente, em um repetir eterno daquela obra tão macia aos canais auditivos. Quanto mais ele tocava, mais o corpo desejava dançar. Suas mãos ágeis subiam e desciam pelo braço do violão e os dedos encenavam um balé. Plié, tendu, jeté, rond de jambe, um espetáculo sobre os fios de nylon. Sim, os de nylon causam sensações como lambidas no tímpano e quanto a isso não há dúvidas, enquanto os de aço parecem ser mais frios e impessoais, como de menos gentileza ou ao menos simpatia. Seus pés batiam de encontro ao solo a ditar o ritmo, minha cabeça balançava de um lado ao outro como se jogada pelo balanço do mar e os meus joelhos pareciam querer desenhar algo entre as pernas. Talvez seja só eu, divagando ainda sobre a etílica corda bamba estendida sobre o abismo existencial.

– Diga-me, meu jovem, seria esta melodia algo afinado para o momento da cópula?

– Decerto que não, sr. Maggio. A composição carece de maior intensidade para que se pudesse recomendar ao cenário de quando se põe nu frente a uma dama. Por outro lado, fantasio com imensa nostalgia um jantar romântico embalado por tal sublime recital. Haveria de incendiar ambos os corpos e prepará-los para o que se seguiria em labaredas.

O velho sossegou o toque e alcançou sua bebida. Deu um trago e soltou um som de satisfação do fundo da garganta. Desamarrou o lenço que trazia no pescoço, enxugou a testa, retirou as lentes e as desembaçou. Antes de voltar a cobrir as pupilas ainda drenou o suor que se acumulava na região ocular. Suava feito tampa de panela, como se dizia na boca pequena. Empunhou sua ferramenta e me olhou em longa pausa contemplativa. Aguardei pacientemente o instante do artista, que então retomou a música enquanto dizia:

– “O violão, em sua simplicidade, mesmo quando o pinho tosco se cobre de vernizes e arabescos em madrepérola e pedrarias, parece ter sido criado para a linguagem sonora e sincera dos simples; dos que sofrem e se queixam, dos que acreditam na poesia das frases musicais; dos que estão sós e precisam falar consigo mesmo sem parecer que estão loucos; dos que não sabem declarar o seu amor como os demais; dos que precisam fugir a realidade, seca por demais para ser aceita sem um pouco de harmonia…”

Não esperava aquela surpresa em forma de curto discurso.

– Este é um trecho da contracapa do disco “Abismo de rosas”, de Dilermando Reis, escrito por Nazareno de Brito, que em poucas palavras, tenta descrever o que o violão representa para nós. – disse o velho ao oferecer um brinde com sua cachaça barata e democrática.

Assim, uma vez mais e com muita habilidade, o sr. Maggio me felicitou com sua amizade e alcance intelectual. A vida, é necessário que se diga, necessita de uma musa, de bons livros, de um trago e de um amigo. E para exaltar toda criação, o canto de um violão.

Gemada

Estou cego, com os olhos abertos nada posso enxergar! Doem-me as retinas ao contato com a luz inconveniente que insiste em brilhar mesmo aos fotofóbicos. As cortinas deste quarto mulambento são tão eficientes quanto o estado brasileiro na garantia do bem-estar social. A película negra que foi aplicada diretamente nas janelas está cheia de furos e não consegue manter a escuridão desejada. Feito eu mesmo na noite passada, ao implorar que aquela garota não me servisse mais doses de cachaça, as súplicas não valeram de nada como agora o papel adesivo não faz frente aos raios de sol. Minha cabeça dói e eu reflito se acaso algum outro animal sofre de dor de cabeça ou se é só o ser humano agraciado com esse dom. Cachaça é uma maneira muito polida de me referir àquela bebida que me foi imposta goela abaixo há menos de doze horas. Pinga, cana, mé, coisa de mendigo, mucuri ou meu caralho, tanto faz. Dada a dor que sinto no corpo, devo estar paralítico além de cego.

Sento-me na cama e sinto uma forte onda se formar no estômago, pronunciando esôfago acima um arroto tóxico que precede o vômito. Não me vejo inclinado a perder a batalha orgânica e me concentro de modo a não regurgitar. Botar para fora o que já não tenho seria um erro, fazendo-me, além de cego e paralítico, vítima de um colapso mental profundo. Bastava ela ter respeitado os meus nãos, penso comigo mesmo. Mas, a cada não, ela sorria jogando os cabelos para trás e forçava a rodada de bebida. Ela não era do tipo linda mas ostentava a bunda mais perfeita do bar e eu, bem, sou cafajeste, a verdade seja dita. Filha de uma puta, trepou e foi embora sem se preocupar com a minha ressaca! Algo me dói entre as nádegas mas eu prefiro não pensar sobre isso, afinal, cego e paralítico e atrasado mentalmente até que dá para aceitar mas, desculpem-me, desvirginado não. Ela deve ter apimentado as coisas e eu devo ter aceitado, ou não, não tenho memória disso.

Meia hora controlando os impulsos regurgitantes e já não os sinto mais. Já consigo enxergar a porta e mexer as pernas, mas parece que o dano neurológico foi permanente. Não que eu (nem ninguém) me considerasse normal antes da noite de ontem mas, ao que tudo indica, um buraco deve ter se formado no meio do cérebro após beber daquela aguardente radioativa. Vou ao banheiro e mijo talvez por uns vinte minutos. Graças a Deus não o fiz na cama, uma vergonha a menos. Será que ela pagou a conta? Será que eu paguei? Será que a lazarenta mexeu na minha carteira e levou meus módicos trocados? Confiro e está tudo lá. Maluca sim, mas com princípios. Quem dera eu pudesse lembrar do sexo, da corrida no uber, do maldito nome dela. Graziela, Mariela, Antonela? Ao pronunciar os fonemas me veio naturalmente, ironia do destino, uma vontade louca de matar a fome com galinha de cabidela. Ridículo! – pensei – necessito de gordura e não de sangue… Sangue! Ela estava menstruada – lembrei e corri de volta ao colchão para constatar que estava manchado com uma larga poça vermelha. Uau, minha cama havia se tornado a parede de uma caverna medieval com pintura rupestre crua. Valei-me. Só uma gemada e um café forte me salvariam.

Três gemas grandes de ovos vermelhos, três colheres de sopa bem cheias de açúcar refinado e mais três colheres iguais de leite em pó. Bater generosamente com a colher em uma caneca funda a fim de se conseguir um creme viscoso e amarelo. Ao sabor do freguês, uma dose de vinho do porto é conveniente adicionar. Que coisa maravilhosa. Doce, gordurosa, calórica e digna dos monges beneditinos mais exigentes. O café restabelece minhas pupilas dilatadas e o açúcar esquenta as orelhas.

Meus ovos vicejam e há a perspectiva de um domingo, porque hoje é sábado.