Um conto de Boston – parte 10

A última carta deixada pelo digníssimo foi desconcertante. Português rebuscado, texto sem direção e prosopopéias mirabolantes. Cogumelos mágicos ou o mais puro retrato de uma mente maníaca? José Armando Passos, eu quero falar com você. Fazer perguntas e duvidar sutilmente das suas respostas. Quero azedar suas verdades. Mas, como? Se tudo o que faço é observar à segurança do anonimato, como interagir com você para além da passividade? Zé, Zé, Zé. Que mato. Estou cheio. Aquele texto de amor tresloucado por uma Carlota Joaquina passou dos limites. O que você me deixou hoje foi estarrecedor. O que leva um homem a dizer tanto sem revelar nada? Por que o texto é mais fácil que a conversa face a face? O que é que compõe a tal coisa essencial de nós mesmos, aquilo que nos define em identidade? Nestas cartas que recebo vejo um tanto de ti, um tanto de mim, outro tanto de nós.

João, meu João dos Prazeres. Eu nasci dentro disso. Sou a própria matéria deste mundo selvagem no qual a regra dominante é a de que nada supera o lucro. Johnny, eu tô falando de capitalismo. Dinheiro, horas de trabalho, recibo do aluguel, café para nos tornar mais produtivos. A engrenagem do planeta Terra está apoiada no sistema financeiro. Arquimedes, nos dias de hoje, pediria uma alavanca, um ponto de apoio e uns trocados para executar o serviço de mover o mundo. Nada mais justo, mas eu faria de graça. Só pela onda de ver o globo sacudido e uma baita quantidade de peso morto sair voando pelos céus afora. Já imaginou como nos faz bem essas catástrofes que se passam de quando em quando? Sei não, mas parece que o controle populacional não é algo assim tão maligno. Pode me julgar.

Okay, ultimamente soo muito amargo, né? A saliva anda vermelha, dá pra fazer um negroni com o que escorre da minha boca. Eu casei, lembra? O casamento é um barato. O silêncio custa caro. A rotina de trabalho tem sido tão apertada que não me lembro de acontecimentos recentes dignos de serem compartilhados. Você sabe, o homem ocupado é pago e promovido. Sou um deles, bastante ocupado.

Queria saber tocar um instrumento que fosse. Gaita, por exemplo, parece fácil e talvez até seja. Nunca tentei. Fuófuófuó  fi fi fififi por aí, sentado em uma pedra mirando o horizonte. Romântico ou triste, depende de quem vê. Já faz alguns meses que não uso nada para, digamos, potencializar a minha mente. Nenhuma droga. Parece moleza? Bem, depende das circunstâncias. Porque se uma pessoa corta as substâncias e, ao mesmo tempo, goza de tempo livre o suficiente para ficar em casa assistindo a TV e se masturbando, ele não sente a pancada da abstinência. O cérebro humano – pera aí – o cérebro do humano acostumado ao modelo de vida social contemporânea, é altamente dependente dos estímulos que lhe causam sensação de bem-estar. Por isso, cortar a brisa da fumaça mas continuar a compensar a química do sangue com outras fontes de dependência dá no mesmo. Comigo não foi assim. Eu saí da realidade paz e amor para a do turno de trabalho, sono, trabalho, sono e, em alguns dias da semana, dois turnos nas mesmas 24h. Money talks, man.

O que vivi até aqui? Ah, meu amigo, eu vou contar com um orgulho desmedido:

Até aqui vivi na flauta, ainda que não faça ideia de como tocá-la. Viajei muito, por lugares físicos e instantes de pensamento. Morei em diversas localidades, convivi com culturas, dialetos, cores, gêneros e orientações distintas. Nunca me faltou boa comida e uma cama confortável. Aspirei ao cume dos esportes e o alcancei sendo atleta amador universitário com muitas medalhas de ouro. De igual modo, quis escrever e, ainda que não me considere maduro, obtive meus méritos. Desejei as moças desde sempre e o único empecilho foi a adolescência e a minha cara feia. Finda a feiúra, deslanchei. Não houve amor profundo que não tenha conquistado ou corpo raso onde não tenha me encostado. Bons salários, boas companhias, lazeres voluptuosos. Confesso que só passei a me vestir bem depois que um amigo gay me deu uns toques sobre estilo, isso já bem grandinho. Antes eu era um meninão vestido como meninão. O passado nos condena em certos aspectos. Descobri que havia em mim uma grande propensão em coexistir com o perigo. Quanto maior a ameaça, melhor eu me sentia. Notei, de início, que meus animais favoritos eram a cobra, o tubarão e o leão. Uma parte da minha infância foi no cerrado e lá trombei com cobras aos montes. É uma sensação extrema, você querer ver de perto, mas morre de medo de levar uma mordida. A bicha lá, toda encolhida pronta para dar o bote, com sua língua bifurcada a ler o ambiente em lambidas no ar. Mais velho, tive a oportunidade de nadar com tubarões. O ápice da excitação, porque diferente da serpente, o tubarão vem até você e investiga, chega perto, se bobear tenta uma mordida. Quanto maior o perigo, maior a noção da vida, soa até clichê, mas é verdade. Já pulei de paraquedas, inclusive. Sabia que não senti medo? Esse nosso cérebro é um trem mesmo. Em um parque de diversões, a cada elevação do barco viking você se borra de medo, sente aquele frio na barriga e o gelo se alonga por todos os nervos do corpo. Agora, a quilômetros distante do chão, em plena queda livre, a sensação é absolutamente outra. Você sequer sente que está descendo. O limite, a terra firme, está tão longe que não assusta. O medo vem da visualização do fim. Em pleno voo essa noção é zero. Bem que o doutor me perguntou um dia ‘em vista do abismo, você tem medo ou vontade de se jogar?’ e a resposta estava na ponta da língua ‘vontade de me jogar, caramba!!’. Loucura, não? A terapeuta agora diria ‘nós não usamos essa palavra aqui, sr. José’.

