Eu estou absolutamente fora de mim

A fome me fez sair da cama. Minha barriga dói, faz oito anos que eu não como nada. Há farelos em um saco de chips sobre a mesa. Aquela embalagem está ali há 20 meses. Os farelos me dão vida, o sal é meu amigo. A cabeça gira, é difícil me manter em pé. Nas duas últimas noites eu ouvi vozes, dormi pouco, sonhei acordado e tive pesadelos dormindo. As músicas da trilha sonora deste dia são as piores possíveis, meus olhos estão embaralhados e eu não posso escutar com exatidão. O nariz corre. Vejo fotos e elas estão todas distorcidas. Há movimento em tudo o que eu vejo, menos em mim. De olhos fechados eu vejo um filme em cores que insiste em me trazer cenas difíceis de distinguir entre a fantasia e a realidade. Abro os olhos e gargalho. Risadas de um louco ecoam pelos corredores vazios, pelos quartos abarrotados com materiais de construção. Cada minuto corresponde a memórias de 13 anos. Estou esmagado com tanta informação. Sinto meu eu pedir arrego. Tarde demais, eu estou cozido pela ação nervosa de ácidos alucinógenos. Minha mente escorre pelo carpete e eu busco um garfo para recolhê-la. Minhas mãos suam, da minha boca uma grossa gota de saliva pende até o chão. Eu posso me ver no espelho e tenho 83 anos agora. Velho, careca, com as costelas à mostra. Seguro uma bolsa de soro. As minhas mãos não tem nada, eu estou bem apesar das distorções. Daí cometo o erro de olhar outra vez no espelho. É aterrorizante. A minha versão mais dolorosa. Abandonado, em uma casa abandonada. O que foram os meus anos de juventude? Onde estão os meus amores, aquelas que extraíram meus caldos sinceros de paixão? Há um grilo pela casa fazendo cri cri cri. A neve toda está roxa agora, como os meus lábios. Há três dias não ligo o aquecedor me tremo de frio. Posso comer azulejos. Se as drogas causam esses efeitos, desejo registrar meu depoimento. Elas funcionam muito bem e agora eu sou Madame Tussaud. No meu museu eu sou a própria cera e me derramo sobre tudo. Coloquei água para esquentar e não usei, como meus pulmões. Eu não respiro há duas semanas. Estou poupando o fôlego. Meu ombro dói como sempre. Há cacos de mim no lixo, devo ter me deixado cair ontem e alguém recolheu com a pá. Somos tantos em nós. Há sempre a chance do nó em volta do pescoço. Que coisa horrível. Um urso entrou no quarto agora e me cheirou enquanto eu balbuciava as palavras leite quente. Na janela há três corujas e, juntas, elas têm 67 olhos. Eu queria ser um olho, o direito. Ver com ressalvas. Faço gargarejo com neve e suco de fruta uva. Agora é a lombar que me causa dor, devem ser os rins. Ainda bem que já tirei o apêndice. Nesse fim de mundo, eu teria que fazer a cirurgia em mim mesmo, ouvindo Djavan. Abusei da dose, as paredes falam comigo sobre os sinos do castelo. Blem blem BLUM! Cozinhei, fiz picadinho de nós dois. Ficou uma bosta. Ontem passei um dia de cão, latindo e trepando com a perna da cadeira. Será que tomo mais opióides? Chacoalho esse chão ou não? Quem foi que miou agora? Alguém toca trompete no porão, a melodia é daquelas que iludem. Trompetista da casa do caralho. Eu queria ser um xilofone para fazer den don din. E a Marisa chata aos Monte dim dim dom. Que saudade do meu Pernambuco, onde eu estive 9 vezes e olhe lá. Eu queria agora era um beijo de um camelo, babado, nojento, um beijo que me passasse sífilis animal. Apago e me arrependo. Não sei o meu nome e foi exatamente isso o que Timmy me perguntou há 12 minutos atrás. Não sei quem ele era também, mas ele levou um mandolim. Espero que ele toque com a alma e enfie o instrumento no… Jazz, jazz executado por mongóis. Com muita cor e refrigerantes. Eu só quero beber água a partir de hoje. Mas, tudo é água! Quem me dera agora eu fosse um sapo. Talvez tivesse menos nojo por mim. A página acaba e não findam os raios alucinados de realidade perturbadora que agora me incendeiam.

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