Tantas aventuras haveriam de culminar com a ousadia suprema. Dei por gostar do envolvimento com mulheres casadas. Oh, cara, isso já faz tempo. Eu era solteiro e começou por um acaso. Coisa fina. Daí a coisa embolou. O bolo virou rolo. Vixe, só não acabou em tragédia porque o cara é a frouxidão em pessoa. Um amigo meu cravou o termo: Prego é o que ele é, com P maiúsculo. Coitado, nunca tive a menor intenção de fazer troça do cara. Nem pra senhora sua esposa eu fazia qualquer tipo de brincadeira com o nome dele. Daí, vou negar? Viciei. Outra e outra e outra. Casadas, com o mesmo perfil familiar, porém uma absolutamente distinta da outra. Iguais em desgraça. E eu, quando comecei a sofrer por elas, descobri que o desgraçado era eu. Quantas noites, quantos porres, quantos quase. Vivo por uma sequência feliz de acasos.

Serviu de lição? Lamento dizer que não. Meu instinto selvagem desejava mais perigo. E aí entrei pro crime. É, cara, isso mesmo que você está lendo, crime organizado. Drogas, armas, mortes e o escambau. O lobo em pele de cordeiro. Eu transitava invisível entre aqueles que perseguiam um certo alguém. Mal sabiam, eu na verdade era ninguém.

Cansei de tudo, cansei de todos. Mesmo em face do maior dos riscos, a invencibilidade traz monotonia. E aí, o que fiz? Resolvi ser um bundão.

José Armando Passos, 35, garçom e pizzaiolo, homem de família, monogâmico, reza antes da refeição e bebe apenas aos domingos. Trabalha 7 dias na semana em prol da casa própria. Não possui carro e depende de caronas, no momento. É amado e envia dinheiro à família. Resignado pai de maus frutos, esperançoso conquistador da redenção.

Um conto de Boston – parte 9

Uma constatação terrível me arranha o pensar. Talvez – veja lá a cautela – talvez o meu prodigioso escrevinhador sofra de melancolismo. Não sou nenhum especialista, mas as evidências borbulham a cada linha e esse papel parece gotejar o pranto de um amor claudicante. O homem que se esforça por condicionar os impulsos destrutivos consegue, além da melhora em seus relacionamentos interpessoais, fermentar um tal ácido mosto de coisa infeliz. Vê-se que o artista passa por uma alteração em estilo, tema e eloquência. Faz tempo? Não, foi resentment.

Oh, único encanto meu! Oh, tormento insuperável! Oh, jovem besta de presas indecorosas! Oh, espelho do céu!

Eis aqui o teu bardo. O monstro teu. O princípio e o fim das tuas noites de passos leves. O teu lugar comum, o teu professor maldito.

Minha quimera és tu, o píncaro onde habitas é meu lar, no entanto parece que não posso outra coisa senão dormir aos pés do grande portão. Não sou bem vindo. Vives entre aqueles que me repudiam. Só em sonhos, só e em sonhos. Só. Eu, sozinho. Solitário em cenas abstratas que se projetam em um sono profundo. Tu me encontras em quinas de corredores longos e sempre há passos ao fundo. Alguém nos persegue. Olá, adeus. Flutuas e então somes. Só me resta correr. O abismo que persegue deseja meu sangue. Sei que o algoz deseja pintar as paredes com meu sangue e expôr minha cabeça como troféu. Oh, angústia de mim!

Mas, eu quem sou? O que me identifica, oh musa alcançada? Já me foge a tenra verdade. Vivi e cresci e me reproduzi, veja, apenas em ideias. Morri, meu amor, morri de dor mordível. Desencarnei a dentadas. Qual sorte fosse engolido, porém a sorte não passara de uma simples hóspede. Foi-se, fui-me, fomos. De fato, só a lamúria. Mastigaste e me cuspiste, mas não te enojes da palavra minha. Sei bem, sou intragável.

Este é o anúncio, grande anúncio, do fim do estado comatoso. É findo o silêncio de milênios. Oh, danação da consciência! Aquele que acorda é aquele que sofre. Impiedoso paradoxo da vida é este: condena-se à dor quem atreve o amor.

Quais palavras conseguem preencher o vão destes corpos que voam afastados?

Um, dois, três. Prole que te dá vida. Um, dois, três, mas é tu que dá à luz. Setembro é o teu mês. Mas, a gosto da luz, nasceste em um tal dezenove de março. Podem teus olhos ateus lembrar? Recorda a memória da pele tua? Que perdoe a mim o qual Deus, mas brotaste como é devido aos implumes deste mundo e hei de dizer: estavas nua. Navegamos, tu em margens e eu em corredeiras. Que absurdo, que grande absurdo.

No princípio, era dia.

No fim, era noite.

Sabes, benzinho. Não falo do tempo senão das nossas almas. Sobrevivemos ao crepúsculo e habitamos as sombras.

Oh, agonia de nós!

Diabos reinantes em inferno próprio. Que assim se conte sobre a fábula dos nefelibatas. Distraídos, pensam que ocupar as nuvens garante divindade.

Às vezes.

Quieta, tu! Escuta o silêncio. Todo o arrependimento.

Aprontávamos quando os ponteiros entardeciam. A mim parece que fiquei cego ao despertar. Na linha do tempo, deste espaço curto de tempo, vivemos horas de paixão não obstante os minutos de aridez. Deserto de euforia. Oásis, tu em esplendor. No sertão, mais que cansaço, o que derruba é a sede.

Nem os bares me curaram. Nem as mini saias, nem as praias, nem os porres.

Reverberam os rufos de uma alvorada. Na sarjeta, em alcova, nos ares ou nos mares, o Sol se alevanta também para todos.

Bendita seja a revoada das andorinhas. Várias delas, porque há de haver. Verão.

Um conto de Boston – parte 8

Embasbacado, topei com o texto a seguir. Nada de introdução ou saudações e alegorias que o meu alter ego costuma aplicar na abertura de sua redação. Talvez eu já não seja mais seu interlocutor, talvez ele tenha se cansado de mim, ou da falta de mim. Dado o pragmatismo, danço a dança. Reproduzo-o, este manifesto de um homem atormentado e sem audiência, com muita alegria. Afinal, não parece ser por monotonia que um dia nos afastemos.

Atenção aos modos. Todas as frases dirigidas aos superiores hierárquicos, dentro ou fora do ambiente de trabalho, devem terminar com o devido pronome de tratamento. Senhor, senhora, madame. Dá para arriscar um “doutor” sem medo de consequências. Adiciona uns tantos pontos no relacionamento com a chefia mesmo que o sotaque entregue um mero “dotô”. Agora, cuidado. O filho do patrão não deve ser chamado de “dotôzinho”. “Ah, mas você sabe se ele tem doutorado?” Meu amigo, ele tem a sua carta de demissão pré assinada. Melhor não brincar com coisa séria. Aos inferiores hierárquicos cabe o nome ou sobrenome ou apelido. Bom dia, Farias! Como vai você, Tonho? Simone, dá aquela geral na minha mesa por favor? Ordem, mas com cordialidade. Sem conceder muita confiança, porque a cadeia de compartilhamento do medo é fundamental na estrutura das relações laborais. Temente a Deus e ao Bóris do RH, amém.

Empregado que se preza chega 10 minutos antes e sai meia hora depois. Qualquer menção à hora extra vai soar como arrogância. Esquece, cara. Sim, senhor. Antes do trabalho em si há o pré-trabalho, que prepara o trabalho a ser trabalhado. Dá um trabalhão, então meio que faz sentido, por óbvio, chegar mais cedo. Já encaminha aquilo que você mesmo terá que desdobrar daqui a pouco. É um favor que se faz a si mesmo, por isso a empresa não precisa pagar por aqueles minutos. E de lambuja vem o fato de que durante a hora extra o telefone não toca. O profissional esperto é aquele que entende que hora extra é paz. Se todos percebessem isso, dobrariam a jornada. Perspicácia, perspicácia.

“Trabalhadores do mundo, uni-vos”, disse Karl. Tá, e agora? Sindicato, Tribunal Regional do Trabalho, happy hour, amigo secreto. Unidos parece que já estamos, unidos pra cacete até. Lurdinha e o chefe que o digam. E daí? No Brasil, pelo menos, união demais acaba em samba. Se bobear, o segredo é unir menos. “Se a classe operária tudo produz, tudo a ela pertence”, disse também o barbudo do Marx. Bom, aí o caldo engrossa. Já vou facilitar a vida do Pereira do Financeiro e deixar aqui a bomba: a classe operária produz muita confusão. Por isso, a burguesia fica com essa indisposição com os subalternos. Compreensível, né? Se criassem só o produto e não dessem vida aos excessos da reflexão coletiva tudo ia na manteiga. Só que não, os bonitos ainda têm que bater de frente com quem manda. A cultura pop produz conteúdo que faz o cidadão querer se levantar em rebelião. Veja lá, querer não implica em ação. Um bom filme empolga, dá uma chacoalhada na cabeça mas acaba em conformismo. Santo conformismo! Não fosse ele, a gente estaria em constante revolução. Não haveria paz. A gente precisa descansar, de vez em quando. Não é fácil ser patrão num mundo assim.

Trabalhadores do mundo, cooperem! Tirem mais uma soneca!

Eu não deveria saber de nada disso. Tem muita argumentação neste texto, vão acabar me chamando de comunista. A terapeuta garantiu que eu não sou borderline. Impressionante, não é mesmo? A terapeuta. A. Muito trabalho e nenhuma diversão tornam Jack um cara chato. Acho que toda essa dialética aqui serve apenas para provar que não estou convencido de mim mesmo. Um abraço.

Um Conto de Boston – parte 7

Quando cheguei ele já estava lá. Coçava o lóbulo da orelha esquerda, coçava o cotovelo direito, todos os dois com a mão esquerda, voltava a mão dentro do bolso da blusa e repetia a cena um tanto de vezes. Enquanto eu ficava do outro lado da plataforma, no sentido de quem ia, ele me parecia que já voltava. Um trem chegava e interrompia a visão. Outro trem e mais alguns minutos de vazio. Quando partiam, para o meu alívio, lá jazia meu escritor do mundo. Entre uma das interrupções do plano visual ele sacou o papel e o colocou ao seu lado. Uma mulher se sentou e ele sinalizou que tivesse cuidado, pois aquela carta ocupava ela mesma um espaço humano. As suas palavras, afinal, são o elo com o todo. Se simbolizam a fala confessional, também dão forma a um indivíduo, um cidadão, uma mente que parece precisar, entre humor e selvageria, pôr para fora. Somos dois anônimos com um trilho expresso entre nós, literalmente. Eu uso óculos escuros e, deste modo, posso monitorá-lo por mais tempo sem que ele saiba que sou eu, o seu João dos Prazeres. Ele, meu José Armando, sabe que alguém o segue, o observa, alguém simplesmente se alimenta em sua fonte. Seria eu? Ou o cara à minha direita? Ele nos corre os olhos tentando adivinhar. Podemos ser qualquer um e todos podem ser alguém. Zé empunhou o papel e o balançou. Era como uma isca presa ao anzol de seus dedos compridos. Zé queria mostrar que ali embaixo as leis eram diferentes. Ele queria contato pessoal, queria que eu fosse buscar o que era a mim destinado. E acabar com toda essa fantasia? Fui ao banheiro. Demorei. Depois, fui tomar um café. É primavera e o frio abrandou. A temperatura já não é negativa aqui na capital de Massachusetts. O café puxou a vontade de voltar ao banheiro. Demorei menos. Voltei às plataformas e ele tinha partido. A moça tinha a carta em suas mãos. Dia lindo, minha senhora. Senhorita. Senhorita, esse pergaminho pertence a mim. Tenha a bondade, obrigado. Até logo. Ah, antes que me esqueça: não fui eu que encontrei o poema.

“João dos Prazeres, meu amigo oculto, onde está você? Vim e não o encontrei. Também, pudera, como o faria? Não sei quem é, tampouco qual o timbre de sua voz. Deixei uns dos meus poemas malcriados, acredito que outro pegou. Sabe, cara, a vida é uma montanha russa da porra. Tem dias que você tá lá em cima, depois lá embaixo, a adrenalina arrebenta com as ideias, depois você se recupera e quando parece que vai sossegar a gente percebe que não sai nunca do carrinho. E começa tudo de novo. O cara da catraca não deixa ninguém sair, mas vira e mexe ele tira alguém. Tô fazendo uma parábola com a morte, cara. Pegou?

Eu falei que escrevi um poema. Olha, me dói dizer isso mas, honestidade à prova de tudo, a verdade há de ser dita. Nem o sol do meio-dia, nem o silêncio da madrugada. Não chego em primeiro lugar, tampouco sou o constrangimento do derradeiro. Os pesos maiores eu suporto, mas não os levanto. Há em mim uma vocação para um tudo ser meu ofício, porém com destreza sempre moderada. Sou medíocre. No esporte, nas artes, no amor, na caligrafia, em matemática, no preparo de receitas líquidas ou massas de pizza, na fotografia. Oh, pobre de mim. Pobre não, classe média de mim!

Aproveitando o gancho, meu distinto correspondente, comunico oficialmente que sou, desde há um mês, pizzaiolo. A massa tem que ser estirada, espetada, umedecida, coberta e aquecida. O restaurante é muito movimentado e, para além de apenas pizzas, ainda tem sanduíches, pastas e, pasme, sorvetes e outras sobremesas. Eu também faço as vezes no lado da grelha, coisa que é odiosamente desafiadora. Meia-boca que sou, cometo alguma lambança todos os dias. Mas, continuo firme e forte no aprimoramento das técnicas de produção rápida de refeições. Aí é que está. Trabalhar ali, à parte do ótimo salário, é um desgosto sem fim e eu posso explicar o porquê. Fere meus princípios ideológicos. Sou partidário do slow food, slow process, slow way of life. Gosto da falta de velocidade e da não necessidade de pressa. Se quero almoçar às 12h, tenho que dar início às preparações por volta das 10h. Comida combina com música, taça de vinho, danças intercaladas, pano de prato pendurado no ombro. Vira e mexe alguém vai em casa e se depara comigo ainda no descascar dos alhos. “Posso te ensinar um truque pra tirar a casca mais rápido?” NÃO! Que caralhos! Essa gente está sempre atrás de fazer as coisas com mais ansiedade, buscando os fins sem desfrutar dos meios para tais. Que imenso porre! Eu me pergunto, muito frequentemente, se esse pessoal faz sexo da mesma maneira atropelada. Um rebanho de fodas meia-bomba. A minha bebida matutina preferida, um estilo de café gelado, leva no mínimo 12 horas para ficar pronta. Eu encarno a minha filosofia.

Dei um tempo no psiquiatra. Ou ele me deu um tempo. Fez pouco caso, nunca me buscou por telefone ou coisa que o valha. Puta derrota. Talvez eu não seja assim tão interessante como pensei. Ele era. Bom, aí é que o bicho pega. No meu dia a dia, ninguém preenche a lacuna de conversas interessantes e provocativas. As pessoas concordam, elogiam, dizem até que eu sou muito inteligente. Adulam, refrescam, parecem temer na mesma medida que admiram. Não passam de aduladores. Eu disse para um amigo que rasparia meu bigode e só deixaria a barba como no estilo de Abraham Lincoln. Ele disse que seria uma forma excelente de se manter imune a quaisquer gracejos de terceiros. Em suas palavras, ele quis dizer que eu ficaria muito feio. Não é esse o grande temor dessa gente? Tornarem-se pouco atraentes. Sim, eles temem a feiúra e desejam a velocidade para obter resultados. Ansiosos e angustiados. Eu não receio me embarangar nem anseio por mega eficiência. Talvez por isso eu seja medíocre.

Uma amiga que lê coisa ou outra que escrevo reclamou que sempre a narração é em primeira pessoa. Ora, fazer o quê? Tenho culpa de ter vivido tantas diferentes facetas deste dado meneante que cambaleia sobre o tabuleiro da vida? Recordo minhas histórias, rego minhas flores, edito meus parágrafos, protejo meus amores. Um beija-flor, um camelo, uma águia. Somos tantos, especialmente na imaginação.

Você, quem é?”

Um conto de Boston – parte 6

José Armando me deixou em maus lençóis. Depois do primeiro encontro casual, houve uma certa sincronia e passei a garimpar suas cartas com grande êxito. Vez ou outra ele se atrasou, mas nada que fosse como agora. Mais de um mês separou a quinta missiva desta que agora reproduzo, a de número seis. Como fiel observador de testemunhos errantes, não me entreguei de mãos beijadas. Insisti, saboreei cafés e terminei grandes obras. Sempre sentado naquele mesmo banco frio da estação de trens de Boston. De um salto surgiu, desvencilhando-se da multidão formicular o Pero Vaz de Caminha do autoconhecimento. Sorria e já sabia o que fazer. Deixou o envelope, deu um giro com os pés feito o Michael Jackson e saiu andando sobre a lua.

Meu querido João dos Prazeres,

Eu me casei e o coração agora sinto diferente. Por isso, andei ausente. Desapareci da estação, andei faltando ao trabalho, perdi a hora em manhãs seguidas e deixei muita comida queimar. Ando meio avoado. Não sei quanto a você, mas eu dei uma desencontrada ainda que, na ótica de Vinicius, a vida seja a arte do encontro. Não sinto falta de nada que um indivíduo possa enumerar como fundamental para a plena felicidade:

Amor de Eros

Amor de Philos

(continuo com minhas extravagâncias existenciais quanto ao amor Ágape)

Renda

Adrenalina

Conflitos (né?)

Aeroportos

E aqui faço honras: que santa mulher me faz companhia. Ama-me como marido e como amante, despe minha alma tão bem quanto o faz com meu corpo. Faz do nada, do vazio, um retiro de paz imperturbável.

Mas, continuo perdidão. Muitas questões se levantaram nas últimas visitas ao terapeuta. Fico aqui pensando: como será que você reagiu aos meus escritos mais estrambólicos? E, dada a certeza em ter esse leitor cativo, o que faz com que você volte outra e mais uma vez?

A paixão tem me bagunçado a cabeça naquele sentido perfumado da coisa. Apaixonado, planejo o mundo e cortejo a eternidade. Tudo com medida e método.

O doutor me perguntou por que eu insisto em manter contato com algumas pessoas, por que eu consumo substâncias entorpecentes concomitante a profissão da saúde, por que eu ajo impulsivamente com a raiva e tão racionalmente com a placidez. O gajo me indagou, ao ouvir a minha reticência quanto a alcançar um parente, se aquilo era sobre mim ou sobre ele. Puta que me pariu, que cara abençoado. Mais do que falar, sabe como falar. Direto, com seu olhar penetrante e impassível e sem a menor misericórdia.

Como eu gosto dele. Fiz uma auto-análise e cheguei à conclusão de que eu faço de tudo para que ele não perceba essa minha admiração. A bem da verdade, eu bato. Bato muito, o coitado se transforma em Judas aos meus olhos. Judas na sexta feira da paixão. Em Jerusalém. Minha orelha chega a esquentar.

Êxtase. O mais alto regozijo sinto quando ouço a minha mulher desmontar as considerações alheias que vêm embebidas em mesquinharia. Discorria uma terceira pessoa sobre issos e aquilos de sua viagem ao Havaí. À parte da introdução elogiativa sobre as maravilhas naturais daquele paraíso, veio um maremoto de etcéteras depreciativas. Tudo é caro por lá, o trânsito sempre está engarrafado, a comida é ruim. Eis que a minha dama retruca:

  • E as pessoas, como são? Você fez amizades?

Ah, quanta sutileza! Por essas e outras… bom, hei de ser sincero. Também pela sua bunda. Que coisinha!

Aqui, relendo o que acabo de escrever, notei que nunca fui tão bem comportado. Deve ser a medicação. Ou a saciedade. Ando fazendo todas as minhas vontades e, quando não faço, alguém o faz por mim. Acho que estou empanturrado e, por isso, vou escrever mais. É o meu alívio.

O distinto deve me perdoar, eu espero. Muita coisa aconteceu. O rio já não é o mesmo e eu me mudei. De agora em diante, o céu deixa de ter cor e eu assumo a luz de todo o universo.

O grande Eu Sou.

Um conto de Boston – parte 5

A tensão de ser quase descoberto me animou como há muito tempo não experimentava. Ao passo do fascínio por encontrar e ler as cartas do transeunte anônimo, escritas em português e cheias de lamúrias gloriosas, fui me tornando receoso de ser reconhecido. Mas, ainda assim, entre o dilema ético de querer saber mas não querer ser sabido, continuei minhas visitas semanais na mesma estação de trens, com olhar fixo naquele banco de madeira descascada. À uma distância segura de onde poderia monitorar o fluxo de cidadãos sem ser denunciado, permaneci semana após semana com um livro em mãos, abaixando-o frequentemente para poder examinar o meu alvo. O livro era O Mito de Sísifo, de Albert Camus. Minhas expectativas anímicas de ler sobre uma mente claramente tão perturbada, sua relação com o mundo e suas caminhadas limítrofes na beirada do abismo se agigantaram em meu peito. A vida valia a pena? O blablabla giratório tinha algum sentido? Havia algum sentido a se atribuir ao acaso? Bem, na visão de Camus, a vida é um fenômeno absurdo que se dá à revelia de um sentido pré-existente e absoluto. Você confere, com plenos poderes, o significado do seu próprio viver e essa liberdade é a quintessência daquilo que de mais valioso dispõe o ser humano: a capacidade de criar. Ideias, ideais, movimentos, contra-movimentos, oposições e situações. Criadores são todos aqueles que triunfaram. Ao mesmo tempo que descobria essas maravilhas do indivíduo afirmativo, também me preocupava com meu amigo sem identidade. Ele sumiu justamente quando mais se pôs a falar. Quando voltou…

“Ao meu digníssimo João dos Prazeres, homem de conduta ilibada.

Uma dor imensa me compele a escrever, outra dor me impede de me mexer as cadeiras. Não as da sala, senão mesmo as minhas.

As mães morrem. Perdoa o borrão sobre a palavra materna. Uma lágrima ousada saltou sobre o papel.

As folhas secam, as moscas duram alguns dias, a areia do deserto é em constante momento soprada para além, além do agora. Pudesse lhe dizer algumas coisas, seriam:

Levam a ti solitário grão

aos confins da distância

que a mim parecem irrisórios

mas não cansa o vento

em querer me confundir

quando se alevanta em profusão

e depois cessa peremptório

tornando a luta impossível

e a dor uma convicção.

Eu tô loco? Eu sou louco?

EU NÃO TÔ LOCO!

Mentira.

Nas últimas semanas atentei para o imenso prazer de sair de casa exatamente às cinco e quarenta e três da tarde. Sol já à sopé. Motivo? Parece ser concedida a efêmera liberdade a todos os gatos da vizinhança. Em cada entre quadra há um bichano em posição retraída, olhos semi cerrados, bigodes alongados e rabo serpeante. Há um todo branco, cujo nome (para mim) é Snowball. Um outro, que nasceu com bolas e pênis, chama Frida. Gênero fluido. Tem também o Kittler, que é o mais bonito de todos. Parece uma casca de sorvete meio pistache, meio baunilha, cinza com branco. Sim, porque o pistache autêntico é acinzentado. Em inglês, kitten é gatinho. O Kittler tem a área sob o focinho de cor negra, fazendo com que se pareça com o bigode do Adolph. Logo, Kittler. Ele é forte, olhos azuis, estrutura robusta. Raça pura. Costuma me deixar fazer 18 carinhos antes de me morder. Foda-se ele. Afago a todos, menos a Frida. Ouriçada, ela repele o carinho. Tudo bem, não é não.

Tive um breakdown num dia desses. Liguei para o meu terapeuta. Disse “olha aqui seu corno, eu acho que o suicídio é algo plausível para suportar uma noite mal dormida.” Ele, sábio, manteve a calma. É do tipo que chama à reflexão da etimologia da palavra corno e como ela se tornou termo pejorativo.

Borboletas voavam à noite, um vigilante tinha me pedido para não deixar ninguém sentar em meu colo, Natália dançava e os náufragos tropeçavam bêbados. Eu mesmo estava embriagado. Paciência, é o que eu sei fazer. Enlouquecer.

No encontro seguinte, a pergunta: “você tem histórico de esquizofrenia na família?”

SEU CU, FILHO DA PUTA.

  • pensei.

Uma namorada antiga dizia que eu poderia formar uma dupla musical. Chamaria Esquizo e Frênia. Não fazia sentido, argumentei. Ela insistiu.

Porra, o insulto era duplo, metalinguístico, sagaz. Eu, sozinho, era dois. Talvez até mais, a ponto de formar um grupo musical. Auto intitulado Esquizo e Frênia.

Nunca houve maior ofensa à minha honra. Apaixonei-me como um cão, um cão dos diabos.

O mesmo terapeuta, aquele degenerado, atentou que eu andava perambulando opostamente aos ensinamentos do velho Sócrates.

“Nenhum homem tem o direito de ser um amador em matéria de treinamento físico. É uma vergonha para o homem envelhecer sem admirar a beleza e força de que o corpo é capaz.”

O corninho. Só porque eu bebo, fumo e divago sobre aqueles que tiram a própria vida. Só que eu sou preparador físico. Dirão “ah, quanta hipocrisia”. O meu terapeuta usa o termo incoerência.

Recalque?

Education is important, but a big biceps is importanter – diz o anúncio sarcástico de uma academia aqui de Boston. Haha, touché old friend.

No meio da sessão ele movimentou o braço com premente dor. Perguntei o que foi, ele disse que era um mau jeito. Ofereci para ajudar, ele recusou. Tentou retomar a conversa. Eu queria mais é que tudo fosse pros ares. Levantei, cruzei sua mesa e realinhei a musculatura rombóide. Usei a ponta do cotovelo contra uma musculatura retraída. Tensão excessiva nas superfícies dos músculos, nas fáscias. A linguagem do corpo não mente, Wilhelm Reich que o diga. Importante atentar.

Até agora eu disse muito e não disse nada. Mas não é essa a essência do meu texto claudicante? A rábica existência que se opõe ao terapeuta e sua fleuma inabalável?

Ora, meu amigo, o que fica são essas impressões indeléveis.

Tenho mãos mágicas, mente perversa e muito falo.

Um conto de Boston – parte 4

Imenso desprazer tive ao, após a segunda semana, perceber que aquilo era uma realidade. Estava na mesma hora, no mesmo lugar, com a mesma ansiedade. Queria encontrar o manuscrito que revelava trivialidades e caprichos. Nada. Aquele alguém resolvera por estancar a fonte da minha distração obsequiosa. Inconformado, passei a esperar diariamente. Talvez o ilustre tivesse decidido por alterar o calendário de despojo de seus depoimentos. Sábado, domingo, segunda, terça. Quarta-feira não, pois é dia de jogo e eu me embriago. Quinta, sexta-feira de novo. Nada havia onde antes eu encontrava linhas rabiscadas, só as farpas lascadas do banco de madeira da estação central. Senti-me triste. Haveria o sujeito desistido da arte confessional? No vigésimo primeiro dia o frio era menelênico, no bom português, um frio de corno. Levei um cantil comigo, o qual tinha enchido com bourbon. À essa altura, eu sofria de jejum da intimidade alheia, eu era um voyeur em abstinência. Sentado à distância, percebi o aproximar de um rapaz alto, corpanzil de atleta, sorriso no rosto com ares de pândego. Sentou-se exatamente no lugar onde eu costumava encontrar as cartas enigmáticas. Que ousadia. Meteu as mãos nos bolsos laterais do casaco e ficou a observar as redondezas, como que por inclinação investigativa. Eu, do meu canto, entornava o uísque de milho. Usava uma boina verde xadrez, a qual puxei para baixo escondendo a face. O rapaz esperou por uns instantes. Sacou um maço de Lucky Strike, eu podia ver a logomarca. Fumou lentamente enquanto rastreava as cercanias. Seus olhos pareciam gozar de independência, cada um vigiava seu próprio flanco. Apagou o cigarro embaixo do banco, levantou-se e caminhou rumo ao portão oeste. Lá jazia, onde há pouco seu traseiro repousava, um envelope. Minha fixação. Dizia:

“Bom dia, boa tarde, boa noite – por enquanto. Meu nome é Armando, José Armando Passos. Estou em processo. Há quem diga que não há saída para a vida, senão a morte. Eu digo que não há destino para a morte, senão a vida. Um bando de filhos da puta são os meus vizinhos. Estou há dias tentando fazer amizades, bato-lhes à porta e peço um minuto de atenção; suas cabeças negam e a mim seus olhos repelem. Nunca pensei que abordar pessoas, de cueca, acerca das evidências fósseis incas sobre presença alienígena de crânios alongados seria algo tão, diga-se, chocante. Sigamos. Há algo de estranho nestas linhas, e eu sei o que é. Elas são lidas, e por isso agora me sinto um mestre de cerimônias. Minhas palavras são redigidas daí visualizadas, interpretadas, condicionadas, relacionadas, contestadas. Sou a antítese da minha síntese anônima. O que é que sou? De onde venho, para onde vou? Clichê, muito e pavoroso.

A quem quero e por quê? O que quero e por quê?

Eis as duas perguntas fundamentais: para que e para quem?

Percebi que há um qualquer. Todo qualquer é um ninguém, e ninguém é de ferro.

Existencialistas são perspectivistas de um presente contínuo, preceptores do eterno vir-a-ser. 

Eu vi você, João dos Prazeres, você que recolhe os meus ciscos. Você os encontra, dobra sem pudor. CUSTA MANTER EM SUA MÃO, UM PEDAÇO DE PAPEL? Dê o que merece de relevância a este manifesto que, até então, era apócrifo. Eu sou Zé Armando, você é o João dos Prazeres que colhe o rastro de pão dos meus pensamentos.

Desculpe a gritaria, mas putaqueopariu. Não precisa tratar a minha folha com falta de afeto. Vi você quando deixei a terceira carta. Estava de costas, catou o pergaminho e seguiu em frente. Seu casaco não me permite descrevê-lo. Boa leitura, eu lhe desejo. Será que você leu os prévios?

Sigamos.

Se temos uma lei no mundo, é a que diz: olho por olho, dente por dente. Código de Hamurabi. Pois bem, duvido que você possa perceber, caso esteja aí, o exato momento no qual abandono este comunicado.

Alguns dizem: olho por olho e o mundo fica cego.

Meio cego, eu digo. Melhor meia visão que visão nenhuma e, é importante lembrar, luz demais cega. Faz muito frio novamente, escrever só se dá em ambientes fechados, onde se pode dispensar as luvas. Falar de luvas é tatear de máscara.

Somos vontade, libido no entendimento dEle. Penso, logo desejo, logo existo. Fruto do imperativo conquistador, ouço as trombetas de dentro de mim sem que me importe com os agentes reguladores de sempre. Avanço e expando meus domínios.

Diria que feito o meu pai não tenho interesse nenhum por mim e, como a minha mãe, às vezes dou-me muita atenção.

Foi tanta alegria, tanta euforia, tanto assanhamento estado de ser nas últimas semanas que eu nem sei mais para onde vou. Digo-lhe, ao bom amigo leitor, que somos agora dois fantasmas. Coexistimos em um espaço apertado, escuro e abarrotado de ovelhas escandalosas.

Só sei que se fico, eu não vou. Se fico ou vou, só sei que lá eu não fico se aqui eu estou.”

Não o vi deixar a carta, mas o bendito sabe de mim! Que dia!